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Por detrás das palavras

Desafio dos Pássaros #13 | "Um dia"

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Quantas vidas temos oportunidade de viver? Era uma questão recorrente na mente de Dexter. Ele agradecia todas as oportunidades que tinha tido, mas hoje precisava da oportunidade mais importante de todas.

Ali, à cabeceira daquela cama de hospital onde Emma se mantinha inconsciente, Dextar implorava para que ela se agarrasse à vida.

– Vá lá Emma, onde andas? Tens um livro para acabar! – Dexter afagava-lhe a mão enquanto as lágrimas lhe varriam o rosto. – Quem é que irá aturar os teus fãs? Eles estão à espera do teu livro no Natal.

O choro embargou-lhe a voz, roubou-lhe a coragem e deixou que a cabeça abatesse ao lado do braço de Emma.

Soluçava violentamente quando uma mão lhe começou a afagar o cabelo e a voz rouca, que tanto ansiava, lhe inundou os ouvidos.

– Fãs, Dexter? Trocaria todos os meus fãs e todos os meus livros por um daqueles pequenos-almoços que só tu sabes preparar – um silêncio instalou-se no ar e as lágrimas de Dexter começaram a dar tréguas. Emma aproveitou para recuperar forças e continuou. – Não estás a sonhar, Dexter! Voltei para te infernizar a vida… E temos uma discussão para resolver.

Dexter levantou a cabeça e os seus olhos encontraram o sorriso sincero e apaixonado de Emma. Sorriu-lhe de volta e, muito delicadamente, envolveu-lhe o rosto com as mãos e beijou-a. Primeiro nos lábios… depois cobriu-lhe o rosto de beijos molhados pelas lágrimas que agora eram de alegria. 

– Voltaste, Emma! VOL-TAS-TE para mim! – mais beijos desesperados foram trocados

Emma gemeu. Ainda tinha muitas dores no corpo. O acidente tinha sido muito violento, mas algo permitiu que ela sobrevivesse. Este gemido colocou Dexter em alerta.

– Desculpa, desculpa, querida! Estou a magoar-te… Mas estou tão feliz por te ter aqui. Era impossível imaginar-me a viver sem ti. Preciso de ti, preciso do amor que me dás… preciso de te dar amor. Não interessa que o nosso amor não se materializa no bebé que tanto queremos, porque o mais importante foi a morte não te ter levado – com uma grande ternura acaricia-lhe os cabelos, as ligaduras que lhe cobrem o corpo e para com a mão em cima do coração dela. – Assim que soube, vim a correr para aqui! A primeira coisa que fiz foi colocar a mão no teu coração. Precisa de sentir que ele estava aí, a lutar e a recusar deixar-me.

Trocaram um sorriso enquanto se perdem num delicado abraço.

Desafio dos Pássaros #12 | Um barulho ensurdecedor

Tema 12: Aqueles pássaros não se calam.

− Estou a ficar aborrecida! Aqueles pássaros não se calam e não nos deixam ouvir o que se passa lá em baixo, no salão de baile.

− Vejo-me a concordar consigo, Lady Maria. Esses pássaros estão numa cacofonia irritante. Tal como a senhora, também gostava de ouvir o que se passa no salão.

A duquesa Celeste olhou pela janela e continuou o diálogo com a sua companheira.

− Não consigo perceber que tipo de pássaros são. Pensei que os conseguiria distinguir pelo canto. Infelizmente os meus olhos não conseguem alcançar imagens longínquas.

− A duquesa começa a sofrer as dores da idade. Já eu, não é só a falta de visão que me atrapalha. Daria tudo para que as minhas pernas fossem ágeis o suficiente para dançar com todos os cavalheiros do salão.

− Lady Maria, acha que foi por causa das nossas limitações que nos relegaram para estes aposentos?

− Talvez tenha razão, cara duquesa. Já não somos aquelas jovens que deslizavam pelos salões de baile e arrebatavam os corações dos duques e condes da nossa sociedade.

− Já não aguento este barulho, cara duquesa. Entra-me pelos ouvidos de uma forma que está a dar cabo da minha cabeça. Acho que deveríamos chamar o senhor desta casa e exigir que nos levem para o salão.

− Estou de acordo consigo. Lá por sermos mais velhas temos direito a estar no salão. Podemos já não ter o brilho de outras épocas, mas gostamos de apreciar um bom baile e…

− Estar a par dos mexericos da alta sociedade. – disseram as duas em uníssono, complementando com uma gargalhada bem sonora.

