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Por detrás das palavras

Inquietações #1

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Confiariam numa opinião cujo escritor pagou para a ter?

Ontem, no Instagram, rebentou uma polémica e mostrou o quanto uma rede social se pode tornar tóxica. Passei por diferentes emoções! Comecei por ficar incrédula, cheguei a achar cómico e, no fim, sobrou apenas aquela sensação de que não há empatia.

Para quem desconhece os acontecimentos, faço aqui um breve resumo. A Andreia Ferreira (uma escritora nacional) pediu a uma bookstamgrammer para ler o seu livro e publicar uma opinião no seu espaço online. A bookstamgrammer disse-lhe que o fazia mediante o pagamento de um determinado valor. Isto gerou uma enorme revolta na Andreia.

Eu consigo perceber os dois lados. Nada é exatamente uma coisa ou outra. É tudo muito subjetivo e envolve muito daquilo que é a nossa essência. Apesar de conseguir compreender ambas as partes envolvidas, confesso que fiquei solidária com a Andreia e estou aqui para explicar o meu ponto de vista.

É a minha opinião, que vale o que vale no meio de todas as outras opiniões válidas que foram partilhadas. Opinião, cada um tem a sua e nenhuma deles é certa ou errada. Errada é a forma agressiva e desrespeitosa como muitas vezes expressamos essa mesma opinião.

A publicidade é um serviço. Um serviço pago por empresas para que um determinado produto “encha” os olhos do consumidor e o faça acreditar que é impossível viver sem comprar aquilo. Peço a vossa atenção para um excerto da definição de publicidade que eu retirei da infopédia:

A finalidade da publicidade é despertar, no consumidor, o desejo pela coisa anunciada ou criar e manter o prestígio do anunciante. Para isso, tem como objetivos informar o consumidor sobre o produto, as suas características e os lugares ou as formas de aquisição; aumentar a notoriedade e hipóteses de aquisição; diminuir o esforço de compra, ajudando a tomar uma decisão; e influenciar na decisão de compra.” (https://www.infopedia.pt/$publicidade)

Atendendo ao conceito de publicidade e àquilo que ele implica, até que ponto a opinião de um livro que é paga pelo escritor é sincera? Um escritor pagaria uma opinião correndo o risco de ver um publicidade má ao seu livro?

Coloquei estas perguntas a mim mesma, discuti-as com a minha amiga Daniela e pensei nas implicações que isto poderia gerar. Se já agora existem opiniões das quais eu duvido, se souber que um escritor andou a pagar para as ter eu ainda duvidaria mais.

Atenção, o mesmo pode acontecer sendo uma editora a pagar pela publicidade. Porém, a editora tem uma estrutura financeira que um pequeno autor não tem. Pagar por publicidade aos seus produtos, na minha opinião, é da responsabilidade da empresa. É claro que um escritor também se deve promover e dar a conhecer o seu trabalho, mas ele não tem capacidade económica para pagar a um influenciador. Ele não tem a proteção de uma estrutura empresarial.

Eu procuro ser sempre sincera, mesmo quando os livros me são cedidos pela editora. O que é um facto é que eu não recebo livros sem critério. Sou eu que peço os livros que quero ler e isso acaba por diminuir o risco de me cruzar com um livro que não me interessa ou que não vai ao encontro das minhas preferências.

Há pessoas que consideram que receber um livro de oferta não paga o trabalho que têm a ler um livro, a escrever/grava uma opinião, a tirar uma fotografia… Mais um convite! Vejam este storie da Patrícia Morais:

pm.jpg

Um escritor, ao tomar como opção ceder um manuscrito seu já publicado, está a pagar para ter essa opinião. Para mim, ler um livro não é trabalho. Escrever uma opinião e criar conteúdo, isso sim é trabalho. Demoro cerca de hora e meia a escrever e a prepara um post. Se o livro me foi oferecido e considerando os preços dos livros em Portugal, eu sinto-me remunerada pelo esforço que tive.

Há quem apresente o argumento de que outros produtos pagam pela publicidade. Mas são produtos provenientes de grandes marcas. Instituições que têm robustez económica para dispensar algum dinheiro junto de pessoas com grande influência nas redes. Mas as questões que coloco anteriormente mantêm-se: há sinceridade na publicidade ao produto? Eu não sei muito sobre este tipo de produtos, porque não sou a consumidora que segue tendências ou modas.

