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Por detrás das palavras

Conto de Natal | Que o Natal seja o que quiseres

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(imagem retirada daqui)

A imsilva do blog Pessoas e coisas da vida lançou o desafio de escrevermos um conto de Natal. Depoois de alguns dias a marinar a ideia, lá consegui escrever alguma coisa. Espero que gostes Isabel.

― O que fazes aqui? – Rodrigo levantou os olhos da sua ceia de consoada para a encarar.

Ela sorrio e encolheu os ombros. Começou a despir o casado. Enquanto o colocava na cadeira perguntou-lhe:

― Onde é que posso pegar num prato e pegar na minha ceia.

Rodrigo continuava a olhar para ela. Ainda não acreditava que ela estava ali, à sua frente. A voz dela despertou-o.

― Então, vais dizer-me ou não?

Ele acenou com a cabeça e com o dedo apontou-lhe para um espaço ao fundo da sala.

― Obrigada! Agora come um pouco mais devagar. Melhor! Para de comer e espera por mim. Vim aqui para jantar contigo.

E lá foi ela em direção ao local onde estava a mesa com a loiça e a comida.

 

2 horas antes

― Não podes estar bem!! Como é que me dizes que não vais passar a consoada connosco, a tua família!!

― Queres que repita, mãe?

― Não, essa parte eu percebi! O que eu não percebi são os motivos que te levam a trocar a tua família por um bando de pessoas desconhecidas.

Sofia enterrou o corpo no sofá e respirou fundo. Estava a dar-se tempo para se justificar perante as acusações da mãe.

― Mãe, já sou adulta. Sempre me senti deslocada nestes jantares e almoços. Contigo e com o pai é diferente. Consigo estar de forma descontraída e sem uma ponta de ansiedade. Com os tios, as tias e os primos é um sufoco. Sinto que não pertenço ali! É sempre um esfoço enorme para conseguir passar aquelas horas em que estamos todos juntos.

A mãe abanava a cabeça. Não consegui compreender este lado reservado e calado da filha. Não conseguia compreender o seu gosto pelos momentos solitários.

― Não faz sentido nenhum. O Natal é com a família! – A voz da mãe já saía alterada.

― Tens razão, mãe! Natal é com a família, com a de sangue ou com aquela que escolhemos para ser.

Sofia olhava a mãe em busca de compreensão.

― Vá lá, mãe! Não dificultes as coisas. Permite um Natal diferente, um Natal onde me possa sentir eu. Sem aquela sensação de estar a fazer um frete. Sem ansiedade.

A mãe só abanava a cabeça. Estava surpreendida com este comportamento da filha. Sempre a viu muito calada nos encontros de família. Interagia pouco, não fazia conversa. Para ela a justificação era simples: Sofia é um “bicho-de-mato” que não sabe fazer conversa, que não se esforça por se integrar.

― Podes dizer-me pelo menos onde vais passar o Natal.

― Sim, claro. Vou passar na associação que dá apoio aos sem-abrigo e que é apoiada pela empresa onde eu trabalho.

― Há alguma razão especial para preferires passar o Natal com os sem-abrigo em vez da tua família?

― Há… É um lugar onde posso ser eu.

A mãe acenou com a cabeça. Sabia que não iria ganhar esta batalha. Não podia obrigar a filha, adulta, a ir onde não queria, mas estava intrigada com esta ideia dela consoar com os sem-abrigo.

****

 

Sofia vinha toda animada com o seu prato e a sua bebida. Sentou-se em frente do Rodrigo.

― Obrigada por esperares por mim – sorriu-lhe e estendeu a mão para tocar na dele. – Este bacalhau cheira muito bem. Bom apetite.

― Sofia? – Rodrigo esperou que ela olhasse para ele. – Não devias estar aqui. É Natal, devias estar com a tua família.

O olhar sério dela assustou-o. O que será que ela teve de fazer para estar ali com ele?

― Também és minha família, Rodrigo! Mais do que isso: és a minha inspiração. Este ano poderias estar em tua casa, mas escolheste vir para aqui.  Ajudaste-me imenso este ano.

Pela primeira vez naquela noite ele sorriu a olhar para ela.

― Isso não é lá muito justo. Quem me ajudou foste tu. Afinal, és a minha superior!

As sobrancelhas de Sofia levantaram-se em jeito de interrogação.

― Não me estava a referir à nossa relação profissional. – Sofia corou e baixou o olhar. De repente a sua coragem tinha ido pelo cano abaixo.

Rodrigo apertou a mão dela, que continuava em cima da sua. Queria captar-lhe novamente o olhar. E ela olhou-o.

― Há três anos, esta era a minha única refeição quente do dia. Vivia no meu carro e usava cada cêntimo que ganhava trabalhos que ia arranjando ou roubava, desta última parte sinto bastante vergonha, para pagar a universidade. Aos 30 anos ser sem-abrigo e estudante parecia uma coisa que só cabia nos romances. Aqui sentia-me em família. Depois terminei o curso e tive a sorte de me cruzar com uma superior, que me orientava no serviço, tão calada quanto eu. Aquela que almoçava na cantina da empresa enquanto os olhos vagueavam por um livro. Um dia ganhei coragem e sentei-me na mesa dela. Perguntei-lhe sobre o livro e ela quase nem conseguiu falar. Acho que até se engasgou com um greiro de arroz que, teimosamente, foi para onde não devia. Depois deste dia almoçamos muitas vezes em silêncio até que conseguimos ultrapassar a nossa timidez e começamos a falar. Eu contei-lhe a minha história e ela chorou. Ela convidou-me para ir ao cinema e fiquei em pânico. Não tinha dinheiro para esses luxos, precisava de preencher a minha nova casa que estava despida. As conversas foram ganhando profundidade e o meu coração foi colapsando ao ritmo das palavras dela. E esse coração quase parou há seis meses, quando ela se virou para mim e disse que queria ser minha namorada. Depois de um primeiro beijo tosco e desajeitado, seguiram-se muitos outros, menos desajeitados e menos toscos – Sofia deu uma pequena risada pelo meio das lágrimas que lhe corriam pelo rosto, mas Rodrigo continuou. – O nosso amor não cobra tempo e espaço do outro e preenche-nos de uma forma que só nós percebemos. Nunca lhe pedi que viesse aqui passar o Natal comigo. Eu precisava de vir. Nos últimos anos já não me limito a comer a refeição quente, ajudo na sua confeção e distribuição. Mas eu preciso de vir aqui, e ela sabe isso, respeita isso. Hoje decidiu dar-me a melhor prenda de Natal e aparecer aqui, de surpresa. Feliz Natal, Sofia!

Sofia não aguentou mais. Levantou-se, contornou a mesa e abraçou com toda a força que lhe foi possível. Rodrigo nunca falava tanto tempo seguido, exceto no dia em que lhe contou a sua história. Hoje excedeu-se, e ela gravou cada palavra dentro de si. A sala encheu-se com o som dos aplausos àquele abraço cheio de amor. Era a vez de Sofia retribuir:

― Um dia, se nos casarmos, quero que seja aqui, na noite da véspera de Natal! Feliz Natal, Rodrigo! – Sofia segredou-lhe estas palavras ao ouvido e foi a vez de Rodrigo chorar.    

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