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Por detrás das palavras

Por detrás das palavras

31
Mar20

Opinião | "O Rio das Flores" de Miguel Sousa Tavares

P_20190919_113719.jpgClassificação: 4 Estrelas

Em 2013 li o livro "Equador". Dessa leitura ficou-me a escrita agradável e uma história interessante e cativante. Ficou-me, também, a vontade de ler mais obras do escritor. Fui sempre adiando! Este ano, e depois do miserável números de escritores nacionais que li no ano passado, tinha de pegar neste livro.

A escrita bonita e agradável mantém-se. Em nada aborrece a forma como o escritor escolhe contar a história dentro da História de Portugal e do Mundo. Fui avançando na leitura, umas vezes com mais rapidez, outras com a velocidade lenta imposta pelas rotinas do dia. Assim, a demora na leitura deste livro (quase um mês) em nada se deveu à falta de qualidade do mesmo ou à existência de algum tipo de aborrecimento. 

Achei este livro mais masculino. A história é muito centrada nos homens da família Ribeiro Flores e as mulheres que vão surgindo não têm o destaque merecido. 
O livro apresenta-nos uma viagem de 30 anos de História. A Primeira República Portuguesa, a Guerra Civil Espanhola, o Estado Novo e agitação política Brasileira na década de 30 servem de cenário a Manuel e Maria da Glória, a Diogo e Amparo, a Pedro e a Angelina. 

De todas as personagens, Maria da Glória foi aquela que reuniu a minha maior simpatia. Os meus sentimentos por ela foram consistentes ao longo de todo o livro. Para as outras personagens desenvolvi sentimentos um pouco antagónicos. Simplesmente, havia coisas que eu gostava e coisas que não gostava. Não é uma experiência necessariamente má, o problema foi aborrecer-me com algumas coisas que faziam. 
Diogo deixava-me os cabelos em pé. Gostava do seu perfil liberal e idealista, mas depois tinha comportamentos demasiado imaturos, que não acompanhavam a minha ideia de evolução pessoal. Pedro é muito consiste ao longo da obra. Uma personagem muito dura, muito agarrada ao regime e às hierarquias sociais. Um homem embrutecido que o amor amoleceu, transformou. Porém, foi este mesmo amor que o embruteceu ainda mais. Houve rasgos de humanidade em algumas situações de maior brutalidade, mas não foram suficientes para que eu criasse uma boa ligação com esta personagem.
Quanto às mulheres, gostei de Angelina e da forma como manifestava a sua independência e feminilidade. Uma personagem que soube a pouco. Amparo também me deu cabo dos nervos. O escritor descrevia-a como sendo detentora de uma fibra e de uma personalidade vincada que eu não consegui identificar. Chegou a uma altura em que ela optou por uma posição mais passiva, de vitimização... Acho que foi incapaz de lutar por aquilo que ela dizia fazê-la feliz. 

O que alguns leitores acham aborrecido, os conteúdos históricos, eu achei interessante. De todos os períodos históricos narrados, confesso que o contexto brasileiro foi o que mais despertou o meu interesse. Algumas coisas já conhecia (os acontecimentos relacionados com Olga Benário e Luís Carlos Prestes), outros foram novidade (agitação política brasileira). 

Apesar de ter gostado muito do livro, não me conseguiu cativar tanto como o "Equador". Porém ficam as boas memórias da leitura, a aprendizagem história e a escrita suave que embalou ao longo destas páginas.

27
Mar20

Empréstimo Surpresa | Empréstimo Surpresa [Desafio]

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Desafio para o livro “Verity”, de Colleen Hoover

 Maternidade

Verity é um livro que, entre outros temas, nos fala de maternidade, apresentando-nos uma visão um pouco diferente.

O teu desafio será fazer uma pesquisa, de forma a compilares uma pequena lista de livros que contenham a temática da maternidade.

Está na altura de responder a este desafio e partilhar uma lista de livros sobre a materninda.
Desde já quero agradecer a todas as pessoas que acederam ao meu pedido e partilharam comigo livros que abordem a questão da maternidade. 

Vou dividi-los em dois grupos: os livros que eu já li e os livros que ainda não li.

