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Por detrás das palavras

Por detrás das palavras

Opinião | "Susana em lágrimas" de Alona Kimhi

06.10.21

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Quando recebi este livro através de uma troca, a Susana (@aspalavrasdasusana) propôs fazermos uma leitura conjunta. Já há muito tempo que não fazia uma e aceitei o desafio. 
O meu entendimento com a Susana foi imediato e tornou-se o grande motor desta leitura. 

"Susana em lágrimas" é um livro perfeito no meio das suas imperfeições. A sua perfeição reside na profundidade emocional e na complexidade das relações que acompanham a dinâmica da narrativa. As imperfeições do livro residem nos aspetos formais relacionados com a escrita. Parágrafos muito extensos. Uma escrita muito confusa, que nem eu nem a Susana conseguirmos perceber se era problema da tradução ou da escritora. Uma ação que parecia não se desenvolver, porque os acontecimentos andavam em círculos. Estes elementos, por vezes, dificultaram a leitura e exigiram uma maior atenção da minha parte. Aqui a leitura conjunta foi essencial. A Susana ajudou-me nas reflexões, ajudou-me a compreender melhor algumas passagens e foi uma companheira de leitura muito motivadora. 

O livro traz-nos um conjunto de personagens pouco convencionais, com um desenvolvimento emocional muito forte e que protagonizam situações e relações algo inesperadas. A ação não se centra em clichés. Em alguns momentos, considero que o livro foi inovador nos assuntos abordados e na forma como foram apresentados. 

Susana (a personagem) é uma jovem adulta que gerou muita discussão. Ela permitiu a construção de diferentes teorias sobre a sua personalidade e o seu comportamento. A sua saúde mental está muito fragilizada e isso provocou-me algum desconforto. É uma mulher muito sensível, profunda e que oferece um realidade mais comum do que aquilo que a população pensa. É uma realidade muitas vezes camuflada, mas não é irreal vermos jovens absorvidos pelos adultos à sua volta. A Susana é sugada por todos os adultos que faziam parte da sua rede de apoio. É na relação com Ada, sua mãe, que consegui respostas para aquilo que é a essência da Susana. É uma relação complexa, tóxica e com muita dependência emocional.

Naor, o primo americano que vem passar uma temporada com estas mulheres, é o elemento desencadeador do mundo interior da Susana. Foi ele que a desestabilizou para que depois ela se pudesse organizar e encontrar o seu equilíbrio. É uma personagem muito importante para o enredo.
Eu e a minha companheira de leitura desenvolvemos uma visão um pouco diferente relativamente a este homem. A Susana achou que os sentimentos dele pela Susana (personagem) eram verdadeiros. No meu caso, tenho um lado que acreditou neles e outro que não. Para mim, foi difícil perceber. Reconheço que ele foi sempre honesto com ela relativamente a aspetos mais conturbados da sua vida. Porém, algumas vezes senti que ele foi distante e pouco sensível perante as particularidades desta mulher.

As últimas 100 páginas do livro guardam o que de melhor tem esta história. Foi aqui que a autora abriu os cadeados que foi fechando em torno das personagens e das suas relações. Foram estas páginas que me possibilitaram um conhecimento mais profundo da história e do mundo interior da Susana. 

Não é um livro comercial. Não é uma leitura rápida e descomplexada. Exige que o leitor tenha maturidade e tempo para refletir sobre os acontecimentos. 

Quero agradecer à Susana a possibilidade de leitura conjunta. Senti uma boa conexão com ela, sendo que se tornou um elemento essencial na construção das análises desta narrativa. É uma das melhores coisas que irei guardar desta experiência de leitura. Obrigada, Susana!

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Opinião | "O cavalheiro inglês" de Carla M. Soares

27.09.21

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"O cavalheiro inglês" foi a minha última leitura das férias. As expetativas estavam altas! Depois de ter adorado "O ano da dançarina" espera cruzar-me com uma leitura capaz de me oferecer bons momentos e uma história para recordar. Esta história conseguiu estar à altura das minhas expetativas e foi uma excelente forma de terminar as leituras das minhas férias. 

