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Por detrás das palavras

Por detrás das palavras

Opinião | "Pura raiva" de Cara Hunter (DI Adam Fawley #4)

30.07.21

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Quantos segredos podem ser escondidos por um grupo de adolescentes? Quanta maldade poderá caber num coração de um(a) adolescente? Sempre foram perguntas que me inquietaram e que me deixavam muito reticente em trabalhar com este grupo da população. Não lhes consegui escapar! Trabalhei com muitos adolescentes, mas, felizmente, cruzei-me com os adolescentes tipicamente (im)perfeitos. Tinham as suas nuances e níveis de maldade ajustados.

"Pura raiva" levou-me aos "meus" adolescentes e aos meus preconceitos relativamente a eles. Levou-me, também, a refletir sobre o lado mais negro da adolescência e de como pode ser determinante na formação da personalidade e no desenvolvimento pessoal.
Os acontecimentos deste livro permitiram tais reflexões. Bons pontos de partida para pensar sobre de que forma um(a) adolescente se posiciona no seu grupo social e como é que todos à sua volta funcionam. 

É um livro extremamente complexo, porque há teias de relacionamentos que se vão emaranhando. Confrontei-me com a confusão, a revolta, sentimentos de impotência por olhar para aqueles adolescentes e constatar quanto os pais podem andar adormecidos perante o comportamentos dos filhos. É normal haver segredos entre adolescentes. É normal os adolescentes não contarem tudo aos pais. O que deixa de ser adaptativo é os pais se desligarem da vida quotidiana dos seus filhos. Este história e este livro obrigam-nos a fazer este exercício e a olhar a fundo para os adultos que vão oferecendo alguns apontamentos. 
Numa história onde o preconceito, a transfobia e a maldade adolescente se unem numa linha narrativa com efeito crescente, tudo se torna emocionalmente explosivo é incapaz de provocar indiferença. É impossível olhar para esta história e não sentir o realismo dos acontecimentos. 

Eu sei quanto os(as) adolescentes podem ser más pessoas. Também há adultos que continuam a olhar para estes comportamentos e a denominá-los de "coisas de miúdos(as)". Lamento, mas não são! Também há quem diga que sempre houve bullying, sempre existiram zangas entre adolescentes. Sim, é verdade. O problema é que a maldade tornou-se cada vez mais complexa. 

Conjugando diferentes perspetivas, diferentes linhas de pensamento, Cara Hunter vai revelando a sua mestria na construção de um policial extremamente apelativo. Para além das personagens novas que inevitavelmente surgem nesta história, ela também nos permite conhecer mais sobre a vida das personagens residentes. E não havia melhor forma de terminar. Aquele final é uma "injeção" nervosa enquanto aguardamos o livro seguinte.

Suspense, diversidade de conteúdo (entrevistas, redes sociais), muitos becos sem saída bem desenhados para levar o leitor ao engano, surpresas e uma visão de todos os lados daquilo que pode ser a essência humana juntaram-se num livro que, para mim, é um dos melhores da série. 

Curiosa(o) com este livro?
Aconselho a ler por ordem. Apesar das histórias serem perfeitamente compreendidas sem a leitura dos anteriores, há aspetos importantes das personagens residentes que só conseguimos perceber se lermos os livros por ordem de publicação.

Classificação

Opinião | "Sem saída" de Cara Hunter (DI Adam Fawley #3)

18.11.20

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Cara Hunter tem uma forma muito pessoal de construir as suas histórias. Ela vai aos pormenores e oferece ao(à) leitor(a) uma experiência de leitura que o(a) aproxima dos acontecimentos de uma forma inexplicável. Nós estamos ali! 

Podemos ver relatórios, entrevistas, notícias, opinião pública... Isto para mim faz a diferença porque dá um toque de originalidade ao livro. 
"Sem saída" apresenta-nos uma narrativa complexa. Está tão bem encadeada que me levou a meia dúzia de becos sem saída; ou seja, eu lá ia formulando as minhas teorias e a escritora trocava-me sempre as voltas.

