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Por detrás das palavras

Por detrás das palavras

12
Nov20

Opinião | "Razões para viver" de Matt Haig

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Na altura em que este livro saiu foram publicadas opiniões muito positivas. 
A minha área de formação está intimamente ligada à Saúde Mental. Por isso, tinha imensa curiosidade em conhecer o conteúdo deste livro. 

"Razões para viver" é um relato na primeira pessoa de alguém que lutou contra a depressão e a ansiedade; duas doenças mentais muito graves, incapacitantes e que, muitas vezes, são desvalorizadas pela população em geral.

O autor fez uma descrição muito lúcida daquilo que viveu nos períodos mais complicados da doença. Numa linguagem simples e acessível, Matt consegue colocar em palavras os sentimentos e as emoções dolorosas que o assolaram, ao mesmo tempo que vai apresentando de que forma foi combatendo as sombras negras que se abatiam sobre a sua mente.
Para mim é impossível ler este livro desconectando-me do meu lado profissional. Por isso, à medida que ia lendo, ia fazendo algumas reflexões mais complexas tendo em consideração os meus conhecimentos e a forma como Matt ia conseguindo vencer o sofrimento psicológico que o acorrentava. 

Matt teve lucidez suficiente para perceber que não estava bem. Teve ao seu lado pessoas que foram capazes de lhe dar esperança, de o agarrar à realidade e ajudá-lo a ultrapassar os seus problemas. Além disso, ele foi capaz de descobrir um conjunto de atividades que despertavam nele emoções positivas e lhe ofereciam sensações de bem-estar e alguma "normalidade". 
Ao longo de todas essas descrições, Matt deixa algo que eu considero muito importante: cada pessoa tem a sua forma de lidar e superar os seus sentimentos negativos. O que funciona para umas pessoas, pode não funcionar para outras. 
Eu sou muito sensível a esta questão. Na minha prática clínica, eu procuro sempre descobrir com a pessoa que tenho à minha frente a melhor forma de intervenção que a levará a ultrapassar aquilo que a levou a pedir ajuda. 
Sei as teorias, sei as técnicas (que vou sempre aperfeiçoando com pesquisa e leitura), mas o conhecimento que detenho sobre elas deve ser ajustado às características da pessoas  e às necessidades que ela evidencia. Nem sempre é fácil desenvolver esta sensibilidade, mas é um exercício que procuro sempre fazer. 

Outro ponto interessante que retiro desta leitura é a desmistificação em relação ao suicídio. É comum as pessoas apelidarem-no de "ato corajoso" ou "ato de cobardia", depende do ponto de vista. Matt acaba por mostrar que o suicídio não é nenhuma destas duas coisas. 
O suicídio é, quase sempre, uma forma de acabar com o sofrimento psicológico. Sofrimento este que é tão intenso que o suicídio é a única forma capaz de silenciar essa for.
Por isso, dizer-se que uma pessoa com depressão foi corajosa ou cobarde optando pelo suicídio é errado e, ao mesmo tempo, é uma forma de desvalorizar um sofrimento demasiado intenso e silencioso.

"Razões para viver" é um livro que está construído para que qualquer pessoa possa ler e inspirar-se na forma como Matt lutou para ultrapassar algumas das suas dificuldades.

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26
Out20

Opinião | "O mapa do coração" de Susan Wiggs

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"O mapa do coração" foi uma leitura que se revelou uma excelente surpresa. Tinha lido a sinopse, mas não consegui perceber que a história deste livro incluía uma bela viagem ao passado.

Terminada a leitura, posso dizer que o título não é muito apelativo e acho que não ilustra muito bem aquilo que encontramos nestas páginas. 
O livro mistura um romance contemporâneo com apontamentos de acontecimentos que marcaram a ocupação de França pelos Nazis durante a Segunda Guerra Mundial. No presente e no passado há amores que foram eternizados em palavras e em fotografias.

O passado acabará por explicar o presente. Nestes dois espaços temporais cabem sonhos, segredos e elementos que precisam do seu tempo para serem resolvidos. E todo o encaixe entre passado e presente foi ganhando forma e encantou-me pelos pequenos detalhes que marcam o desenrolar dos acontecimentos. 

Passado e presente, o que é que eu gostei mais? Passado, sem dúvida alguma. A história de Lisette é intrigante. A autora jogou muito bem com essa intriga dando informação de forma espaçada para que a expetativa nascesse no interior do leitor. E, nos pedaços de história que vão sendo oferecidos, conhecemos uma mulher cheia de garra e inteligência. Soube-me a pouco. Precisava de mais páginas a narrar a vida desta mulher. Não tem muitos elementos históricos. Surgem apenas os suficientes para contextualizar a época e as atitudes e comportamentos das personagens. Foi uma contextualização importante, da qual gostei muito e que me permitiu conhecer outro lado de um episódio negro da história mundial.

O presente é protagonizado por Camille, uma mulher transformada pela morte do marido. É uma personagens interessante. Porém, acho que só a compreendi verdadeiramente depois de perceber os acontecimentos que culminaram na morte do marido. 
O romance construído em torno desta mulher é previsível, mas em nada afetou o prazer da minha leitura, ou seja, a previsibilidade não lhe retirou o encanto. 

Julie, filha de Camille tem um papel bastante importante no livro. Através desta jovem conhecemos lugares menos bonitos da adolescência. Conhecemos o impacto do bullying (acho que o tema careceu de uma melhor abordagem para que pudesse tornar-se mais expressivo; a resolução deste problema adotou alguns aspetos que me deixaram apreensiva) e a libertação do sofrimento que advém de uma realidade tão séria e capaz de arruinar a auto-estima de qualquer pessoa.

Houve ainda espaço para outro tema importante: a homossexualidade. Foi uma abordagem subtil, mas com um enorme significado na resolução de alguns conflitos da narrativa. Gostaria de o ver mais desenvolvido, manifestado numa caracterização psicológica e social mais complexa. 

