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Por detrás das palavras

Por detrás das palavras

02
Jul21

Opinião | "Duquesa do meu coração" (The Vault Collection #1) de Maya Banks

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Tenho andado mentalmente casada, fruto de um trabalho mais intelectual. Sinto que este cansaço não é muito benéfico para a leitura. Níveis de atenção mais baixos, menos capacidade para assimilar conteúdo... Um cocktail um pouco prejudicial para quem gosta de se perder num livro. 
Perante este estado emocional, há pessoas que gostam de deambular pelas redes. No meu caso, só me apetece ver televisão e pegar em livros mais leves, descomplicados e a atirar para um lado mais romanceado. Conclusão, o livro "Duquesa do meu coração" foi a leitura certa para estes dias de stress. Consegui focar a minha atenção, consegui avançar na leitura a um ritmo simpático e fiquei inundada da sensação positiva que só uma bonita história de amor é capaz de deixar. 

O livro tem um lado leve e cativante, mas trata de um tema muito sério. Jillian conheceu um lado negro do casamento e, assim que lhe foi possível, revestiu-se de coragem e enfrentou a sociedade conservadora da época. Foi importante ler sobre estas dinâmicas e perceber de que forma a afirmação pessoal da Jillian colidia com os ideias esperados para uma senhora naquela época. Além disto, a Jillian também deixa outra lição nem sempre o ataque ou uma postura marcada pela hostilidade é a opção ideal para se vingar dos sentimentos menos positivos. 

Outro aspeto que também gostei particularmente neste livro foi a amizade de Jillian com Case. Só por si, esta amizade constituía um desafio às normas sociais da época. A relação foi bem desenvolvida e ofereceu um tom ainda mais doce à história e à felicidade final. 

É claro, este livro tem de ter um romance a deslizar nas páginas. Inicialmente, estava um pouco reticente à forma como tudo se estava a desenvolver. Acho que foram as páginas finais e a atitude de Justin que conquistaram o meu coração. 

Nem tudo neste livro e no desenrolar da narrativa é surpresa. Há uma linha narrativa que é particularmente previsível, mas isso não afetou a minha diversão na leitura nem interferiu com a minha capacidade de apreciar os factos e ficar feliz com desfecho de tudo. 

Será uma série para seguir. Penso que o Case também terá direito a um livro dedicado ao seu universo. E eu gostei tanto do Case que também o quero ver a provar a doçura que só um amor correspondido pode oferecer. 

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29
Mai21

Opinião | "Se esta rua falasse" de James Baldwin

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Já me tinha cruzado com opiniões muito boas a este livro. Por isso, andava com uma enorme curiosidade de conhecer a escrita de Baldwin e a história que ele se propunha a contar. Após a leitura, posso dizer que o balanço é muito positivo e ficou a vontade de conhecer mais obras do escritor. 

Se esta rua falasse guarda uma história onde a luta pela liberdade assume um papel fundamental ao longo do livro. É mais do que a liberdade que se adquire ao sair da prisão, é a liberdade para ser. É a história de um grupo de pessoas que luta para se sentir livre para ser. Fonny e Tish só queriam ser eles próprios, viver o amor que os unia e não incomodar ninguém. 

O racismo, o preconceito e xenofobia ganham terreno nesta história e condenam a liberdade de Fonny e Tish. Foram impedidos de viverem num meio onde a cor da pele era um fator a ter em consideração no trabalho da polícia.
A leveza da escrita e a sensibilidade que Baldwin oferece à sua obra funcionam como um balsamo para a dureza daquilo que ele escolhe contar. É duro ver o desespero da Tish. É revoltante ver a injustiça oferecida de forma deliberada a Fonny.
Cada página de um presente no passado, reflete a atualidade. A intolerância, a insegurança e a forma fácil como se decide tecer um julgamento tendo por base ódios pessoais sem qualquer fundamento são demasiado reais e demasiado atuais. É angustiante perceber que o lado mais negro do ser humano não sofreu grandes alterações ao longo do tempo. Este livro é ideal para se refletir e discutir sobre violência, descriminação, luta pela liberdade e resiliência.

Enquanto deambulei pelo sofrimento atual deste jovem casal, esta história ainda me ofereceu o lado negro da infância de Fonny. Apesar de todas as dificuldades que a vida lhe foi impondo, a resiliência deste jovem é verdadeiramente inspiradora. 

É um livro cheio de conteúdo apesar de ter um pouco menos de 200 páginas. A minha leitura foi lenta; não porque não tivesse vontade de ler, mas sim porque a minha vida anda a intrometer-se nas minhas leituras. A minha disponibilidade mental para ler não tem sido muita e por isso leio menos e mais devagar. Por um lado é chato arrastar as leituras ao longo de vários dias (muitas vezes semanas), por outro permite-me absorver as coisas de forma mais consistente. Senti muito isto com Se esta rua falasse. A leitura mais lenta permitiu absorver melhor estes conteúdos e permitiu-me pensar sobre eles. 

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16
Abr21

Opinião | “Encontro em Itália” de Liliana Lavado

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Esta leitura não foi completamente às cegas. Há dez anos fiz leitura-beta do livro que deu origem a este “Encontro em Itália”, por isso já conhecia os traços gerais da história (a memória já não guardava os pormenores deste livro, final incluído).

