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Por detrás das palavras

Por detrás das palavras

12
Jul19

Opinião | "Os Loucos da Rua Mazur" de João Pinto Coelho

Os Loucos da Rua Mazur

Classificação: 3 Estrelas

Estava cheia de vontade de ler este livro. Queria encontrar todas as emoções que a escrita do autor me proporcionou quando li Perguntem a Sarah Gross. Contudo, a intensidade desta história não foi suficiente para mim. Faltou-lhe o poder narrativo que encontrei no livro anterior.

Não foi um livro fácil de ler. A história é uma verdadeira manta de retalhos que se vão encaixando e que me fizeram desesperar por compreensão. Optando por fragmentar uma história entre passado e presente, com um passado marcado pelo aparecimento de muitas personagens não funcionou muito bem comigo. Foi uma enorme confusão para a minha cabeça, sempre que voltava ao passado, identificar quem eram quem e qual o seu papel na narrativa. Com o avançar da leitura a confusão foi diminuindo, mas o estrago já estava feito. Assim, como não me consegui vincular logo no início a estas personagens e toda a história, porque estava com dificuldades em assimilar tudo, tudo me pareceu distante e pouco emotivo. 

O que me deixa com mais pena é ter plena consciência do talento do escritor e que, apesar desta minha experiência menos favorável, está bem presente neste livro. Eryk, Yankel e Shionka protagonizam um dos melhores triângulos amorosos com quem já me cruzei no universo literário. O alargado conjunto de personagens não me permitiu agarrá-los no coração nem torcer por um final em específico. Senti-me muito distante deles, dos seus dilemas, das suas tristezas e dos acontecimentos terríveis que foram obrigados a viver. Eu precisava de sentir mais deles e com eles para que eles e a sua história ficassem agarrados a mim. 

Sou capaz de compreender a relevância de cada uma das personagens que foi chamada pelo escritor a contribuir para a construção desta narrativa. E apesar de, para mim, me ter gerado confusão, acredito que poderá apaixonar outros leitores. 
Os meus ideias pré-concebidos com a leitura do primeiro livro do autor fizeram-me resistir a esta história porque, lá no fundo, eu queria uma narrativa que não me fizesse dar tantos saltos narrativos e com tanta gente ao barulho. No Perguntem a Sarah Gross também acontecem saltos narrativos, mas são mais claros e têm tempo suficiente no livro para me agarrar e ficar a desejar ler o passado sempre que iniciava o presente ou vice-versa. Em Os Loucos da Rua Mazur não se verificou esse desejo, porque aquilo que lia do presente ou do passado não me apaixonava, não era 100% compreensível para mim e não me cativava o suficiente. 

É um livro com algumas surpresas, que foge ao óbvio ou àquilo que esperamos. De alguma forma conseguiu surpreender-me.

No fim da leitura senti-me muito triste e frustrada porque queria ter gostado muito mais deste livro. Sabem aqueles escritores por quem vocês desenvolvem uma certa admiração? Eu desenvolvi esta admiração pelo João Pinto Coelho, pela sua escrita ímpar, minuciosa e ilustrativa de uma enorme pesquisa para a construção de um livro com uma história coerente e cheia de emoções. Neste livro, eu consegui identificar a mesma escrita e a mesma capacidade de trabalho do autor, mas faltou-me a emoção e a minha capacidade de me sentir dentro da história a viver os horrores e as alegrias daquelas personagens.
04
Jun18

Opinião | "Perguntem a Sarah Gross" de João Pinto Coelho

Perguntem a Sarah Gross
Classificação: 5 Estrelas

Ainda não sei muito bem o que escrever sobre este livro. Esperava encontrar uma boa leitura, mas não esperava que me encantasse tanto como me encantou. É um livro onde a beleza nasce da crueldade do mundo e das pessoas. É um livro onde há amor, esperança, luta, sacrifício e amizade. É um livro onde a escrita flui de uma maneira tão encantadora e realista que fiquei presa às personagens e aos maravilhosos cenários criados pelo autor. Há diferentes cenários, dos mais bonitos aos mais dolorosos e obscuros, mas em todos eles há um traço de realismo que foi muito fácil imaginar-me ali. 

Perguntem a Sarah Gross traz-nos a história de duas mulheres: Sarah Gross e Kimberly Parker. Só no fim é que conseguimos perceber o que aproxima e distância estas mulheres e apesar da ênfase da história ser dedicada a Sarah, Kimberly também nos traz assuntos obscuros, dolorosos e que na década de sessenta ainda eram muito difíceis de abordar e obter reconhecimento pelo sofrimento que impõem. 
Sarah oferece os dois lados lunares. Com ela atravessei noites de lua cheia, onde amor e a vivacidade de uma jovem irradia energia positiva para todo lado; como também atravessei noites de lua nova, cheias de dor, incerteza e sofrimento. Mas mesmo  nas noites escuras da vida, Sarah sempre foi uma mulher estóica no seu sofrimento e nunca o seu olhar perdeu o desafio de quem não teme as investidas de ódio por parte dos outros. 

O livro está muito bem retratado e reflete muito bem o enorme trabalho de pesquisa feito pelo autor. Os capítulos do livro dedicados à vida nos Guetos em Cracóvia, assim como as vivências das personagens nos campos de concentração em Auschwitz estão descritos de uma forma crua,  detalhada e muito realista. Causou-me imensa tristeza ler estas passagens. Posso dizer que são quase cinematográficas pois permitiram-me criar imagens muito nítidas na minha cabeça e tornar esta história inesquecível.

O final apanhou-me completamente desprevenida. Não esperava aquele final e a forma como tudo se encaixou. Achei que o autor conduziu e terminou todas as narrativas para cada uma das personagens de uma forma irrepreensível. Sem pontas soltas e onde nada ficou por esclarecer. 

Gostei imenso de ler este livro. Nestas páginas encontrei o que de melhor se faz em Portugal. Encontrei a dedicação de um escritor na criação de uma história memorável. Encontrei amor e paixão em cada palavra que ia lendo. A escrita é tão bonita e envolvente que me deixou com uma inveja saudável. Também eu gostaria de envolver as palavras daquela maneira tão especial e tão cheias de vida e sentimento.

Recomendo vivamente este livro e estou cheia de curiosidade de ler o outro livro publicado pelo autor. Espero que ele continue a dar voz à sua paixão para que eu continue a dar asas à minha memória e à minha imaginação enquanto me perco numa das suas histórias.