A ação deste livro decorre no final do século XIX, num Portugal ferido pelos ingleses em consequência do Ultimato Inglês e com muito descontentamento relativamente à Monarquia. 
O contexto social está muito bem apresentado. Foi muito fácil conseguir-me situar naquele tempo, naquele espaço e viver o desafios sociais, económicos e políticos que marcaram aquela época. 

Numa escrita muito acessível e sem floreados, a escritora levou-me numa viagem por outros tempos. As descrições dos espaços, das roupas, das personagens e do seu mundo interior são aspetos muito bem conseguidos e que oferecem um realismo muito grande ao livro. 

Sofia é quem merece o destaque da obra. Ela e o irmão alimentam o dinamismo do livro. Partilham uma relação única, mas vivem a realidade de forma diferente. É uma personagem feminina capaz de inspirar as leitoras. Numa época em que as mulheres não tinham voz ativa na sociedade, Sofia ousou ser diferente. Foi muito interessante assistir às suas lutas, aos seus dilemas morais e à forma como desafiou preconceitos e vontades masculinas. Teve a capacidade de se afirmar no seu espaço e fazer conquistas que lhe trouxeram muita felicidade. Robert parecia ser mais feroz. Um inglês respeitador, trabalhador e que protagoniza diálogos muito, muito realistas. É fácil reconhecê-lo no livro. 

O elemento romântico que alimenta a história é crescente e simboliza liberdade, conquista e a quebra de preconceitos. Os protagonistas desta história de amor sabem alimentá-la; se por um lado olham para a união como um negócio e uma forma de resolver a situação, por outro os sentimentos vão crescendo e permitem a criação de laços mais coesos. 

Nesta narrativa há espaço para muito elementos: História, amor, aventuras, crime e fugas. É um livro cheio de dinamismo, sem espaço para aborrecimento. 

É um livro que ilustra o crescimento da escritora. Comparativamente ao livro "Alma rebelde", este está mais coeso, com as passagens bem desenvolvidas e descritas e mais aprofundado na contextualização histórica. Colocando-o na balança de preferências, este é umas gramas mais leve que "O ano da dançarina". 

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Opinião | "Sempre tu" de Colleen Hoover

21.09.21

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Se há escritora que consegue transformar emoções e sentimentos em palavras é a Colleen Hoover. Todos os livros que li da escritora conseguem carregar uma carga emocional que me liga quase de imediato às suas histórias. Esta característica dos livros é muito importante. É uma forma do leitor trabalhar a sua própria competência emocional.

"Sempre tu" reúne a história de dois olhares: o de Morgan e o de Clara. Estas páginas reúnem os relatos de uma mãe e de uma filha sobre a realidade onde estão inseridas. São relatos marcados pela personalidade de cada uma. Morgan traz-nos uma parte da sua voz adolescente que contextualiza algumas partes da sua voz adulta. A voz de Clara espelha os dilemas, dramas e confusões de uma adolescente. 

É um livro preenchido por diferentes formas de amor. Há amores imutáveis, que o tempo não os desvanece; há os que se transformam após uma revolução, tornando-se mais maduros; há os que nascem da inocência, uns com mais brilho, outros que se perdem na luz ofuscante de um sentimento ambíguo. Tantas maneiras diferentes de amar e cada uma com um papel relevante para a história que este livro conta. 

O drama é o ponto central do livro. Há um acidente com com Chris, o marido de Morgan e pai de Clara, que origina um conjunto de transformações. Não foi muito difícil adivinhar a linha narrativa que iria orientas as dinâmicas de algumas das personagens. Os acontecimentos são previsíveis, mas a forma como eles são contados transformam-nos num desencadear muito diversificado de emoções. É esta componente emocional que anula o possível aborrecimento que as coisas previsíveis podem originar. 

O drama assenta no desmoronar de uma vida que se acreditava alinhada. É interessante olhar para a Morgan e vê-la a desconstruir as suas escolhas e os acontecimentos que marcaram a sua existência. Há ali uma história paralela que merecia ser contada. Eu queria ter sabido o conteúdo daquelas cartas e daquelas postais. Gostava de conhecer o outro lado da história. Estes elementos causaram-me alguma frustração. Ficou demasiado espaço para  a imaginação e muitas interrogações. 