A capa e o título podem enganar um pouco o leitor e afastar quem tem um gosto por fantasia. Ao primeiro olhar parece um romance um pouco ao estilo dos young-adult, mas é bem mais do que uma história romântica. Sim, há espaço para o romance! Porém, este romance está contextualizado num universo marcado pela fantasia e pelos anjos caídos.

Fantasia não é aquele género capaz de me fazer vibrar. Há algumas exceções! Este é um deles. Apesar de todos os elementos que lhe conferem fantasia, tal como da primeira vez, eu consegui gostar da história e das suas personagens.

O livro narra a história de dois amigos, Sara e Henrique, que partilharam a infância e grande parte da sua adolescência. Aos 18 anos acabam por seguir caminhos distintos e perderam um contacto um do outro. Ao sabor de uma antiga promessa, o reencontro acontece e uma série de aventuras cruzam-se no caminho dos dois amigos, para desespero do sensato e ponderado Henrique.

E, assim, as palavras tecem uma história com uma dinâmica muito interessantes. Não há espaço para o leitor se sentir aborrecido! Os capítulos curtos e a sucessão de mudanças permitem uma leitura entusiasmante onde permanece a vontade de saber onde é que a Sara e o Henrique nos irão levar. Por vezes, o ritmo é demasiado rápido. Eu gostava que a viagem a Itália não fosse tão intensamente rápida. Porém, reconheço que este ritmo acompanha a personalidade intensa, instável e frenética da Sara.

Haari é uma das personagens mais especiais com quem me cruzei. Tal como achei quando li a primeira versão, ela merecia um livro só para ela. Nesta personagem, concentra-se a magia, o mistério e situações caricatas que facilmente arrancam um sorriso. Associada a Haari e um conjunto peculiar de personagens, existe um livro. Este objeto tem uma importância significativa na história e acho que o Henrique não foi capaz de experimentar toda a sua potencialidade.

Concluindo, “Encontro em Itália” é um livro que conjuga romance contemporâneo com fantasia urbana. Esta conjugação poderá ser útil para leitores que, tal como eu, não sejam grandes apreciadores de livros de fantasia mais “puros”.

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02
Abr21

Opinião | "Ninguém me conhece como tu" de Anna McPartlin

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Comecei a leitura de "Ninguém me conhece como tu" sem grandes expetativas. Não tinha lido opiniões sobre o livro, mas, irracionalmente, achei que me iria aborrecer com a história. 
Talvez as baixas expetativas tenham permitido uma relação positiva com a história. O que é certo é que o livro mexeu comigo e deixou-me a pensar na vida, nas escolhas feitas, nas relações construídas e terminadas, no valor que se dá a determinada conquista ou acontecimento. 

É um livro fácil e ao mesmo tempo difícil de ler. Fácil porque a narrativa avança de forma bastante dinâmica e possuiu a capacidade de prender o leitor. Difícil porque aborda temas densos: violência doméstica, abuso sexual, morte e luto. E é nesta dimensão mais negra que reside a beleza do livro e a sua capacidade de deixar o leitor imerso em reflexões e em questionamentos pessoais.

Eve e Lily são duas adultas que partilharam uma infância e adolescência felizes. A vida e as suas pedras meteram-se pelo meio e originou uma rutura. Mas as grandes amizades não se esquecem. As pessoas que de alguma forma marcam a nossa vida e o nosso coração de forma positiva tornam-se eternas na nossa memória. Eva e Lily eram eternas na memória uma da outra. As cartas que iniciam cada capítulo permite-nos conhecer o passado e compreender o presente que se vai desenrolando. 

A história é marcada pelo quotidiano. Pelas vidas de Eve, Lily e todas as pessoas que gravitam em volta delas. São páginas que guardam palavras de amor, amizade e sofrimento. São pedaços de vidas que desfazem e refazem com o decorrer dos dias. Abrem-se feridas antigas e recentes para que a resiliência e as emoções positivas exerçam o seu poder curativo. 

E assim fui navegando por esta história. Embalada pelas tragédias e conquistas de Eve e Lily ao mesmo tempo que pensava e analisava as minhas próprias tragédias, conquistas, escolhas. 
O final deixa um sabor agridoce. É um reflexo da continuidade da vida e da imprevisibilidade dos dias, mas deixa um certo aperto no coração pela abertura que a escritora dá a história de Eve.
No final, para além de me deixar a pensar na vida, ficou a sensação de ter feito uma boa descoberta.

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05
Fev21

Opinião | "O assassino do crucifixo" de Chris Carter (Robert Hunter #1)

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Os livros de Chris Carter são escritos de forma uma forma que eu apelido de inteligente. São narrativas extremamente bem construídas, com uma sequência de acontecimentos bem encadeados e que revelam um enredo complexo e extremamente viciante.
Sim, eu vicio nestes livros logo nos primeiros capítulos! Há ali uma escrita que é especial. Traz imagens muito vívidas e concretas dos acontecimentos e isto permite-me uma experiência de leitura muito gráfica.

Estes são denominadores comuns a todas as obras que li deste escritor. Eu não li esta série pela ordem de publicação. Comecei no quarto. São livros que podem ser lidos de forma independente, mas a leitura pela ordem de publicação permite-te um conhecimento mais gradual das personagens residentes. Pessoalmente, o facto de conhecer o Robert Hunter de obras posteriores fez-me olhar para o seu desempenho neste livro de uma forma mais reticente. 

