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Por detrás das palavras

Por detrás das palavras

31
Dez20

O atípico 2020

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Atípico é a palavra que mais vejo a ser usada para caracterizar 2020. Geralmente, vejo-a a ser usada como uma conotação algo negativa.
Reconheço a dureza de um ano marcado por uma pandemia que ficará para sempre impressa na História Mundial. Porém, o meu balanço final é de infinita gratidão por todas as coisas que este ano me ofereceu. É claro que não foram apenas momentos positivos, mas os bons acontecimentos foram suficientes para aclarar a nuvem negra que pairava sobre mim há já alguns anos. Por isso, para mim, foi atípico numa perspetiva positiva.

Inicie 2020 com uma esperança renovada. Emocionalmente andava mais leve, mais solta. 
Foi o ano em que mais trabalhei. Em algumas semanas do confinamento trabalhei ininterruptamente de segunda a segunda. Em maio acusei um pouco o cansaço e alguma frustração que se foi mantendo até outubro.

Em fevereiro assinei o primeiro contrato de trabalho em nove anos. Foi um mini contrato, mas que me soube a algo maior. Eu tinha uma caneta especial para o assinar, mas as tecnologias a desmaterialização do local onde estive impediram o seu uso. O contrato foi assinado com recurso a assinatura digital. 

Em 2020 dei aulas, acompanhei miúdos em idade escolar, colaborei com investigações, colaborei no desenvolvimento de candidaturas a projetos (chorei pelas mesmas candidaturas não terem sido aceites). Em julho, depois da última candidatura não ter sido aprovada, achei que 2020 já não me teria muito mais a oferecer e que iria continuar neste limbo pelo menos até ao final deste ano. 

Em outubro tudo muda. Foi uma prenda de aniversário muito desejada. Senti que, pela primeira vez em anos, a sorte afinal estava do meu lado. Voltei a assinar outro contrato de trabalho, novamente não tive oportunidade de usar a minha caneta da sorte, mas abracei o desafio com quantas forças tinha. Está a ser um bom desafio. Cansativo, mas um bom desafio (o cansaço poderia ser minimizado se os valores das rendas descessem para preços aceitáveis). Mas o Natal, também tinha de me trazer um presente. 

Há uns dias, no percurso para o trabalho, o arco-íris surgiu no céu. Acompanhou grande parte da viagem para o trabalho. Ia na viagem a trocar mensagens com a B. (outro presente de 2020) e ela disse que aquilo era um sinal da natureza de que coisas boas viriam pelo caminho. Achei graça ao otimismo dela. O curioso é que nesse dia ela recebe a notícia de que iria receber o seu primeiro salário e eu recebo a notícia que o contrato será renovado. Por isso, nos próximos três anos poderei continuar a trabalhar num lugar magnífico, com pessoas que me têm recebido muito bem e a fazer aquilo que gosto. 

Não me consigo queixar de 2020. Ele foi generoso comigo. Presenteou-me com coisas que eu há muito desejava. Nem o confinamento me assustou. Sou uma pessoa caseira. Viver no campo permitiu aceder sempre ao exterior. Não me senti presa. Não li tanto como a maioria das pessoas porque o volume de trabalho aumentou. Acabei por conseguir apanhar ritmo e houve meses onde devorei livros. Aventurei-me mais na escrita criativa e até ganhei o concurso de escrita da Elisabete e da Vera. 

Por isso, para 2021 nem sei bem o que esperar ou pedir. Vá, a nível pessoal até sei, mas vou guardar no meu interior. Não vale a pena exigir muitos dos nossos desejos. A vida parece ter uma forma muito próprias de os concretizar. Enquanto isso resta-nos sofrer por antecipação e ir entrando em pequenas lutas.
Porém, há um desejo comum: que a pandemia dê tréguas e nós consigamos recuperar a nossa liberdade de movimentos, sem medo.

Para as minhas pessoas, desejo que 2021 seja generoso. Que lhe ofereça caminhos cheios de realizações pessoais e profissionais. Só quero que o novo lhe traga acontecimentos significativos e mudanças positivas no seu quotidiano. Sei o que é ansiar por mudanças, por acontecimentos concretos que nos permitam afastar o negativismo, por isso sou muito sensível ao sofrimento daqueles que acompanharam o meu. 

Para quem passa por aqui, também quero que o teu ano seja iluminado por luzes positivas de esperança, amor e realizações profissionais. Que 2021 te dê aquilo que perdeste em 2020 e que te fez falta. 

Que 2021te traga a possibilidade de fazeres e teres o que te faz feliz!