E, enquanto tudo à sua volta ruía, Morgan revirava o seu interior para atender às necessidade da sua filha. Clara, qual adolescente rebelde, assumiu uma postura um pouco mimada e egocêntrica. A interação entre estas duas pode originar alguma momentos de frustração. Muitas vezes me apeteceu saltar para dentro do livro e oferecer um banho de humildade à Clara, mas sabia que a autora iria ser capaz de enquadrar os momentos de tensão que estas duas protagonizaram. 

Com Miller, Clara tem uma postura mais adulta. Porém, nos momentos em que se deixa consumir pela raiva que alimenta em relação à mãe, ela transforma-se num ser um pouco desprezível e choca com a serenidade do Miller. 
Miller é um rapaz mais carismático do que aquilo que inicialmente parece. Aquele capítulo final onde ele despe toda a sua alma é bastante emocionante. Foram das cenas mais bonitas que eu já li em livro. 

A leitura é viciante. Há muito dinamismo na narrativa o que torna a leitura muito fluída. 
Foi uma excelente leitura de férias. 

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Opinião | "A mão que mata" de Lourenço Seruya

03.09.21

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Terminada a leitura do livro "A mão que mata" tenho dificuldade em perceber o que tanto cativou os leitores, principalmente aqueles que leem muitos livros dentro deste género literário.

Começando pelos aspetos positivos e que eu acho que foram bem conseguidos:

  • A capa e o aspeto gráfico do livro. Eu não sou muito de prestar atenção ou de me importante com as capas (não sou esquisita), mas esta capa captou bem a minha atenção. É visualmente bonita e tem a capacidade de me transportar para um ambiente mais sombrio. É um elemento que acaba por orientar o leitor para a atmosfera que a história pretende transmitir. O interior do livro também revela muito cuidado e tem pormenores nas primeiras páginas de cada capítulo que são muito bonitas e sugerem cuidado no momento de criar o objeto. 
  • O título. Aos títulos já costumo prestar mais atenção. Este é daqueles que tem a capacidade de me intrigar e que me faz querer ler o livro. Na minha opinião, foi bem conseguido e tem um forte poder de atração. 

Estes foram os aspetos que me cativaram. Tudo o resto que compõem este livro trouxe-me bastante insatisfação. O livro insere-se num género literário que gosto muito e que faz parte da minha rotina de leitora. Este aspeto talvez faça de mim um leitora mais exigente e mais atenta ao que encontro na história.

O que é que não funcionou neste livro?

📌 Escrita
A narração é marcada pelo uso exagerado das vírgulas, pelas comparações onde falta a originalidade e pela predominância do contar. Realmente, senti muito a falta de que a escrita me mostrasse as coisas, me mostrasse o que se estava a passar. Dá a impressão que o livro recebeu uma revisão pouco cuidada, pois muitos destes elementos poderiam ter sido corrigidos. 
Acho que jamais me irei esquecer da expressão "Arfavam como cães (...)" (p.215). Foi uma má escolha de palavras para enquadrar uma descrição de uma cena que deveria ser caracterizada pela sensualidade. É uma expressão que tira elegância à cena e não dá o tom que deveria dar. 
Há partes demasiado contadas, quando deveriam ser mostradas. Por exemplo, nas cenas de interrogatório, quando a personagem precisa de falar sobre o que aconteceu, o autor atalha caminho e, em meia dúzia de linhas conta o que se passou. Seria muito importante mostrar! Como estava a testemunha? Qual a sua linguagem corporal? Que sinais dava enquanto descrevia a sua posição perante o acontecimento? Estes elementos perdem-se quando se opta por contar em vez de mostrar. 

📌 Diálogos
Na sequência da minha última observação surgem as limitações dos diálogos deste livro. Muitas vezes me questionei se as passagens que estava a ler tinham como real objetivo mostrar um interrogatório policial. Fez-me confusão ver investigadores e suspeitos a dissertar sobre questões sociais /pessoais (por exemplo: a decisão de uma mulher ter ou não filhos, a vida pessoal do inspetor Bruno), quando o que se devia estar a fazer era recolher informações que permitissem resolver o caso.
São diálogos desconexos, que não contribuem para o desenvolvimento da narrativa. Soam de forma artificial e parecem ter sido encaixados de uma força demasiado forçada.