"O assassino do crucifixo" traz-nos um assassino perfeito. Comete os seus crimes sem deixar uma única pista útil aos investigadores. Como te disse atrás, o escritor tem um talento especial para complexificar as situações. Neste livro, a complexidade revela-se nos pormenores inerentes à investigação, na construção dos crimes e na pessoa responsável por semear aquele terror. Foi engraçado que, ao contrário do que senti noutros livros da série, neste eu estava particularmente ansiosa por saber quem era a pessoa que andava por ali a espalhar o terror e qual as suas motivações. Nos outros livros da série, estava mais curiosa em saber qual o próximo passo do(a) criminoso(a) do que propriamente saber quem foi responsável pelos crimes. 

Quando a pessoa responsável pelos crimes foi revelada eu senti-me ligeiramente defraudada. O Robert Hunter que eu conheço de outros livros não teria sido tão ingénuo. O problema é que não te consigo explicar melhor porque não quero dar-te nenhum spoiler e estragar-te a leitura. 
Provavelmente, quem já leu deve conseguir perceber o que é que eu quero dizer. Acho que ele foi um atentado à inteligência deste homem. 

Apesar deste pequeno incidente, o livro merece ser lido. Tenho a certeza de que os fãs do género deliram com este livro e os menos fãs encontram aqui uma história que os possa tornar fãs. Porém, acho que o livro só poderá ser um pouquinho problemático para pessoas mais sensíveis. As descrições deste livro, por vezes, obrigam a pausar a leitura para recuperar a orientação.

Gostas de policiais? O que é que achas dos livros desta série e deste em particular?

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29
Jan21

Opinião | "Segredos do passado" Deborah Smith

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Tal como em 2020, quis começar 2021 com uma leitura positiva, ou seja, quis que o meu primeiro livro do ano contivesse uma história de amor, com uma mensagem positiva e com um final feliz. Andei a ver a minha estante e resgatei o livro "Segredos do passado" de Deborah Smith. As minhas leituras anteriores de livros desta escritora reuniram os requisitos que eu queria encontrar na minha primeira leitura do ano. 

Deborah Smith é uma escritora de fórmulas. Agarra em famílias, junta-lhe uns conflitos, um romance que será posto à prova e um reencontro após anos de ausência e a história acontece. Talvez este tipo de livro te aborreça. Eu, na generalidade, gosto! Não os posso ler muito seguidos, mas dando o espaço temporal correto entre eles tornam-se boas leituras e ótimas para aligeirar a mente e semear em mim emoções positivas. 

"Segredos do passado" é um livro que em que a escritora seguiu a sua receita à risca. Claire tem uma família grande e financeiramente próspera. Roan vive no extremo social oposto. Algo acaba por uni-los. Aos meus olhos foi uma união um pouco forçada e artificial. Talvez tenha sido a diferença de idades que me tenha causado estranheza. Cinco anos não é uma diferença etária muito vincada quando falamos de jovens adultos. Porém, em momentos mais precoces da vida humana, separa a infância da adolescência; e aqui as diferenças demarcam-se e afastam crianças e adolescentes. Claire era cinco anos mais nova que Roan e por isso aquela ligação do passado não me convenceu muito. 

O tempo passa e a estranheza de Roan e Claire enquanto casal esbate-se. Este avanço cronológico também oferece revelações interessantes que dão um toque especial à história e às vidas das personagens. É, em alguns momentos, uma narrativa bastante emotiva. 

Tal como o esperado sobressai a amizade, o amor e as mensagens positivas que só as relações humanas bem desenvolvidas deixam sobressair. Há conflitos que se resolvem, personagens que se superam e há amor suficiente para me derreter o coração e dar esperança num futuro incerto e um pouco aterrador. 

Para mim, foi um livro que trabalhou as minhas emoções. Que me permitiu pensar nas oportunidades que a vida nos pode dar e de que formas as podemos agarrar. Que abriu espaço a reflexões sociais e à crueldade que por vez afeta algumas infâncias. No fim, deixou em mim aquela sensação de que o ser humano é complexo e que tem capacidade de dar e receber na mesma proporção, mas que, para tal, precisa de se sentir preparado e de coração aberto.

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28
Dez20

Opinião | "Demência" de Célia Correia Loureiro

P_20200313_112458_HDR.jpgNão li a primeira edição de "Demência". Vi muitas opiniões positivas em relação a este livro. Vi quem o achasse melhor que "O funeral da nossa mãe". Pessoalmente, acho que são livros diferentes, cada um com o seu valor. Têm um ponto em comum: a sua capacidade de mexer com as emoções.

"Demência" dá voz à violência doméstica e à demência. As palavras embalam-nos em direções mais ou menos previsíveis, mas que em nada diminuiu o entusiasmo e o interesse pelo livro. É uma viagem literária em constante desassossego. Desassossego por Letícia que procura manter-se inteira depois de ter sido despedaçada. Desassossego por duas crianças que sabem quanto custam os momentos de terror. Desassossego por uma mulher que lida com a doença e com a perda da melhor forma que consegue. E no meio destes sobressaltos e desassossegos há espaço para a importância que uma amizade pura pode ter nas nossas vidas. Há espaço para o poder curativo que só o amor consegue. Há espaço para olhar para o passado e encaixá-lo numa explicação do presente. 

