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Por detrás das palavras

Opinião | "Morder-te o coração" de Patrícia Reis

P_20201031_110856.jpg

Não conhecia nada sobre o livro nem sobre a escritora. Foi uma leitura às cegas, uma escolha aleatória de um livro disponível na prateleira.

A história gira em torno de uma mulher que se divide em buscas e fugas. Foi apenas isso que consegui reter da leitura.

O tom da narrativa é um pouco aborrecido. Dei por mim  a avançar pelas páginas sem reter emoções, reflexões ou sorrisos. No fundo li-o e terminei-o porque o seu tamanho reduzido evita o abandono.

Analisando friamente o livro e olhando exclusivamente para os aspetos formais que o compõem posso dizer que o livro está bem escrito, sem erros, sem falhas na construção da história. Contudo, senti a ausência de um conjunto de características capazes de me mexer com as emoções e de me fazer criar laços com a narrativa e com as personagens. 

Não sei se a escritora escreveu mais livros. Também não sei se terei vontade de saber para ponderar dar uma nova oportunidade à escritora. Talvez vocês tenham alguma opinião mais positiva a respeito das obras da autora e me deixem com vontade de apostar noutro livro (caso exista). 

O que é que vos apetece partilhar? 

Classificação

A ausência

dawn-3358468_640.jpgImagem retirada daqui

Este blog tem andado abandona. Podia dizer que é por falta de tempo mas não estaria a ser totalmente sincera. Não foi só a falta de tempo. Foi a conjugação de bastante trabalho com indisponibilidade mental para me sentar e partilhar aquilo que me faz feliz. 

A minha mente entrou em desassossego, porque voltei a deixar-me prender por coisas do passado das quais me tinha libertado.
Num mês onde toda a gente fala de família e da importância da mesma. Num mês onde as pessoas manifestam a saudade que têm dos convívios com a família, eu só penso nas saudades que não tenho destes encontros. 

Não me lembro de ter sido sempre assim, ou então eu é que me tornei mais sensível. 

Claro, não arranjas trabalho porque tiraste um curso que não presta.

Vais estudar mais? Só vais gastar dinheiro à toa.

Não falta trabalho. Só não tens trabalho porque não queres.

Vais participar nas eleições? Para quê? Achas mesmo que isso te vai ajudar a arranjar trabalho? Eu cá não voto na que tu estás... E vou fazer com que a M. também não vote.

Apanhou uma alergia? A pele dela tem de se habituar a tudo.

Estas frases foram dirigidas a mim por diferentes pessoas da minha família alargada. São apenas alguns exemplos daquilo que eu ia recebendo em almoços de família, em jantares, em festas de Natal e Ano Novo. A cada uma delas ia morrendo um bocadinho por dentro. Sempre ouvi calada. Sou avessa a conflitos e não queria criar atritos. Chorei muitos dias. Sentia-me incompreendida, sentia que aquele grupo de pessoas a quem eu chamava família não me conseguia conhecer na realidade. 
Desde 2012 que me vi a atravessar um deserto pessoal muito grande. Passei por uma situação de desemprego, decidi aventurar-me por um doutoramento, comecei a fazer pequenos trabalhos para ganhar dinheiro. Trabalhei em congressos. Não fui de férias. Aceitei roupa em segunda mão. O meu pequeno trabalho foi crescendo. No doutoramento aproveitei tudo o que me mandavam fazer. O blogue e os livros foram a minha boia de salvação. 

Em muitos destes momentos de angustia, valia o apoio de uma das melhores pessoas que a comunidade da blogosfera me deu, a minha amiga Daniela e da minha amiga J. Tenho uma enorme gratidão por estas duas pessoas. São mais família do que muitos primos(as) e tios(as). São duas pessoas que quero manter na minha vida pelas coisas positivas que me oferecem. Desejo-lhes o melhor do mundo e quero ser presença na vida delas, ajudando-as a alcançar coisas positivas. 