Há muitas coisas que fazem a ligação entre passado e presente, mas a mais interessante é a fotografia. Quantas memórias uma fotografia pode guardar? O que é uma fotografia pode eternizar? Que magia nasce nos olhos de quem vê uma fotografia de um passado distante sem lhe conhecer o contexto? Estas questões são explicadas na narrativa deste livro. Estes elementos trouxeram-me um pouco de magia e positividade. Eu não gosto de ser fotografada, mas gosto de fotografias pala sua capacidade de desencadear histórias e memórias. 

É um bom livro para fugir da realidade. A possibilidade de podermos viajar para o sul de França, num verão quente e a possibilidade de olhar para as águas do Mediterrâneo e de sentir o perfume da lavanda foram sensações dolorosamente boas. Escrevo dolorosamente porque estava a sentir à distância. O real desejo era estar lá. 

Foi a minha primeira experiência com a escritora Susan Wiggs. Dada a boa experiência de leitura fiquei com vontade de conhecer mais obras da escritora.

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Nota: O ebook foi-me disponibilizado pela editora em troca de uma opinião sincera.

Leitura com o apoio de:

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28
Ago20

Opinião | "Anna e o beijo francês" de Stephanie Perkins

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Na altura em que recebi este livro (através de uma troca), a Daniela do "Quando se abre um livro" comentou comigo que este livro lhe parecia ter uma história muito fofa e que tinha vontade de o ler. O instinto literário dela não falhou. De facto, "Anna e  beijo francês" é uma história bastante amorosa e com um grupo de adolescentes bastante interessante.

Anna é uma adolescente americana que vai para Paris fazer o último ano do secundário. A ideia foi do pai, um famoso escritor (qualquer semelhança desta personagem com Nicholas Sparks será apenas coincidência literária), e ela não teve oportunidade de manifestar a sua opinião. 
Chegada a Paris, Anna vê-se obrigada a lidar com o choque cultural, uma nova língua e a necessidade de construir novas amizades.

Por todos os desafios que uma mudança acarreta, os primeiros capítulos ofereceram algumas situações caricatas que me divertiram e me fizeram rir. É certo que algumas situações são demasiado estúpidas e podem parecer irrealistas, como o facto de Anna estar num colégio inglês e ter receio de pedir comida porque pensa que os empregado só falam francês e ela ainda não domina a língua. Mas quantas foram as vezes em que as nossas inseguranças nos impediram de fazer coisas aparentemente simples? Tantas a insegurança é tanta que bloqueia as nossas ações e os nossos comportamentos.

A história vai avançando e as relações começam a tornar-se mais densas e profundas. Os problemas surgem, os dramas adolescentes começam a dar tonalidade à narrativa e tudo se desenvolve com um bom ritmo. Não há espaço para momentos aborrecidos.

Paris alimenta muito da dinâmica que a escritora criou para as personagens e para o desenvolvimento dos acontecimentos. Eu passeei por Paris com este livro. Umas vezes conheci a cidade através dos olhos da Anna, outras vezes dos olhos dos amigos. A minha vontade de conhecer a cidade já era substancial, este livro só aumentou ainda mais a minha vontade. Se já queria conhecer a cidade antes desta leitura, quando terminei o livro apanhava de bom grado o avião e ia conhecer os jardins, os momentos e os recantos tão característicos daquela cidade. 

É claro que é um livro com os seus clichés. Além disso assistimos a comportamentos imaturos por parte da Anna e dos seus colegas. Um deles em particular fez com que olhasse para a Anna com olhos um pouco maus. Ela mostra o seu lado cínico, hipócrita, egoísta e pouco correto e não respeitou a regra do "não faças aos outros aquilo que não gostaste que te fizessem a ti". Mas é uma adolescente, a construir a sua personalidade e definir-se enquanto pessoa. 
No fundo, estas páginas guarda, os dramas que só os adolescentes conseguem construir, o grupo das miúdas populares, as zangas entre amigos, as paixões, os sonhos, as conquistas... Tudo aquilo que eu facilmente associo aos adolescentes, Stephanie Perkins conseguiu colocar no papel de uma forma cativante. 

É um livro marcado pelo final feliz da Anna. É um final amoroso que alimenta os nossos sonhos mais românticos. 

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21
Jul20

Opinião | "O teu nome é uma promessa" de Deborah Smith

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O bule da fotografia é da minha mãe. Não o coloquei por acaso na fotografia com este livro. Nesta história há um bule com um significado especial. Sou apaixonada por este bule e por todo o serviço de chá que o acompanha. Não tenho um motivo especial para tal amor, porém recordei-o muitas vezes ao longo desta leitura, pelo significado que este objeto teve na história. O bule Coolbroke foi especial! Uma clara alusão à lealdade e à existência de sentimentos que resistem ao tempo e às adversidades. Para mim, o bule da minha mãe também representa afetos e ligações emocionais.

Deborah Smith é uma escritora que recorre a uma fórmula de escrita. Famílias, lealdades, passado vs presente e amores interrompidos por problemas mais ou menos complexos são ingredientes muito presentes nas suas narrativas. É certo que há quem se aborreça com esta opção dos autores de dar corpo às suas histórias. No meu caso, apesar de saber mais ou menos o que vou encontrar nestes livros, gosto sempre de me atirar numa leitura destas. São livros com mensagens positivas e com histórias que me "limpam" a mente e melhoram o meu humor.

"O teu nome é uma promessa" é um livro onde facilmente identificamos os ingredientes preferidos da Deborah Smith. Colebrooks e Mackenzies, duas famílias que partilham um passado e que vivem interligados. 
Conhecemos Artemas, uma criança sedenta de afeto e de uma família que transborde tanto amor e respeito como a de Lily. Ele cresce e torna-se num homem leal e capaz de tudo para segurar a teia que liga e segura os elementos da família. 
Lily tem tanto de doçura como de garra. Uma jovem que vai conhecer o melhor e o pior do amor e isso acaba por defini-la enquanto pessoa e na forma como ela decide estar na vida. 

