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Por detrás das palavras

Por detrás das palavras

Opinião | "A doçura da chuva" de Deborah Smith

09.02.22

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Tal como em 2021, quis começar 2022 com um livro positivo. E o que é para mim um livro positivo? É um livro com uma história que conjugue elementos como empatia, resiliência, superação, respeito, amor e onde me seja garantido um final feliz. Até agora, sei que Deborah Smith me consegue oferecer histórias que reúnem este tipo de ingredientes. Por esta razão, voltei a escolhê-la para primeira leitura do ano. 

Em A doçura da chuva conheci Kara, uma jovem que cresce no seio de uma família de classe alta. Os seus pais, apesar da comodidade económica, possibilitaram-lhe vivências extraordinárias e fora do que era esperado para as meninas da sua condição. A morte dos pais traz-lhe um conjunto de revelações que a obrigam a ir em busca da sua própria história. E ela parte, alimentada pela incerteza do que vai encontrar e pelo entusiasmo de estar a viver algo por ela própria. 

Kara é jovem, muito defensora dos animais, vegetariana e muito destemida. Acaba numa quinta habitada por pessoas que lhe roubam o coração e lhe mostram um lado muito puro do amor. 

Neste livro, a grande personagem é a diferença. Cada passagem, cada acontecimento pretende ilustrar a capacidade do ser humano viver bem com as suas limitações quando tem o apoio e o suporte das pessoas certas. As limitações cognitivas não devem impedir os humanos de dar e receber amor. Aliás, este livro mostra o quão puro pode ser o amor que brota do coração de cada uma das personagens acolhidas pelo Ben Thocco. 

Há beleza no amor e nas histórias que suportam este livro. Há resiliência, há luta, há amizade genuína e tudo isto se transforma em emoções positivas que consegui sentir ao longo da leitura. Além destas características, o livro ainda tinha passagem muito cómicas que me divertiram imenso. Ri muito com as (des)aventuras destas personagens tão únicas, tão genuínas.

É certo que esta escritora segue uma fórmula muito própria na construção das suas histórias. Devido a estas características, não dá para ler os seus livros de forma muito seguida. Acredito que fazendo leituras espaçadas, estes livros não enjoam e não aborrecem. Ler um livro por ano tem funcionado comigo.

O meu final feliz foi garantido e isso semeia em mim a energia boa que preciso para começar o ano com um bom astral. Este tornou-se o meu livro preferido da escritora.

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Opinião | "Até os comboios andam aos saltos" de Célia Correia Loureiro

05.01.22

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"Até os comboios andam aos saltos" é o espelho da coragem de uma jovem adulta que passa para o papel os pensamentos e as emoções mais íntimas. Ler estas páginas e ver a alma da Célia a despir-se de filtros e da desejabilidade social. É trazer para estas páginas aquilo que realmente sente, sem o medo de ferir a suscetibilidade de quem a lê. Avançar despida deste medo, é coragem. E eu sentia em cada relato que expunha as suas relações mais profundas. 

Como escrever sobre um livro que é o espelho de uma alma humana? Como colocar em palavras todos os pensamentos que me atravessaram a mente enquanto acedia ao interior da Célia? É difícil!! Qualquer coisa que eu possa escrever acerca de tudo isto é injusto. São as vivências de uma pessoa, são as dores físicas e emocionais de gentes reais, são pensamentos que moldam a personalidade de uma pessoa que eu admiro.

O meu primeiro contacto com a Célia foi em 2015 (se a memória já não me está a falhar) e cheguei até ela pelas mãos de outra escritora que me indicou como leitora beta. E, assim, o primeiro livro que leio da Célia é "Uma mulher respeitável" ainda antes deste livro nascer fisicamente. Depois desta experiência fui lendo tudo da Célia. Adorei a escrita e a maturidade com que ela construía enredos e personagens. "Até os comboios andam aos saltos" ajuda a compreender de onde vinha a maturidade dela e como é que ela conseguia entrar na mente das suas personagens de forma a fazer sobressair universos emocionais credíveis, complexos e multidimensionais. A vida e as pessoas com quem se cruzou obrigaram-na a desenvolver essa maturidade que ela tão bem direcionou para as suas histórias. 

