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Por detrás das palavras

Por detrás das palavras

Opinião | "A bailarina de Auschwitz" de Edith Eger

24.06.20

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Aqui está o exemplo de um livro cujo título e a capa não ilustram de forma fiel o conteúdo destas páginas. Se para mim este desencontro entre o aspeto exterior e o interior do livro se traduziu numa bela surpresa, acredito que para outras a experiência de leitura tenha sido menos interessante e em dissonância com as expetativas que possam ter criado. 

"A bailarina de Auschwitz" é a história de Edith Eger. Uma história de vida que ultrapassa os limites impostos por este título. Sim, ela era uma bailarina. Sim, ela dançou em Auschwitz. Porém, estes dois elementos são uma pequeníssima parte de um livro que me apaixonou  e prendeu a atenção.

Edith inspirou-me e levou-me por entre diversas reflexões pessoais. Ler é uma experiência muito pessoal. A vivência e a relação que eu estabeleço com um livro é única e procuro que ela sobressaia nas opiniões que escrevo. Nem sempre é possível fazê-lo, porque implicaria demasiada exposição e não é meu objetivo colocar aqui todos os meus fantasmas pessoais. Este livro permitiu-me criar uma relação mais estreita com o que li, talvez porque olhei para a terapeuta Edith e vi a terapeuta que eu quero ser. 

A 2ª Guerra Mundial serve como um marco temporal nas partilhas de Edith. Há um período antes da guerra, onde a Edith nos apresenta a sua família e as fragilidades e forças que os unem. Passamos depois para fase onde a jovem Edith sofre o resultado da estupidez humana. Depois o livro muda um pouco de tom para que o leitor possa assistir ao crescimento pessoal e à crescente libertação interior de Edith.

Foi duro conhecer as vivências de Edith enquanto vítima do Holocausto, mas os relatos não foram muito diferentes daqueles que já surgiram noutros livros que se centram neste período negro da História Mundial. Assistir ao crescimento pessoal de Edith depois da Guerra, conhecer a terapeuta em que ele se tornou e ter o privilégio de ler sobre a intervenção dela em alguns dos seus casos clínicos foi magnífico. Tirei apontamentos, refleti sobre a forma como devemos abordar determinados casos e fui convidada a ir mais além; olhei para dentro de mim, para os meus próprios sentimentos de culpa, para minhas coisas mal resolvidas e tentei desconstruir isto tudo da mesma forma que Edith se libertou dos seus fantasmas. Ler este livro foi, também, uma viagem interior. Não ficou tudo resolvido. Se em alguns assuntos encontrei paz, noutros o desassossego ainda permanece. Contudo, o nosso crescimento pessoas é mesmo assim: a constante procura de equilíbrio entre paz e desassossego. 

Foi uma das viagens de leitura mais interessantes que fiz nos últimos tempos. Considerando todas as características deste livro, reconheço que o mesmo poderá não se revelar tão interessantes para pessoas que não se interessam por desenvolvimento pessoal, psicologia... O facto de ser psicóloga e procurar muita inspiração naquilo que vejo e leio de forma a transportar aprendizagens para o meu contexto fez com que esta leitura tivesse um impacto muito positivo em mim.  

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