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Por detrás das palavras

Opinião | "A mão que mata" de Lourenço Seruya

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Terminada a leitura do livro "A mão que mata" tenho dificuldade em perceber o que tanto cativou os leitores, principalmente aqueles que leem muitos livros dentro deste género literário.

Começando pelos aspetos positivos e que eu acho que foram bem conseguidos:

  • A capa e o aspeto gráfico do livro. Eu não sou muito de prestar atenção ou de me importante com as capas (não sou esquisita), mas esta capa captou bem a minha atenção. É visualmente bonita e tem a capacidade de me transportar para um ambiente mais sombrio. É um elemento que acaba por orientar o leitor para a atmosfera que a história pretende transmitir. O interior do livro também revela muito cuidado e tem pormenores nas primeiras páginas de cada capítulo que são muito bonitas e sugerem cuidado no momento de criar o objeto. 
  • O título. Aos títulos já costumo prestar mais atenção. Este é daqueles que tem a capacidade de me intrigar e que me faz querer ler o livro. Na minha opinião, foi bem conseguido e tem um forte poder de atração. 

Estes foram os aspetos que me cativaram. Tudo o resto que compõem este livro trouxe-me bastante insatisfação. O livro insere-se num género literário que gosto muito e que faz parte da minha rotina de leitora. Este aspeto talvez faça de mim um leitora mais exigente e mais atenta ao que encontro na história.

O que é que não funcionou neste livro?

📌 Escrita
A narração é marcada pelo uso exagerado das vírgulas, pelas comparações onde falta a originalidade e pela predominância do contar. Realmente, senti muito a falta de que a escrita me mostrasse as coisas, me mostrasse o que se estava a passar. Dá a impressão que o livro recebeu uma revisão pouco cuidada, pois muitos destes elementos poderiam ter sido corrigidos. 
Acho que jamais me irei esquecer da expressão "Arfavam como cães (...)" (p.215). Foi uma má escolha de palavras para enquadrar uma descrição de uma cena que deveria ser caracterizada pela sensualidade. É uma expressão que tira elegância à cena e não dá o tom que deveria dar. 
Há partes demasiado contadas, quando deveriam ser mostradas. Por exemplo, nas cenas de interrogatório, quando a personagem precisa de falar sobre o que aconteceu, o autor atalha caminho e, em meia dúzia de linhas conta o que se passou. Seria muito importante mostrar! Como estava a testemunha? Qual a sua linguagem corporal? Que sinais dava enquanto descrevia a sua posição perante o acontecimento? Estes elementos perdem-se quando se opta por contar em vez de mostrar. 

📌 Diálogos
Na sequência da minha última observação surgem as limitações dos diálogos deste livro. Muitas vezes me questionei se as passagens que estava a ler tinham como real objetivo mostrar um interrogatório policial. Fez-me confusão ver investigadores e suspeitos a dissertar sobre questões sociais /pessoais (por exemplo: a decisão de uma mulher ter ou não filhos, a vida pessoal do inspetor Bruno), quando o que se devia estar a fazer era recolher informações que permitissem resolver o caso.
São diálogos desconexos, que não contribuem para o desenvolvimento da narrativa. Soam de forma artificial e parecem ter sido encaixados de uma força demasiado forçada.

📌 Personagens
Eu não consegui gostar de nenhuma das personagens. Todas elas carregam demasiados estereótipos, fazendo com que se tornassem unidimensionais aos meus olhos. Eu adoro personagens com muitas camadas, em que o desenvolvimento da narrativa me permite aceder ao interior de cada uma delas. Aqui, isso não aconteceu com nenhuma.
Os inspetores da Polícia Judiciária são machistas, pouco profissionais e ocos. Estão tão estereotipados! É a preocupação com o aspeto físico, a necessidade de impressionar as mulheres e a preguiça que os impede de usar o cérebro. O polícia experiente preguiçoso versus o jovem polícia com capacidades sensitivas que ajudam a resolver o caso. Tanta gente a fazer tão pouco e onde os chocolates que comem ganham mais destaque.
A família Ávila e todos os que a rodeavam encaixam em diferentes clichés associados a famílias de classe alta. Há adultério, há políticos, há corrupção, há depressão, há quem não tenha sorte no campo financeiro como grande parte dos familiares, há a tia irascível de quem ninguém gosta, há os jardineiros que dão cor às vidas aborrecidas das patroas chiques. 
Atenção, eu não sou contra o uso de clichés! Aborrece-me é o seu uso exagerado e a má exploração dos mesmos. 
A Susana, namorada do Bruno, é demasiado infantil e imatura. O papel dela no livro é ir preenchendo uns espaços na vida do jovem inspetor e dar algumas cenas de sexo de má qualidade ao livro. 
Ainda houve espaço para meter uma jornalista que nada acrescenta àquilo que o leitor quer saber, que é: Quem matou a tia que não gostava de ninguém. É uma cena descontextualizada, desnecessária e traz alguns momentos que me provocaram algumas paragens cerebrais. Não conseguia perceber a intencionalidade daquelas descrições e daqueles acontecimentos para o real conteúdo do livro, e o meu cérebro parava em desespero.
A criança da história também foi demasiado infantilizada. Espera-se outro tipo de comportamento de uma criança com  7/8 anos. De acordo com as descrições e comportamentos, eu diria que esta criança tem 5 anos. 