Este livro é um diário intimista, com relatos duros e crus. Não há filtros que dourem os pensamentos e as relações que vão sendo apresentadas. Os alicerces relacionais são frágeis e  a Célia vive imensa num conjunto de fatores de risco que deixam vulnerável. Os avós são proteção e neste livro está subjacente o quanto ela se agarrou a eles para fintar caminhos de risco. Conhecemos a disfuncionalidade que se adensa e transforma, mas que nunca interfere na lucidez da Célia. Isto é admirável. 

Eu já tinha um enorme respeito pela Célia, posso até dizer admiração dado que conheço alguns acontecimentos da vida dela. Este livro aumentou a minha empatia para com ela e admiração pela sua coragem em fazer diferente e em quebrar os padrões disfuncionais que ela conheceu. 

Sei que há aqui um toque ficcional que é essencial para nos deixar na dúvida e não quebrar uma espécie de encanto que caracteriza este livro. Em alguns momentos acho que consegui perceber quando estava perante um elementos de ficção. Nestas partes, senti a falta da profundidade emocional que tão bem contextualiza alguns momentos cruciais do livro. 

Estive para não atribuir estrelas a este livro. Estava a fazer-se confusão classificar a dor humana, as vivências singulares de uma pessoa comum. Após alguma reflexão, decidi que poderia classificá-lo com base na coragem exposta e na forma como as palavras são capazes de ilustrar emoções. E, assim, nascem as cinco estrelas bem merecidas.

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Opinião | "Conta-me o teu segredo" de Dorothy Koomson

04.01.22

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Cá continuo na saga de partilhar as opiniões de livros que li em 2021. Poderia deixar de as publicar, mas não me faz sentido deixar de partilhar só porque foram lidos o ano passado. Peço-te mais um pouco de paciência com a enchente de publicações, mas quero deixar tudo alinhado para me dedicar ao conteúdo deste ano.

Os livros mais recentes de Dorothy Koomson representam um afastamento do seu estilo inicial. Os mais recentes têm alguns contornos que os aproximam mais do género thriller/suspense. Independentemente do género pelo qual a escritora opte, eu gosto quase sempre dos seus livros. Gosto da escrita, dos bons diálogos e da forma como ela consegue colocar em palavras as várias tonalidades da essência humana. 

O assassino da venda é o elo de ligação entre a voz narrativa de Pieta e a voz narrativa da Jody. Uma é jornalista, a outra é inspetora da polícia. As vivências pessoais de cada uma delas cruzam-se no presente, mas é no passado que se começa a delinear aquilo que as une na atualidade. O assassino da venda deixou marcas na vida destas duas mulheres e é essa pessoa que as vai levar por novos caminhos.

Jody tem uma necessidade pessoal de encerrar o caso e dar descanso aos fantasmas que as atormentam. A Pieta só quer que os seus fantasmas permaneçam no lugar onde ela os decidiu encerrar há muito tempo. São duas posições antagónicas que geraram conflitos e adensaram a narrativa. Foram também estas posições que possibilitaram o crescimento das personagens e um melhor reflexo daquilo que eram as vulnerabilidades de cada uma delas. Além disso, a partir daqui que novas informações sugiram com o avançar da narrativa. 
Alguns aspetos eram previsíveis, mas a escritora conseguir criar bons pontos de tensão e interrogação no leitor. Assim, apesar de eu já desconfiar de algumas coisas relacionadas com Pieta, o meu interesse na narrativa manteve-se. Isto aconteceu porque a minha maior motivação era aceder ao universo emocional desta personagem. 

Para mim, o ponto forte do livro está relacionado com a tentativa da autora em desmistificar o papel de vítima.
Há fatores de risco que aumentam a vulnerabilidade de uma pessoa e, consequentemente, fazem disparar a probabilidade de se ver envolvida em determinadas situações de risco e/ou perigo. Por exemplo, ser-se mulher aumenta a probabilidade de ocorrência de situações de abuso sexual; um bebé com um temperamento mais difícil aumenta o risco para a ocorrência de situações de maltrato ou negligência. É com base nos fatores de risco que, muitas vezes, se constrói o perfil da vítima. 
Porém, é essencial que haja sentido crítico e abertura para entender e assimilar situações que se possam afastar destes perfis.