📌 Personagens
Eu não consegui gostar de nenhuma das personagens. Todas elas carregam demasiados estereótipos, fazendo com que se tornassem unidimensionais aos meus olhos. Eu adoro personagens com muitas camadas, em que o desenvolvimento da narrativa me permite aceder ao interior de cada uma delas. Aqui, isso não aconteceu com nenhuma.
Os inspetores da Polícia Judiciária são machistas, pouco profissionais e ocos. Estão tão estereotipados! É a preocupação com o aspeto físico, a necessidade de impressionar as mulheres e a preguiça que os impede de usar o cérebro. O polícia experiente preguiçoso versus o jovem polícia com capacidades sensitivas que ajudam a resolver o caso. Tanta gente a fazer tão pouco e onde os chocolates que comem ganham mais destaque.
A família Ávila e todos os que a rodeavam encaixam em diferentes clichés associados a famílias de classe alta. Há adultério, há políticos, há corrupção, há depressão, há quem não tenha sorte no campo financeiro como grande parte dos familiares, há a tia irascível de quem ninguém gosta, há os jardineiros que dão cor às vidas aborrecidas das patroas chiques. 
Atenção, eu não sou contra o uso de clichés! Aborrece-me é o seu uso exagerado e a má exploração dos mesmos. 
A Susana, namorada do Bruno, é demasiado infantil e imatura. O papel dela no livro é ir preenchendo uns espaços na vida do jovem inspetor e dar algumas cenas de sexo de má qualidade ao livro. 
Ainda houve espaço para meter uma jornalista que nada acrescenta àquilo que o leitor quer saber, que é: Quem matou a tia que não gostava de ninguém. É uma cena descontextualizada, desnecessária e traz alguns momentos que me provocaram algumas paragens cerebrais. Não conseguia perceber a intencionalidade daquelas descrições e daqueles acontecimentos para o real conteúdo do livro, e o meu cérebro parava em desespero.
A criança da história também foi demasiado infantilizada. Espera-se outro tipo de comportamento de uma criança com  7/8 anos. De acordo com as descrições e comportamentos, eu diria que esta criança tem 5 anos. 

📌 Enredo (Esta parte poderá conter spoillers)
O enredo precisava de ser extremamente cativante para que pudesse camuflar todas as fragilidades até aqui apontadas. Partindo de uma premissa muito usada era necessário inovar e trazer coisas interessantes e desenvolver o conteúdo de forma a causar algum impacto.
Houve passagens que me ultrapassaram. Coisas em que se afiguravam como impossíveis aos meus olhos. Recolher amostras de ADN de alguém que está a dormir, justificando que o sono era demasiado pesado para dar conta? Lamento, mas por muito pesado que seja o nosso sono é impossível alguém enfiar-nos alguma coisa na nossa boca sem nos apercebermos. Isto foi uma tentativa irrealista de complexificar algo que seria simples para outras personagens (escova de dentes - entendedores, entenderão). 
Enfiar um abre cartas dentro de um urso de peluche sem descoser e voltar a coser? Sim, fez-me confusão. 
E depois há uma miscelânea de assuntos que não interessam nada para o cerne do livro e para a história que ele se propõe a contar. Parece que o escritor queria meter muitos assuntos ao barulho numa mesma obra e acabou por arriscar demasiado. Tudo o que se escolhe introduzir num livro deverá ser coerente e enquadrar-se na linha narrativa que se opta seguir. Colocar coisas só porque fazem parte da agenda sociocultural e sem que se relacionem com o conteúdo narrativo é oferecer ao leitor passagens desnecessárias. 

Sei que esta minha opinião é impopular. As opiniões com as quais me tenho cruzado seguem uma tendência positiva. Por vezes, quando as leio, sinto que li um livro diferente. Eu senti necessidade de expor de forma detalhada tudo aquilo que considerei não funcionar, tal como faria numa leitura beta. 

Já sabes, a caixa de comentário está aberta às tuas visões sobre o livro. Se quiseres, por favor, partilha-as. 

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Opinião | "O boss" de Vi Keeland

27.08.21

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A Daniela adivinhou o quanto eu precisava de um livro assim: leve, divertido e muito descontraído. Li-o em menos de 24 horas e ri como já não ria há muito tempo com um livro.