Infelizmente, a voz de Letícia ainda faz muito eco na sociedade atual. As feridas que esta mulher transporta são comuns às de outras tantas mulheres. A violência doméstica é, mais do que a Letícia, a personagem principal desta história. Um problema que atravessa gerações e deixa marcas emocionais demasiado profundas e com uma cicatrização imune ao tempo. É interessante ver como a Célia, apesar de ser muito jovem quando escreveu este livro, conseguiu imprimir uma maturidade enorme naquilo que quis contar ao público. 
Além deste aspeto, a história tem uma tonalidade tão realista que é fácil chegar àquela aldeia e visualizar o comportamento de todos aqueles que povoam estas páginas.

O tempo da ação é que me deixou um pouco baralhada. O início foi complicado. Em termos de tempo parece que passam mais dias do que aqueles que na realidade passaram. Há também uma transição, mais ou menos a meio do livro, que é pouco clara. Foram estes os dois aspetos que me não foram tão bem concretizados. 

A história andou muitos dias na minha cabeça. A resiliência de Letícia fez-me acreditar na força feminina para enfrentar um problema. Por outro, a fragilidade e a personalidade dura de Olímpia tornaram-na demasiado humana. Foi a doença e a perda que a deixou mais fragilizada, mas foi o passado que a endureceu e que lhe deu uma visão diferente da condição humana. Duas mulheres que ficam na história do meu percurso literário e de quem, muito dificilmente, me irei esquecer. 

Precisamos de vozes como a da Célia. Precisamos de pessoas que coloquem de forma realista amor, dor e tristeza  nas histórias que escolhem contar. Precisamos de abrir espaço às boas publicações nacionais. 

"Demência" irá levar-te a uma aldeia beirã, cheia daquelas preconceitos e "diz-que-disse" tão típicos de zonas mais solitárias e acanhadas. Vais encontrar o inferno e o paraíso de uma relação amorosa. Vais cruzar-te com o envelhecimento, com a doença que apesar de roubar parte das memórias de Olímpia será incapaz de lhe tirar do coração a amizade que a ajudou a sobreviver.

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26
Dez20

Opinião | "A troca" de Beth O'Leary

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Não há nada tão pessoal como a forma como cada ser humano escolhe lidar com a dor emocional. Gerir emoções negativas é um processo individual e que obedece a leis muito próprias. 
Infelizmente, o julgamento social sobre o comportamento adotado na hora de lidar com emoções tristes ainda está muito presente. 

A gestão emocional é um dos assuntos mais profundos retratados neste livro. É interessante perceber que um assunto tão sério é abordado de forma muito inteligente recorrendo a um tom divertido e descontraído. Esta forma descontraída de abordar coisas séries parece ser uma característica muito pessoal de Beth O'Leary.

Eileen e Leena, avó e neta. Mantêm uma relação especial, mas as respetivas vidas precisam de uma certa agitação. Eileen tem sede por conhecer a vida na cidade, Leena precisa de sair da ilha para ver a ilha. As duas acabam por trocar de lugares: Eileen vai para a casa da neta em Londres e Leena vai para a casa da avó que fica numa zona mais rural e cheia de particularidades. Cada uma, à sua maneira, me ofereceu momentos muito divertidos. O quotidiano de cada uma delas é cheio de peripécias que conjugam um lado divertido com um lado mais sério relacionado com o luto, superação e auto-conhecimento. 

A questão do auto-conhecimento é um elemento muito forte neste livro. Acho que todas as personagens o vão desenvolvendo à medida que a narrativa avança. Eileen olha para a cidade e vê nela apenas um espaço para bons momentos. A sua passagem por Londres permitiu que ela apreciasse de outra forma a sua vida num lugar mais pacato. Aprendeu imenso na sua vida na grande cidade, conseguiu levar o seu espírito comunitário para o meio da selva citadina e soube olhar para dentro dela com outros olhos. Leena foi quem mais cresceu. Conseguiu ver para além da agitação dos seus dias, esforçou-se por aceder ao coração de um conjunto de pessoas que passou a ser importante para ela. Identificou os seus limites e as suas necessidades, redefiniu sonhos e atribuiu um novo significado ao amor romântico.

Há um grupo de idosos super divertido que confere à história uma dinâmica muito interessante. Também a vida deles é um equilíbrio entre o lado engraçado da vida e o lado sério e com problemas urgentes para serem resolvidos. 

Foi bom descobrir uma esta autora. Li o livro numa altura em que necessitava de uma história com uma mensagem positiva e com um final feliz. Este tipo de livros é uma "vacina" contra os dias taciturnos e problemas pessoais que me obrigam a reagir. "A troca" foi um "aspirador" mental das más energias. Fiquei com imensa vontade de ler mais livros da escritora. 

Já leste algum livro desta escritora? Qual foi a impressão com que ficaste da leitura?

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21
Dez20

Opinião | "O homem de giz" de C. J. Tudor

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Andava muito curiosa para ler este livro. As opiniões positivas multiplicavam-se pelos canais de comunicação dedicados aos livros, a capa criou em mim um chamamento ao qual não estou habituada e a sinopse deixava no ar a perspetiva de um thriller onde o jogo psicológico entre leitor e narrativa se adensava a cada página.

Eddie é o porta-voz de todos os acontecimentos. É um narrador um pouco irritante. No fundo, ele sabe tudo mas mede muito bem aquilo que escolhe oferecer ao leitor. Prefere ir "cozinhando" a curiosidade alheia aos poucos. Nem sempre me irritou esta atitude ponderada do Eddie. Porém, houve alguns momentos em que me senti que a atitude mais descontraída do Eddie e a sua forma de contar a história me estava a tomar como uma leitora ignorante e com pouca capacidade intelectual. 