Estes são os dois personagens principais do livro. Em torno deles conhecemos outras personagens que dão um contributo importante à história. Destaco os irmãos de Artemas que ilustram bem as consequências de uma infância difícil e marcada pela negligência. Acho que cada um deles merecia um livro a contar a sua própria história e as suas perceções relativas à sua vivência.

As personagens de Deborah Smith são fiéis a si mesmas e reúnem características de personalidade que as tornam humanas aos olhos dos leitores. Não são emocionalmente pretas ou brancas. São uma mistura de cores, de coisas boas e menos boas; mas, no fim, todas elas encerram uma mensagem positiva e eu retiro sempre uma mensagem/lição das suas vivências e atitudes. 

O facto de acompanhar o crescimento das personagens deixa-me mais ligada a elas. Chega a uma certa altura da leitura em que parece que já as conheço. Tornam-se pessoas que eu quero acompanhar e para quem desejo o merecido final feliz. 
Eu gostei muito do livro. Houve alguns aspetos mais difíceis de assimilar, nomeadamente: 1) a história em volta dos antepassados de Artemas, há coisas pouco claras que tornaram a minha compreensão dessas relações um pouco complicadas; e, 2) a ligação inicial entre Artemas e Lily que me pareceu algo forçada, mas melhorou com o crescimento das personagens e com as cartas que foram trocando.

É preciso não esquecer que este livro foi escrito em 1993 e retrata um período onde não existiam telemóveis, nem redes sociais. Por isso, há magia nos pequenos encontros, nos telefonemas e nas cartas trocadas. 
Apesar de toda a previsibilidade que envolve as histórias que Deborah Smith cria, eu tenho um gosto pessoal em me perder nelas.
Só para terem uma noção, depois das minhas dificuldades iniciais, assim que me vinculei à história a  leitura foi rápida. Só numa tarde de domingo li mais de 200 páginas.

Com a leitura terminada, posso dizer que encontrei na história de Artemas e de Lily aquilo que procurava: um amor que resiste ao tempo e às adversidades, a esperança por dias melhores após a e vivência de situações difíceis e a energia positiva que uma bonita história de amor é capaz de oferecer. 

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Leitura com o apoio:

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Nota: O livro foi-me disponibilizado pela editora em troca de uma opinião sincera. 

08
Jul20

Opinião | "Lembranças macabras" (Rizzoli & Isles #7) de Tess Gerritsen

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Com os anos fui aprendendo a gostar a gostar de História. Penso que a grande mudança acontece no 7º Ano. Uma professora entusiasmante aliada a matéria interessante fizeram nascer em mim o gosto por saber mais sobre o passado. Gostei muito de estudar a civilização egípcia, apesar do meu grande carinho ter recaído nas civilizações grega e romana. No 10º ano escolhi ciências e tecnologia e História ficou pelo caminho. Descobri nos livros históricos uma forma de alimentar este meu gosto pessoal.

"Lembranças macabras" não é um romance histórico. É um policial inteligente e escrito por alguém com uma capacidade soberba de conjugar crimes e temáticas muito distintas. Assim que percebi que este livro tinha um pouco da cultura egípcia, fiquei logo entusiasmada para a a leitura e para descobrir como é que a escritora iria relacionar tudo.
A relação foi bem construída e muito conferiu uma tonalidade muito interessante ao livro. Não me senti desiludida ou com a sensação de que faltava alguma coisa para uma boa compreensão da história.

Tal como aconteceu nos livros anteriores, a narrativa é cheia de ação e pormenores técnicos e científicos relacionados com a investigação criminal. A narrativa em nada aborrece! Pelo contrário, torna-se ávida e cheia daquela adrenalina de querer ler mais só para saber o que originou os crimes que vão sendo apresentados. 

Josephine é a personagem central. Aquela que irá ligar todas as pontas soltas. Tudo é doseado de forma bem pensada a que as revelações aconteçam no momento certo. Neste livro, o mistério e a incerteza misturam-se com diferentes crimes. Além da cultura egípcia, também a saúde mental teve espaço nesta narrativa. Foi abordada de forma um pouco indireta, mas foi uma abordagem clara no que respeitas às consequências da ausência de saúde mental e dos tratamentos usados para a devolver às pessoas, acabando por resultar em elementos bastante complexos para o desenrolar dos acontecimentos.

O que senti mais falta nesta leitura foram as referências ao quotidiano das personagens residentes. Foram poucas as referências a Jane, ao pais dela e ao acontecimento que marcou o livro anterior e à sua vida com Gabriel. Da Maura tivemos um pouco mais de informações relativas à sua vida atual, mas dado o desenrolar da sua vida amorosa, as poucas páginas que a autora lhe dedicou souberam a pouco.

Desta vez não preciso esperar que a Daniela me envie o próximo livro da série. O oitavo livro, "Seita Maldita", já está ali na estante e espero dar continuidade à serie ainda este ano.

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24
Jun20

Opinião | "A bailarina de Auschwitz" de Edith Eger

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Aqui está o exemplo de um livro cujo título e a capa não ilustram de forma fiel o conteúdo destas páginas. Se para mim este desencontro entre o aspeto exterior e o interior do livro se traduziu numa bela surpresa, acredito que para outras a experiência de leitura tenha sido menos interessante e em dissonância com as expetativas que possam ter criado. 

"A bailarina de Auschwitz" é a história de Edith Eger. Uma história de vida que ultrapassa os limites impostos por este título. Sim, ela era uma bailarina. Sim, ela dançou em Auschwitz. Porém, estes dois elementos são uma pequeníssima parte de um livro que me apaixonou  e prendeu a atenção.

Edith inspirou-me e levou-me por entre diversas reflexões pessoais. Ler é uma experiência muito pessoal. A vivência e a relação que eu estabeleço com um livro é única e procuro que ela sobressaia nas opiniões que escrevo. Nem sempre é possível fazê-lo, porque implicaria demasiada exposição e não é meu objetivo colocar aqui todos os meus fantasmas pessoais. Este livro permitiu-me criar uma relação mais estreita com o que li, talvez porque olhei para a terapeuta Edith e vi a terapeuta que eu quero ser. 