Nas primeiras páginas, Chase e Reese protagonizam uma sequência de momentos extremamente hilariantes e cheios de peripécias que originam gargalhadas muito fáceis. Ao mesmo tempo que estes dois colecionam momentos embaraçosos, crescem entre eles sentimentos que os aproximam, assim como uma tensão sexual que abrilhanta todos os momentos de sedução. 

Esta leveza narrativa vai-se diluindo com o desenvolvimento da história. A componente dramática começa a ganhar destaque permitindo ao leitor conhecer outro lado das personagens. Na minha opinião, considero que este acrescento à história oferece um lado mais intimista. Apreciei imenso o lado cómico do livro, mas também fiquei muito satisfeita com o tom mais dramático e sombrio. 

Foi uma excelente leitura para assinalar o início das minhas férias.
Reese é uma rapariga bastante inspiradora e dinâmica. Um verdadeiro espírito livre. Acho que gostei muito dela por ser tão diferente de mim. Não se inibe, luta por aquilo que quer e tem um talento natural para protagonizar situações embaraçosas.
Chase, aos olhos de Reese, é um homem de retirar o fôlego. O que mais gostei nele foi o seu carácter e a forma como geria a sua empresa. É um gestor que age com respeito, transparência e que valorizava cada um dos seus colaborares, reconhecendo-lhes competência e talento.

Muito se tem partilhado sobre o preconceito literário. Aos olhos de alguns leitores, este livro poderá ser considerado "inferior". É óbvio que o livro não é nenhuma obra prima da literatura, mas tem uma narrativa coerente, personagens bem construídas, tem humor e deixa mensagens importante ao leitor:

  • O nosso passado não nos define;
  • Quando amamos uma pessoa respeitamos as suas manias e idiossincrasias; 
  • Quando se ama e confia não há medo em partilhar as manias mais estranhas;
  • Há muitos estilos de liderança, mas quando se opta por um estilo democrático e de respeito o ambiente é muito melhor e os colaboradores são mais produtivos;
  • Por muitos que sejam os obstáculos, há amores que sobrevivem e fortalecem a ligação entre as pessoas. 

"O boss" é um livro que ensina sobre o poder da empatia e nos obriga a olhar para as relações humanas de diferentes ângulos e perspetivas, sem julgamento, ao mesmo tempo que oferece diversão e muitas gargalhadas. 

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Opinião | "Pura raiva" de Cara Hunter (DI Adam Fawley #4)

30.07.21

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Quantos segredos podem ser escondidos por um grupo de adolescentes? Quanta maldade poderá caber num coração de um(a) adolescente? Sempre foram perguntas que me inquietaram e que me deixavam muito reticente em trabalhar com este grupo da população. Não lhes consegui escapar! Trabalhei com muitos adolescentes, mas, felizmente, cruzei-me com os adolescentes tipicamente (im)perfeitos. Tinham as suas nuances e níveis de maldade ajustados.

"Pura raiva" levou-me aos "meus" adolescentes e aos meus preconceitos relativamente a eles. Levou-me, também, a refletir sobre o lado mais negro da adolescência e de como pode ser determinante na formação da personalidade e no desenvolvimento pessoal.
Os acontecimentos deste livro permitiram tais reflexões. Bons pontos de partida para pensar sobre de que forma um(a) adolescente se posiciona no seu grupo social e como é que todos à sua volta funcionam. 

É um livro extremamente complexo, porque há teias de relacionamentos que se vão emaranhando. Confrontei-me com a confusão, a revolta, sentimentos de impotência por olhar para aqueles adolescentes e constatar quanto os pais podem andar adormecidos perante o comportamentos dos filhos. É normal haver segredos entre adolescentes. É normal os adolescentes não contarem tudo aos pais. O que deixa de ser adaptativo é os pais se desligarem da vida quotidiana dos seus filhos. Este história e este livro obrigam-nos a fazer este exercício e a olhar a fundo para os adultos que vão oferecendo alguns apontamentos. 
Numa história onde o preconceito, a transfobia e a maldade adolescente se unem numa linha narrativa com efeito crescente, tudo se torna emocionalmente explosivo é incapaz de provocar indiferença. É impossível olhar para esta história e não sentir o realismo dos acontecimentos. 