📌 Enredo (Esta parte poderá conter spoillers)
O enredo precisava de ser extremamente cativante para que pudesse camuflar todas as fragilidades até aqui apontadas. Partindo de uma premissa muito usada era necessário inovar e trazer coisas interessantes e desenvolver o conteúdo de forma a causar algum impacto.
Houve passagens que me ultrapassaram. Coisas em que se afiguravam como impossíveis aos meus olhos. Recolher amostras de ADN de alguém que está a dormir, justificando que o sono era demasiado pesado para dar conta? Lamento, mas por muito pesado que seja o nosso sono é impossível alguém enfiar-nos alguma coisa na nossa boca sem nos apercebermos. Isto foi uma tentativa irrealista de complexificar algo que seria simples para outras personagens (escova de dentes - entendedores, entenderão). 
Enfiar um abre cartas dentro de um urso de peluche sem descoser e voltar a coser? Sim, fez-me confusão. 
E depois há uma miscelânea de assuntos que não interessam nada para o cerne do livro e para a história que ele se propõe a contar. Parece que o escritor queria meter muitos assuntos ao barulho numa mesma obra e acabou por arriscar demasiado. Tudo o que se escolhe introduzir num livro deverá ser coerente e enquadrar-se na linha narrativa que se opta seguir. Colocar coisas só porque fazem parte da agenda sociocultural e sem que se relacionem com o conteúdo narrativo é oferecer ao leitor passagens desnecessárias. 

Sei que esta minha opinião é impopular. As opiniões com as quais me tenho cruzado seguem uma tendência positiva. Por vezes, quando as leio, sinto que li um livro diferente. Eu senti necessidade de expor de forma detalhada tudo aquilo que considerei não funcionar, tal como faria numa leitura beta. 

Já sabes, a caixa de comentário está aberta às tuas visões sobre o livro. Se quiseres, por favor, partilha-as. 

Classificação

Opinião | "O ano do pensamento mágico" de Joan Didion

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Este livro está na minha estante desde outubro de 2019. Sabia que era um livro de não ficção e que abordava aspetos ligados ao luto. Por isso, esperava o momento mais certo para o ler. Acho que é preciso um certo estado de espírito e de uma determinada disponibilidade mental para embarcar numa leitura destas.

Com uma escrita muito realista, Joan Didion dá-nos a conhecer a sua forma de lidar com as dificuldades de um ano atípico da sua vida. Ela vive diferentes perdas e o choque que elas estabelecem entre si fazem com que Joan as processe de forma muito particular. 
É um diário muito lúcido das suas fragilidades e dos desafios de vida a que Joan ficou exposta. E nessa lucidez, ela procura desconstruir aquilo que sente e as implicações que todos os acontecimentos trágicos têm na sua forma de estar na vida.

Não foi um leitura complicada, nem alterou o meu equilíbrio emocional. Li de forma mais lenta porque precisava de tempo para poder absorver o conteúdo e pensar um pouco sobre as estratégias cognitivas e emocionais que Joan usou para ultrapassar os seus problemas.

Para quem gosta de livros de não ficção, este parece-me uma boa escolha quer pela pertinência da temática, quer pela forma como ela é abordada. A conjugação destes dois elementos oferecem entusiasmo à leitura e convidam a continuar a avançar pelos pensamentos da Joan.

Classificação

Opinião | "Limões na Madrugada" de Carla M. Soares

Limões na Madrugada
Classificação: 3 Estrelas

Iniciei esta leitura cheia de expetativas. Já tinha lido outros livros da Carla M. Soares e ficou sempre a sensação de boas leituras e de históricas cativantes. Esperava tanto uma história que me encantasse e quebrasse o ciclo de ressaca literária em que me encontro, que logo nas primeiras páginas fiquei frustrada perante o aborrecimento que me invadia. Era aborrecido avançar na leitura e ficar com a sensação que não acontecia nada. Assim, senti falta de ação, de acontecimentos que marcassem a leitura de forma mais significativa e senti falta de algo que me ligasse às personagens. Acabei por me sentir muito distante da história e das personagens que cheguei a passar por fases que nem me apetecia ler.

Adriana é a personagem principal desta história. Ela procura desvendar o passado da família paterna que ficou em Portugal. Pessoalmente, nunca senti que Adriana tivesse grande vontade ou necessidade de descobrir o que motivou a partida dos pais para a Argentina. Mesmo nos últimos capítulos, enquanto conversava com o pai, houve ali uma brecha do passado que se abriu, mas não senti que isso tivesse grande eco em Adriana. Não senti a curiosidade borbulhante a nascer dentro dela ao ponto de a empurrar na busca pelo passado. Nunca a vi interrogar-se acerca da partida dos pais. Acho que essa interrogação foi nascendo de forma ligeira quando ela já estava em Portugal.
Talvez Adriana, ao vir a Portugal, estava a tentar fugir dos seus próprios fantasmas, aqueles que a inquietavam no presente e relacionados com a sua própria vida. 

Sensivelmente a partir de metade do livro, os acontecimentos surgem de forma uma pouco mais intensa o que acabou por melhor a minha leitura. Apesar desta melhoria, nunca cheguei a empatizar nem com a história nem com nenhuma das personagens. 

Apesar do meu desencanto com a história, quero realçar um ponto muito positivo e que confere uma qualidade especial ao livro: a escrita. Carla M. Soares faz com que as palavras se entrelacem numa dança suave e envolvente. E assim, mesmo com uma história simplista, sem grande impacto e que não fez o meu coração palpitar, consegui retirar o prazer de palavras escritas numa sintonia muito própria. O livro tem uma escrita muito bonita, que fluiu de forma muito suave ao longo da minha leitura, deixando um rasto de boas sensações.

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