Relativamente ao conteúdo em si, posso dizer-vos que me agradou a complexidade que foi sendo criada em volta do grupo de amigos adolescentes e dos adultos que povoavam as suas vidas.
O simbolismo fez parte de muitos momentos desta história. Os desenhos em giz têm um papel interessantes no desenrolar de alguns acontecimentos. Contudo, estava à espera de algo mais intenso e com maior impacto na narrativa.

Não foi uma leitura extremamente viciante, mas foi capaz de captar a minha atenção e curiosidade. Foi algo que aconteceu de forma mais suave. Nem sempre senti aquela adrenalina intensa que me obriga a devorar páginas em busca das respostas às minhas teorias.

O livro aborda alguns assuntos importantes e deixa espaço à reflexão pessoal. O bullying protagoniza um dos acontecimentos que mais me marcou em toda a leitura. Neste acontecimento foi possível constatar que os miúdos conseguem ser muito cruéis. Têm uma capacidade infinita de destruir emocionalmente os outros. Houve espaço para pensar e refletir sobre este tipo de acontecimentos, assim como do seu impacto no desenvolvimento pessoal.
Outro espaço de reflexão surge com as escolhas. Qual o impacto que as escolhas que fazemos em momentos cruciais da nossa existência têm naqueles com quem nos relacionamos? Pensei muito sobre isto, porque o livro é preciso na condução do nosso pensamento em direção aos "E ses?" que povoam a nossa existência. Muitas vezes, uma única escolha nossa condiciona a vida de outras pessoas. E condiciona de uma forma que exige uma antecipação das consequências de quem toma por opção fazer algo.

De uma forma geral considero que foi uma boa leitura dentro do género. Fiquei com vontade de conhecer outros trabalhos desta escritora. 

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12
Nov20

Opinião | "Razões para viver" de Matt Haig

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Na altura em que este livro saiu foram publicadas opiniões muito positivas. 
A minha área de formação está intimamente ligada à Saúde Mental. Por isso, tinha imensa curiosidade em conhecer o conteúdo deste livro. 

"Razões para viver" é um relato na primeira pessoa de alguém que lutou contra a depressão e a ansiedade; duas doenças mentais muito graves, incapacitantes e que, muitas vezes, são desvalorizadas pela população em geral.

O autor fez uma descrição muito lúcida daquilo que viveu nos períodos mais complicados da doença. Numa linguagem simples e acessível, Matt consegue colocar em palavras os sentimentos e as emoções dolorosas que o assolaram, ao mesmo tempo que vai apresentando de que forma foi combatendo as sombras negras que se abatiam sobre a sua mente.
Para mim é impossível ler este livro desconectando-me do meu lado profissional. Por isso, à medida que ia lendo, ia fazendo algumas reflexões mais complexas tendo em consideração os meus conhecimentos e a forma como Matt ia conseguindo vencer o sofrimento psicológico que o acorrentava. 

Matt teve lucidez suficiente para perceber que não estava bem. Teve ao seu lado pessoas que foram capazes de lhe dar esperança, de o agarrar à realidade e ajudá-lo a ultrapassar os seus problemas. Além disso, ele foi capaz de descobrir um conjunto de atividades que despertavam nele emoções positivas e lhe ofereciam sensações de bem-estar e alguma "normalidade". 
Ao longo de todas essas descrições, Matt deixa algo que eu considero muito importante: cada pessoa tem a sua forma de lidar e superar os seus sentimentos negativos. O que funciona para umas pessoas, pode não funcionar para outras. 
Eu sou muito sensível a esta questão. Na minha prática clínica, eu procuro sempre descobrir com a pessoa que tenho à minha frente a melhor forma de intervenção que a levará a ultrapassar aquilo que a levou a pedir ajuda. 
Sei as teorias, sei as técnicas (que vou sempre aperfeiçoando com pesquisa e leitura), mas o conhecimento que detenho sobre elas deve ser ajustado às características da pessoas  e às necessidades que ela evidencia. Nem sempre é fácil desenvolver esta sensibilidade, mas é um exercício que procuro sempre fazer. 

Outro ponto interessante que retiro desta leitura é a desmistificação em relação ao suicídio. É comum as pessoas apelidarem-no de "ato corajoso" ou "ato de cobardia", depende do ponto de vista. Matt acaba por mostrar que o suicídio não é nenhuma destas duas coisas. 
O suicídio é, quase sempre, uma forma de acabar com o sofrimento psicológico. Sofrimento este que é tão intenso que o suicídio é a única forma capaz de silenciar essa for.
Por isso, dizer-se que uma pessoa com depressão foi corajosa ou cobarde optando pelo suicídio é errado e, ao mesmo tempo, é uma forma de desvalorizar um sofrimento demasiado intenso e silencioso.

"Razões para viver" é um livro que está construído para que qualquer pessoa possa ler e inspirar-se na forma como Matt lutou para ultrapassar algumas das suas dificuldades.

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26
Out20

Opinião | "O mapa do coração" de Susan Wiggs

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"O mapa do coração" foi uma leitura que se revelou uma excelente surpresa. Tinha lido a sinopse, mas não consegui perceber que a história deste livro incluía uma bela viagem ao passado.

Terminada a leitura, posso dizer que o título não é muito apelativo e acho que não ilustra muito bem aquilo que encontramos nestas páginas. 
O livro mistura um romance contemporâneo com apontamentos de acontecimentos que marcaram a ocupação de França pelos Nazis durante a Segunda Guerra Mundial. No presente e no passado há amores que foram eternizados em palavras e em fotografias.