As duas senhoras começaram a fazer muito barulho junto da janela para tentar afastar os pássaros.

Estavam tão distraídas na árdua tarefa de afastar os pássaros que não se aperceberam que alguém abriu a porta e entrou no quarto.

− Minhas senhoras, o que estão a fazer ao pé da janela? Não se deviam ter levantado da cama sozinhas!

− Não está a ver todos estes pássaros aqui junto à janela? Agora estão calados, mas há pouco faziam muito, muito barulho.

A Célia olhou para o relógio e sorriu.

− Dona Celeste e Dona Maria, venham comigo. Está na hora do vosso pequeno-almoço e de tomarem a medicação.

− E estes pássaros todos? – perguntou Dona Celeste.

− Não se preocupem. Logo à noite, quando regressarem ao quarto, já não estarão cá.

Desafio de Escrita dos Pássaros # 11 | Riscas e Tico: uma amizade (im)provável

Tema 11: Um dia na tua família… do ponto de vista do teu animal de estimação

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Eu sou a Riscas, uma gata cheia de personalidade e com uma história muito peculiar. Fui eu que escolhi os donos. Confusos? É simples! Vivia aqui na rua com a minha primeira família e com toda uma turma gatina. Há uns tempos esta minha família mudou de casa. Eu não gostei do espaço. Fugi e voltei para a minha antiga rua. Vieram buscar-me 3 vezes, mas eu fugia sempre para aqui.

No início foi complicado. Não me aproximava de ninguém, vagueava pelos campos, fazia as minhas caçadas. De entre as várias casas da rua havia uma com potencial. Era grande, com comida e muito espaço para passear. Faltava o mais difícil: imiscuir-me no seio daquela família. Qual foi a melhor forma? Tornar-me amiga do peludo que lá vivia.

O cão era um tipo simpático, mas muito ciumento. Recebia demasiados mimos daquela gente. Era um rei dentro de casa. Duvidam da minha palavra? Então vejam só: era ele que ocupava o sofá maior escolhendo quem ficaria ao pé dele; no Inverno, andavam sempre com a cama dele às voltas para que ele apanhasse o sol que queria... Era uma chatice, não estava a conseguir conquistar muito espaço no meio daquela gente. Pelo menos, sempre me alimentaram.

Foram simpáticos comigo! Deram-me espaço e, com o tempo, fui-me aproximando. Consegui partilhar a cama com o cão, o prato dele e, nos raros momentos de bondade canina, até um lugar no sofá me foi permito (mas sempre com o devido respeito por ele). Ganhei um amigo e uma família.  

Há uns tempos atrás as coisas mudaram. O Tico esteve fora e voltou um pouco estranho. Durante o dia foi ficando pior e eu só via a minha nova família triste. Ao fim do dia, saíram de novo com ele. Voltaram com uma caixa e muita tristeza. Eu bem miei em volta da caixa, que cheirava ao Tico, mas ninguém me explicava o que estava a acontecer. Foram dias muito tristes. Não sabia do meu amigo, a família andava estranha e eu só ouvia “Lembras-te quando o Tico descobriu a Pipoca (esta é outra com ar de importante)?” ou “Já viste, faz como o Tico!” e eu só me apetecia grimiar EU NÃO SOU UM CÃO!

 Nunca mais vi o Tico! Agora sou eu que comando. Faço o que quero, mio de acordo com as minhas necessidades e não é que eles me percebem sempre?

 

Nota:
Para saberem mais sobre o Tico podem ler aqui e aqui
A Pipoca é uma Agapone que eu alimentei desde bebé. É como qualquer outro animal de estimação. Reconhece-nos, interege connosco... Mas é um bocado rufia e bica tudo à sua passagem. Tinha fotografias dela noutro telemóvel e não consegui recuperar nenhuma paa colocar aqui.

Desafio de Escrita dos Pássaros # 10 | Já chegaram? Já chegaram?

Tema 10: Já chegamos? Já chegamos?

Elisa aproximou-se da porta e bateu. Foi um baque tímido e hesitante. Afinal, o que é que a esperaria por detrás daquela porta? Voltou a bater. Desta vez com mais força e confiança. Do outro lado, chegaram-lhe os sons de uma voz entusiasmada de passos firmes.