31
Dez20

Balanço final | Abecedário literário

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Amado, Nuno: "À espera de Moby Dick"
B
essa-Luís, Agustina: "A síbila"
C
arvalho, Maria João Lopo: "Marquesa de Alorna"
D
are, Tessa: "O duque da ruína"
E
ger, Edith: "A bailarina de Auschwitz"
F
ielding, Helen"O diário de Bridget Jones"
G
erritsen, Tess: "Lembranças macabras"
H
oover, Colleen: "Verity"
I
J
K
L
ewis, Susan: "Desaparecido"
M
oyes, Jojo: "Viver depois de ti"
N
O
'Farrel, Maggie: "Antes de nos encontrarmos"
P
erkins, Stephanie: "Anna e o beijo francês"
Q
ueirós, Eça: "Os Maias"
R
ibeiro, Ana: "Ao teu lado"
S
tell, Danielle: "Palomino"
T
avares, Miguel Sousa: "Rio das flores"
U
V
eiga, Paula: "A Rainha perfeitíssima"
W
iggs, Susan: "O mapa do coração"
X
Y
Z
immler, Richard: "À procura de Sana"

Mais um desafio que não completei, mas que acho que correu muito bem. Só deixei por preencher sete letras. Houve um ano que consegui completar todo o alfabeto. Aconteceu uma única vez! Em 2021 irei repetir este desafio. Talvez seja o ano em que irei conseguir preencher todas as letras. 

30
Dez20

Opinião | "Éramos seis" de Maria José Dupré

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Vi a novela da Globo que resultou da adaptação deste livro. Gostei tanto da novela que fiquei com vontade de ler o livro.
Em traços gerais, a novela segue a linha narrativa que dá corpo ao livro. É óbvio que a novela tem diferentes adaptações  e está enriquecida com histórias paralelas, mas em muitos aspetos há uma reprodução fiel dos acontecimentos.

Por isso, nada neste livro constituiu uma surpresa para mim. Eu sabia o que ia acontecer e isso quebrou o efeito mágico da leitura. 
A história centra-se em exclusivo na família de Dona Lola. A vida dos filhos, o marido, as necessidades financeiras, a forma como ela vai gerindo todas as crises familiares e as suas reflexões preenchem o espaço narrativo e temporal do livro. 

A leitura foi interessante, mas não entusiasmante. Comparo esta leitura a uma viagem num cruzeiro por águas calmas: conseguimos ir apreciando a paisagem de forma calma e pacífica, sem sobressaltos e sem momentos cheios de adrenalina. 
Não houve espaço para grandes emoções nem grandes reflexões. Aconteceu mais quando vi a novela.

O livro é um clássico da literatura brasileira. Li-o em português do Brasil, mas em nada afetou a minha leitura. A linguagem simples, as descrições muito realistas e os diálogos conferem um bom ritmo de leitura. É um livro fácil de ler. 

Talvez devesse ter deixado passar mais tempo entre o visionamento da telenovela e a leitura do livro. A memória já não estaria tão fresca e eu poderia ter uma leitura mais entusiasmante e menos contaminada pela experiência positiva que resultou do facto de eu ter assistido à telenovela. 

Classificação

30
Dez20

Balanço final | Ataque a estante

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Este desafio foi criado pela Daniela do blog Quando se abre um livro. Acabei por achar piada ao desafio e, de forma informal fui registando leituras e compras.

Eis o meu comportamento:
     🌼 Comprei 13 livros (mais dois que foram oferecidos e não os li). Destes 13 livros, li quatro (um eles foi oferecido posteriormente.

     🌼 Dos livros adquiridos até final de 2019 foram lidos 16 livros. 

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Considero que fui bem sucedida no desafio. Li muitos livros da minha estante, dei alguma atenção aos livros que foram chegando e não fiz assim muitas compras.

A Daniela fará nova edição deste desafio e eu irei participar.

29
Dez20

Opinião | "28 dias" de David Safier

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Este livro encheu-me o olho na prateleira da biblioteca. A sinopse convenceu-me a trazê-lo. Estava com muita curiosidade para ler este livro e viver uma aventura no contexto da Segunda Guerra Mundial, sem campos de concentração envolvidos.

Mira, a nossa personagem principal, tem 16 anos, vive no gueto de Varsóvia e permite a sua sobrevivência e a da sua família dedicando-se ao contrabando de produtos. A sinopse promete uma aventura mais arriscada, com a participação de Mira num grupo da resistência.