O passado acabará por explicar o presente. Nestes dois espaços temporais cabem sonhos, segredos e elementos que precisam do seu tempo para serem resolvidos. E todo o encaixe entre passado e presente foi ganhando forma e encantou-me pelos pequenos detalhes que marcam o desenrolar dos acontecimentos. 

Passado e presente, o que é que eu gostei mais? Passado, sem dúvida alguma. A história de Lisette é intrigante. A autora jogou muito bem com essa intriga dando informação de forma espaçada para que a expetativa nascesse no interior do leitor. E, nos pedaços de história que vão sendo oferecidos, conhecemos uma mulher cheia de garra e inteligência. Soube-me a pouco. Precisava de mais páginas a narrar a vida desta mulher. Não tem muitos elementos históricos. Surgem apenas os suficientes para contextualizar a época e as atitudes e comportamentos das personagens. Foi uma contextualização importante, da qual gostei muito e que me permitiu conhecer outro lado de um episódio negro da história mundial.

O presente é protagonizado por Camille, uma mulher transformada pela morte do marido. É uma personagens interessante. Porém, acho que só a compreendi verdadeiramente depois de perceber os acontecimentos que culminaram na morte do marido. 
O romance construído em torno desta mulher é previsível, mas em nada afetou o prazer da minha leitura, ou seja, a previsibilidade não lhe retirou o encanto. 

Julie, filha de Camille tem um papel bastante importante no livro. Através desta jovem conhecemos lugares menos bonitos da adolescência. Conhecemos o impacto do bullying (acho que o tema careceu de uma melhor abordagem para que pudesse tornar-se mais expressivo; a resolução deste problema adotou alguns aspetos que me deixaram apreensiva) e a libertação do sofrimento que advém de uma realidade tão séria e capaz de arruinar a auto-estima de qualquer pessoa.

Houve ainda espaço para outro tema importante: a homossexualidade. Foi uma abordagem subtil, mas com um enorme significado na resolução de alguns conflitos da narrativa. Gostaria de o ver mais desenvolvido, manifestado numa caracterização psicológica e social mais complexa. 

Há muitas coisas que fazem a ligação entre passado e presente, mas a mais interessante é a fotografia. Quantas memórias uma fotografia pode guardar? O que é uma fotografia pode eternizar? Que magia nasce nos olhos de quem vê uma fotografia de um passado distante sem lhe conhecer o contexto? Estas questões são explicadas na narrativa deste livro. Estes elementos trouxeram-me um pouco de magia e positividade. Eu não gosto de ser fotografada, mas gosto de fotografias pala sua capacidade de desencadear histórias e memórias. 

É um bom livro para fugir da realidade. A possibilidade de podermos viajar para o sul de França, num verão quente e a possibilidade de olhar para as águas do Mediterrâneo e de sentir o perfume da lavanda foram sensações dolorosamente boas. Escrevo dolorosamente porque estava a sentir à distância. O real desejo era estar lá. 

Foi a minha primeira experiência com a escritora Susan Wiggs. Dada a boa experiência de leitura fiquei com vontade de conhecer mais obras da escritora.

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Nota: O ebook foi-me disponibilizado pela editora em troca de uma opinião sincera.

Leitura com o apoio de:

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28
Ago20

Opinião | "Anna e o beijo francês" de Stephanie Perkins

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Na altura em que recebi este livro (através de uma troca), a Daniela do "Quando se abre um livro" comentou comigo que este livro lhe parecia ter uma história muito fofa e que tinha vontade de o ler. O instinto literário dela não falhou. De facto, "Anna e  beijo francês" é uma história bastante amorosa e com um grupo de adolescentes bastante interessante.

Anna é uma adolescente americana que vai para Paris fazer o último ano do secundário. A ideia foi do pai, um famoso escritor (qualquer semelhança desta personagem com Nicholas Sparks será apenas coincidência literária), e ela não teve oportunidade de manifestar a sua opinião. 
Chegada a Paris, Anna vê-se obrigada a lidar com o choque cultural, uma nova língua e a necessidade de construir novas amizades.

Por todos os desafios que uma mudança acarreta, os primeiros capítulos ofereceram algumas situações caricatas que me divertiram e me fizeram rir. É certo que algumas situações são demasiado estúpidas e podem parecer irrealistas, como o facto de Anna estar num colégio inglês e ter receio de pedir comida porque pensa que os empregado só falam francês e ela ainda não domina a língua. Mas quantas foram as vezes em que as nossas inseguranças nos impediram de fazer coisas aparentemente simples? Tantas a insegurança é tanta que bloqueia as nossas ações e os nossos comportamentos.

A história vai avançando e as relações começam a tornar-se mais densas e profundas. Os problemas surgem, os dramas adolescentes começam a dar tonalidade à narrativa e tudo se desenvolve com um bom ritmo. Não há espaço para momentos aborrecidos.

Paris alimenta muito da dinâmica que a escritora criou para as personagens e para o desenvolvimento dos acontecimentos. Eu passeei por Paris com este livro. Umas vezes conheci a cidade através dos olhos da Anna, outras vezes dos olhos dos amigos. A minha vontade de conhecer a cidade já era substancial, este livro só aumentou ainda mais a minha vontade. Se já queria conhecer a cidade antes desta leitura, quando terminei o livro apanhava de bom grado o avião e ia conhecer os jardins, os momentos e os recantos tão característicos daquela cidade. 

