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Por detrás das palavras

Nas páginas do meu caderno #2

Abril de 2020

Olá Duarte,

Como estás?

Nem sei muito bem por onde começar esta carta. Deves estar intrigado e pouco alarmado com isto. Deves ter aberto o e-mail, dado uma valente gargalhada e pensado ela não está boa da cabeça.

Pois… Se calhar não estou mesmo! Deve ter sido o confinamento. O sei é que esta pandemia me fez pensar. Fez-me pensar muito! Na vida, no rumo que lhe decidi dar e das pessoas de quem me fui afastando. E assim, quase sem querer, viajei no tempo e fui a setembro de 2001 e à primeira vez que te pus a vista em cima.

Não me lembro como é que a nossa amizade começou, o que sei é que tu marcaste aquele meu ano de uma forma inexplicável. Partilhamos horas de estudo, músicas, brincadeiras e piadas muito privadas. Eras o único com paciência para ouvires as minhas poesias e as minhas declamações. Andávamos sempre juntos, riamos o dia inteiro das parvoíces só nossas. Ouvia o teu monólogo desesperado sobre a perseguição da Júlia. Ela gostava mesmo de ti e eu gostava muito dela. E por gostar muito dela sempre fui muito comedida em tudo.

Tenho sido muito injusta contigo, não tenho? Fui eu que quebrei a ligação. Fui eu que quebrei amizade que construímos naquele fantástico ano letivo. Porquê? Há uns tempos atrás diria que foram as circunstâncias da vida. Seguimos caminhos diferentes… Tornamo-nos pessoas diferentes. Porém, quando olho agora para as partilhas que fazes nas redes sociais questiono-me se seremos assim tão diferentes.

Sei que fiz coisas piores. Envergonho-me daquela véspera de Natal, em 2014, em que nos cruzamos na passadeira. Olhaste para mim e eu fiz de conta que não te conheci. Sei que me reconheceste, nos teus olhos bailou a sombra de um sorriso que se esmoreceu assim que percebeste que deste lado não irias obter reconhecimento. Foi mau, muito mau. Fui e sou um ser humano parvo e cheio de inseguranças. Nunca fui uma rapariga de personalidade fácil. Sempre fui muito esquiva, como uma lampreia que escorrega das mãos do pescador. Sou difícil de agarrar e agora estou pior!

Parece arrogante da minha parte pedir notícias tuas agora, mas senti saudades e um pouco de culpa pela ausência de contacto e pelo meu comportamento estúpido. Senti falta do carinho que me dedicavas. Dos toques de telemóvel que religiosamente me davas, todos os dias, à noite, antes de te deitares. Foram presença assídua durante os primeiros anos de faculdade. Depois cessaram e com razão. Dar amor e carinho sem o receber em troca e na mesma medida acaba por ser frustrante. Mas agora quero tanto saber de ti e fazer algo diferente! Anseio por saber as histórias que dão corpo às tuas partilhas e os sentimentos que cada uma daquelas fotografias guardam. Quero saber quem são as tuas pessoas, aquelas com quem agora partilhas gargalhadas.

Vou acalentar a esperança de uma resposta a este e-mail (até mesmo que seja uma resposta super indignada e a colocar-me no meu lugar). Espero que continues com o bom coração que me deste a conhecer, porque se o manténs tenho a certeza que desse lado virá uma resposta.

Beijinhos,
Alice

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