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Por detrás das palavras

Por detrás das palavras

27
Abr19

Por detrás da tela | "Every day" (2018)

Colin Ford, Angourie Rice, Owen Teague, Jeni Ross, Justice Smith, Sean Jones, and Jacob Batalon in Every Day (2018)

Classificação: 5/10 Estrelas

A visualização deste filme foi um aborrecimento para mim. Foram várias as vezes em que tive de puxar o filme para trás porque estava sempre a adormecer. 

Foram várias as coisas que não funcionaram comigo enquanto via o filme e que me permitiram chegar ao final do filme sem guardar grandes emoções. 
De uma forma muito simples, este filme conta-nos a história de um adolescente que todos os dias "renasce" num corpo diferente. Para atrapalhar ainda mais algo tão complicado na vida deste adolescente, ele apaixona-se por uma adolescente.
Ao longo do filme vamos assistindo às dinâmicas que pautam a relação deles, assim como os problemas que advêm da condicionante de vida do rapaz.

Aparentemente estes aspetos deveriam conferir ao filme dinamismo suficiente para me cativar e me prender ao ecrã. Porém, eu não senti isso! Morri de tédio e de aborrecimento. Acabei por achar um filme um pouco desinteressaste com personagens pouco cativantes e com uma história demasiado básica para as minhas necessidades de estimulação. 

Não sei como será com o livro, porém não senti muita vontade de pegar no livro para ler. 

A minha experiência com este filme não foi a mais positiva acho que este poderá ser um filme capaz de cativar o público adolescente. 
24
Abr19

Opinião | "Uma Voz Perdida na Guerra" de Cesca Major


Classificação: 5 Estrelas

Precisei de uns dias até me conseguir sentar e escrever uma opinião para este livro. O final do livro apertou-me o coração de uma forma difícil de descrever. Não me levou às lágrimas, mas apanhou-me de surpresa e precisei de digerir os acontecimentos e as consequências desses mesmos acontecimentos. 

Acabei por começar a opinião fazendo referência ao impacto que o final deste livro teve em mim. Mas preciso de vos escrever sobre a experiência desta leitura, experiência esta que contribuiu para todas as emoções sentidas no final.

Uma Voz Perdida na Guerra leva-nos a uma pequena aldeia francesa e ao quotidiano de diferentes pessoas que é afetado pela 2ª Guerra Mundial. É um livro que inova na forma como nos apresenta este período da história, pois não lemos sobre a vida nos campos de concentração nem das zonas de batalha. É um livro que vai mais além e nos mostra outra face da Guerra. Mostra-nos a vida de pessoas que não estão diretamente num cenário de guerra e que procuram fazer uma vida dentro da normalidade possível. Conhecemos pessoas que sofrem com o medo de serem judeus, com o medo que a guerra lhes roube a pouca tranquilidade que têm, com saudade por aqueles que se aventuram pelas trincheiras ou com medo de viver um amor. 

De forma a acedermos às diferentes visões, a autora escolheu contar-nos a história na voz de diferentes personagens: Adeline, Isabelle, Paul, Sebastian e Tristan. 
Gostei da forma como todas estas personagens intervêm. Da Adeline guardo a angústia que se apoderou dela e da dificuldade de enfrentar os seus medos enquanto é cuidada pelas freiras. É uma personagem que nos narra a sua experiência uns anos depois da Guerra. 
Da Isabelle guardo a sua leveza de ser, o seu espírito livre e sonhador e a forma como amou Sebastian apesar de todas as dificuldades. O amor foi recíproco, tanto que do Sebastian me ficou a forma como ele venerava Isabelle e da forma como ele expressou o seu amor por ela. 
O Paul deixou-me a coragem de um rapaz que deixa tudo para ir defender a pátria, mas quando volta é capaz de enterrar os seus próprios fantasmas para dar e receber amor. 
Por fim, o Tristan, uma criança de nove anos, deixa-me a inocência que tolda a forma como olha para a Guerra e para as clivagens que ela conta. Mostra-me que o preconceito numa criança é muito fruto daquilo que os adultos que a rodeiam lhe passam. É um espírito livre e aventureiro, com atitudes que me demonstram o quanto as crianças são capazes de simplificar coisas que, na realidade, são extremamente complicadas. E, no fim, deixou-me o seu maior ato de generosidade. 

Acho que este é um daqueles livros que encantará os fãs de livros com narrativas que decorram durante este período histórico como aqueles que os têm evitado por estarem cansados de verem narrativas a irem sempre na mesma direção e relatando aspetos semelhantes. 
É um livro que tem romance, mas ao mesmo tempo nos leva a lutas pela sobrevivência, a angústias pessoais e ao terror que só uma guerra consegue semear. 