A 2ª Guerra Mundial serve como um marco temporal nas partilhas de Edith. Há um período antes da guerra, onde a Edith nos apresenta a sua família e as fragilidades e forças que os unem. Passamos depois para fase onde a jovem Edith sofre o resultado da estupidez humana. Depois o livro muda um pouco de tom para que o leitor possa assistir ao crescimento pessoal e à crescente libertação interior de Edith.

Foi duro conhecer as vivências de Edith enquanto vítima do Holocausto, mas os relatos não foram muito diferentes daqueles que já surgiram noutros livros que se centram neste período negro da História Mundial. Assistir ao crescimento pessoal de Edith depois da Guerra, conhecer a terapeuta em que ele se tornou e ter o privilégio de ler sobre a intervenção dela em alguns dos seus casos clínicos foi magnífico. Tirei apontamentos, refleti sobre a forma como devemos abordar determinados casos e fui convidada a ir mais além; olhei para dentro de mim, para os meus próprios sentimentos de culpa, para minhas coisas mal resolvidas e tentei desconstruir isto tudo da mesma forma que Edith se libertou dos seus fantasmas. Ler este livro foi, também, uma viagem interior. Não ficou tudo resolvido. Se em alguns assuntos encontrei paz, noutros o desassossego ainda permanece. Contudo, o nosso crescimento pessoas é mesmo assim: a constante procura de equilíbrio entre paz e desassossego. 

Foi uma das viagens de leitura mais interessantes que fiz nos últimos tempos. Considerando todas as características deste livro, reconheço que o mesmo poderá não se revelar tão interessantes para pessoas que não se interessam por desenvolvimento pessoal, psicologia... O facto de ser psicóloga e procurar muita inspiração naquilo que vejo e leio de forma a transportar aprendizagens para o meu contexto fez com que esta leitura tivesse um impacto muito positivo em mim.  

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17
Jun20

Opinião | "Antes de nos encontrarmos" de Maggie O'Farrell

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Adoro quando faço boas descobertas. "Antes de nos encontrarmos" é um livro pouco conhecido (no site da wook não tem comentários) e foi uma leitura muito boa. Gosto de fazer estas descobertas porque acabo por trazer livros diferentes daqueles que acabam por ir circulando pelo bookstangram e pela blogoesfera. 

Ler este livro foi como construir um puzzle. Os retalhos das passagens que se iam sucedendo eram recortes de vidas que se entrelaçam. Eram pequenos pedaços da vida de Stella, de Jake, de Nina e das respetivas famílias que se iam unindo criando um maior espaço de compreensão. Viajei entre Hong Kong, a Escócia com cheiro a Itália. Conheci as realidades de cada uma destas personagens, assim como os seus desafios. Foi esta descoberta faseada e a densidade psicológica das personagens que me manteve muito presa ao livro e aos acontecimentos.

Ser diferente implica desafios. Stella e Nina representaram essa diferença. Apesar de já terem nascido no Reino Unido carregavam uma história cultural que de alguma forma as mantinha afastadas da realidade que conheciam. Nina é uma personagem extremamente complexa e misteriosa. Um mistério que se adensou até ao final do livro, porque a escritora soube conduzir-me através dele. No fim, as surpresas apareceram. 
O livro é mais do que uma história de amor. É uma história de descoberta interior, onde cada personagem se desloca numa busca pelo seu bem-estar e pela resolução de circunstâncias passadas. E nestas encruzilhadas da vida, nestas buscas por algo maior o amor acontece. Simples, sem complicações e culmina num final romântico sem aquelas lamechices que irritam alguns leitores. 
Eu gostei muito das histórias de vida das personagens, da forma como algumas se acabam por entrelaçar e oferecer significado ao livro. Só houve alguns aspetos que acho que mereciam uma melhor explicação, nomeadamente elementos que estão relacionados com as vivencias de Nina e Stella.

Talvez não seja um livro com a capacidade de encantar um número infinito de leitores. Acho que é preciso estar com o humor certo para se conseguir absorver a história. Além disto, é essencial manter a atenção para que se consiga juntar todos os elementos que vão surgindo de forma faseada ao longo da história. 

Esta leitura acabou por comprovar que devemos sempre dar uma oportunidade aos escritores que não nos conquistaram no primeiro livro. Em 2013 li "Incertezas do Coração". Não gostei muito do livro e não ficou nada da história na minha memória. Acho que esta má experiência me fez adiar esta leitura. Precisei de tempo para deixar que experiência inicial se dissolvesse da minha memória para poder agarrar neste livro com a mente livre. 

Felizmente, desta vez a leitura correu bem melhor e ofereceu-me uma boa história. Atendendo a esta minha experiência positiva quero ler os outros livros que estão publicados em Portugal, são eles: "Estou viva, estou viva, estou viva" e "O estranho desaparecimento de Esme Lennox".

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08
Jun20

Opinião | "A sibila" de Agustina Bessa-Luís

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Já há muito tempo que queria experimentar um livro de Agustina Bessa-Luís, mas faltava-me a coragem. O medo de não gostar, a sensação de que seria um livro difícil de compreender e ter no pensamento a ideia de que seria um livro demasiado erudito e incompreensível eram motivos que ia dizendo a mim própria e que me iam impedindo de ler o livro.

"A sibila" é a história de Quina. Um mulher com infância dura vivida em ambiente rural e numa época em que a pobreza se sentava à mesa com as famílias portuguesas. A criança deu origem a uma mulher estranha, dura e que fez frente à ditadura masculina que imperava por aquelas bandas. Confesso que isto foi o que mais gostei! Assistir à forma como Quina se tornou senhora das suas terras e do seu mundo foi apaixonante. Continua a ser uma mulher estranha para mim, porque acho que não conseguir aceder a todos os seus lugares interiores. Também me aborreceu um bocado com algumas das suas atitudes, mas tudo isto a tornou muito humana aos meus olhos. Uma personagem cuja complexidade se adensa à medida que se avança na leitura, daí continuar estranha aos meus olhos.