Dorothy Koomson expõem esta situação de uma forma muito compreensiva. Além disso, foi capaz de construir cenas que sensibilizam para a importância de não nos agarrarmos àquilo que são os "típicos" perfis de vítima. 
Foi a primeira vez que me cruzei com esta abordagem nos livros. Considero que o assunto foi bem abordado, quer pelo lado das vítimas, expresso no receio de pedir ajuda policial pois sentiam que as suas queixas seriam ignoradas; quer pelo lado das autoridades/pessoas próximas da personagem que desvalorizavam os pedidos de ajuda por não acreditarem nas histórias nem no estatuto de vítima associado àquela pessoa. 
É muito importante termos consciência dos fatores de risco que aumentam a vulnerabilidade humana, pois são eles que ajudam a delinear intervenções dirigidas aos grupos que pretendemos capacitar e, também, facilitam a ativação de estratégias de apoio. No entanto, estes fatores de risco não devem ser olhados de uma forma inflexível, uma vez que ela nos pode cegar perante situações diferentes.  

O final é imprevisível e bastante surpreendente. Dificilmente me irei esquecer das reviravoltas que as realidades da Pieta e da Jody sofreram, bem como da revelação do assassino da venda.

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Opinião | "O boss" de Vi Keeland

27.08.21

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A Daniela adivinhou o quanto eu precisava de um livro assim: leve, divertido e muito descontraído. Li-o em menos de 24 horas e ri como já não ria há muito tempo com um livro.

Nas primeiras páginas, Chase e Reese protagonizam uma sequência de momentos extremamente hilariantes e cheios de peripécias que originam gargalhadas muito fáceis. Ao mesmo tempo que estes dois colecionam momentos embaraçosos, crescem entre eles sentimentos que os aproximam, assim como uma tensão sexual que abrilhanta todos os momentos de sedução. 

Esta leveza narrativa vai-se diluindo com o desenvolvimento da história. A componente dramática começa a ganhar destaque permitindo ao leitor conhecer outro lado das personagens. Na minha opinião, considero que este acrescento à história oferece um lado mais intimista. Apreciei imenso o lado cómico do livro, mas também fiquei muito satisfeita com o tom mais dramático e sombrio. 

Foi uma excelente leitura para assinalar o início das minhas férias.
Reese é uma rapariga bastante inspiradora e dinâmica. Um verdadeiro espírito livre. Acho que gostei muito dela por ser tão diferente de mim. Não se inibe, luta por aquilo que quer e tem um talento natural para protagonizar situações embaraçosas.
Chase, aos olhos de Reese, é um homem de retirar o fôlego. O que mais gostei nele foi o seu carácter e a forma como geria a sua empresa. É um gestor que age com respeito, transparência e que valorizava cada um dos seus colaborares, reconhecendo-lhes competência e talento.

Muito se tem partilhado sobre o preconceito literário. Aos olhos de alguns leitores, este livro poderá ser considerado "inferior". É óbvio que o livro não é nenhuma obra prima da literatura, mas tem uma narrativa coerente, personagens bem construídas, tem humor e deixa mensagens importante ao leitor:

  • O nosso passado não nos define;
  • Quando amamos uma pessoa respeitamos as suas manias e idiossincrasias; 
  • Quando se ama e confia não há medo em partilhar as manias mais estranhas;
  • Há muitos estilos de liderança, mas quando se opta por um estilo democrático e de respeito o ambiente é muito melhor e os colaboradores são mais produtivos;
  • Por muitos que sejam os obstáculos, há amores que sobrevivem e fortalecem a ligação entre as pessoas. 

"O boss" é um livro que ensina sobre o poder da empatia e nos obriga a olhar para as relações humanas de diferentes ângulos e perspetivas, sem julgamento, ao mesmo tempo que oferece diversão e muitas gargalhadas. 

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Opinião | "Pura raiva" de Cara Hunter (DI Adam Fawley #4)

30.07.21

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Quantos segredos podem ser escondidos por um grupo de adolescentes? Quanta maldade poderá caber num coração de um(a) adolescente? Sempre foram perguntas que me inquietaram e que me deixavam muito reticente em trabalhar com este grupo da população. Não lhes consegui escapar! Trabalhei com muitos adolescentes, mas, felizmente, cruzei-me com os adolescentes tipicamente (im)perfeitos. Tinham as suas nuances e níveis de maldade ajustados.