A atividade do contrabando é muito arriscada, e o autor deixou isso bem claro na forma como ia apresentando os factos. Contudo, ao longo da leitura fui-me questionando que parecia ser sorte a mais. Tudo corria demasiado bem. Havia ali um fator sorte demasiado intenso para que tudo fosse real. E isto foi alimentando páginas e páginas deste livro. É claro que existiam outros acontecimentos, mas eu começava a ficar ansiosa. Afinal, quando é que as coisas iam de facto animar-se? Quando é que a resistência iria ganhar destaque? Demorou muito para que isto acontecesse. Senti-me arrastada e embrulham em acontecimentos que pouco contribuíam para o entusiasmo da narrativa. Houve momentos muito aborrecidos. 

A resistência chega e ganha protagonismo. Infelizmente, eu já estava demasiado contaminada por emoções negativas e insatisfação com o livro que esta parte foi sendo lida com alguma indiferença. Não me consegui emocionar, nem entusiasmar. 

É um facto, o livro desiludiu-me e a leitura acabou por se arrastar durante demasiado tempo. O livro está bem escrito e não encontrei nenhum problema na construção da narrativa. Porém, não consegui criar uma ligação significativa com a história e senti que há partes que poderiam ser encurtadas.
Foi uma experiência de leitura mediana, onde não há espaço para grandes destaques. 

Classificação

 

29
Dez20

Balanço final | Desafio de leitura Manta de Histórias 2020

Desafio manta de histórias.jpg

  • Uma distopia: "Correria dos pássaros presos" de Ana Gil Campos
  • Escrito por uma mulher, com uma protagonista mulher: "Palomino" de Danielle Steel
  • Livro de uma saga ou série: "Lembranças Macabras" de Tess Gerritsen
  • Leitura conjunta: "Os pássaros" de Célia Correia Loureiro
  • Novela gráfica ou BD
  • Um livro com mais de 500 páginas: "Rio das flores" de Miguel Sousa Tavares
  • Autor premiado com o Nobel
  • Livro do pano nacional de leitura: "Os Maias"de Eça de Queirós
  • Livro com um animal na capa: "À espera de Moby Dick" de Nuno Amado
  • Um livro de contos
  • Livro de literatura lusófona: "Éramos seis" de Maria José Dupré
  • Livros que querias ler em 2019: "Desaparecido" de Susan Lewis
  • Romance histórico: "Marquesa de Alorna" de Maria João Lopo de Carvalho
  • Policial ou thriller: "As gémeas de gelo" de S. K. Tremayne
  • Baseado numa história verídica: "Cada suspiro teu" de Nicholas Sparks 
  • Um livro sobre um tema pelo qual és apaixonado: "A filha do comunista"de Aroa Moreno Durán
  • Um livro publicado em 2010
  • Ação decorre no continente Asiático: "Antes de nos encontrarmos" de Maggie O'Farrel
  • Livro com um mês do ano no título
  • Uma biografia ou memória: "A Bailarina de Auschwitz" de Edith Eger
  • Um livro oferecido: "O ano do pensamento mágico" de Joan Didion
  • Recomendado por um amigo: "Cassiopeia" de Joana Ferraz
  • Primeiro livro de um autor: "Anna e o beijo francês" de Stephanie Perkins
  • Livro de um dos teus escritores favoritos: "O teu nome é uma promessa" de Deborah Smith
  • Um livro de fantasia: "Tambores na noite" de Marion Zimmer Bradley
  • Uma história inspiradora: "Elementos secretos" de Margot Lee Shetterly
  • Escrito por um jovem autor (-30): "A troca" de Beth O'Leary
  • Livro com um nome próprio no título: "Verity" de Colleen Hoover
  • Ação decorre na época natalícia: "Sem saída" de Cara Hunter
  • Livro publicado em 2020: "O duque da ruína" deTessa Dare
  • Livro adaptado a filme ou série: "Viver depois de ti" de Jojo Moyes
  • Livro de um autor cujo nome começa por A: "Ao teu lado" de Ana Ribeiro

Categorias extra

  • Um YA (Jovem adulto): "Raparigas como nós" de Helena Magalhães
  • Um livro de um autor português: "A sibila" de Agustina Bessa-Luís
  • Um livro de não-ficção: "Razões para viver" de Matt Haigg
  • Um livro com a tua cor preferida: "O mapa do coração" de Susan Wiggs
  • Um livro à tua escolha: "A filha do Papa" de Luís Miguel Rocha
  • Um autor nunca lido: "O Duelo"de Anton Chekhove

Pelo segundo ano consecutivo participei no desafio de leitura promovido pela dinamizadora do blog Manta de histórias. Faço um balanço positivo da minha participação deste ano. Deixei apenas 5 categorias por cumprir. Já vi as categorias para o próximo ano, mas não irei participar. Vou dar uma pausa neste desafio. 

