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Por detrás das palavras

Nas páginas do meu caderno # 12

Atreves-te a Escrever?

Atreves-te a Escrever_.jpg

Estranha(mente)

Novamente este rosto.

Acho que estou a ser seguido.

Só pode! Como é possível cruzar-me com este rosto tantas vezes em poucas semanas. Não percebo nada do que ele está a dizer.

A Manuela dá-me a mão e aperta-a. Não consigo sentir conforto nem serenidade. Este rosto persegue-me. O que é que este homem quer de mim?

Não gosto quando a minha mulher sorri para ele. Não gosto quando ela olha para ele com aquele olhar. Sabem aquele olhar cúmplice que trocamos com alguém que conhecemos há muito tempo? É esse tipo de olhar que vejo nos olhos da minha mulher. Isso assusta-me ainda mais. Porque eu não conheço esta pessoa. Só me lembro de o ver muitas vezes nos últimos meses e das conversas vagas em que pouca informação processo. Viro-me para ela e, muito baixo, falo-lhe ao ouvido.

— Querida, onde estamos? Quem é esse homem? O que é que ele quer de mim, ou de nós?

Outra vez o olhar cúmplice.

Já sei! É alguém me que vai levar para outra dimensões e está cúmplice com a Manuela. Ela já não me quer lá em casa. Sou um estorvo para ela. Por isso anda em negociações com alguém de outra dimensão só para se ver livre de mim. Já nem se preocupa em responder as minhas questões.

Começo a ficar agitado. Tenho vontade de gritar. Esta sala começa a ser pequena demais para o meu sufoco. A mão da minha esposa começa a escorregar da minha que começou a ficar encharcada de suor. Ela apercebe-se da minha aflição e vira-se para mim.

— Está quase querido. Prometo-te que as coisas vão mudar. Prometo-te que vais ficar bem.

Aperta-me o braço e sorri. Não acredito nela. Já não acredito naquilo que ela me diz. Vou ficar bem! Mas quem é que lhe disse que estou mal? Claro, só pode ter sido ele… O detentor daquele rosto que me persegue e que me quer levar daqui. Vai sugar-me o cérebro, desidratar-me a pele, transformar-me numa múmia. É isso, ele quer que eu morra, mas não quer que a minha alma parta, vai aprisionar-me mumificando-me.

Levanto-me. Começo a andar de um lado para outro. Dou pontapés na parede, na secretária. Tenho vontade de socar aquele rosto que me persegue. Será que com aquele olhar ele pode ler o que vai na minha cabeça? Que estúpido, claro que consegue!! Ele já vem na minha direção para me impedir de lhe bater.

— NÃO ME VAI LEVAR PARA A OUTRA DIMENSÃO, OUVIU? NÃO VAI APRISIONAR A MINHA ALMA!! NÃO DEIXES, MANUELA. – grito ao mesmo tempo que me tento libertar do aperto dos braços dele.

— Tenha calma, Sr. Lourenço. Vai ficar tudo bem.

Vejo a minha mulher a chorar.

— Porquê é que permitiste isto, Manuela. Não deixes que me levem para a outra dimensão, por favor. Não deixes que me roubem a essência! Ele vai matar-me.

Entram mais pessoas na sala. Pessoas que estão cúmplices deste rosto, porque se acercam de mim e injetar-me qualquer coisa na veia.

É agora que me vão levar. Sinto as forças do corpo a deixarem-me. Luto contra o sono que se apodera de mim, que me aferroa os sentidos. Não consigo mais e deixo-me ir.

 

***

 

Sinto-me cansado quando tento abrir os olhos. Pestanejo várias vezes até conseguir focar o espaço. Ao pé de mim, Manuela dormita na cadeira.

Estou no hospital e não sei como vim aqui parar.

— Sente-se bem, Sr. Lourenço? – Uma enfermeira vem ao pé de mim e observa as máquinas à minha volta.

— Estou com muito sono e dói-me a cabeça. Tenho muita fome e muita sede.

A enfermeira simpática sorriu-me.

— É normal, senhor Lourenço. Em breve poderá comer e beber e a dor na cabeça é por causa da operação.

— Operação? – questiono ainda com a voz entaramelada, provavelmente da anestesia que levei.

— Sim. Retiram-lhe um tumor do cérebro. Conseguiram remover tudo! Não terá mais alucinações, não irá confundir mais ninguém. Precisa de um meses para recuperar e tudo ficará melhor.

O rosto, aquele rosto familiar entra pela sala. Afinal era apenas o neurocirurgião que me libertou de um mundo louco.

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