– Já chegaram? Já chegaram? – ouviu-se do interior.

Elisa respirou fundo, preparando-se para entrar.

Um homem de sorriso no rosto veio recebê-la:

– Querida sobrinha! – abriu os braços para a receber. – Como estás? – sem responder, Elisa deixou-se envolver naquele abraço. – Vieste sozinha, minha querida?

– Sim, tiooooo…

– Óscar, Alice. Tio Óscar. – Agora Elisa seria a Alice que sorria ao suposto tio. – Estavas dizer-me o motivo que fez com que nos visitasses sem companhia.

– Bem…. Tio, como sabe o Edgar, o meu marido não me pode acompanhar porque…

Óscar aproxima-se mais da sobrinha. Coloca-lhe a mão no ombro, fazendo com que ela parasse de falar. Ele assumiu logo o protagonismo.

– Edgar deverá andar muito ocupado com os negócios? – olhou a sobrinha nos olhos, ao – Espera, não me digas que o teu Edgar foi para a frente de batalha…  Que se sacrificou pela pátria! O nosso valente está na Flandres?

– Pai, pare. Não vê que está a deixar a minha prima constrangida e ainda mais triste?

­­Óscar olhou para a filha, sorriu de forma nostálgica e disse: – Tens razão, querida filha – move o olhar em direção à sobrinha e continua, agora para ela. – A tua prima Justina é sempre mais sensível às dores dos outros…

– PAREM!! – O grito chegou da plateia.

Afonso o encenador interrompe o exercício de improvisação que Elisa, Rodrigo e Eduarda tinham estado a fazer.

– Porra, Rodrigo! Não estás a deixar a Eduarda falar. Toda a história está a ser condicionada por ti. Assim o exercício perde o interesse. O objetivo é que todos interfiram para a construção da história.

Rodrigo assentiu e Afonso continuou.

– Elisa, estás com um ar demasiado perdido. Não entraste no espírito da dramatização nem do improviso. Tens de fazer valer a tua visão e ser mais interventiva na história. Eduarda, qual foi o papel que te calhou?

– O de uma jovem com doença mental grave!

– Pois, eu ainda não vi nada disso!! Foquem-se nos vossos papéis, dramatizem!! Às vossas posições, vamos recomeçar.

Elisa sai da sala, fecha a porta da parede improvisada e bate novamente. Lá dentro os gritos histéricos de Justina chegaram aos ouvidos de Elisa:

– Já chegaram? Já chegaram?

Desafio de Escrita dos Pássaros # 9 | (IR)Realidade

imagem retirada daqui

Tema 9: Acordaste nu, sem te recordar de nada, numa ilha deserta

Acordo com o barulho suave das ondas a desfazerem-se na areia. Não consigo abrir os olhos. As pálpebras pesam-me. Permaneço de olhos fechados e acompanho o movimento das ondas a varrer a areia. Para cima, para baixo, para cima para baixo… Ah! E este sol que me afaga o corpo com ternura e que o aquece!! Tão quente! 

Tento por o meu cérebro a trabalhar… Onde estou? Espera aí! PRAIA? SOL? ONDAS? Como é que vim aqui parar…. 

Uma sensação de pânico alastra pelo meu corpo. O medo ativa os meus sentidos e abro logo os olhos. Deparo-me com um sítio muito bonito. Olho para o meu corpo e… ups… Não tenho nada vestido. Que vergonha! Tento tapar todas as partes necessárias, mas sinto-me uma contorcionista a tentar fazer com que as mãos cheguem para todas as minhas zonas que deveriam estar ocultas. 

Por momentos esqueço a confusão. A minha prioridade é arranjar forma de me colocar apresentável. E se aparece alguém? Nem quero imaginar! Começo a explorar a ilha e recolho algumas folhas de diferentes tamanhos. Aproveitando as nervuras de uma folha mais resistente consigo unir folhas suficientes para um biquíni super ecológico e feito com produtos naturais e biodegradáveis. 

Agora tenho de resolver toda a agitação mental que povoa a minha cabeça. Primeiro tento lembrar-me de onde estava antes de cá vir parar… Mas nenhuma memória aparece! Começo a gritar por socorro. 

– Eiiiiiiiiii…. Está aí alguém? Alguém me ouve? 

Bem… os índios usavam o fumo para comunicar! É isso, tenho de fazer uma fogueira!! Começo à procura de material e…

– Alice? Alice? 