28
Dez20

Por detrás da tela | "Eu, Tonya" (2017) e "Snu" (2019)

Eu, Tonyaeu-tonya.jpg

Apanhei uma valente surpresa com este filme. Não sabia muito sobre o filme, mas por qualquer motivo que eu não consigo identificar, esperava uma história mais ligeira. Posso dizer-te que este filme não tem nada de ligeiro. 
O filme narra a história da patinadora artística Tonya Harding desde a sua infância até à idade adulta. 

A infância desta jovem foi tudo menos positiva e feliz. Uma mãe abusiva dita a construção de uma personalidade completamente asfixiante. Sim, senti-me asfixiada pela agressividade desta mãe e na forma como ela cresceu dentro da Tonya. Apesar do talento desta jovem, a pobreza fez com que ela não fosse bem aceite no meio artístico. Os fatos caríssimos não tinham o brilho das adversárias e isso originava ainda mais raiva dentro de Tonya. 

As relações que ela foi construindo ao longo da sua vida eram doentias. Havia muita violência e tensão nas interações. Foi um pouco aflitivo assistir a isto ao longo do filme.
É claro que estas emoções se devem à brilhante interpretação de Margot Robbie como Tonya. Não sei o grau de veracidade deste filme, mas Margot transportou para a tela tudo o que lhe foi possível para se demarcar e construir uma personagem cheia de personalidade. Margot conseguiu tornar Tonya inesquecível para mim. 

É um filme duro onde sobressaem as coisas menos positivas da natureza humana. Aquilo que prevalece na memória é o incomodo causado pelas atitudes de Tonya, os gritos, as discussões os abusos e a dor camuflada que vai pairando no interior das personagens. 
Quando terminei o filme pensei É preciso ter estômago para aguentar isto até ao fim. Este pensamento surgiu porque há muita energia negativa nesta história e eu fui incapaz de me desligar dela. 

Classificação
/5

Snu

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Há histórias de amor reais que merecem ser contadas, eternizadas nas palavras de um livro ou numa tela de cinema. Do que me foi possível ver neste filme, a história de Snu e de Sá Carneiro é uma dessas histórias.
O meu conhecimento sobre o percurso político do nosso país tem muitas lacunas. De Sá Carneiro ouvi opiniões completamente dispares (acho que um pouco toldadas pelas convicções políticas de cada uma das pessoas que ia partilhando a sua visão comigo), contudo, neste filme, vi mais do homem que se apaixona por uma mulher à frente do seu tempo. Para viver este amor precisa de lutar contra os "monstros" conservadores que pairavam sobre Portugal.

Snu pareceu-me ser uma mulher estremamente interessante. Inteligente, lutadora e muito confiante nas suas ideias e na sua forma de interpretar o mundo. Uma mulher que deve ter tido dificuldades em perceber muito do que se passava em Portugal naquela época. 
Coube a Inês Castelo Branco interpretar esta mulher intemporal. Não esteve totalmente bem, às vezes sentiu dificuldade em manter o sotaque. Contudo, acredito que ela conseguiu passar a beleza da personalidade desta mulher. 

No geral é um filme português marcado pela boa realização e narração da história. É claro que senti falta de algumas informações, acho que o filme carece de um pouco mais de contextualização histórica. Por outro lado, tenho consciência que o objetivo do filme era focar a história de amor entre estas duas pessoas. 
A banda sonora foi bem escolhida e dá um toque especial ao filme.

Para quem gosta de uma boa história de amor, este filme irá ser do agrado dessas pessoas.

Classificação
/5

28
Dez20

Opinião | "Demência" de Célia Correia Loureiro

P_20200313_112458_HDR.jpgNão li a primeira edição de "Demência". Vi muitas opiniões positivas em relação a este livro. Vi quem o achasse melhor que "O funeral da nossa mãe". Pessoalmente, acho que são livros diferentes, cada um com o seu valor. Têm um ponto em comum: a sua capacidade de mexer com as emoções.

"Demência" dá voz à violência doméstica e à demência. As palavras embalam-nos em direções mais ou menos previsíveis, mas que em nada diminuiu o entusiasmo e o interesse pelo livro. É uma viagem literária em constante desassossego. Desassossego por Letícia que procura manter-se inteira depois de ter sido despedaçada. Desassossego por duas crianças que sabem quanto custam os momentos de terror. Desassossego por uma mulher que lida com a doença e com a perda da melhor forma que consegue. E no meio destes sobressaltos e desassossegos há espaço para a importância que uma amizade pura pode ter nas nossas vidas. Há espaço para o poder curativo que só o amor consegue. Há espaço para olhar para o passado e encaixá-lo numa explicação do presente. 