Livros lidos

  1. "O meu nome é Leon" de Kit de Waal
  2. "A Nona Vida de Louis Drax" de Liz Jesen
  3. "Até que Sejas Minha" de Samantha Hayes

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Livros não lidos

  1. "A Menina que Roubava Morangos" de Joanne Harris
  2. "O Quarto de Jack" de Emma Donoghue
  3. "Uma Mãe Perfeita" de Aimee Moly
  4. "Um Clarão de Luz" de Jodi Picoult
  5. "Para a Minha Irmã" de Jodi Picoult
  6. "Um Pequeno Favor" de Darcey Bell
  7. "A Mãe" de Melanie Golding

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25
Mar20

Opinião | "O Duque da Ruína" (Girl Meets Duke #3) de Tessa Dare

P_20200228_134613.jpgClassificação: 5 Estrelas

Perante estes dias de incerteza o melhor que podemos fazer é pegar num livro descontraído e bem humorado. Por isso, nada melhor que um livro da Tessa Dare. 

Até ao momento só li dois livros desta escritora, mas o balanço é bastante positivo. 

"O Duque da Ruína" trouxe algumas surpresas em termos das personagens. A personagem feminina, Penny, tem uma paixão por animais. Foi dos elementos que mais gostei no livro porque permitiu-me conhecer melhor a Penny, assim como defini-la em termos de personalidade. E através desta paixão pelos animais que sobressai o seu talento para cuidar de todos os que estão à sua volta. Penny é também um rapariga inteligente, pelo que tive pena que isso não sobressaísse mais em termos de narrativa. A autora reduziu-a muito à sua condição de cuidadora. 

Gabriel carrega um passado um pouco tortuoso. Quer manter a sua imagem de homem frio e racional, mas a forma como ele descobre o amor e a importância dos afetos acaba por dar a conhecer um bom com muitas qualidades relacionais. 

Há momentos de amor. Há muitos episódios caricatos que despertam o riso. Aliado a este aspeto mais cómico e ligeiro, muito próprio deste género de livros, surge um elemento mais sério que surgiu na vida de Penny e que acabou por condicionar o seu comportamento. Este aspeto deixou-me a pensar em aspetos da minha vida pessoal e profissional e em algumas situações que também condicionaram a forma como eu me comportava com os outros e como lidava com as interações sociais. 
Para quem pensa que estes livros são "ocos" e de onde não se pode retirar reflexões, estão um pouco enganados. Reconheço que são livros mais descontraídos, mas há situações em que o teor da narrativa convida a pensamentos e a reflexões. Pessoalmente, este foi um desses livros. E destas minhas análises e reflexões, nasceu a minha admiração e carinho pela Penny. Acho que seriamos boas amigas. 

Em suma, na minha opinião este é um romance de época com os ingredientes essenciais ao sucesso: amor, paixão, diversão e um final feliz. 

Nota: Este livro foi-me disponibilizado pela editora em troca de uma opinião honesta.
Leitura com o apoio de...

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21
Mar20

Ausência e Dia Mundial da Poesia

O Mundo mudou e eu tive que mudar com ele. E em todo este processo de mudança a vontade de escrever, de ler, de partilhar coisas com vocês desapareceu. 
Têm sido dias complicados, exigentes e marcados por alguma tristeza. Nunca pensei presenciar tal situação enquanto fosse viva. 
Não me angustia ficar em casa. Eu adoro estar em casa! Porém sinto falta de algumas das minhas rotinas profissionais e do impacto de toda mudança profissional na minha saúde financeira. Mas quero acreditar que vai correr tudo bem e, enquanto tiver saúde, tudo se encaminhará. 

São tempos de mudanças, de olhar para dentro de nós e redescobrir a calma, o sossego e a liberdade mental. A nossa capacidade de imaginação e da criatividade são infinitas e nada melhor do que este isolamento para a colocar em prática. 

Foi duro criar novas rotinas, dar resposta a novos desafios e sofrer ao ver o quanto o Portugal do interior não tem literacia digital. Para os pais aqui da minha zona tem sido uma dor de cabeça este acompanhamento escolar online. Sei de meninos que não têm computador e/ou internet. Estou a falar de um aldeia onde há pais sem a escolaridade mínima obrigatória. Pais pouco sensíveis às diferentes formas de aprender. Isto tem-se sugado um pouco a energia, mas as coisas começam a orientar-se. Estou com receio de como será o terceiro período, mas eu acredito na capacidade de aprendizagem do ser humano e sei que tudo ficará bem. 

Hoje tinha de vir aqui escrever qualquer coisa. Partilhar algo positivo e bonito! E nada melhor que poesia. A poesia é um verdadeiro alimento intelectual. Hoje é o Dia Mundial da Poesia e quero partilhar com vocês um dos meus poemas preferidos. É daqueles poemas que leio em busca de conforto, de esperança, de energia para enfrentar o mundo. 