Abro os olhos, confusa. Puff… Afinal, era um sonho! Bem melhor do que esta realidade! Vejo a enfermeira Dulce que olha para mim com uma expressão estranha.

– Desculpa, Alice, mas precisam de ti na urgência. Acabou de chegar um ferido grave. 

Continuo a não gostar daquela expressão e arrisco a pergunta: − Passou-se alguma coisa Dulce? 

– Há quantos dias fazes noite? – o sorriso espalhou-se pelo rosto do meu braço direito no hospital. 

− Há muitos! – encolho os ombros e continuo. – Sabes que há falta de médicos na urgência.

– Pois há… mas precisas de descansar, estavas a ter um sono um pouco… agitado – hesitou, sem saber se devia continuar. – Gritaste e estavas a tapar as mamas e a zona genital com as mãos…. Precisas de dormir. 

Um tom rosado tinge a minha cara.

Desafio de Escrita dos Pássaros # 8 | Escreve uma carta para a criança que foste

Tema 8: Escreve uma carta para a criança que foste

Braga, 1 de Novembro de 2019

Podia escrever-te muita. Podia contar-te sobre aquilo que a criança que fui não fez e que hoje me deixa uma adulta mais vulnerável e com (muitas) falhas. Podia avisar-te sobre como fazer escolhas mais acertadas para que hoje em dia as dificuldades não fossem tantas. Tanta coisa que poderia escrever, mas não quero. E sabes porquê? Porque, apesar de todas as dificuldades atuais eu gosto da pessoa em que me tornei. Há sempre aspetos a melhorar, há sempre espaço para evoluir. Mas sabes, vais aprender que é essa a magia da vida, ou seja, a nossa capacidade de reinventar a nossa vida e as nossas forças. 

Vais aprender muito, vais chorar e sorrir, vais arrepender-te, mas tudo isso faz parte da vida. Tudo isto vai ser um enorme processo de construção de uma pessoa que nunca estará acabada. 

Serão os momentos que irás colecionar que te tornarão mais forte e mais sábia. E, em cada momento de tristeza, em cada momento de escolha irás aprender e irás retirar alguma coisa que te tornará em alguém único. E isso é o mais importante a reter. 

Acima de tudo, vive! Sem medo e sem pressa de chegar.

Desafio de Escrita dos Pássaros # 6 | Só o amor não basta

Tema 6: Escreve uma história romântica baseada no clássico "O Amor, uma cabana… e um frigorífico"

Quem lhe mandou acreditar cegamente nele? Como é que caiu tão facilmente na conversa de que o amor deles era suficiente para enfrentarem as dificuldades da vida? 

Estão juntos há cinco anos e, nos últimos dois, gastaram o pouco dinheiro que tinham em tratamentos para engravidar. Por ela, já há muito que tinham parado. Estava assustada por ver as suas poupanças a perderem-se em tratamento sem certeza de eficácia. Estava triste porque percebeu que um casal pode ser feliz sem filhos. Mas ele não partilhava da mesma opinião. Ele queria um filho a toda a força. 

– Adotamos? – propôs-lhe ela, num manhã de descrença e farta de o ouvir dissertar sobre a opinião dos outros perante a situações deles. 

– Estás louca? – Ele estava possesso. – Não percebes que um filho adotado não faz nós família aos olhos dos meus pais e dos meus amigos? Precisamos de um filho biológico. 

Ela sentou-se, apoiou a cabeça nas mãos e disse: – Este assunto está a destruir a nossa relação, está a piorar a nossa qualidade de vida, não percebes? - Ela levanta a cabeça e com os olhos cheios de água e continua, aos gritos: – EU NÃO AGUENTO MAIS! ESTOU CANSADA DOS TRATAMENTOS, CANSADA DE TRABALHAR COMO UMA DOIDA PARA SUPORTAR AS CONTAS, CANSADA DE CONTAR OS TOSTÕES PARA PODERMOS COMER! 

Ele paralisou perante a dureza destas palavras. Mas ela não percebia. Como é que ele poderia desistir de ter um filho? Simplesmente não podia deixar margem para comentários dessagráveis relativamente à sua masculinidade. 

– Se sentes isso, podemos pensar na alternativa de encontrar alguém que seja nossa barriga de aluguer! 

