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Por detrás das palavras

Nas páginas do meu caderno # 13

Atreves-te a Escrever?

Atreves-te a Escrever_.jpg

A imperfeição da infância

Já é tarde de mais. Eles querem vingança. Não tenho escolha senão fugir.
Aquilo que eu fiz é irreversível, assim como os danos do passado. Pensei que estavam apagados da minha mente. Afinal, estavam apenas adormecidos. Estavam marcados em mim. Estavam guardados no meu inconsciente à espera que algo os ativasse. Hoje foi o dia…

 8 horas antes

― Enfermeira, pode chegar à sala três?
Olho para a Dona Firmina e noto-lhe a tensão nas linhas do rosto.
― Algum caso grave?
Dona Firmina acena afirmativamente com a cabeça.
― Retirei-as da sala de espera. Não consegui deixar aquela criança ali, pareceu-me tão desprotegida.
Aquilo estava a intrigar-me. Levanto-me e vou ver o que tanto inquietou a senhora da secretaria.
Sentada na marquesa, uma criança magra e de cabelo revolto fitava-me. Os olhos grandes e inexpressivos cruzaram com os meus. Estavam sem vida e sem a tão característica inocência infantil. Ao lado, uma mulher ligeiramente furiosa, zangada. Estava impaciente, andando de um lado para o outro. Só parou quando me viu.  
Aproximo-me da criança. Deve ter uns dez anos. Tento tocar-lhe, mas ela retrai-se. Viro-me para a mulher.
― Quem é esta menina? O que é que lhe aconteceu?
― Essa fedelha é minha filha. Cheguei do trabalho e encontrei-a no quarto encostada a um canto, nua e com sangue a escorrer-lhe pelas pernas abaixo. Quase de certeza que foi o período que lhe apareceu. – A mãe olha para a filha e solta um riso escarninho, de gozo perante o sofrimento da filha. ― Mas sabe o que é que ela disse? Que era o pai que lhe andava a fazer mal! Acha isso normal, senhora enfermeira?! O meu marido é um homem maravilhoso!! Cuida de mim como ninguém, ama os filhos de forma incondicional e esta fedelha decide denegrir a imagem do pai

Olho para aquela criança e reconheço os sinais. Os sinais de quem sofre há muito, em silêncio. O sofrimento que nasce de um medo que nunca acaba. O sofrimento que nasce num coração de quem sabe que ninguém irá acreditar nela. Apetece-me abraçá-la, mas sei que ela se sente tão suja que não permitirá a minha aproximação. Não preciso que aquela criança me verbalize algo que confirme aquilo o que a mãe disse. Esta criança disse a verdade, uma verdade que mãe não quis ver. Uma mãe vazia de afeto.
― Vou ter de chamar a polícia e a assistência social.
― Mas está a gozar comigo? Observe a miúda e veja se é mesmo o período ou se está com alguma infeção. Quem nos garante que ela não andou a brincar com as suas partes intimas e foi um pouco longe de mais. – ri-se perante a perspetiva da filha ter-se masturbado. - Olhe , já agora ensine-lhe como se usa um penso ou um tampão, porque eu não tenho jeito para isso.

Termina de dizer isto e olha para mim. Percebe o meu choque.
― Não ouviu o que eu lhe disse? Vá despache isto para irmos embora.
― Desculpe, mas não sairá daqui enquanto as autoridades competentes não chegarem – viro-me para a Dona Firmina. Vejo-lhe as lágrimas nos olhos. – Por favor, Dona Firmina ligue para a polícia e passe a chamada para esta sala.  

Depois do telefonema tudo se processou de forma rápida e eficiente, com alguns gritos e resistência à mistura. Mãe e criança foram levadas para o Instituto de Medicina Legal para as perícias e o meu envolvimento com o caso terminou aqui.
Porém a minha memória atraiçoou-me e transformou-me naquela criança assustada que sofreu nas mãos de um tio porco e sem escrúpulos.
O sofrimento apoderou-se de mim. Foi como se uma mão com grandes unhas se cravasse no meu coração fazendo-o sangrar e doer. Há anos que terminei o contacto com o monstro, mas sabia onde ele andava. Sabia que ele continuava a viver a sua vida como se nada tivesse acontecido. E se ele tornou a fazer mal a alguém? Este pensamento começou a corroer o meu pensamento. Entranhou-se em mim e semeou um enorme sentido de vingança. Estes anormais tinham de ser eliminados da face da terra.
Terminei o turno e fui para casa. Não tinha pressa de chegar, porque sabia o que iria acontecer a seguir.
Cheguei e nem desliguei o carro. Fui à garagem pegar no revólver que tinha no cofre. Carreguei-o com duas balas. Voltei para o carro e deixei que a minha dor me levasse.

Uma hora depois estacionava em frente da casa mais triste da minha infância. Saí do carro, fui para a porta e toquei na campainha. Só ele viria abrir a porta. Era viúvo há um par de anos. Os passos dele soavam cada vez mais perto da porta. Ouvi a chave rodar na fechadura. Ele abriu a porta e o olhar de reconhecimento foi embaciado com o medo de me ver ali. Isto fez-me sorrir. Ergui o revólver e ofereci-lhe um tiro em cheio na testa. Não houve palavras, porque há dores que não cabem nelas.

Agora
Depois do meu ato de coragem, regressei a casa. A adrenalina foi substituída pelo medo. Sabia que os meus primos viriam atrás de mim. Foram anos de guerras familiares inconclusivas e sabia que na cabeça deles estava o que o meu eu adolescente tantas vezes repetiu em voz alta para que todos ouvissem: Um dia mato-te.

Estou fechada no meu armário. Para me safar, tenho de fugir. Contudo, sei que para onde quer que eu vá irei sempre carregar o peso dos abusos. Tê-lo matado não me pesa a consciência, muito pelo contrário, libertou-a!

A segunda bala não foi um acaso. Eu sabia que ia terminar assim. Ergui a arma até à minha têmpora. Apertei o gatilho. Chegou a minha libertação, a minha fuga.

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