Já deixei de acompanhar muitos(as) produtores(as) de conteúdo sobre livros porque me cansa ler/ouvir sinopses. Quando procuro uma opinião a um livro, quero mais do que isso. Quando partilho uma opinião, posso fazer um pequeno resumo da história para contextualizar, mas o resto do espaço gosto de ocupar com as minhas reflexões, as minhas emoções e o que é que funcionou ou não comigo.

Acho que é importante atendermos ao conteúdo dos livros e à subjetividade que mora dentro de cada um deles. Gosto de ler opiniões contrárias às minhas e descobrir novas sensações que aquela leitura provocou. Gosto de discutir os assuntos dos livros que conduzem a reflexões interessantes. E é tão bom quando as coisas se fazem de forma saudável e construtiva.

Já ando neste mundo há algum tempo. Nos inícios, 90% das opiniões que eu partilhava correspondiam a livros que eu requisitava na biblioteca. Depois vieram alguns autores que me foram cedendo livros, comecei a ter algum dinheiro para comprar e só mais tarde arrisquei-me a pedir às editoras. Já perdi a conta à quantidade de escritoras para quem fiz beta reading. Nunca cobrei dinheiro. Aceito de bom grado a oferta do livro que ajudei a construir. Faço-o com a melhor das intenções. Se deveria ser um trabalho pago? Aqui acho que sim. Fazer um bom trabalho como beta Reading é algo exigente. E eu não me limito a ler a história e a apontar pontos fortes ou fracos. Basta falarem com algum dos escritores a quem eu já ajudei para conhecerem a minha forma de trabalhar. Por outro lado, também consigo perceber que nem sempre um escritor tem orçamento para pagar um processo de beta reading. E chego a uma encruzilhada. Deixo-o de o fazer porque o escritor não me pode pagar? Há escritores para os quais já não o consigo fazer, porque sou humana, empática e crio relações e isso afeta a minha capacidade de negócio. 

O post já vai muito longo, mas quero deixar apenas algumas conclusões:

  1. A publicidade é um serviço, quem achar que deve pagar para que um produto seu chegue aos clientes, tudo bem. Depois caberá sempre ao cliente decidir se compra ou não o produto. Nesta sequência de ideias, quem se considera influenciador e acha que deve ganhar com a sua publicade, tudo bem.
  2. Pedir dinheiro a um escritor que nos cede o livro em troca de opinião, caberá ao sentido moral de cada um. Eu não o conseguiria fazer porque me sentiria limitada na minha liberdade de expressão. E, atendendo aos meus valores morais, há coisas que devo fazer esperando uma remuneração em troca; e outras que devo fazer pelo simples prazer de as gostar de fazer. Nem tudo aquilo que fazemos na vida precisa de ser remunerado. Mas é apenas e só a minha visão, fundamentada naquilo em que acredito e defendo para mim.
  3. Sejam empáticos! Acharem que devem receber dinheiro por partilharem uma opinião a um livro, não tem mal. Porém não julguem os escritores que não podem disponibilizar esse dinheiro e sentem que se estão a aproveitar do seu trabalho. Pensem no esforço de escrever um livro, no trabalho de pesquisa que por vezes exige e nos poucos leitores em Portugal. Ler só deverá ser olhado como um trabalho por quem trabalha nas editoras e aprova ou não livros para publicação. Não comparem com outros países, há coisas que são impossíveis de comparar. Divirtam-se a falar de livros, a fazer projetos sobre livros independentemente do número de seguidores e de likes que consigam. Façam-no, porque vos dá prazer! Façam-no, porque vos permite desligar de realidades mais penosas. Ler é uma excelente terapia para a saúde mental.
  4. Apoiar um(a) escritor(a) nem sempre implica dinheiro. Partilhar o perfil, alertar para as publicações dele, partilhar a publicidade que ele(a) próprio já faz ao seu livro é algo que não nos consome assim tanto tempo. Se não forem os portugueses a olhar pelos livros nacionais, quem os olhará? Os livros de pequenos(as) escritores(as) não são traduzidos para outras línguas, precisam de sobreviver com os leitores de cá. E somos tão poucos.

Não ataquem ninguém com as vossas opiniões. Empatia!! Façam este exercício de se colocarem no lugar do outro. Apesar do dinheiro ser importante, porque todos temos contas para pagar, ele não pode sobrepor-se aos nossos valores morais. Também não podemos esperar ganhar dinheiro à custa do prejuízo dos outros. São apenas as minhas visões e que, monetariamente, não valem nada.

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