Infelizmente, a voz de Letícia ainda faz muito eco na sociedade atual. As feridas que esta mulher transporta são comuns às de outras tantas mulheres. A violência doméstica é, mais do que a Letícia, a personagem principal desta história. Um problema que atravessa gerações e deixa marcas emocionais demasiado profundas e com uma cicatrização imune ao tempo. É interessante ver como a Célia, apesar de ser muito jovem quando escreveu este livro, conseguiu imprimir uma maturidade enorme naquilo que quis contar ao público. 
Além deste aspeto, a história tem uma tonalidade tão realista que é fácil chegar àquela aldeia e visualizar o comportamento de todos aqueles que povoam estas páginas.

O tempo da ação é que me deixou um pouco baralhada. O início foi complicado. Em termos de tempo parece que passam mais dias do que aqueles que na realidade passaram. Há também uma transição, mais ou menos a meio do livro, que é pouco clara. Foram estes os dois aspetos que me não foram tão bem concretizados. 

A história andou muitos dias na minha cabeça. A resiliência de Letícia fez-me acreditar na força feminina para enfrentar um problema. Por outro, a fragilidade e a personalidade dura de Olímpia tornaram-na demasiado humana. Foi a doença e a perda que a deixou mais fragilizada, mas foi o passado que a endureceu e que lhe deu uma visão diferente da condição humana. Duas mulheres que ficam na história do meu percurso literário e de quem, muito dificilmente, me irei esquecer. 

Precisamos de vozes como a da Célia. Precisamos de pessoas que coloquem de forma realista amor, dor e tristeza  nas histórias que escolhem contar. Precisamos de abrir espaço às boas publicações nacionais. 

"Demência" irá levar-te a uma aldeia beirã, cheia daquelas preconceitos e "diz-que-disse" tão típicos de zonas mais solitárias e acanhadas. Vais encontrar o inferno e o paraíso de uma relação amorosa. Vais cruzar-te com o envelhecimento, com a doença que apesar de roubar parte das memórias de Olímpia será incapaz de lhe tirar do coração a amizade que a ajudou a sobreviver.

Classificação

27
Dez20

Balanço final | Pirâmide literária

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Este ano criei o desafio Pirâmide literária. Consegui completar os dois primeiros níveis e faltou-me apenas uma categoria para completar o terceiro nível e, assim, finalizar este desafio. Apesar de não o ter terminado, estou muito feliz com o resultado final.

Nível 1

  • 2 livros de autores nacionais: "Rio das flores" de Miguel Sousa Tavares; "Raparigas como nós" de Helena Magalhães.
  • 2 livros escritos por homens: "As gémeas do gelo" de S. K. Treymayne; "Os Maias" de Eça de Queirós.
  • 2 livros escritos por mulheres: "Viver depois de ti" de Jojo Moyes; "Desaparecidas" de Susan Lewis
  • 1 livro oferecido: "O duque da ruína" de Tessa Dare.
  • 1 livro que está na estante há mais de dois anos: "Palomino" de Danielle Steel

Nível 2

  • 3 livros escritos por mulheres: "Verity" de Colleen Hoover; "Meu amo, meu senhor" de Tehmina Durrani; "Antes de nos encontrarmos" de Maggie O'Farrell.
  • 3 livros escritos por homens: "A espera de Moby Dick", Nuno Amado; "Cada suspiro teu" de Nicholas Sparks; "A filha do Papa" de Luís Miguel Rocha.
  • 3 livros de autores portugueses: "Os pássados" de Célia Loureiro; "A sibila" de Agustina Bessa-Luís; "Voar no quarto escuro" de Márcia Balsas.
  • 1 clássico: "O duelo" de Anton Chechove
  • 1 livro que te faça sair da tua zona de conforto: "O ano do pensamento mágico" de Joan Didion

Nível 3

  • 1 livro publicado em 2020: "O teu nome é uma promessa" de Deborah Smith
  • 2 e-books: "Ao teu lado" de Ana Ribeiro; "O mapa do coração" de Susan Wiggs
  • 2 Romances históricos: "A filha do comunista" de Aroa Moreno Durán; "Elementos secretos" de Margot Lee Shetterly
  • 2 Clássicos: "Éramos seis" de Maria José Dupré
  • 1 livro de não ficção ou de poesia: "A Bailarina de Auschwitz" de Edith Eger

Não irei repetir este desafio em 2021.