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O poema da imagem foi escrito por Miguel Torga. Gosto muito da poesia de Torga. Ainda tenho muito para conhecer deste escritor português, mas o que conheço gosto muito. 
Este poema acaba por ser especial para mim. Numa altura menos feliz deste meu percurso, uma amiga ligou-me, leu-me este poema e falou-me da forma como ele a inspirava. E a partir dessa altura passou a inspirar-me também. 

Daqui a umas semanas recomeçaremos, espero que sem angústias e com menos a pressa do antigamente. Quando as notícias forem boas e nos libertem desta pandemia, este será o poema que irei ler na primeira manhã em que poderei sair à rua sem medo de trazer elementos indesejáveis para casa. 

Fica aqui, também, a minha participação no desafio da Alexandra e mostro a minha letra ao mundo digital. Já venho um bocadinho tarde, mas acho que ainda a tempo. 

09
Mar20

Listas | Livros com personagens femininas inesquecíveis

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Já há muito que não partilho uma lista de favoritos. Aqui no blog já apareceram diferentes formatos de tops de tudo e mais alguma coisa. Decidi simplicar e partir de agora o nome será Listas

Sendo Março um mês muito associado às mulheres decidi trazer-vos a lista de cinco livros com personagens femininas que se tornaram inesquecíveis para mim.

1. "Mil Sóis Resplandecentes" de Khaled Hosseini
Este livro é especial porque tem duas personagens femininas que me marcaram imenso: Mariam e Laila. Duas personagens muito diferentes, mas que constroem uma amizade inesquecível. É uma história muito dura, mas muito marcante. 

2. "E Tudo o Vento Levou" de Margaret Mitchell
Scarlett O'Hara tem uma personalidade marcante. É obstinada, orgulhosa, resistente. Zanguei-me com ela na mesma medida que a adorei. É raro encontrar uma personagem tão complexa e tão apaixonante. 

3. "As Serviçais"  de Kathryn Stockett
Este livro é povoado por personagens feminas inesquecíveis. Um conjunto de mulheres que representam a luta ativa contra o preconceito e o racismo. Vou cair na injustiça de destacar apenas uma, aquela que deu voz a todos os sentimentos de opressão e sofrimento. Falo de Skeeter! Amei o seu inconformismo e a forma assertiva como lutou por aquilo que acreditava ser o mais justo e o mais correto. 

4. "O Ano da Dançarina" de Carla M. Soares
Cecília não é a protagonista do livro, mas ficou-me na memória pelos seu modo de ser independente, pela sua inteligência e pela sua capacidade de não se curvar às convenções de uma época onde as mulheres não tinham muita voz. Admirei a sua sensíbilidade e o seu modo tão especial de ser. Como escrevi na minha opinião ao livro, têm que ler para descobrir de quantas camadas esta personagem é construída. 

5. "Em Parte Incerta" de Gillian Flynn
Para terminar esta lista, escolhi a "incrível" Amy. É uma personagem muito bem construída e com um grau de perturbação que nos remete para a realidade. Jamais irei esquecer esta personagem. A forma como ela se foi desmontando ao longo do livro é inesquecível. 

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07
Mar20

Por detrás da tela | "Ferdinando" (2017)

MV5BOTIwMDI0NjQ4OF5BMl5BanBnXkFtZTgwNjU0MzAyNDM@._Classificação: 10/10

Sou uma enorme fã de filmes de animação. Acho que apesar de o público-alvo dos mesmos ser as crianças, as mensagens que muitos destes filmes procuram transmitir são também importantes para os adultos.

Ferdinando era um touro diferente. Um touro pacífico que não gostava de touradas. E a partir desta premissa são explorados assuntos que marcam a atualidade e são verdadeiras lutas sociais. O bullying, o amor pelos animais, o preconceito relativamente aos papéis que cada um tem de desempenhar... Tantas coisas que podem ser exploradas neste filme. 

Um filme muito amoroso, com o toque certo de diversão, ação e dramatismo. É daqueles produtos cinematográficos que nunca me irei cansar de rever. Fiquei com o coração tão inundado de amor por aquele touro. 

"Ferdinando" mostra que todos os animais são especiais, independentemente do seu papel no mundo e daquilo que desejam fazer. Mostra, também a necessidade dos humanos olharem com respeito, consideração e amor para todos os animais. Um filme de animação destinado a pessoas de qualquer idade. 

 

 

06
Mar20

Desafio dos Pássaros #2.6. | Um vírus tem rosto de mulher

Tema 2.6.
Oh não, um vírus outra vez!