Eu sei que não sou uma pessoa fácil. Sou introvertida, tenho gostos muito particulares... Fujo um pouco ao padrão daquilo que são os membros da minha família. Mas eu precisava de alguma libertação. A minha autoestima estava a degradar-se, tudo era negativismo. Sentia que me estava a transformar numa pessoa tóxica para outras pessoas e para mim própria. É claro que também me tornei uma pessoa mais desligada dos outros. Se já tinha poucas relações, estes acontecimentos só fizeram com que elas diminuíssem ainda mais. Não tinha autoconfiança. Não conseguia dar mais de mim aos outros. Não sou uma pessoa muito afetuosa ou de andar com comentários melosos ou dos "amo-te" fáceis em mensagens privadas ou nas fotografias das redes sociais (como outros familiares fazem). Sou uma pessoa mais prática, que prefere estabelecer poucas relações mas mais profundas e com significado. Não sinto falta de ter muitas pessoas à minha volta. Sou feliz com poucas. 

Em finais de 2018 comecei a minha libertação emocional. Deixei de oferecer prendas de aniversário e de Natal, passei a dizer mais vezes não, comecei a distanciar-me emocionalmente das pessoas. Em 2019, o distanciamento físico também começou a ser possível e desliguei-me ainda mais da família alargada. Deixei de partilhar opiniões, sonhos, vontades e necessidades. Passei a viver ainda mais calada. A libertação final aconteceu em janeiro deste ano. O elo que ligava toda a gente quebrou-se e o distanciamento solidificou-se.

Estes dias tenho pensado muito sobre o meu percurso e foi inevitável não associar este afastamento às coisas boas que têm acontecido na minha vida desde o verão de 2019. 
Em julho de 2019 terminei o doutoramento e em agosto recebi logo o convite para trabalhar numa clínica. Em outubro sou convidada para integrar uma equipa de investigação maravilhosa que me ofereceu das melhores experiências da minha vida. Em janeiro de 2020 ganho um pequeno contrato de trabalho que me deixou imensamente feliz. Em fevereiro, o projeto de investigação que integrei começou a remunerar o meu trabalho. A pandemia veio, mas o trabalho foi sempre aparecendo. Ganhei clientes no Zaask, passei a acompanhar teses e ajudar com análise de dados. Clientes que também me ensinaram muito e que se tornaram uma verdadeira fonte de inspiração. Em outubro, dias antes do meu aniversário, ganho a melhor prenda de todas: um trabalho remunerado, a tempo inteiro e que me tem dado uma alegria e satisfação que já não sentia há muito tempo. Sinto-me valorizada como pessoa e como profissional 
Em outubro também ganhei a B., uma rapariga que se tem revelado uma pessoa de luz e que quero manter na minha vida. 

Mas nem sempre o passado fica onde deve ficar. Há uma altura em que ele te vem cobrar as escolhas que fazes. Há algumas semanas, uma pessoa da família proferiu algumas acusações menos bonitas, cobrou a minha atenção, semeou um sentimento de culpa que não tem sentido. Fez-me sentir uma má pessoa quando disse que não me dou com ninguém e que por isso devo ter algum problema. 
A minha autoestima vacilou e não me tenho sentido emocionalmente forte. Tenho lido muito pouco. Uma enorme dificuldade de concentração. Comecei a duvidar das minhas próprias escolhas. 
A palavra família tem muita força. Os laços de sangue impõem-se perante muitas coisas. Mas onde fica a minha valorização pessoal? Onde fica a minha sanidade mental? No fundo sinto que sou eu contra um mundo do qual não sinto que faça parte. 

Não acho que haja inocentes ou culpados. Há a minha verdade, há a verdade dos outros. E todos estamos certos. Um acontecimento gera outro e, de repente assistimos a uma sequência de acontecimentos que vão determinando o nosso comportamento e a forma como escolhemos nos relacionar. Tenho plena consciência das minhas imperfeições e do que preciso de melhorar em mim. 
Dentro de mim, aqueles comentários "simpáticos" que me eram oferecidos já estão perdoados e resolvidos. Já lá foram e em nada me definem enquanto pessoa, mas não me sinto com vontade de estabelecer laços. Não quero voltar a ouvir estas coisas, não quero voltar a viver na sombra e coberta de nuvens cinzentas que ofuscam o sol da minha vida. 

Estou a fortalecer-me para voltar às publicações, sortear o livro da Ana Gil Campos e atualizar o Bando Lusitano que este mês estará em pausa. 

Pág. 3/3

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