"Pura raiva" levou-me aos "meus" adolescentes e aos meus preconceitos relativamente a eles. Levou-me, também, a refletir sobre o lado mais negro da adolescência e de como pode ser determinante na formação da personalidade e no desenvolvimento pessoal.
Os acontecimentos deste livro permitiram tais reflexões. Bons pontos de partida para pensar sobre de que forma um(a) adolescente se posiciona no seu grupo social e como é que todos à sua volta funcionam. 

É um livro extremamente complexo, porque há teias de relacionamentos que se vão emaranhando. Confrontei-me com a confusão, a revolta, sentimentos de impotência por olhar para aqueles adolescentes e constatar quanto os pais podem andar adormecidos perante o comportamentos dos filhos. É normal haver segredos entre adolescentes. É normal os adolescentes não contarem tudo aos pais. O que deixa de ser adaptativo é os pais se desligarem da vida quotidiana dos seus filhos. Este história e este livro obrigam-nos a fazer este exercício e a olhar a fundo para os adultos que vão oferecendo alguns apontamentos. 
Numa história onde o preconceito, a transfobia e a maldade adolescente se unem numa linha narrativa com efeito crescente, tudo se torna emocionalmente explosivo é incapaz de provocar indiferença. É impossível olhar para esta história e não sentir o realismo dos acontecimentos. 

Eu sei quanto os(as) adolescentes podem ser más pessoas. Também há adultos que continuam a olhar para estes comportamentos e a denominá-los de "coisas de miúdos(as)". Lamento, mas não são! Também há quem diga que sempre houve bullying, sempre existiram zangas entre adolescentes. Sim, é verdade. O problema é que a maldade tornou-se cada vez mais complexa. 

Conjugando diferentes perspetivas, diferentes linhas de pensamento, Cara Hunter vai revelando a sua mestria na construção de um policial extremamente apelativo. Para além das personagens novas que inevitavelmente surgem nesta história, ela também nos permite conhecer mais sobre a vida das personagens residentes. E não havia melhor forma de terminar. Aquele final é uma "injeção" nervosa enquanto aguardamos o livro seguinte.

Suspense, diversidade de conteúdo (entrevistas, redes sociais), muitos becos sem saída bem desenhados para levar o leitor ao engano, surpresas e uma visão de todos os lados daquilo que pode ser a essência humana juntaram-se num livro que, para mim, é um dos melhores da série. 

Curiosa(o) com este livro?
Aconselho a ler por ordem. Apesar das histórias serem perfeitamente compreendidas sem a leitura dos anteriores, há aspetos importantes das personagens residentes que só conseguimos perceber se lermos os livros por ordem de publicação.

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Opinião | "A sinfonia dos animais" de Dan Brown

10.07.21

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Já há muito tempo que não lia um livro infantil. São livros que eu aprecio e que sempre gostei de usar nas consultas com crianças.
A sinfonia dos animais foi escrito por Dan Brown (sim, o mesmo autor do livro O Código Da Vinci) e conjuga uma história com música. O livro aborda diferentes animais e cada animal tem direito à sua música. 

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Assim, temos animais diferentes, cada um com a sua história e a sua música e que transmitem uma pequena mensagem que potencia um olhar positivo sobre a vida. 

Eu gostei muito dos animais que foram escolhidos e das histórias criadas para cada um. Instalei a aplicação e ouvi algumas das músicas que foram compostas especialmente para este livro. A questão musical pode funcionar muito bem com crianças mais pequenas (3 anos); porém, a compreensão das histórias e das mensagens que as acompanham será mais alcançada em crianças mais velhas (a partir dos 5 anos). 

Foi muito bom regressar às histórias infantis. É sempre um bonito presente para oferecermos às crianças e, além disso, poderá ser uma boa atividade familiar para as férias. 

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Opinião | "O que o sol faz com as flores" de Rupi Kaur

21.05.21

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Há qualquer coisa na poesia que sempre me apaixonou. Não sei se pelas reflexões que lhe estão subjacentes, se pelos mundo interiores que cabem dentro daqueles versos. Só sei que gosto de ler poesia e leio muito menos do que aquela que gostaria. 

Já me tinha cruzado com muitos poemas da Rupi Kaur na internet. Tudo o que lia deixava em mim a vontade de conhecer mais da obra. 
O que o sol está com as flores foi a minha estreia com a escritora. Adorei o livro! Adorei a forma como a Rupi vai desenhando palavras que refletem uma enorme complexidade emocional. 
É uma poesia moderna que liga a condição humana, as relações, as mudanças, as culturas e o universo feminino. 