Insistem em tratarem-me como se fosse do género masculino. Odeio quando me cruzo com o comentário “Oh não, um vírus outra vez!”. Digo-vos só apetece gritar “Nããããoooo! Têm que dizer: Oh não, uma vírus outra vez!”. Então, se utilizam a palavra virose, no feminino, porque não colocar-me a mim Vírus no feminino? Será que não compreendem que tenho mais de feminino do que masculino? Já olharam bem para as minhas características e comportamentos? Claro que não! Porque se tivessem perdido um pouco de tempo a olhar bem para mim, sem a visão toldada pelo pânico, iriam perceber o meu lado feminino e guerreiro.

Ora vejamos, enquanto vírus uma das nossas grandes características é a facilidade de propagação. Conseguimos atingir diferentes seres humanos, em simultâneo e num curto espaço de tempo. Somos rápidas e eficazes. Só as mulheres têm uma grande capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo sem que nada fique comprometidos. O seu pensamento ramifica-se de acordo com as exigências necessárias. Veem? São como eu.

Tenho a capacidade de sofre mutações genéticas. Quem é que consegue se transformar e adaptar às necessidades da sociedade? As mulheres, está claro! Passam de um compromisso profissional para um encontro informal num piscar de olhos! São verdadeiros mutantes sociais.

Só somos visíveis ao microscópio eletrónico, tal como a verdadeira essência feminina que só é visível aos olhos daqueles que perdem tempo a conhecê-la verdadeiramente. Só quem investe nas relações afetivas é que consegue perceber bem a essência das mulheres, assim como as viroses só são conhecidas com recurso a um microscópio especial.  

Somo apelidadas de parasitas! Ora parasitas são aqueles que se aproveitam dos hospedeiros. Quem melhor do que a inteligência feminina para tirar o melhor partido das situações e das pessoas? Só uma mente inteligente se pode tornar em alguém capaz de utilizar melhor a energia que está à sua volta. Pronto, não pode ser tudo características 100% positivas. Todas as criaturas do mundo têm arestas mais obscuras.

Como veem, tudo em mim transpira feminilidade. Tenho tanto de delicada (facilmente fragilizo aqueles que se cruzam comigo) como de resistente (é preciso um batalhão de antibióticos para me destruir). É assim a alma feminina: livre, delicada e resistente.

Por este meu discurso podem perceber a minha indignação. Não quero ser tratada no masculino, quero ser olhada e respeitada como mulher. Será que agora estão dispostos a mudar-me de género?

05
Mar20

Projeto Conjunto | Empréstimo Surpresa [Os motivos]

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E chegou a minha vez de enviar um livro à Daniela. 
Ela anda um pouco esquisita com as leituras, por isso, desta vez eu queria enviar-lhe algo completamente diferente. Queria enviar-lhe um livro que fosse uma verdadeira surpresa. Um que ela não estivesse à espera de receber.

Assim a minha escolha recaiu no livro "Vozes de Chernobyl" de Svetlana Alexievich. 

3.jpgOptei por enviar não ficção para que a Daniela explore este género. Não lhe queria enviar nenhum romance mais romântico, porque ela anda com pouca ligação às histórias de amor. Não lhe queria enviar thrillers nem policiais porque é algo que ela lê com muita frequência. Então pensei logo em enviar-lhe este livro. 

Passem no blog da Daniela para conhecerem a reação dela ao livro. 

04
Mar20

Fevereiro | Quem chegou?

Se Janeiro foi um mês pouco movimentado em termos de livros recebidos, Fevereiro revelou-se o oposto. 
Curiosos por verem os livros que chegaram aqui à minha estante?

Compras
Foram dois os livros que comprei no mês anterior. Aproveitei uma promoção da Wook e comprei o livro "Demência" da escitora Célia Loureiro Correia. 
Para assinalar o dia da minha primeira aula enquanto professora universitária comprei o livro "Vozes de Chernobyl" de Svetlana Alexievich (desde o ano passado que tenho comemorado as minhas conquistas com um livro). 

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Empréstimo 
Fevereiro trouxe-me mais um livro vindo diretamente da estante da Daniela para mim. Desta vez ela escolheu o livro "Verity" de Colleen Hoover. Foi uma das minhas melhores leituras do mês. 

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Tocas
Consegui ainda trocar dois dos meus livros. Assim, recebi os livros "Seita Maldita" de Tess Gerritsen e "O Meu Segredo" de Kathryn Hughes. 

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Gentilmente cedido pela Topseller chegou cá a casa o livro "O Duque da Ruína" de Tessa Dare. 