Michael é o rosto de uma família destroçada. Um homem que liga as personagens e os acontecimentos. Foi ele o responsável pelas voltas e becos sem saída que iam passando pela minha mente. A minha ideia em relação a ele flutuou imenso ao longo da leitura. É engraçado que acho que isto só aconteceu porque a escritora fez um belíssimo trabalho de caracterização. Uma personalidade algo flutuante, conjugada com acontecimentos e conflitos certos permite um conjunto de sentimentos ambivalentes a ele.
Paralelamente, a narrativa vai permitindo que alguns aspetos relativos as personagens residentes sejam desenvolvidos. Considero este cuidado muito importante, pois ganho uma ligação diferente com as personagens.
É claro, o livro termina deixando em suspenso pontos importantes para o volume seguinte.

A escrita é fluída, envolvente e articula-se de uma forma eficaz para narrar uma história complexa e cheia de reviravoltas. 

Em suma, "Perto de casa" conquistou-me o coração. "No escuro" inundou-me de adrenalina e deixou bem claro o talento de quem o escreveu. "Sem saída" conquistou-me o intelecto e solidificou todas as sensações e emoções positivas que só uma boa leitura sabe semear. Sinto-me conquistada a cada livro lido!

Classificação

Opinião | "No Escuro" de Cara Hunter (DI Adam Fawley #2)

08.10.19
No Escuro (DI Adam Fawley, #2)

Classificação: 5 Estrelas

Quando pego em livros de mistério/crime/thriller gosto de me sentir perdida nos meandros de uma história cheia de pontas soltas e muitas dúvidas. Nem todos os escritores conseguem isso. Acho que é preciso uma dose especial de inteligência e perspicácia para transformar uma ideia numa história alucinante que me agarre ao livro com unhas e dentes. 
A leitura do livro "Perto de Casa" permitiu-me perceber que Cara Hunter reunia bons qualidades e  a tal dose especial de inteligência e perspicácia. "No Escuro" vem solidificar a opinião que eu formulei quando li o seu primeiro livro. 

"No Escuro" é um livro inteligente e surpreendente. As minhas ideias andaram muito longe daquilo que a escritora desenvolveu de forma a ligar acontecimentos que, aparentemente, nada têm em comum. Ela confundiu-me, baralhou as minhas ideias e deixou-me rendida ao seu talento especial para criar enredos complexos e entusiasmantes. 
O talento de Cara é tão especial que ao mesmo tempo que me conduzia por uma cena de crime onde não havia ponta pode onde  lhe pegar, me apresentava o lado dramático da vida da equipa policial que estava responsável pela investigação. A forma humanizada como me apresentou as personagens ofereceu-me uma enorme sensação de realismo. Gosto muito do detetive Adam! Tem inteligência, sensibilidade e drama em doses suficientes para o tornar num homem com que facilmente nos poderíamos cruzar na rua. E isto estende-se a toda a sua equipa: a agente Everett e a sua sensibilidade especial, Gislingham a tentar equilibrar a sua vida pessoal e a ajudar o seu superior a limpar as asneiras em que se mete, Quinn e o seu talento especial para meter a "pata na poça" e Somer a lutar contra a sua auto-estima e a necessidade de se afirmar profissionalmente. Uma equipa muito complexa e muito realista.

Quando a parte criminal, o livro começa com a descoberta de uma jovem e um bebé presos numa cave... Mas acreditem, isto é apenas a ponta de um icebergue enorme e cheio de pequenos icebergues colados a ele. É fenomenal ir descobrindo os pormenores que conduzem a resolução do caso. É engraçado porque dou por mim a querer identificar culpados e, ao mesmo tempo, deleito-me com as maravilhosas artimanhas criadas por Cara. 
Tal como no livro anterior senti a preocupação da autora em incluir elementos da sociedade. Este tipo de acontecimentos apaixona a opinião pública, por isso é comum vermos notícias em jornais e na televisão e os "polícias de bancada" sempre prontos a resolver o caso nas redes sociais. Não senti uma presença tão grande destes elementos comparativamente livro anterior, mas a escritora manteve-se fiel ao seu estilo original que tanto me agradou no primeiro livro.