26
Dez20

Opinião | "A troca" de Beth O'Leary

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Não há nada tão pessoal como a forma como cada ser humano escolhe lidar com a dor emocional. Gerir emoções negativas é um processo individual e que obedece a leis muito próprias. 
Infelizmente, o julgamento social sobre o comportamento adotado na hora de lidar com emoções tristes ainda está muito presente. 

A gestão emocional é um dos assuntos mais profundos retratados neste livro. É interessante perceber que um assunto tão sério é abordado de forma muito inteligente recorrendo a um tom divertido e descontraído. Esta forma descontraída de abordar coisas séries parece ser uma característica muito pessoal de Beth O'Leary.

Eileen e Leena, avó e neta. Mantêm uma relação especial, mas as respetivas vidas precisam de uma certa agitação. Eileen tem sede por conhecer a vida na cidade, Leena precisa de sair da ilha para ver a ilha. As duas acabam por trocar de lugares: Eileen vai para a casa da neta em Londres e Leena vai para a casa da avó que fica numa zona mais rural e cheia de particularidades. Cada uma, à sua maneira, me ofereceu momentos muito divertidos. O quotidiano de cada uma delas é cheio de peripécias que conjugam um lado divertido com um lado mais sério relacionado com o luto, superação e auto-conhecimento. 

A questão do auto-conhecimento é um elemento muito forte neste livro. Acho que todas as personagens o vão desenvolvendo à medida que a narrativa avança. Eileen olha para a cidade e vê nela apenas um espaço para bons momentos. A sua passagem por Londres permitiu que ela apreciasse de outra forma a sua vida num lugar mais pacato. Aprendeu imenso na sua vida na grande cidade, conseguiu levar o seu espírito comunitário para o meio da selva citadina e soube olhar para dentro dela com outros olhos. Leena foi quem mais cresceu. Conseguiu ver para além da agitação dos seus dias, esforçou-se por aceder ao coração de um conjunto de pessoas que passou a ser importante para ela. Identificou os seus limites e as suas necessidades, redefiniu sonhos e atribuiu um novo significado ao amor romântico.

Há um grupo de idosos super divertido que confere à história uma dinâmica muito interessante. Também a vida deles é um equilíbrio entre o lado engraçado da vida e o lado sério e com problemas urgentes para serem resolvidos. 

Foi bom descobrir uma esta autora. Li o livro numa altura em que necessitava de uma história com uma mensagem positiva e com um final feliz. Este tipo de livros é uma "vacina" contra os dias taciturnos e problemas pessoais que me obrigam a reagir. "A troca" foi um "aspirador" mental das más energias. Fiquei com imensa vontade de ler mais livros da escritora. 

Já leste algum livro desta escritora? Qual foi a impressão com que ficaste da leitura?

Classificação

25
Dez20

Conto de Natal | Que o Natal seja o que quiseres

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(imagem retirada daqui)

A imsilva do blog Pessoas e coisas da vida lançou o desafio de escrevermos um conto de Natal. Depoois de alguns dias a marinar a ideia, lá consegui escrever alguma coisa. Espero que gostes Isabel.

― O que fazes aqui? – Rodrigo levantou os olhos da sua ceia de consoada para a encarar.

Ela sorrio e encolheu os ombros. Começou a despir o casado. Enquanto o colocava na cadeira perguntou-lhe:

― Onde é que posso pegar num prato e pegar na minha ceia.

Rodrigo continuava a olhar para ela. Ainda não acreditava que ela estava ali, à sua frente. A voz dela despertou-o.

― Então, vais dizer-me ou não?

Ele acenou com a cabeça e com o dedo apontou-lhe para um espaço ao fundo da sala.

― Obrigada! Agora come um pouco mais devagar. Melhor! Para de comer e espera por mim. Vim aqui para jantar contigo.

E lá foi ela em direção ao local onde estava a mesa com a loiça e a comida.

 

2 horas antes

― Não podes estar bem!! Como é que me dizes que não vais passar a consoada connosco, a tua família!!

― Queres que repita, mãe?

― Não, essa parte eu percebi! O que eu não percebi são os motivos que te levam a trocar a tua família por um bando de pessoas desconhecidas.

Sofia enterrou o corpo no sofá e respirou fundo. Estava a dar-se tempo para se justificar perante as acusações da mãe.

― Mãe, já sou adulta. Sempre me senti deslocada nestes jantares e almoços. Contigo e com o pai é diferente. Consigo estar de forma descontraída e sem uma ponta de ansiedade. Com os tios, as tias e os primos é um sufoco. Sinto que não pertenço ali! É sempre um esfoço enorme para conseguir passar aquelas horas em que estamos todos juntos.