A partir de Quina entramos num mundo da gestão de terras, de amizades incomuns para época e de guerrilhas famílias muito típicas. É uma realidade que não se afasta muito dos tempos de hoje, mesmo vivendo no século XXI. Também hoje continua a ser estranho (para algumas cabeças, felizmente menos do que no tempo de Quina): uma mulher ser solteira, sem filhos e viver bem com isso; uma amizade entre uma mulher e um homem; e a gestão no feminino não merece a mesma valorização do que se fosse no masculino.
Estes são os elementos que compõem a narrativa. Não há um problema específico para ser resolvido ou um conflito narrativo para ser explorado. O livro é uma narração de um tempo e de um espaço onde uma mulher vê a sua inteligência vingar, onde aparecem famílias e lugares, pessoas que se cruzam nos caminhos umas das outras. É uma história de vida, com poucos afetos à mistura e onde a a ruralidade e a rudeza de vidas se interpõem ao amor romântico.

Apesar de ter gostado, reconheço que não é um livro simples de ler. A escrita é complexa, a linguagem é trabalhada e com um vocabulário com palavras "caras" (fui ao dicionários algumas vezes). No meu caso, estas características apenas tornaram a minha leitura ligeiramente mais lenta, porque precisava de dar mais atenção às páginas que ia lendo. O interesse em ir descobrindo mais sobre Quina e as relações que ela estabelecia com a família e com os habitantes da aldeia sempre estiveram presentes enquanto ia lendo o livro. 

Um comportamento que foi muito importante para mim durante a leitura deste livro foi ter períodos longos de tempo que me permitissem ler mais páginas de seguida. Foi importante para me apoderar da história. Comecei a ler o livro numa segunda-feira. Cheguei a sábado com 30 e poucas páginas lidas. Nessa tarde de sábado senti necessidade de recomeçar o livro, ler com mais calma e mais páginas. Li mais de 50 páginas, o que me permitiu entrar na dinâmica do livro e passar a semana a ler o restante e menos páginas por dia.

É um livro para todos os leitores? Talvez não seja. Um leitor com pouca experiência de leitura e muito habituado a ler livros mais simples com uma sequência narrativa muito demarcada (início - conflito - resolução do conflito - final) poderá não se sentir tão à vontade nesta leitura. Poderá mesmo ser frustrante. Para mim foi uma leitura extremamente contemplativa e de ir apreciando as pequenas passagens e momentos, e sei que isso não vai ao encontro do gosto de muitos leitores. 

Desta leitura ficou a vontade de conhecer mais obras da Agustina Bessa-Luís. Espero ainda este ano ler outro livro dela, mais concretamente ando de olho em "Fanny Owen". Já leram? O que é que têm a dizer sobre ele?

04
Jun20

Opinião | "Os pássaros" de Célia Correia Loureiro

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Ler um livro da Célia Loureiro é ter a certeza de que a escrita tem aquele tempero especial que torna a leitura deliciosa e prazerosa. É saber que vamos entrar em mundos reais, de pessoas reais e com vivências diferenciadas (umas mais dolorosas outras menos).
É apenas a minha segunda leitura oficial da escritora, mas consigo perceber que os livros são cada vez melhores. Aliás como comentou a Patrícia do blog "O prazer das coisas", a escrita da Célia está cada vez melhor.

As primeiras páginas do livro "Os pássaros" foram complicadas de ler. Tive alguma dificuldade em compreender o contexto da história e em me apoderar do conteúdo que suportava as vivências das personagens. Foi esta dificuldade que me impediu de atribuir uma pontuação maior ao livro. Porém, passada a barreira das 50 páginas tudo ganhou uma nova dimensão. Comecei a sentir de forma mais expressiva o sofrimento da Manuela e do Diogo e lia com uma ânsia de perceber o que levou duas pessoas que se amavam tanto ao afastamento. 

O livro é narrado pela Manuela e pelo Diogo. Duas vozes de personalidade dissonante, mas que partilham um sentimento que pinta as suas almas de negro. 
A empatia pelas personagens foi-se construindo com o avançar do livro e, no final, já só me apetecia abraçar os dois. 
Ler aquelas últimas páginas foi como reencontro o melhor e o pior do mundo. A sensibilidade da Célia entranha-se nas palavras e apresenta-nos uma sequência de acontecimentos que não me deixaram indiferente. Assim, foi ver o melhor da escritora no pior dos cenários.

Ao longo de toda a leitura andei muito intrigada com o título. Tinha muita curiosidade em conhecer os motivos que levaram à escolha da autora. Na minha cabeça sempre lhe dei uma conotação positiva. Símbolo de esperança, liberdade e que, de alguma forma, estivesse relacionado com a libertação emocional do sofrimento sentido pelas personagens. Para quem já conhece a história poderá imaginar o valente murro no estômago que levei. Fiquei sem ar!

E, assim, a Célia nos habitua ao que de melhor se faz por cá. Uma escrita bonita e uma tonalidade que deixa transparecer o dramatismo nas doses certas oferecem ao livro a beleza literária que só as boas histórias contêm.

Nota: Este livro foi-me disponibilizado pela editora em troca de uma opinião honesta.
Leitura com o apoio de...

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31
Mar20

Opinião | "O Rio das Flores" de Miguel Sousa Tavares

P_20190919_113719.jpgClassificação: 4 Estrelas

Em 2013 li o livro "Equador". Dessa leitura ficou-me a escrita agradável e uma história interessante e cativante. Ficou-me, também, a vontade de ler mais obras do escritor. Fui sempre adiando! Este ano, e depois do miserável números de escritores nacionais que li no ano passado, tinha de pegar neste livro.

A escrita bonita e agradável mantém-se. Em nada aborrece a forma como o escritor escolhe contar a história dentro da História de Portugal e do Mundo. Fui avançando na leitura, umas vezes com mais rapidez, outras com a velocidade lenta imposta pelas rotinas do dia. Assim, a demora na leitura deste livro (quase um mês) em nada se deveu à falta de qualidade do mesmo ou à existência de algum tipo de aborrecimento. 