Eu sei quanto os(as) adolescentes podem ser más pessoas. Também há adultos que continuam a olhar para estes comportamentos e a denominá-los de "coisas de miúdos(as)". Lamento, mas não são! Também há quem diga que sempre houve bullying, sempre existiram zangas entre adolescentes. Sim, é verdade. O problema é que a maldade tornou-se cada vez mais complexa. 

Conjugando diferentes perspetivas, diferentes linhas de pensamento, Cara Hunter vai revelando a sua mestria na construção de um policial extremamente apelativo. Para além das personagens novas que inevitavelmente surgem nesta história, ela também nos permite conhecer mais sobre a vida das personagens residentes. E não havia melhor forma de terminar. Aquele final é uma "injeção" nervosa enquanto aguardamos o livro seguinte.

Suspense, diversidade de conteúdo (entrevistas, redes sociais), muitos becos sem saída bem desenhados para levar o leitor ao engano, surpresas e uma visão de todos os lados daquilo que pode ser a essência humana juntaram-se num livro que, para mim, é um dos melhores da série. 

Curiosa(o) com este livro?
Aconselho a ler por ordem. Apesar das histórias serem perfeitamente compreendidas sem a leitura dos anteriores, há aspetos importantes das personagens residentes que só conseguimos perceber se lermos os livros por ordem de publicação.

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Opinião | "Duquesa do meu coração" (The Vault Collection #1) de Maya Banks

02.07.21

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Tenho andado mentalmente casada, fruto de um trabalho mais intelectual. Sinto que este cansaço não é muito benéfico para a leitura. Níveis de atenção mais baixos, menos capacidade para assimilar conteúdo... Um cocktail um pouco prejudicial para quem gosta de se perder num livro. 
Perante este estado emocional, há pessoas que gostam de deambular pelas redes. No meu caso, só me apetece ver televisão e pegar em livros mais leves, descomplicados e a atirar para um lado mais romanceado. Conclusão, o livro "Duquesa do meu coração" foi a leitura certa para estes dias de stress. Consegui focar a minha atenção, consegui avançar na leitura a um ritmo simpático e fiquei inundada da sensação positiva que só uma bonita história de amor é capaz de deixar. 

O livro tem um lado leve e cativante, mas trata de um tema muito sério. Jillian conheceu um lado negro do casamento e, assim que lhe foi possível, revestiu-se de coragem e enfrentou a sociedade conservadora da época. Foi importante ler sobre estas dinâmicas e perceber de que forma a afirmação pessoal da Jillian colidia com os ideias esperados para uma senhora naquela época. Além disto, a Jillian também deixa outra lição nem sempre o ataque ou uma postura marcada pela hostilidade é a opção ideal para se vingar dos sentimentos menos positivos. 

Outro aspeto que também gostei particularmente neste livro foi a amizade de Jillian com Case. Só por si, esta amizade constituía um desafio às normas sociais da época. A relação foi bem desenvolvida e ofereceu um tom ainda mais doce à história e à felicidade final. 

É claro, este livro tem de ter um romance a deslizar nas páginas. Inicialmente, estava um pouco reticente à forma como tudo se estava a desenvolver. Acho que foram as páginas finais e a atitude de Justin que conquistaram o meu coração. 

Nem tudo neste livro e no desenrolar da narrativa é surpresa. Há uma linha narrativa que é particularmente previsível, mas isso não afetou a minha diversão na leitura nem interferiu com a minha capacidade de apreciar os factos e ficar feliz com desfecho de tudo. 

Será uma série para seguir. Penso que o Case também terá direito a um livro dedicado ao seu universo. E eu gostei tanto do Case que também o quero ver a provar a doçura que só um amor correspondido pode oferecer. 

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Opinião | “Quando o sol brilha” de Rui Conceição Silva

12.06.21

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Desde o momento em que aprendi a diferença entre o contar e o demonstrar que a leitura se tornou diferente para mim. Esta aprendizagem permitiu-me olhar para a histórias de outra forma e perceber melhor o porquê de alguns livros não funcionarem comigo.