A mãe abanava a cabeça. Não consegui compreender este lado reservado e calado da filha. Não conseguia compreender o seu gosto pelos momentos solitários.

― Não faz sentido nenhum. O Natal é com a família! – A voz da mãe já saía alterada.

― Tens razão, mãe! Natal é com a família, com a de sangue ou com aquela que escolhemos para ser.

Sofia olhava a mãe em busca de compreensão.

― Vá lá, mãe! Não dificultes as coisas. Permite um Natal diferente, um Natal onde me possa sentir eu. Sem aquela sensação de estar a fazer um frete. Sem ansiedade.

A mãe só abanava a cabeça. Estava surpreendida com este comportamento da filha. Sempre a viu muito calada nos encontros de família. Interagia pouco, não fazia conversa. Para ela a justificação era simples: Sofia é um “bicho-de-mato” que não sabe fazer conversa, que não se esforça por se integrar.

― Podes dizer-me pelo menos onde vais passar o Natal.

― Sim, claro. Vou passar na associação que dá apoio aos sem-abrigo e que é apoiada pela empresa onde eu trabalho.

― Há alguma razão especial para preferires passar o Natal com os sem-abrigo em vez da tua família?

― Há… É um lugar onde posso ser eu.

A mãe acenou com a cabeça. Sabia que não iria ganhar esta batalha. Não podia obrigar a filha, adulta, a ir onde não queria, mas estava intrigada com esta ideia dela consoar com os sem-abrigo.

****

 

Sofia vinha toda animada com o seu prato e a sua bebida. Sentou-se em frente do Rodrigo.

― Obrigada por esperares por mim – sorriu-lhe e estendeu a mão para tocar na dele. – Este bacalhau cheira muito bem. Bom apetite.

― Sofia? – Rodrigo esperou que ela olhasse para ele. – Não devias estar aqui. É Natal, devias estar com a tua família.

O olhar sério dela assustou-o. O que será que ela teve de fazer para estar ali com ele?

― Também és minha família, Rodrigo! Mais do que isso: és a minha inspiração. Este ano poderias estar em tua casa, mas escolheste vir para aqui.  Ajudaste-me imenso este ano.

Pela primeira vez naquela noite ele sorriu a olhar para ela.

― Isso não é lá muito justo. Quem me ajudou foste tu. Afinal, és a minha superior!

As sobrancelhas de Sofia levantaram-se em jeito de interrogação.

― Não me estava a referir à nossa relação profissional. – Sofia corou e baixou o olhar. De repente a sua coragem tinha ido pelo cano abaixo.

Rodrigo apertou a mão dela, que continuava em cima da sua. Queria captar-lhe novamente o olhar. E ela olhou-o.

― Há três anos, esta era a minha única refeição quente do dia. Vivia no meu carro e usava cada cêntimo que ganhava trabalhos que ia arranjando ou roubava, desta última parte sinto bastante vergonha, para pagar a universidade. Aos 30 anos ser sem-abrigo e estudante parecia uma coisa que só cabia nos romances. Aqui sentia-me em família. Depois terminei o curso e tive a sorte de me cruzar com uma superior, que me orientava no serviço, tão calada quanto eu. Aquela que almoçava na cantina da empresa enquanto os olhos vagueavam por um livro. Um dia ganhei coragem e sentei-me na mesa dela. Perguntei-lhe sobre o livro e ela quase nem conseguiu falar. Acho que até se engasgou com um greiro de arroz que, teimosamente, foi para onde não devia. Depois deste dia almoçamos muitas vezes em silêncio até que conseguimos ultrapassar a nossa timidez e começamos a falar. Eu contei-lhe a minha história e ela chorou. Ela convidou-me para ir ao cinema e fiquei em pânico. Não tinha dinheiro para esses luxos, precisava de preencher a minha nova casa que estava despida. As conversas foram ganhando profundidade e o meu coração foi colapsando ao ritmo das palavras dela. E esse coração quase parou há seis meses, quando ela se virou para mim e disse que queria ser minha namorada. Depois de um primeiro beijo tosco e desajeitado, seguiram-se muitos outros, menos desajeitados e menos toscos – Sofia deu uma pequena risada pelo meio das lágrimas que lhe corriam pelo rosto, mas Rodrigo continuou. – O nosso amor não cobra tempo e espaço do outro e preenche-nos de uma forma que só nós percebemos. Nunca lhe pedi que viesse aqui passar o Natal comigo. Eu precisava de vir. Nos últimos anos já não me limito a comer a refeição quente, ajudo na sua confeção e distribuição. Mas eu preciso de vir aqui, e ela sabe isso, respeita isso. Hoje decidiu dar-me a melhor prenda de Natal e aparecer aqui, de surpresa. Feliz Natal, Sofia!