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02
Mar20

Opinião | "Verity" de Colleen Hoover

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Classificação: 4 Estrelas

Partilhar a minha opinião acerca do livro "Verity" sem usar spoilers será um verdadeiro desafio. Demorei a conseguir sentar-me e escrever uma opinião acerca do mesmo porque não sabia colocar em palavras a confusão cerebral que se instalou na minha cabeça. 

Assim que terminei de ler a última página, o meu primeiro pensamento foi Isto não faz o menor sentido. Desculpem-me a ousadia deste pensamento, principalmente aqueles que vibram e deliram com as obras desta escritora, mas para o perceberem tem de saber duas pequenas coisas sobre mim. Eu não consigo ler um livro e dissociar de mim dois aspetos que condicionam a forma como interpreto as coisas à minha volta. 1) Sou uma pessoa que racionaliza tudo, procuro uma explicação lógica, científica e verdadeiramente possível para grande parte das coisas que me rodeiam (daí a minha dificuldade com os livro de fantasia) e 2) Muitas vezes o meu olhar de psicóloga interfere na forma como interpreto as histórias que me vou cruzando. Muitas vezes consigo desligar estes dois botões mentais. Outras há em que eles estão em estado On e colocam o meu cérebro num verdadeiro turbilhão de sinapses. 

"Verity" foi um dos livros que ativou estes meus dois lados. Era impossível isso não acontecer tendo uma mulher, Verity, com um perfil psicológico muito particular e um homem, Jeremy, bonito e atencioso com um profundo amor pelos filhos com uma aura de mistério que nos intriga. Se isto já não fosse suficiente, juntamos Lowen, uma escritora tímida com uma imaginação bastante fértil. Claro que tudo foi cuidadosamente apimentado de tragédias e dramas capazes de fazer parar o cérebro. Digam lá se eu não tinha aqui um cocktail explosivo para o meu cérebro "psico-racional". 

A leitura foi compulsiva e sempre com a certeza que tinha desvendado tudo sobre a Verity (que, em alguns momentos levou a minha memória até à Amy, a protagonista do livro "Em Parte Incerta"). Lia na expetativa de constatar como é que toda aquela loucura iria terminar. 
A narrativa foi construída de forma muito interessante pois tudo adensava o mistério e a expetativa que pairava sob aquelas personagens. Até os cenários físicos onde as personagens se moviam estavam em congruência com o lado negro que a escritora quis passar ao leitor. No meu caso, eu imaginei sempre aquela casa e aquele lago envoltos em neblina e com um ambiente marcado pelo cinzento. Aliás, todos os cenários que davam corpo às cenas eu imaginava-os como sendo passados em dias nublados. A meu ver é uma boa ilusão de ótica que as palavras da escritora criaram na minha cabeça. Friso que isto é um único produto da minha imaginação. A  história não dá indicações precisas sobre o estado do tempo, mas como já vos expliquei mais atrás a minha atividade cerebral é um bocado estranha (nada temam, apesar de estranha é completamente funcional). 

E foi neste embalo cinzento que fui até às últimas páginas e atiraram por terra todo o meu raciocínio lógico, muito bem construído e alinhado. Aquele fim dá aso a uma infindável panóplia de interpretações. É um final aberto que deixa espaço à nossa imaginação e à nossa sensibilidade emocional e racional. Eu acreditei na Verity! Isto porque, para mim, era racionalmente impossível as coisas se terem passado de outra forma. Só temos acesso à sua visão dos factos, não sabemos como Jeremy interpreta a sua vida. Porém, depois de ler aquelas últimas páginas era, para mim, racionalmente impossível viver-se com uma pessoa sem lhe conhecer alguns lados mais obscuros (a não ser que andássemos muito cegos em relação às pessoas com quem lidamos). Acho muito pouco provável que Jeremy não conhecesse a verdadeira essência da sua esposa, principalmente no que se refere à forma como cuidada e olhava pelos seus filhos. 
Apesar de tudo, tenho uma vozinha interior que não deixa que o meu cérebro desligue e o coloca a pensar no lado oposto desta minha interpretação. E isto é uma sensação horrível! Não permite que o livro fique simplesmente arrumado na nossa memória. 

Tendo em conta esta minha minuciosa descrição acerca do livro, devem estar a perguntar-se "Então, se sentiste isto tudo, porque é que apenas deste 4 estrelas ao livro?". É uma questão muito legítima. Eu gostei muito do livro, foi uma leitura desafiante em termos de interpretação... Contudo faltou-me algo que me encaminhasse para um desfecho mais concreto. É uma questão de gosto pessoal. Tenho a certeza, que os leitores que são apaixonados por finais em aberto irão delirar com o desfecho do livro. No meu caso, deixou uma imensa frustração.