Achei este livro mais masculino. A história é muito centrada nos homens da família Ribeiro Flores e as mulheres que vão surgindo não têm o destaque merecido. 
O livro apresenta-nos uma viagem de 30 anos de História. A Primeira República Portuguesa, a Guerra Civil Espanhola, o Estado Novo e agitação política Brasileira na década de 30 servem de cenário a Manuel e Maria da Glória, a Diogo e Amparo, a Pedro e a Angelina. 

De todas as personagens, Maria da Glória foi aquela que reuniu a minha maior simpatia. Os meus sentimentos por ela foram consistentes ao longo de todo o livro. Para as outras personagens desenvolvi sentimentos um pouco antagónicos. Simplesmente, havia coisas que eu gostava e coisas que não gostava. Não é uma experiência necessariamente má, o problema foi aborrecer-me com algumas coisas que faziam. 
Diogo deixava-me os cabelos em pé. Gostava do seu perfil liberal e idealista, mas depois tinha comportamentos demasiado imaturos, que não acompanhavam a minha ideia de evolução pessoal. Pedro é muito consiste ao longo da obra. Uma personagem muito dura, muito agarrada ao regime e às hierarquias sociais. Um homem embrutecido que o amor amoleceu, transformou. Porém, foi este mesmo amor que o embruteceu ainda mais. Houve rasgos de humanidade em algumas situações de maior brutalidade, mas não foram suficientes para que eu criasse uma boa ligação com esta personagem.
Quanto às mulheres, gostei de Angelina e da forma como manifestava a sua independência e feminilidade. Uma personagem que soube a pouco. Amparo também me deu cabo dos nervos. O escritor descrevia-a como sendo detentora de uma fibra e de uma personalidade vincada que eu não consegui identificar. Chegou a uma altura em que ela optou por uma posição mais passiva, de vitimização... Acho que foi incapaz de lutar por aquilo que ela dizia fazê-la feliz. 

O que alguns leitores acham aborrecido, os conteúdos históricos, eu achei interessante. De todos os períodos históricos narrados, confesso que o contexto brasileiro foi o que mais despertou o meu interesse. Algumas coisas já conhecia (os acontecimentos relacionados com Olga Benário e Luís Carlos Prestes), outros foram novidade (agitação política brasileira). 

Apesar de ter gostado muito do livro, não me conseguiu cativar tanto como o "Equador". Porém ficam as boas memórias da leitura, a aprendizagem história e a escrita suave que embalou ao longo destas páginas.

02
Mar20

Opinião | "Verity" de Colleen Hoover

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Classificação: 4 Estrelas

Partilhar a minha opinião acerca do livro "Verity" sem usar spoilers será um verdadeiro desafio. Demorei a conseguir sentar-me e escrever uma opinião acerca do mesmo porque não sabia colocar em palavras a confusão cerebral que se instalou na minha cabeça. 

Assim que terminei de ler a última página, o meu primeiro pensamento foi Isto não faz o menor sentido. Desculpem-me a ousadia deste pensamento, principalmente aqueles que vibram e deliram com as obras desta escritora, mas para o perceberem tem de saber duas pequenas coisas sobre mim. Eu não consigo ler um livro e dissociar de mim dois aspetos que condicionam a forma como interpreto as coisas à minha volta. 1) Sou uma pessoa que racionaliza tudo, procuro uma explicação lógica, científica e verdadeiramente possível para grande parte das coisas que me rodeiam (daí a minha dificuldade com os livro de fantasia) e 2) Muitas vezes o meu olhar de psicóloga interfere na forma como interpreto as histórias que me vou cruzando. Muitas vezes consigo desligar estes dois botões mentais. Outras há em que eles estão em estado On e colocam o meu cérebro num verdadeiro turbilhão de sinapses. 

"Verity" foi um dos livros que ativou estes meus dois lados. Era impossível isso não acontecer tendo uma mulher, Verity, com um perfil psicológico muito particular e um homem, Jeremy, bonito e atencioso com um profundo amor pelos filhos com uma aura de mistério que nos intriga. Se isto já não fosse suficiente, juntamos Lowen, uma escritora tímida com uma imaginação bastante fértil. Claro que tudo foi cuidadosamente apimentado de tragédias e dramas capazes de fazer parar o cérebro. Digam lá se eu não tinha aqui um cocktail explosivo para o meu cérebro "psico-racional". 

A leitura foi compulsiva e sempre com a certeza que tinha desvendado tudo sobre a Verity (que, em alguns momentos levou a minha memória até à Amy, a protagonista do livro "Em Parte Incerta"). Lia na expetativa de constatar como é que toda aquela loucura iria terminar. 
A narrativa foi construída de forma muito interessante pois tudo adensava o mistério e a expetativa que pairava sob aquelas personagens. Até os cenários físicos onde as personagens se moviam estavam em congruência com o lado negro que a escritora quis passar ao leitor. No meu caso, eu imaginei sempre aquela casa e aquele lago envoltos em neblina e com um ambiente marcado pelo cinzento. Aliás, todos os cenários que davam corpo às cenas eu imaginava-os como sendo passados em dias nublados. A meu ver é uma boa ilusão de ótica que as palavras da escritora criaram na minha cabeça. Friso que isto é um único produto da minha imaginação. A  história não dá indicações precisas sobre o estado do tempo, mas como já vos expliquei mais atrás a minha atividade cerebral é um bocado estranha (nada temam, apesar de estranha é completamente funcional). 

