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Por detrás das palavras

Por detrás das palavras

12
Jun21

Aventuras-te a escrever ? | Ser mulher

Lisboa, 1910

Sou mulher e não me sinto livre. Tive acesso à melhor educação, mas não posso exercê-la porque o meu papel é fazer um bom casamento e gerir a casa e cuidar do meu marido. Quer ser livre, quero escrever para o jornal.

Estou sentada, a beber o meu chá. Aproveito para ler o jornal enquanto estou sozinha.

– Outra vez a ler o jornal, Adelaide? Isso não é ocupação para si.

Reviro os olhos e suspiro antes de me voltar na cadeira para encarar a minha mãe. Opto pelo sorriso plácido e submisso que tanto derrete o coração da minha mãe.

– Senhora minha mãe, não há mal nenhum em ler notícias e perceber o que passa além dos muros da nossa propriedade.

– As mulheres não precisam de se preocupar com aquilo que passa fora das paredes das suas casas.  Aliás, a gestão doméstica é ocupação suficiente.

A minha mãe analisava a sua manicure enquanto divagava sobre as funções femininas e a gestão doméstica. Enquanto a ouvia, pensava naquilo que tinha visto na última página do jornal: queriam pessoas que escrevessem para o jornal. Na minha cabeça pensava nos temas sobre os quais gostaria de escrever. Queria escrever sobre muitas coisas, mas as questões políticas e o clima tenso que se vivia no reino faziam com que a minha cabeça fervilhasse.

– Adelaide, ouviu o que eu lhe disse?

Tinha-me perdido nos meus pensamentos que desliguei da conversa da minha mãe.

– Peço desculpa, minha mãe! Estava a pensar no que vestir para o baile de primavera na casa do Marquês.

Sorri por dentro ao ver a minha mãe sorrir. Sabia que este era o tema certo para desviar a sua atenção sobre os meus verdadeiros sentimentos.

– Será uma festa maravilhosa. Cheia de cavalheiros distintos que Adelaide deverá conhecer.

– Não duvido minha mãe. Se me dá licença, vou retirar-me para o meu quarto. Estou a sentir-me um pouco cansada.

Minha mãe assentiu com a cabeça. Levantei-me e fui para o meu quarto. Fui direta à minha escrivaninha peguei numa folha de papel e no meu lápis. Ia escrever o meu primeiro artigo para o jornal.

Decidi que para o meu primeiro artigo iria escrever sobre o ensino e a importância do país escolarizar todas as pessoas.

Na minha opinião todas as pessoas deveriam aprender a ler. Deveriam ter a oportunidade de serem instruídas. Era importante alfabetizar todas das pessoas. Ricos e pobres deveriam de ser capazes de ler os jornais, as revistas, os livros… Depois de escrever revi o meu texto, tarefa que me ocupou até à hora de jantar. Amanhã iria ao jornal apresentar o meu artigo para ser publicado.

O dia amanheceu fresco. Estava com pressa de sair e de ir ao jornal. Não me queria cruzar com ninguém e ter de dar explicações sobre a minha saída. Consegui tomar o pequeno almoço sozinha e sair sem que me cruzar com a minha mãe.

A redação do jornal ficava numa rua próxima de minha casa, por isso segui até lá a pé. Entrei no edifício, subi a escada e pedi para falar com o responsável. Um senhor muito simpático indicou-me a porta do gabinete de quem eu procurava. Bati à porta e entrei.

– Bom dia! Posso entrar?  – Do outro lado o homem respondeu-me com um gesto que me incentivada a entrar. Eu entrei e continuei. – Chamo-me Adelaide, vi o anúncio no seu jornal que pediam pessoa para escrever artigos para o jornal. Eu gosto muito de escrever e queria que o senhor visse o meu artigo e me dissesse se era possível publicá-lo.

– Com certeza menina Adelaide.

Ele estendeu a mão e eu dei-lhe a folha que continha o meu trabalho.

Vi pequenas rugas a desenharem-se na testa do homem enquanto lia o meu texto. Algumas expressões sugeriam que ele estava a gostar do que lia. Ele terminou e olhou-me nos olhos.

–  O seu artigo está muito bom, mas eu não posso publicá-lo.

– Não pode? Como assim?

– Menina, o anúncio era dirigido apenas aos cavalheiros. Não aceitamos artigos escritos por mulheres.

Queria protestar, mas aquilo tinha-me deixado sem energia. Parece que a única regra para ter voz na sociedade era ser homem. Que poderia eu fazer? Afinal, ser homem era a única regra.

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