Para quem não leu o primeiro livro, este pode ser lido em separado. A globalidade da compreensão da história não é afetada. A única falta que poderão sentir é relativamente às personagens residentes. Apesar de neste volume a autora ter sido capaz de expor o essencial para que o leitor não se sentisse perdido, há um pequeno pormenor relativamente a Adam que só com a leitura do final do primeiro livro se é capaz de compreender o seu comportamento e as suas atitudes relativamente à sua vida pessoal. 

Esta é uma autora que irei acompanhar e recomendo a todos os amantes de livros, em especial àqueles que têm um carinho especial por thrillers, crimes e mistério.

Nota: Este livro foi-me disponibilizado pela editora em troca de uma opinião honesta.

Opinião | "Perto de Casa" de Cara Hunter (DI Adam Fawley #1)

25.09.19
Perto de Casa
Classificação: 4 Estrelas

"Perto de Casa"é o livro de estreia de Cara Hunter e deixa-me antever a qualidade dos próximos livros da autora. É um livro construído de forma diferente quando comparado com outros livros do género e só esse aspeto já lhe acresce um enorme valor. 

A narrativa desenrola-se em torno do desaparecimento de uma menina de 8 anos, a Daisy. A partir daqui segue a estrutura de outros livros do género. Investigações policiais, atuação da equipa forense, perícias científicas, interrogatórios, pistas que são lançadas para nos gerar confusão (ou não) e profissionais da polícia em choque perante o crime em que se vêem obrigados a trabalhar. E depois temos um elemento surpresa: a atividade paralela que se desenvolve nas redes sociais. 
Atualmente, crimes mais mediáticos acendem a atividade nas redes sociais. De repente, todos são capazes de encontrar os culpados e de os julgar com uma facilidade tremenda. Pela primeira vez na minha vida enquanto leitora de livros do género vi o papel das redes sociais a ser abordado. É muito interessante e realista a forma como a escritora vai encaixando estes elementos ao longo do texto. É muito real, muito próximo daquilo que, nos dias de hoje, facilmente encontramos no Facebook e no Twiter. Foi tão realista que enquanto lia o livro facilmente me recordei de crimes mediáticos que aconteceram em Portugal, nomeadamente o desaparecimento da Joana, da Maddie, do bebé Madeirense... Infelizmente, é um livro ficcional que tem muito de realista e espero que a escritora mantenha este registo.

Servindo-se de todas estas armas narrativas, Cara Hunter atira-nos para o desespero de uma família cheia de esqueletos no armário. E como não bastam os esqueletos da família de Daisy, ainda nos oferece os esqueletos inspetor Adam.
Quanto à família de Daisy, a autora conduz-nos por um ambiente familiar complexo. A complexidade é nos oferecida de forma doseada, mas sem deixar espaço para aborrecimentos. É um livro cheio de ação e de acontecimentos. Não há tempo para o tédio. Ao virar de cada página encontramos algo de novo, algo que nos faz pensar afinal quem é que andou a tramar isto tudo. Tive sempre muitas desconfianças, mas muito poucas certezas. 

Achei toda a equipa de investigação muito interessante e muito bem construída. Fiquei com vontade de saber mais sobre todos eles, e espero receber mais informação no livro seguinte. Adam é a cereja no topo do bolo. Um homem com um passado doloroso, que no fim, ao saber o que lhe aconteceu fiquei com o coração apertado. Infelizmente, senti falta de mais. Precisava de ter lá escrito tudo o que aconteceu na vida deste homem um meses antes daquela fatalidade. Precisa de o compreender mais, de ver o seu interior de uma forma mais plena.

O final... Bem, mais um daqueles que jamais irei esquecer. Se por lado foi surpreendente (apesar de ao longo do livro pensar que aquela personagem estava implicada de alguma forma) por outro deixou-me um gosto agridoce. Tenho dificuldade em lidar com injustiças. E este final é de certa forma injusto. Fiquei frustrada porque não fechou da história de forma totalmente conclusiva. Eu precisa de mais. Porém, tenho a leve desconfiança que num próximo livro este caso ainda irá ressuscitar.