Como já escrevi anteriormente, o final apanhou-me de surpresa (Atenção: não leiam a nota da autora que está no final do livro sem terminarem a leitura. Leiam-na apenas no fim. Aliás ela aparece no final por alguma razão. Porém se forem como eu, por vezes a curiosidade leva-nos a melhor). Fui surpreendida pelos acontecimento e pelo sentimento de frustração que só um final em aberto é capaz de nos deixar. 

É um livro que vale cada minuto que perdi com ele. Houve momentos em que me vi a poupar na leitura para não o terminar tão depressa. E houve outros momentos em que parei a leitura de forma propositada para pensar naquilo que estava a acontecer (é certo que ando muito reflexiva e com muitos períodos de introspeção e que esta leitura só os ativou um pouco mais). 
Portanto, arrisquem-se a mergulhar nas fantásticas histórias de vida que este livro nos permite conhecer.

Nota: Este livro foi-me disponibilizado pela editora em troca de uma opinião honesta.
23
Abr19

The Book Swap | Livro recebido


The Book Swap foi um projeto criado pela bloguer que dinamiza o blog O meu reino da noite, com o objetivo de celebrarmos o Dia Mundial do Livro. 
Houve um sorteio entre os participantes para que enviássemos um livro. Nesta dinâmica de trocas, alguém iria ficar com o nosso nome. 

Assim, hoje estou aqui para agradecer à menina que me enviou um livro. Muito obrigada, Catarina.
A Catarina é a responsável pela conta Mais Que Ler no Instagram.
Achei a escolha dela muito curiosa. O livro que veio parar à minha estante foi:

O Diário de um Mago
Paulo Coelho

Achei a escolha dela curiosa porque entre os meus 16 e 18 anos li muito Paulo Coelho. Li todos os livros que havia na biblioteca, mais que me tinham oferecido. Este, por acaso, nunca foi um dos que ficou por ler. 
Depois daquele entusiasmo adolescente, a febre passou e nunca mais voltei a ler Paulo Coelho. Acho que o último livro que li foi O Zahir. 
Na altura adorei os livros dele, por isso estou curiosa para saber o que o meu eu adulto sente com a leitura. Estou na expetativa, mas espero que a experiência seja positiva e me deixe com vontade de ler os livros do autor que foram publicados mais recentemente.

A Catarina foi uma querida e para além de uma mensagem bonita ainda me ofereceu três marcadores que são muito bem-vindos à minha coleção.


Gostei de todos, mas fiquei com o carinho especial pelos da Sophia já que sou uma grande fã dos seus livros infantis e da sua poesia.

Nunca se esqueçam, um livro é o melhor remédio para a ignorância. Feliz dia mundial do livro!!
22
Abr19

Projeto Conjunto | Empréstimo Surpresa [Livro Recebido]


Chegou a minha vez de receber mais um livro vindo diretamente da estante da Daniela. 
O novo livro que cá chegou foi:

Às cegas de Josh Malerman


Olhei para este livro com alguma cautela. Apesar de ter uma enorme vontade de o ler, estava consciente que ele poderia sair um pouco da linha das minhas leituras preferidas.
Entretanto já o comecei e a minha relação está a correr muito bem. Vamos ver se esta relação não azeda.
Não se esqueçam de passar pelo blog da Daniela, Quando se abre um livro, para conhecer as motivações por detrás deste envio. 

18
Abr19

Por detrás da tela | The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society (2018)

Tom Courtenay, Matthew Goode, Michiel Huisman, Penelope Wilton, Glen Powell, Katherine Parkinson, Jessica Brown Findlay, and Lily James in The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society (2018)

Classificação: 9/10 Estrelas

Este é mais um dos filmes que resulta da adaptação de um livro. No meu caso, é também mais um filme que vi antes de ler o livro. E qual a sensação que deixou dentro de mim? Uma vontade incontrolável de ler o livro.

O filme mostra-nos de que forma a leitura pode unir pessoas e ajudá-las a ultrapassar momentos menos positivos. A possibilidade de se reunirem em torno da discussão de livros permitiu a um grupo de homens e mulheres espantar os fantasmas que a guerra semeava dentro delas.

Apesar de termos a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo, o filme não carrega uma carga dramática intensa ao ponto de me sugar a energia. Tem alguns apontamentos dramáticos, mas são apresentados de uma forma leve e, em certos momentos, com alguns apontamentos de humor.