– Não estás mesmo bom dessa cabeça. Para mim, basta. Não dou mais para esse peditório. 

Ela levantou-se e dirigiu-se ao quarto que partilhavam. Arrumou as suas coisas e transportou-as para o carro. Antes de descer com a última mala disse-lhe: 

– Depois entro em contacto contigo para tratarmos do divórcio. Considera-te livre de fazeres o que bem entenderes. – Virou-se para abrir a porta, mas de repente lembrou-se que ainda tinham mais uma coisa a dizer-lhe. – Ah! Já me esquecia, o frigorífico estragou-se. 

Ele olhou para ela e assentiu… Ficou a vê-la a sair e a pensar naquilo que ela sempre representou para ele. E no fim, só uma coisa pairava na sua cabeça: como é que viveria sem ela?

Desafio de Escrita dos Pássaros # 4 | A pasta

(imagem tirada daqui)

Tema 4: A Beatriz disse que não. E agora?

Beatriz regressava a casa depois de um dia de trabalho. Cansada, decide parar na pequena padaria do costume para beber um chá e aquecer-se neste dia frio. 

Entra e escolhe a mesa mais isolada. Ao mesmo tempo que se sentava, reparou numa pasta de couro ali esquecida. Ignorou-a e sentou-se. Decidida a esquecer a pasta, fez o seu pedido e aguardou. Em minutos o seu chá chegou à mesa, mas, ali ao lado, a pasta queimava mais que a chávena de chá. 

Tentou ignorar o objeto ali esquecido, mas a curiosidade estava a ganhar terreno dento de si. Deixou-a vencer e pegou na pasta. Passou a mão pelo revelo das iniciais que estavam gravadas, LA. 

Arqueou uma sobrancelha enquanto pensava se devia ou não abrir a pasta. Abriu! Quem sabe até podia descobrir a quem pertencia e arranjar forma de lha devolver. Desapertou o laço que unia as duas partes. Começou por ver um esboço de uma ilustração das mesas e dos clientes daquela mesma padaria e, colado na parte de trás da capa, um nome e um número: 

Lourenço Alves 

956 742 323 

Bem… Afinal iria poder devolvê-la, mas não sem antes explorar um pouco o seu conteúdo. 

Desenhos de paisagens, pessoas e situações do dia-a-dia ilustravam folhas de papel branco. Ele tinha talento, muito talento! Pelo meio um desenho chamou-lhe a atenção. Pousou a pasta na mesa e segurou o desenho para o poder analisar. Ilustrava uma cliente, naquela mesma padaria, junto ao balcão a fazer o seu pedido. As feições eram-lhe familiares. Olhou bem e identificou o seu próprio rosto. Continuou a folhear os desenhos guardados na capa e encontrou mais desenhos seus. 

Uma pontada de receio atravessou-lhe a mente. Para si mesma disse, “Não, já não lhe vou ligar coisa nenhuma! O melhor é deixar a pasta no balcão.” 

Guardou tudo, terminou o seu chá e levantou-se para pagar levando a pasta consigo. 

– Quero pagar, por favor. 

– É um 1.55€ - respondeu a funcionária com um sorriso. 

– Olhe, esta pasta estava ali no banco da mesa onde me sentei. Acho que alguém se esqueceu dela – disse a Beatriz para a funcionária ao mesmo tempo que lhe entregava a pasta. 

– Obrigada! – olhou para a pasta e sorriu. – Sabe, é do meu namorado. Esteve aqui há pouco. Nunca a larga nem nunca me deixou vê-la. Acho que vou aproveitar o esquecimento dele.

Desafio de Escrita dos Pássaros #3 | Um momento marcante

Tema 3: Uma aventura/momento que te tenha marcado

O tema desta semana apela a uma escrita mais pessoal. Ao longo da vida somos presenteados por diferentes momentos que nos marcam, quer positivos quer negativos. Podia invocar aqui muitos, mas vou recordar o mais recente: o doutoramento. 

Fazer doutoramento não era um objetivo a curto prazo. Era um sonho para ser concretizado mais tarde. Mas a vida gosta de nos pregar partidas e abala com os nossos planos. Em 2012 fiquei desempregada. Fui trabalhando noutras coisas, contudo sentia-me cognitivamente pouco estimulada. Precisava de algo que me fizesse pensar e que fosse desafiante. Tanto pensei que, em 2014 decidi candidatar-me a doutoramento. Tinha algum dinheiro de reserva e pensava candidatar-me a uma bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia. 

