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Por detrás das palavras

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Opinião | "Para lá do inverno" de Isabel Allende

06.08.21

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Para lá do inverno é o segundo livro que leio de Isabel Allende. Há uns anos li o "Paula", um livro onde a escritora partilhava aspetos da sua vida pessoal, dando destaque à doença da filha. Lembro-me de ter gostado do livro, mas não ter adorado. 

Desde essa altura, nunca mais tinha pegado noutra obra da escritora. Na minha última ida à biblioteca, achei que era uma boa forma de voltar a ler um livro de Isabel Allende e acabei por trazer este para casa. 

É engraçado que comecei a embirrar com a parte criminal que a história tem, mas depois percebi que não era essa a essência do livro. O crime serviu apenas de gatilho para descobrir três histórias de vida marcadas pela luta, o sofrimento a incerteza... Invernos que o ser humano atravessa e que são responsáveis por emoções mais negras. 

Os invernos da vida e o que resiste para além deles são a essência desta história. Há uma tonalidade reflexiva que acompanhou toda a leitura, mas no início eu não me estava a aperceber dela. Acho que andava demasiado à procura da linha condutora que me explicasse a morte que aparece nas primeiras páginas. Era o meu lado racional a tomar a dianteira na leitura. Depois, a autora fez-me mergulhar no passado de Lúcia, Richard e Evelyn e aí percebi a intencionalidade do livro. 

Se tivesse de destacar uma história seria difícil escolher entre Richard e Evelyn. Foram duas narrativas muito duras, com um sofrimento distinto mas muito palpável. Tão palpável que no presente ainda se fazia sentir na forma como se relacionavam com os outros, na forma como olhavam para o amor, na forma como encaravam a sua própria vida. 

O crime juntou-os e fomentou laços entre eles. Lúcia também tem os seus invernos, mas a forma como os encaixou na sua personalidade fizeram dela alguém com uma resiliência mais capaz para os relacionamentos com os outros. Ela unia as pontas que consistiam na individualidade de cada um. Deu sentido as vivências de cada um e àquilo que os acabou por juntar.

O desfecho foi algo inesperado. Porém, conseguiu dar sentido e coerência àquilo que no início me parecia inverosímil. E além do desfecho onde se encerram os assuntos que caracterizam a narrativa, prevalece a mensagem de que por muitos que sejam os invernos que tenhamos que atravessar na nossa vida, haverá forma de os ultrapassar e encaixá-los dentro de nós de forma positiva e resiliente.

Fiquei agradavelmente surpreendida com o livro e espero, em breve, voltar à escrita de Allende.

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