Lily James dá corpo à escritora Juliet Ashton numa boa interpretação. Esta personagem principal descobre-se ao longo do filme e o futuro que ela dava como certo é abalado quando conhece outras pessoas capazes de lhe provocar novos sentimentos. Gostei das dinâmicas que se estabeleceram entre Elizabeth e os membros da sociedade. Começaram de forma um pouco tímida que cresceram de forma crescente e que se traduziram numa situação credível.

Foi um filme que me provocou emoções positivas. Agora quero ler o livro e prolongar tudo aquilo que de bom o filme deixou em mim. 
15
Abr19

Top Five | Eurovision 2019


Já estava na altura de vos trazer mais uma lista de favoritos. Desta vez vou deixar os livros um pouco de lado e vou virar-me para a música. 
Não sei se desse lado há fãs da Eurovisão, pois desta lado têm uma grande fã.
Este ano comecei a ouvir as músicas um pouco mais tarde. O ano passado, por esta altura, já tinha bem presente quais seriam as músicas dos diferentes países.
Já ouvi algumas vezes as músicas deste ano e por isso quero apresentar-vos as cinco músicas que gosto mais. Desta vez serão apresentadas por ordem crescente de preferência.
Não foi uma escola fácil, porque tenho alguma dificuldade em eleger apenas 5 preferidas.

5. La venda (Espanha)

Este ano a Espanha traz-nos uma música divertida, cheia de energia e que fica no ouvido. Adorei a música do ano passado, porém a deste ano também vai de encontro aos meus gostos.

4. Better Love (Grécia)

Esta música lembra-me a banda Florence and the Machine (que tem algumas músicas que eu gosto). Gostei muito do vídeo da música e estou com muita curiosidade por ver como soa esta música ao vivo.

3. Solti (Itália)

Primeiro estranhei esta música, ouvi-a a primeira vez e não ficou nem me apaixonou. Fui ouvindo outras vezes e, aos poucos, comecei a gostar. Tem uma sonoridade muito própria, também gosto da ler e, tal como a anterior, estou curiosa por ouvi-la ao vivo.

2. Love is forever (Dinamarca)

Esta música é muito querida e a Leonora tem um voz doce que se adapta perfeitamente à música. Sei que não é uma música muito original e que não irá conquistar muita gente. Porém, eu gostei imenso de todo o conjunto e espero mesmo que ela resista e passe à final.

1. She got me (Suíça)

Esta é a minha música preferida deste ano. É simplesmente viciante. Um ritmo latino que se entranha na pele e nos faz bater o pé. Não consigo enjoar da música apesar de a ouvir imensas vezes. Tem uma intensidade especial e gostava que ela ganhasse ou, pelo menos, que ficasse num bom lugar. 

Devem estar a questionar-se sobre o que acho da música portuguesa. Reconheço-lhe a inovação sonora (que eu até gosto) e uma letra que olhada à lupa tem um significado próprio. Porém não se encaixa nos meus gostos musicais. 
09
Abr19

Opinião | "A Rapariga que veio do frio" de Gilberto Pinto

A Rapariga que veio do frio
Classificação: 3 Estrelas

Fui atraída pela capa e pelo título deste livro. Da capa seduziu-me a beleza e o mistério que deixa transparecer. Do título nasceu a curiosidade em conhecer a história para a qual me apontada. Não me arrependo de ter sido seduzida, pois foi uma livro que gostei de descobrir e ofereceu-me uma história interessante e que correspondeu às expetativas. 

Não li a sinopse antes de ler o livro. Fui lê-la apenas no fim e por mera curiosidade. Acho que ela pode criar expetativas irrealistas no leitor. O livro traz-nos muito mais do que tráfico de mulheres e assassinatos. É uma narrativa que nos leva ao interior do país e às margens do rio Douro, ao mesmo tempo que deambulamos pelas ruas da cidade do Porto. 
É um livro onde conhecemos famílias e os seus mistérios e neste cruzar de segredos e modos de vida que a narrativa ganha dimensão e se expande para além do crime. No fundo, o autor desenvolve uma história de poder, de relações e de segredos que é despoletada pelo abuso e tráfico de mulheres de leste. Porém, o foco nos crimes e na forma como eles são cometidos é menor comparativamente a todo o contexto em que eles surgem.

Fui positivamente surpreendida pela escrita clara e apelativa. Esta qualidade permitiu-me criar uma boa ligação com o livro e deixou-me interessada em conhecer novas obras deste escritor.