Cada poesia tem uma mensagem única, mas todas elas contribuem para um coletivo maior. Oferecem uma dimensionalidade superior das temáticas que convidam a uma reflexão global do que se vai lendo.

O que pode ser mais forte
do que o coração humano
que se parte em tantas partes
e ainda bate

Li o livro na versão de português do Brasil, mas fiquei com muita vontade de ler a versão original em inglês e a versão em português de Portugal. Será uma autora que manterei debaixo de olho e de quem pretendo ler os livros todos dela. Fiquei mesmo apaixonada pela forma como ela encaixa as palavras e nos conta grandes histórias com poucas palavras.

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Opinião | "Seita maldita" (Rizzoli & Isles #8) de Tess Gerritsen

26.03.21

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"Seita maldita" deixou-me com uma valente ressaca literária. Pouco li nos dias que se seguiram tal era a forma como toda esta história ficou agarrada na minha memória. Foi dos melhores livros da série. Um livro muito sensorial e com uma narrativa cheia de armadilhas que me levaram a becos sem saída. Aconteceu uma coisa interessante com esta leitura. Habitualmente crio teorias e tento antecipar o que poderá acontecer, neste livro isso não aconteceu. Fui embalada pela leitura e deixei-me surpreender pelo rumo dos acontecimentos.

Contrariamente aos livros anteriores, que se centram muito nos elementos relacionados com a parte criminal; o "Seita maldita" acabou por se centrar em Maura e numa aventura que ela arriscou viver. Deixou as cautelas de lado, abandonou a sua ponderação e decidiu embarcar numa aventura que se revelou uma verdadeira provação. Maura tinha ido a Wyoming para um congresso médico e acaba por aceitar o convite de um colega de faculdade para um fim de semana numa estância de esqui. Perdem-se, o carro fica preso na neve e acabam por se abrigar em Kingdom Come, uma aldeia que me causou arrepios. 

As descrições soberbas permitiram-me imergir num cenário com toques assustadores onde a sobrevivência e o mistério estiveram sempre presentes. Além disso, as sensações visuais da descrição de um local isolado, cheio de neve e das noites passadas em Kingdom Come foram um pouco aterrorizantes. Houve momentos em que a sensação de medo pairou sobre mim. 

Já deves estar a perguntar se não há nenhum crime para resolver. Ele existe, mas não é o cerne de toda a narrativa. Contudo, foi um excelente mote para abordar o tema das seitas e lideres religiosos. Pessoalmente, foi interessante ler sobre este assunto e perceber de que forma estas visões religiosas mais radicais se aproveitam das fragilidades das pessoas levando-as a seguir, cegamente, orientações que causam sofrimento. 

Toda a narrativa é contada da perspetiva da Maura e isso fez com que se perdessem alguns pormenores importantes para a história. Em nada afeta a compreensão dos acontecimentos. Porém, deixou em mim a sensação de que faltou alguma coisa; deixou a sensação de que haviam alguns aspetos que mereciam ser encerrados de forma mais conclusiva e visual. 

O final foi construído para surpreender. As revelações foram até à última página. Quando pensava que as coisas estavam alinhadas, a escritora decidiu desalinhar e oferecer outra visão capaz de explicar a atrocidade que abalou aquela zona. Conhecer a realidade de Kingdom Come foi das coisas mais dolorosas desta leitura. 

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Opinião | "Vozes de Chernobyl" de Svetlana Alexievich

12.02.21

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Demorei a ler este livro. O confinamento e o teletrabalho deixou-me menos tempo para ler, mas a densidade emocional subjacente aos relatos que são eternizados nestas páginas exige tempo. Não se pode ler depressa, há a exigência de uma leitura mais lenta como se só assim pudéssemos respeitar as memórias dolorosos de todos aqueles que viveram Chernobyl. 

Svetlana criou o seu próprio estilo literário: dar voz às histórias de pessoas reais e eternizá-las nas páginas de um livro. E o resultado é muito positivo, porque eu me senti envolvida em cada uma dos relatos de todas aquelas pessoas. A organização das entrevistas, conferindo-lhe um fio condutor, revela um trabalho exímio e uma sensibilidade sem limite por parte da escritora. 
Raiva, tristeza, resignação, incompreensão, revolta, amor e angústia são apenas alguns dos sentimentos espelhados nestas narrativas. São vozes duras! Vozes que guardam memórias que só eles conseguem perceber. Por muito que se conte, por muito que eles partilhei as suas histórias com o mundo, é percetível que as dores são muito próprias. Este lado pessoal da dor talvez seja o resultado de só eles conhecerem muito bem as consequências que o acidente nuclear teve nas suas vidas. 