Sofia não aguentou mais. Levantou-se, contornou a mesa e abraçou com toda a força que lhe foi possível. Rodrigo nunca falava tanto tempo seguido, exceto no dia em que lhe contou a sua história. Hoje excedeu-se, e ela gravou cada palavra dentro de si. A sala encheu-se com o som dos aplausos àquele abraço cheio de amor. Era a vez de Sofia retribuir:

― Um dia, se nos casarmos, quero que seja aqui, na noite da véspera de Natal! Feliz Natal, Rodrigo! – Sofia segredou-lhe estas palavras ao ouvido e foi a vez de Rodrigo chorar.    

24
Dez20

Mensagem de Natal

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Este ano não me sinto muito natalícia. Não fiz árvore de Natal, comprei menos presentes, nem de mim para mim comprei... 
Sempre gostei do Natal, que para mim significa muito mais do e paz. Para mim, é sempre uma época de balanços, com alguma melancolia à mistura. Não sou de grandes confusões, nem de almoços e jantares com muita gente. Gosto do silêncio do Natal, do espaço à reflexão que ele permite. Gosto de olhar as luzes e lembrar das minhas pessoas, daquelas pessoas que ao longo do ano amparam as minhas quedas, soltaram foguetes nas minhas conquistas, choraram e sorriram comigo. 

Qualquer que seja o significado do Natal para vocês, aquilo que eu desejo a todos aqueles que gostam de passar por aqui é que sejam dias bonitos. Dias em que se permitam estar com pessoas significantes para vocês (não muitas, atenção COVID-19), que sintam paz e amor no coração e que se deixem invadir por toda a luz que acompanha esta época. 

Um Feliz Natal para quem está desse lado!

23
Dez20

Opinião | "A Rainha Perfeitíssima" de Paula Veiga

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Descobri a minha paixão por romances históricos já tarde no meu percurso de leitora. Talvez tenha acontecido porque o meu interesse pela História também chegou já no final da adolescência. 
Hoje em dia é sempre com algum entusiasmo que me "atiro" numa leitura com uma forte componente histórica.

"A Rainha Perfeitíssima" é um livro dedicado à Rainha D. Leonor, que é, também a narradora de todos os acontecimentos.

A sequência narrativa é muito confusa. Ainda ponderei se esta confusão advinha dos meus escassos conhecimentos relativamente a este período da História de Portugal. Porém, já li outros livros históricos, que retratavam épocas e acontecimentos completamente desconhecidos para mim e com os quais não senti nenhuma dificuldade. Aliás o meu conhecimento no fim da leitura aumentou. Por esta razão, considero que o problema está mesmo no livro, mais especificamente na forma como a história foi contada.
A leitura tornou-se um pouco aborrecida. Os factos eram narrados de uma forma demasiado factual. Faltou um toque mais emocional. Faltou a inclusão de elementos capazes de enriquecer aquilo que D. Leonor ia contando.

Na capa prometia: "Esta é a história de Leonor de Lencastre, a mais culta e rica das rainhas portugueses. E também a mais trágica". No meu entender, ficou-se pela promessa porque os acontecimentos narrados eram desprovidos de emoção e intensidade ilustrativas de uma vida trágica. Também é um livro carente na capacidade de mostras as características das personagens que integram a narrativa. Há demasiada narração e pouca demonstração.

Paula Veiga tem outro livro publicado, também ele um romance histórico. Ainda não sei se quero ler. Preciso de tempo para esquecer esta leitura. Talvez, mais tarde, depois de esquecer esta leitura, dê uma nova oportunidade à escritora e, assim, ter a oportunidade de construir uma opinião mais sólida.

Classificação

22
Dez20

Top ten tuesday #67 | 10 livros para ler no inverno

top-ten-tuesday.pngO inverno já chegou ao Hemisfério Norte. Como ele chega a oportunidade de fazer uma nova lista de leitura.

Antes de vos apresentar os livros que quero ler no inverno, vou fazer um balanço da minha lista anterior.

O verão correu-me ligeiramente melhor. Na lista anterior tinham sobrado apenas dois livros por ler. Na lista do outono ficaram três.

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Ainda estou com muitas opiniões em atraso, mas espero conseguir escrevê-las em dia até ao final do ano.

E agora a lista de livros para ler no inverno. 

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Resgatei os três livros da lista anterior e acrescentei outros que estão na minha estante, alguns deles há demasiado tempo. 

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