A forma como este livro começa é muito boa. Adensou a minha curiosidade e espicaçou a minha vontade em conhecer mais da história. E consegui manter este interesse praticamente até ao final. 
Apesar desta relação positiva, houve aspetos na narrativa que não me permitiram dar uma pontuação mais elevada ao livro. 
Do meu ponto de vista há situações no livro que não ficaram bem esclarecidas e outras que me deixaram em dúvida. Não os posso referir aqui todos, pois corro o risco de estragar a leitura a quem se decida aventurar nestas páginas. De entre diferentes aspetos destaco a Aleksandra e todo o mistério que a envolve. Pessoalmente pensei que existiria alguma ligação entre a história dela e a história principal do livro, mas quando cheguei ao fim do livro nem sequer tive oportunidade de ver esclarecidos os assuntos que a ocupavam. 
Para além deste aspeto há uma carta que Leonardo recebe quase no início do livro e que várias vezes é referida ao longo da história. Estava muito curiosa por conhecer o conteúdo desta carta e o autor privou-me de satisfazer este meu interesse. Pelo contexto e pelo desenrolar dos acontecimentos eu consigo deduzir o que lá estava, mas senti-me enganada e frustrada porque sempre achei que a carta tinha a relevância suficiente para constar destas páginas.

Chegada à reta final do livro senti que ficaram coisas por dizer e mostrar. Não sei se foi propositado e o autor tem em vista uma continuação ou se foi um pouco de descuido. Mesmo que haja uma continuação, penso que alguns aspetos deveriam ter sido esclarecidos e concluídos. Aquilo que senti foi que o escritor teve pressa em terminar a história que dada a sua evolução consistente merecia uma final mais marcante e conciso.
Apesar destes pequenos pontos de desinteresse acho que é um livro que merece ser lido. Tem uma escrita de qualidade, tem uma história interessante e é uma excelente oportunidade de apreciar o bom trabalho de um escritor português e a quem os leitores devem dar uma oportunidade. 

Nota: Este livro foi-me disponibilizado pela editora em troca de uma opinião honesta.
01
Abr19

Empréstimo Surpresa | Empréstimo Surpresa [Desafio]


Já devia este desafio à Daniela há imenso tempo. Faltou-me tempo e inspiração. Não sabia muito bem como apresentar a resposta a este desafio. 
Inicialmente pensei em dar apenas as indicações para a construção de uma cena, mas estava-me a saber a pouco. Queria sair da zona de conforto e arriscar.

Depois de muito matutar no assunto, arrisquei. Espero que o risco venha associado a um bom produtor.
Espero que gostem de ler a minha cena, mas acima de tudo espero ter correspondido às expetativas da Daniela. 

Desafio para o livro “Amor Cruel”, de Colleen Hoover 

Como se conheceram? 
As personagens principais deste romance – Miles e Tate – conheceram-se de uma forma um pouco atribulada e caricata.

Se a autora precisasse de uma ideia igualmente atribulada e divertida para duas personagens se conhecerem, o que lhe sugeririas? 

*******

Ela 

Era o dia da minha estrei num espetáculo a solo enquanto cantora lírica. Olhava-me ao espelho enquanto fazia aquecimentos vocais e revia o alinhamento do espetáculo. Iria começar com o “Oh Mio Babbino Caro” e terminaria com “Va’Pensiero”. 
Os nervos começavam a ocupar todos os meus músculos. Tentei rodar os ombros e o pescoço numa tentativa vã de me libertar deste nervosismo. 
- Está na hora. 
Olhei para a porta e vi a minha manager de sorriso aberto para mim. Assenti. Respirei fundo. Sai do camarim, percorri o pequeno corredor e subi as escadas com a velocidade que os meus saltos altos me permitiam. 
Não quis espreitar a plateia, mas pelo número de bilhetes que haviam sido vendidos sabia que a sala estarei cheia. 
Fechei os olhos e preparei-me para absorver aquela que, de certeza, iria ser a melhor noite da minha carreira. 