E foi neste embalo cinzento que fui até às últimas páginas e atiraram por terra todo o meu raciocínio lógico, muito bem construído e alinhado. Aquele fim dá aso a uma infindável panóplia de interpretações. É um final aberto que deixa espaço à nossa imaginação e à nossa sensibilidade emocional e racional. Eu acreditei na Verity! Isto porque, para mim, era racionalmente impossível as coisas se terem passado de outra forma. Só temos acesso à sua visão dos factos, não sabemos como Jeremy interpreta a sua vida. Porém, depois de ler aquelas últimas páginas era, para mim, racionalmente impossível viver-se com uma pessoa sem lhe conhecer alguns lados mais obscuros (a não ser que andássemos muito cegos em relação às pessoas com quem lidamos). Acho muito pouco provável que Jeremy não conhecesse a verdadeira essência da sua esposa, principalmente no que se refere à forma como cuidada e olhava pelos seus filhos. 
Apesar de tudo, tenho uma vozinha interior que não deixa que o meu cérebro desligue e o coloca a pensar no lado oposto desta minha interpretação. E isto é uma sensação horrível! Não permite que o livro fique simplesmente arrumado na nossa memória. 

Tendo em conta esta minha minuciosa descrição acerca do livro, devem estar a perguntar-se "Então, se sentiste isto tudo, porque é que apenas deste 4 estrelas ao livro?". É uma questão muito legítima. Eu gostei muito do livro, foi uma leitura desafiante em termos de interpretação... Contudo faltou-me algo que me encaminhasse para um desfecho mais concreto. É uma questão de gosto pessoal. Tenho a certeza, que os leitores que são apaixonados por finais em aberto irão delirar com o desfecho do livro. No meu caso, deixou uma imensa frustração. 

08
Jan20

Opinião | "O Bairro das Cruzes" de Susana Amaro Velho

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Classificação: 4 Estrelas

Fiquei apaixonada pela escrita da Susana Amaro Velho quando li "As Últimas Linhas Destas Mãos". As emoções fluíram nas palavras e na delicadeza com que contava uma história onde a tristeza  e a relações familiares tinham o papel principal. 
Quando vi que a escritora tinha publicado um novo livro fiquei com imensa curiosidade de o ler. 

"O Bairro das Cruzes" apresenta-nos uma narrativa bastante diferente do livro anterior. Estas páginas guardam uma história de um bairro e das relações complexas que só as famílias sabem desenhar. 
Conhecemos Rosa e Luísa, as nossas duas protagonistas. São primas, unidas por uma amor que só os laços de sangue conseguem explicar. É este parentesco que as torna próximas, já que as personalidades e a forma como olham para o mundo em nada as liga. 
Luísa é perspicaz, ávida por conhecimento e muito ponderada. Rosa gosta dos caminhos fáceis, da aventura e da inconsequência. Vivem numa contexto sociocultural que não favorece o seu desenvolvimento e a ditadura Salazarista e Marcelista suga-lhes a liberdade. Luísa quer ser livre, quer perceber o estado do país. Rosa quer apenas viver bem.

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Ao longo do livro acompanhamos o crescimento da Luísa e da Rosa e vamos conseguindo perceber que existem coisas bem mais complexas que ditam as vidas destas raparigas. 
Sempre estive muito curiosa para acompanhar a evolução destes dois espíritos tão característicos. Queria ser surpreendida, e fui! A Susana apanhou-me na curva da minhas divagações sobre os acontecimentos narrados. 
A forma como esta história termina conseguiu surpreender-me. 

Gostei muito da história, gostei das personagens que se vão entrelaçando na vida da Rosa e da Luísa. Apenas senti de falta de uma maior calma. Senti que a Susana estava com pressa de dar forma à história, não de deu o tempo necessário para tudo crescesse e se materializasse de forma mais coesa. 
À medida que ia lendo senti falta da escrita calma que encontrei no primeiro livro. Há aspetos que mereciam um maior desenvolvimento e o final deveria ser como um bombom que vamos deixando derreter na boca, ou seja, as palavras e os acontecimentos deveriam ter sido servidos de forma mais detalhada e pormenorizada para que eu pudesse ter mais tempo para assimilar a grandiosidade de surpresa que a Susana guardou para fim. Senti que havia ali muita pressa de contar a história, sem lhe dar tempo para amadurecer.
Tal como no livro anterior senti falta de alguma expressividade nos diálogos. É muito texto seguido, narrado... Faltaram-me as emoções, os gestos de raiva e de amor, os olhares cúmplices e sons de repugnância. Precisa que os diálogos me contassem menos a história e me mostrassem mais. Em alguns momentos, senti falta de uma escrita um pouco mais gráfica e expressiva. 

Apesar destes pequenos elementos, este livro solidificou a minha ideia relativamente aos livros e às histórias que a Susana cria. É uma autora portuguesa que merece o nosso apoio.

Uma leitura com o apoio de...

3dd0e8ca2a46ce63f959d3d68b6bb884_L.jpgNota: O livro foi-me disponibilizado pela editora em troca de uma opinião honesta.

06
Jan20

Opinião | "A Fada do Lar" de Sophie Kinsella

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Classificação: 4 Estrelas

Eu tenho aqueles momentos em que preciso de um livro divertido e descontraído. Um livro que me faça rir e esquecer as agruras da vida. Pelo que tenho lido de Sophie Kinsella sinto que ela é uma aposta segura para esses momentos.
Foi na expetativa de me rir um pouco que peguei no livro "A Fada do Lar".  E ri-me... bastante. E também me diverti à grande com a insensatez da Samantha e com o espírito simples e descontraído do Nathaniel.

O livro não é nenhuma obra-prima da literatura. A escrita é simples e o enredo não prima pela complexidade. Tudo neste livro é descomplicado! Contudo, estas páginas guardam aquele tipo de histórias que me apaixonam pela simplicidade que guardam. 
A narrativa está carregada de momentos bem humorados, a maior parte deles protagonizados pela Samantha e pelo casal que a contrata para governanta. 
Porém, o conteúdo também consegue ir um pouco mais longe. Nada que exija processos de pensamento complexo, mas apresenta aquele tipo de situações que me fazem olhar para dentro, para mim própria, para a minha vida e para as minhas aspirações. 