É claro que é um livro com os seus clichés. Além disso assistimos a comportamentos imaturos por parte da Anna e dos seus colegas. Um deles em particular fez com que olhasse para a Anna com olhos um pouco maus. Ela mostra o seu lado cínico, hipócrita, egoísta e pouco correto e não respeitou a regra do "não faças aos outros aquilo que não gostaste que te fizessem a ti". Mas é uma adolescente, a construir a sua personalidade e definir-se enquanto pessoa. 
No fundo, estas páginas guarda, os dramas que só os adolescentes conseguem construir, o grupo das miúdas populares, as zangas entre amigos, as paixões, os sonhos, as conquistas... Tudo aquilo que eu facilmente associo aos adolescentes, Stephanie Perkins conseguiu colocar no papel de uma forma cativante. 

É um livro marcado pelo final feliz da Anna. É um final amoroso que alimenta os nossos sonhos mais românticos. 

Classificação

21
Jul20

Opinião | "O teu nome é uma promessa" de Deborah Smith

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O bule da fotografia é da minha mãe. Não o coloquei por acaso na fotografia com este livro. Nesta história há um bule com um significado especial. Sou apaixonada por este bule e por todo o serviço de chá que o acompanha. Não tenho um motivo especial para tal amor, porém recordei-o muitas vezes ao longo desta leitura, pelo significado que este objeto teve na história. O bule Coolbroke foi especial! Uma clara alusão à lealdade e à existência de sentimentos que resistem ao tempo e às adversidades. Para mim, o bule da minha mãe também representa afetos e ligações emocionais.

Deborah Smith é uma escritora que recorre a uma fórmula de escrita. Famílias, lealdades, passado vs presente e amores interrompidos por problemas mais ou menos complexos são ingredientes muito presentes nas suas narrativas. É certo que há quem se aborreça com esta opção dos autores de dar corpo às suas histórias. No meu caso, apesar de saber mais ou menos o que vou encontrar nestes livros, gosto sempre de me atirar numa leitura destas. São livros com mensagens positivas e com histórias que me "limpam" a mente e melhoram o meu humor.

"O teu nome é uma promessa" é um livro onde facilmente identificamos os ingredientes preferidos da Deborah Smith. Colebrooks e Mackenzies, duas famílias que partilham um passado e que vivem interligados. 
Conhecemos Artemas, uma criança sedenta de afeto e de uma família que transborde tanto amor e respeito como a de Lily. Ele cresce e torna-se num homem leal e capaz de tudo para segurar a teia que liga e segura os elementos da família. 
Lily tem tanto de doçura como de garra. Uma jovem que vai conhecer o melhor e o pior do amor e isso acaba por defini-la enquanto pessoa e na forma como ela decide estar na vida. 

Estes são os dois personagens principais do livro. Em torno deles conhecemos outras personagens que dão um contributo importante à história. Destaco os irmãos de Artemas que ilustram bem as consequências de uma infância difícil e marcada pela negligência. Acho que cada um deles merecia um livro a contar a sua própria história e as suas perceções relativas à sua vivência.

As personagens de Deborah Smith são fiéis a si mesmas e reúnem características de personalidade que as tornam humanas aos olhos dos leitores. Não são emocionalmente pretas ou brancas. São uma mistura de cores, de coisas boas e menos boas; mas, no fim, todas elas encerram uma mensagem positiva e eu retiro sempre uma mensagem/lição das suas vivências e atitudes. 

O facto de acompanhar o crescimento das personagens deixa-me mais ligada a elas. Chega a uma certa altura da leitura em que parece que já as conheço. Tornam-se pessoas que eu quero acompanhar e para quem desejo o merecido final feliz. 
Eu gostei muito do livro. Houve alguns aspetos mais difíceis de assimilar, nomeadamente: 1) a história em volta dos antepassados de Artemas, há coisas pouco claras que tornaram a minha compreensão dessas relações um pouco complicadas; e, 2) a ligação inicial entre Artemas e Lily que me pareceu algo forçada, mas melhorou com o crescimento das personagens e com as cartas que foram trocando.

É preciso não esquecer que este livro foi escrito em 1993 e retrata um período onde não existiam telemóveis, nem redes sociais. Por isso, há magia nos pequenos encontros, nos telefonemas e nas cartas trocadas. 
Apesar de toda a previsibilidade que envolve as histórias que Deborah Smith cria, eu tenho um gosto pessoal em me perder nelas.
Só para terem uma noção, depois das minhas dificuldades iniciais, assim que me vinculei à história a  leitura foi rápida. Só numa tarde de domingo li mais de 200 páginas.

Com a leitura terminada, posso dizer que encontrei na história de Artemas e de Lily aquilo que procurava: um amor que resiste ao tempo e às adversidades, a esperança por dias melhores após a e vivência de situações difíceis e a energia positiva que uma bonita história de amor é capaz de oferecer. 

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Leitura com o apoio:

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Nota: O livro foi-me disponibilizado pela editora em troca de uma opinião sincera. 

08
Jul20

Opinião | "Lembranças macabras" (Rizzoli & Isles #7) de Tess Gerritsen

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Com os anos fui aprendendo a gostar a gostar de História. Penso que a grande mudança acontece no 7º Ano. Uma professora entusiasmante aliada a matéria interessante fizeram nascer em mim o gosto por saber mais sobre o passado. Gostei muito de estudar a civilização egípcia, apesar do meu grande carinho ter recaído nas civilizações grega e romana. No 10º ano escolhi ciências e tecnologia e História ficou pelo caminho. Descobri nos livros históricos uma forma de alimentar este meu gosto pessoal.