Foi um percurso cheio de buracos no caminho. Caí muitas vezes ao chão, levantei-me outras tantas. Candidatei-me três vezes a bolsa, sem sucesso. Esfolei-me a trabalhar, aproveitava tudo o que me era possível para ganhar dinheiro. Desenvolvi o meu projeto de investigação ao mesmo tempo que colaborava com outros projetos, dava aulas a alunos de mestrado e ganhava outro tipo de experiência profissional. Estive longe de fazer um percurso linear, porém foi cheio de aprendizagens e onde conheci pessoas fantásticas. 

Apesar de todas as dificuldades, o dia da defesa chegou mais depressa do que aquilo que eu estava à espera. É um dia onde as emoções ficam demasiado intensas, em que sentimos que tudo poderá correr muito bem ou muito mal. No meu caso correram muito bem. Ainda com direito a lágrimas, porque a minha orientadora emocionou-se e eu não me consegui controlar. Será sempre uma pessoa que irei recordar para a vida e de quem não quero perder o contacto. Devo-lhe imensas coisas e ser-lhe-ei sempre grata por todas as oportunidades que me proporcionou. 

Um dos meus objetivos com o doutoramento era conseguir mudanças na minha vida profissional que me permitissem conquistar a minha total independência (pessoal e financeira). Até ao momento esse objetivo ainda continua por concretizar. Só passaram dois meses desde que terminei, tenho de ser um pouco mais paciente e confiar no futuro. Quero acreditar que as coisas serão diferentes e, num piscar de olhos, a minha independência será conquistada. Nem sempre é fácil manter um espírito otimista, principalmente quando penso em todo o meu percurso e nos sacrifícios implicados e das coisas que abdiquei. Mas lá chegarei.

Desafio de Escrita dos Pássaros #2 | O amor que mata por dentro


Tema 2: O amor e um estalo
17 de outubro de 2018 

Hoje dei-lhe um estalo. A minha vontade era espancá-lo. Porque é que não respondeu às minhas mensagens? Porque é que ignorou todas as minhas chamadas? É impossível não perder a paciência com um namorado assim. 

Só tínhamos aulas de tarde. Assim que acordei, mandei-lhe a habitual mensagem de bom dia, à qual ele respondeu dizendo que ia começar a estudar para o teste de Filosofia. A sério que ele ainda perde tempo a estudar? Ele que não precisa de se dar a esse esforço? Ele tinha era de responder às minhas mensagens, atender as minhas chamadas e ouvir-me. Estava desesperada por lhe contar a horrível discussão que tive com os meus pais logo pela manhã. Mas ele escolheu ignorar necessidades da sua namorada. 

Passei o resto da manhã a ferver de nervos. Como é que ele podia ignorar-me? Terminei de almoçar e fui logo para a escola. E o que é que encontrei? O senhor Gaspar no meio daquelas miúdas com os livros de filosofia pelo meio. Há quanto tempo lá estaria? Porque é que as estava a ajudar? Porque é que ele não me respondeu? Custava-lhe assim tanto dizer onde estava, que parte da matéria estava estudar, o que iria ser o almoço dele, o que iria levar vestido para escola… Que nervos!!! 

Foi neste estado que me dirigi até ele: 

- Gaspar? 

Assim que se virou para mim o sorriso desapareceu-lhe da cara. Que mal fiz eu ao mundo para ter um namorado que nos últimos tempos, sempre que me vê, fica com cara de quem está num funeral! 

Fiquei ainda mais aborrecida. Levantei a mão. Concentrei toda a minha força nela e bati-lhe. Ficou com os meus dedos marcados na face. 

De repente parece que tudo à nossa volta parou. Viu-o respirar fundo várias vezes. Até que finalmente abriu a boca. 

- ESTOU FARTO! FARTO DO TEU CONTROLO, DA TUA FALTA DE VONTADE EM FAZER COISAS ÚTEIS. Nunca queres estudar, estás sempre a querer saber tudo da minha vida. Não me dás espaço, não me deixas respirar. Estou cansado disto. 

Como é que ele se atreve a questionar os meus atos de amor por ele? 

Senti-me humilhada. Virei-lhe as costas. Ainda olhei para trás, talvez ele se arrependesse e viesse atrás de mim, mas não o fez. Isto não ficará assim. 

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