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Eu gostei imenso de conhecer a Samantha. Gostei da inteligência dela. Sofri com o stress dela. Ficava angustiada quando ela teve de tinha de tomar daquelas decisões complicadas e capazes de mudar muitas coisas na vida. Sofria sempre que a Samantha tinha de pegar numa panela para cozinhar. A par do sofrimento vinha a descontração que só aquelas situações mais inusitadas eram capes de provocar. 
Samantha era fogo e vento, Nathaniel era água e brisa, por isso se complementavam de uma forma especial. Ele fez-me sorrir pela doçura e pela simplicidade com que olhava para a vida e para o mundo. Gostei tanto desta personagem masculina. É certo, um pouco idealizada... mas tão doce, tão aquele tipo de pessoas com quem gosto de conviver. Ela era a representação da minha agitação, da minha hiperatividade que me faz andar muitas vezes numa roda vida. 

O livro cumpriu a missão que tinha estabelecido para ele na minha cabeça. Divertiu-me, arrancou-me algumas gargalhadas, fez-me olhar com descontração para a vida e encheu-me de energias positivas.

18
Nov19

Opinião | "A Noiva do Bastardo" de Sarah MacLean (The Bareknuckle Bastards #1)

A Noiva do Bastardo (The Bareknuckle Bastards, #1)

Classificação: 4 Estrelas

"A Noiva do Bastardo" é o segundo livro de Sarhah MacLean que leio. Tal como aconteceu com o primeiro, este livro conquistou-me logo nas primeiras páginas.
É um livro que se insere no género de Romances de Época com um toque de erotismo. É um livro muito fácil de ler, com muitos momentos de diálogo e com a capacidade de agarrar o leitor logo nas primeiras páginas. Pessoalmente gosto de pegar nestes livros quando preciso de um história bonita, que toque o coração e que me proporcione momentos agradáveis de leitura sem exigir muito do meu poder de reflexão. 
Muitas pessoas pensam que estes livros são "vazios", ou seja, que são livros com histórias que não acrescentam nada ao nível do intelecto. Posso dizer-vos que são ideias erradas! Este em particular mostra-nos o poder das mulheres, a sua luta para integrar um mundo masculino e revela que os homens também podem ser sensíveis, atenciosos e que dão espaço às mulheres para brilhar em atividades onde, geralmente, são os homens que reinam. 

As personagens principais deste livro são a Felicity e o Devil. Como não gostar destes dois? Como ficar indiferente à cumplicidade que os une? A autora tem uma mestria de escrita muito especial que deixa transparecer muito bem as emoções e as relações que ela decidi construir entre as personagens. Através de Devil viajei até ao lado mais negro e sombrio da sociedade. Se estão à espera de encontrar bailes, vestidos cheios de frufrus e encontros para o chá das cinco este livro não é o ideal. Também existem bailes, mas a magia e o interesse da história desenvolvida neste livro situa-se no pólo oposto da sociedade. Onde o chá é substituido por Brandy e os vestidos têm de ser suficientemente práticos para subir telhados. Foi também um livro que me mostrou todas as potencialidades que só uma subida ao telhado pode oferecer. Curiosos(as)? É fácil, agarrem neste livro e descubram.

Eu gosto muito deste género de livros, mas seria incapaz de ler muitos de seguida. São livros positivos, quase sempre acompanhados de finais felizes e onde muitos dos obstáculos são facilmente ultrapassados pelas personagens. Dado este seu carctér feliz e da capacidade que eles têm de me deixar a sonhar, gosto de lê-los com algum espaçamento. Assim não corro o risco de enjoar deste tipo de histórias e não destruo a capacidade que eles têm de me fazerem sonhar.

E desse lado, gostam deste género de livros? O que mais gostam de encontrar nestas histórias? 

Nota: Este livro foi-me disponibilizado pela editora em troca de uma opinião honesta.

22
Out19

Opinião | "Espero por ti este inverno" de Luanne Rice

Espero por ti este Inverno
Classificação: 4 Estrelas

Já há algum tempo que não pegava num livro de Luanne Rice. Nunca fui muito conquistada pelos livros desta autora. Sempre senti que faltava à história algo que tivesse a capacidade de mexer com as minhas emoções e que, de alguma forma, se tornasse num livro memorável. 
Espero por ti este inverno é, até ao momento, o livro da escritora que mais me encantou. A história entrelaça aspetos que me cativaram a atenção. Assim, drama, romance, proteção do ambiente e arte unem-se para criar uma história sobre pessoas, mudança e laços familiares. 

Há um conjunto de personagens muito diversificado o que acho ser um ponto extremamente positivo do livro pois possibilita que pessoas de diferentes faixas etárias possam sentir pontos comuns com o livro. Particularmente o grupo de personagens adolescentes tem aqui um papel muito relevante e acho que poderia ser interessante para os leitores desta faixa etária. O primeiro amor, os ideais ambientais, o divórcio, as relações de amizade... são temas que muitas vezes fazem parte do quotidiano de jovens, muitas vezes são geradores de angústias e o livro poderá ser uma boa forma de iniciar um diálogo com adultos e pensar sobre os acontecimentos retratados. 

O romance mais maduro entre de Neve fez um bonito contraste com o romance mais inocente da sua filha Mickey. A autora conseguiu mostrar duas faces de possíveis romances que enriqueceram a história e mostrou que o amor poderá ser bonito qualquer que seja a fase da vida e as circunstância em que ele aparece. Mostra, também, que o amor é um forte elo de ligação entre as pessoas e que ele poderá originar coisas muito positivas na vida das pessoas.

Foi fácil para mim compreender e perceber qualquer uma destas personagens. Até Richard, ex-marido de Neve e sempre metido em confusões, tem um lado especial que me fez compreender as suas atitudes. Ele é um exemplo literário de que o querer mudar está dentro de nós e para o qual precisamos de criar espaço e oportunidade para que as coisas mudem. É um exemplo positivo de superação e de reconhecimento dos erros que cometemos na vida. 

É um bom romance contemporâneo. Não se passa na atualidade, mas as mensagens de preservação e respeito pela natureza, pela nossa História e pelo amor e respeito que devemos manter pelos outros são sempre temas atuais e pertinentes. Um livro que aborda muitos temas que convidam a reflexão e à discussão saudável.