Ele 
Adoro canto lírico. É um amor tão grande que me leva a fazer quilómetros para assistir a um bom espetáculo. Hoje não precisei de me fazer à estrada. Tinha um espetáculo mesmo à porta de casa. Só precisava de atrasar a rua. 
Analisando bem as motivações para hoje estar aqui sentado nesta sala tão bonita e repleta de pessoas não foi só a minha paixão pela música. 
Na semana passada, quando regressava do trabalho, esbarrei com o cartaz que anuncia a estreia de uma nova cantora lírica. Uma filha da terra, com uns olhos castanhos hipnóticos. Fiquei a olhar para o cartaz por um período de tempo que me pareceu exagerado. Consultei o meu horário de trabalho para a semana seguinte para decidir qual o melhor dia. E não podia ter sido melhor, conseguia vir no dia da estreia. Entrei e dirigi-me à bilheteira. 
- Por favor, quero um bilhete para o próximo domingo. Ainda é possível? 
A funcionária sorriu e disse: 
- Restam dois bilhetes. Parece-me que está com sorte! É um homem de sorte?
- Tem dias – disse-lhe eu com um encolher de ombros. 
Foi aquele golpe de sorte que me trouxe aqui hoje. E talvez aqueles olhos. E talvez aquela postura muito rígida tão características das cantoras líricas. Ou talvez tenha sido um conjunto de fatores que se conjugaram para que eu vestisse o meu fato, colocasse o meu aftershave e hoje me sentasse aqui para ouvi-la. 
A luz baixou na plateia e intensificou-se no palco. A orquestra começou a tocar e ela entrou. 


Ela 
Entrei no palco e olhei para a plateia. Era uma massa de escuridão. Melhor assim. Os meus nervos não me estavam a deixar ver com exatidão quem tinha vindo hoje assistir à minha estreia. 
O matraquear dos meus saltos no palco foi abafo pelos acordes introdutórios da música que iria dar início ao recital. 
Posicionei-me no meu lugar e comecei a cantar. 
Uma música sucedeu outra e outra. Começava a ficar cada vez mais consumida com os nervos e as inseguranças começaram a invadir-se a mente como ervas daninhas nos jardins. 
Pensei que o nervosismo fosse diminuindo à medida que ia cantando, mas não, piorou. 
Fui-me aguentando, com a consciência de que a minha voz não estava no seu melhor. Estava a força-la demasiado. Sabia disso, mas tinha de me aguentar. 
A orquestra começou a introdução da última música. Fechei os olhos. Estava quase, mais uma música e poderia descansar. 
Comecei a cantar e voz tremeu mais do que devia. Ao segundo verso a voz falhou e eu entrei em pânico. Tentei forçar a voz, mas nada saia. O coração começou a bater demasiado depressa. Os meus olhos duplicaram de tamanho. Uma agitação crescia dentro de mim e dificultava a minha respiração. De repente tudo ficou negro dentro de mim e perdi os sentidos. 

Ele 
Apesar de sentir o nervosismo dela nos versos que ia cantando eu conseguia ver o valor que ali estava. Um diamante do canto lírico. Cheia de emoção na voz e com uma entrega especial. 
Fechei os olhos e recostei a cabeça na cadeira. Queria filtrar o que de melhor estava a ser apresentado naquele palco. De vez em quando abria os olhos para absorver as expressões faciais e toda a linguagem corporal dela. Ela amava estar ali em cima, mas algo a retraía e não a deixava brilhar na sua máxima intensidade. 
O recital encaminhava-se para o fim e eu já só pensava numa forma de ir aos camarins e conhecer esta mulher. Até que aquilo que não deveria acontecer, aconteceu. A voz começou a falhar-lhe. 
Abri imediatamente os olhos e inclinei-me para a frente. Se mais depressa abandonava o meu estado de puro relaxamento, mais depressa a via estatelar-se no palco. 
O instinto de médico das urgências falou mais alto. Pulei da cadeira. Atropelei os pés delicados de senhoras e os sapatos envernizados dos que estavam na mesma fila e corri em direção ao palco. 
Os seguranças foram mais rápidos do que eu e formaram logo uma barreira impedindo-me de aceder às escadas que me levariam à mulher que estava no palco rodeada de elementos da orquestra que se tinham levantado. 
- O senhor não pode passar – Os seguranças gritaram para se imporem e para se fazerem ouvir perante o burburinho ruidoso que se formou naquele espaço. 
Enquanto esbracejava para me tentar libertar deles gritei: 
- Eu sou médico, porra! Deixem-me ajudar. 
Em segundos eles compreenderam a minha missiva e deixaram-me passar. 
Voei pelas escadas até ao palco. 
- Afastassem! – gritei – Ela precisa de espaço. 
Agachei-me ao pé dela e verifiquei os sinais vitais. Estavam lá todos. Provavelmente os nervos levaram a melhor e quebram o encanto da sua noite, mas não lhe quebraram o encanto da sua beleza. Como seria bom voltar a ouvir aquela voz e conhecer a mulher por detrás dela.