É doloroso perceber que o sofrimento de muitas pessoas é consequência de um conjunto de más decisões. É revoltante perceber que a política se sobrepôs à ciência e, com isso, o impacto do desastre nuclear foi ainda maior. O desconhecimento por parte das pessoas, a resistência de algumas delas em abandonar o seu lugar e a forma desequilibrada como tudo foi gerido são temas comuns a muitos dos monólogos. 

"Vozes de Chernobyl" é um livro para reler e respeitar a histórias que marcaram a História. O livro expõe muitas das consequências das explosão nuclear, contudo acho que há muitas que continuam no silêncio. O impacto psicológico que este desastre deixou deve ser inimaginável e penso que pouco foi feito a respeito disso. 

É impossível ler ser fazer alguns paralelismos com a os tempos atuais. Tal como a radioatividade, a Covid-19 é um inimigo invisível e duro de combater. É ler este livro e refletir sobre as consequências que estes acontecimentos têm no quotidiano das pessoas e do mundo.

Quanto à escritora, tenho a certeza que é para continuar a ler.

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Opinião | "Encontro com o destino" de Lesley Pearse (Ellie #2)

13.01.21

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Camélias na história de uma Camélia. Foram estas flores que serviram de inspiração ao nome da protagonista do livro "Encontro com o destino", um livro cuja história é a continuidade do livro "Até sempre, meu amor". Eu adoro camélias! A cor, a textura... São flores de inverno, em que as plantas nunca perdem a sua folhagem verde. São flores muito bonitas que embelezam o meu jardim e muitos dos jardins aqui a norte.

Tal como os outras leituras desta escritora, "Encontro com o destino" tem uma narrativa intensa, cheia de acontecimentos e fortemente marcado pela carga dramática. As personagens são inesquecíveis. Guardam luz e sombras dentro de si, aspetos que usam de forma bem ajustada à sucessão de acontecimentos que marcam o livro. 

Não é novidade, pelo menos para os leitores mais assíduos deste espaço, que eu sou fã de Lesley Pearse. Pessoalmente, gosto de um bom drama e esta escritora consegue criá-los com uma mestria fenomenal. Há uma enorme carga emocional associada às personagens, provocando em mim sentimentos diversos e uma experiência de leitura muito rica. Neste livro em particular, Camélia vai dividindo o dramatismo com outras personagens. É interessante acompanhar o crescimento desta jovem e assistir ao desenvolvimento da sua resiliência. A vida não lhe foi muito simpática, mas ela lá foi conseguindo fintar os problemas e fortalecer o seu interior. E todas estas vivências mostram-me que a vida é feita de ciclos (por vezes demasiado longos no caso de fases de vida mais complicadas), quem nem sempre a mudança depende exclusivamente de nós e que há sempre pessoas boas que aparecem no nosso caminho e nos ajudam a seguir em frente. 

Neste livro é inevitável uma viagem ao passado. A vida da Camélia foi resultado de uma escolha do amor e da amizade que unia duas mulheres. Por isso, Camélia precisou de conhecer recantos escondidos e construi o puzzle da sua vida. Foi uma descoberta que a fez crescer e que ofereceu à narrativa o ritmo certo. Por vezes, sentia-me impaciente. Queria saber mais, queria perceber como é que se passou e que conduziu as personagens de um ponto para outro... Mas tudo aconteceu no momento certo. Era necessário criar pontos de rutura, deixar espaço para a mudança e deixar que o passado surja no presente na dose certa e no momento certo. 

No fim da leitura fica o vazio de uma história que se infiltra nas emoções. As personagens passam a ser minhas conhecidas e virar a última página do livro marca uma despedida que custa a fazer. O final foi um equilíbrio entre o lado dramático, o amor, e a perspetiva positiva de um final em certa medida feliz. Houve espaço para alguma surpresa e novas revelações. Porém, acima de tudo, fica a sensação de uma história onde cabe amor, História, acontecimentos tristes, superação e resiliência.

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