"Lembranças macabras" não é um romance histórico. É um policial inteligente e escrito por alguém com uma capacidade soberba de conjugar crimes e temáticas muito distintas. Assim que percebi que este livro tinha um pouco da cultura egípcia, fiquei logo entusiasmada para a a leitura e para descobrir como é que a escritora iria relacionar tudo.
A relação foi bem construída e muito conferiu uma tonalidade muito interessante ao livro. Não me senti desiludida ou com a sensação de que faltava alguma coisa para uma boa compreensão da história.

Tal como aconteceu nos livros anteriores, a narrativa é cheia de ação e pormenores técnicos e científicos relacionados com a investigação criminal. A narrativa em nada aborrece! Pelo contrário, torna-se ávida e cheia daquela adrenalina de querer ler mais só para saber o que originou os crimes que vão sendo apresentados. 

Josephine é a personagem central. Aquela que irá ligar todas as pontas soltas. Tudo é doseado de forma bem pensada a que as revelações aconteçam no momento certo. Neste livro, o mistério e a incerteza misturam-se com diferentes crimes. Além da cultura egípcia, também a saúde mental teve espaço nesta narrativa. Foi abordada de forma um pouco indireta, mas foi uma abordagem clara no que respeitas às consequências da ausência de saúde mental e dos tratamentos usados para a devolver às pessoas, acabando por resultar em elementos bastante complexos para o desenrolar dos acontecimentos.

O que senti mais falta nesta leitura foram as referências ao quotidiano das personagens residentes. Foram poucas as referências a Jane, ao pais dela e ao acontecimento que marcou o livro anterior e à sua vida com Gabriel. Da Maura tivemos um pouco mais de informações relativas à sua vida atual, mas dado o desenrolar da sua vida amorosa, as poucas páginas que a autora lhe dedicou souberam a pouco.

Desta vez não preciso esperar que a Daniela me envie o próximo livro da série. O oitavo livro, "Seita Maldita", já está ali na estante e espero dar continuidade à serie ainda este ano.

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24
Jun20

Opinião | "A bailarina de Auschwitz" de Edith Eger

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Aqui está o exemplo de um livro cujo título e a capa não ilustram de forma fiel o conteúdo destas páginas. Se para mim este desencontro entre o aspeto exterior e o interior do livro se traduziu numa bela surpresa, acredito que para outras a experiência de leitura tenha sido menos interessante e em dissonância com as expetativas que possam ter criado. 

"A bailarina de Auschwitz" é a história de Edith Eger. Uma história de vida que ultrapassa os limites impostos por este título. Sim, ela era uma bailarina. Sim, ela dançou em Auschwitz. Porém, estes dois elementos são uma pequeníssima parte de um livro que me apaixonou  e prendeu a atenção.

Edith inspirou-me e levou-me por entre diversas reflexões pessoais. Ler é uma experiência muito pessoal. A vivência e a relação que eu estabeleço com um livro é única e procuro que ela sobressaia nas opiniões que escrevo. Nem sempre é possível fazê-lo, porque implicaria demasiada exposição e não é meu objetivo colocar aqui todos os meus fantasmas pessoais. Este livro permitiu-me criar uma relação mais estreita com o que li, talvez porque olhei para a terapeuta Edith e vi a terapeuta que eu quero ser. 

A 2ª Guerra Mundial serve como um marco temporal nas partilhas de Edith. Há um período antes da guerra, onde a Edith nos apresenta a sua família e as fragilidades e forças que os unem. Passamos depois para fase onde a jovem Edith sofre o resultado da estupidez humana. Depois o livro muda um pouco de tom para que o leitor possa assistir ao crescimento pessoal e à crescente libertação interior de Edith.

Foi duro conhecer as vivências de Edith enquanto vítima do Holocausto, mas os relatos não foram muito diferentes daqueles que já surgiram noutros livros que se centram neste período negro da História Mundial. Assistir ao crescimento pessoal de Edith depois da Guerra, conhecer a terapeuta em que ele se tornou e ter o privilégio de ler sobre a intervenção dela em alguns dos seus casos clínicos foi magnífico. Tirei apontamentos, refleti sobre a forma como devemos abordar determinados casos e fui convidada a ir mais além; olhei para dentro de mim, para os meus próprios sentimentos de culpa, para minhas coisas mal resolvidas e tentei desconstruir isto tudo da mesma forma que Edith se libertou dos seus fantasmas. Ler este livro foi, também, uma viagem interior. Não ficou tudo resolvido. Se em alguns assuntos encontrei paz, noutros o desassossego ainda permanece. Contudo, o nosso crescimento pessoas é mesmo assim: a constante procura de equilíbrio entre paz e desassossego. 

Foi uma das viagens de leitura mais interessantes que fiz nos últimos tempos. Considerando todas as características deste livro, reconheço que o mesmo poderá não se revelar tão interessantes para pessoas que não se interessam por desenvolvimento pessoal, psicologia... O facto de ser psicóloga e procurar muita inspiração naquilo que vejo e leio de forma a transportar aprendizagens para o meu contexto fez com que esta leitura tivesse um impacto muito positivo em mim.  

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