Quando o sol brilha fez-me perceber a importância do demonstrar para que uma história ganhe dimensionalidade para mim. É verdade que parti para a leitura com expetativas bastante elevadas. As pontuações e opiniões do Goodreads sugeriam uma boa leitura.  Contudo, logo nas primeiras páginas senti que iria ter pela frente uma leitura exigente e que estava longe das promessas que antevi no Goodreads.

Como deves perceber pelo meu primeiro parágrafo, este livro revela algumas fragilidades estruturais. O contar é aquilo que domina o livro e pouco espaço sobre para o demonstrar. As páginas em estilo relato sucedessem-se umas às outras. Pelo meio surgem diálogos, por vezes, artificiais; contruídos através de frases feitas que não representam as personagens deste livro. Não são frases de gente simples, de um Portugal demasiado rural e a sair de um período de ditadura que o desgastou. Há excesso de purple prose que torna a leitura frustrante e onde me arrastei na esperança de que as coisas melhorassem.

Outro problema do livro é o seu foco, o seu objetivo. A minha sensação é que o escritor quis abraçar o mundo e acabou por se perder nele. As temáticas são flutuantes, os acontecimentos sucedem-se uns aos outros e os conflitos não são esgotados de forma a dar um propósito e uma orientação clara à história e às suas personagens. Temos um livro cujo início se centra quase em exclusivo na dinâmica de uma aldeia e das pessoas que lá vivem; depois aflora-se a história de Felismino e Alice, sem se aprofundar verdadeiramente as emoções e os acontecimentos; seguem-se as tragédias de Edmundo, um homem simples que gosta de ler, muito contadas e pouco demonstradas.

Sendo uma narrativa cuja a ação decorre, maioritariamente, na década de 70, está demasiado despedia de contextualização Histórica. De referências que levem o leitor para aquele espaço, para aquele tempo e para aquele lugar. No final, elas aparecem de forma mais vívida, mas em grande parte do livro senti que poderia ser uma história passada numa qualquer aldeia do interior nacional na década de 90.

Há uma enorme miscelânea de assuntos que o livro aborda: demência, luto, alcoolismo, saúde mental. Apenas faltou uma abordagem que esgotasse estes assuntos de uma forma mais realista e, no caso da saúde mental, mais respeitável e verdadeira. Na fase final do livro, há um conjunto de páginas cujo foco é a saúde mental. Confesso que a forma como o assunto foi tratado me revoltou. Achei as cenas pouco coesas e que ilustravam pouco o que era ser doente mental na década de 70.

Além da saúde mental, há outro aspeto do comportamento de Edmundo que me pareceu demasiado normalizado. Não quero entrar em pormenores para não deixar spoilers, mas não achei o comportamento coerente com a situação nem com a personagem em questão.

Desta leitura irei guardar a ruralidade presente em muitos dos momentos do livro. Viver num universo rural permitiu-me identificar com alguns aspetos e situações do livro. Há passagem que me remetem para as histórias que os meus avós, os meus pais e amigos da família partilhavam de como era viver numa aldeia mais interior nas décadas de 70 e 80.

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Opinião | "Chama-me pelo teu nome" de André Aciman

04.06.21

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A maioria das pessoas não consegue evitar viver como se tivesse duas vidas, uma é a maquete, a outra, a versão finalizada, e depois uma série de versões pelo meio.

Esta é uma frase que surge na última parte do livro e que, para mim, é um espelho real de Elio e Oliver. Estas duas personagens tiveram o dom de me encher o coração de amor, de revolta e, em certos momentos, raiva. Foram tantos os sentimentos que nem sei muito bem por onde começar a expor a minha opinião e vivência com este livro.

Talvez comece por falar na importância de termos mais livros que abordem de forma tão genuína a homossexualidade. São livros importantes para que jovens homossexuais possam encontrar modelos com os quais se identifiquem; e para que outros jovens não homossexuais quebrem preconceitos e ideias erradas sobre aquilo que é a homossexualidade, ou seja, para que a olhem como sendo unicamente como uma expressão de uma amor. Foi isto que o Elio e o Oliver me ofereceram: uma visão do amor que os uniu. 
Atendendo a estas características, acho que é um excelente livro para levar para as aulas e desenvolver partilhas e discussões ricas e capazes de partir com os preconceitos.

A história apresenta-nos diferentes fases. Confesso que as que mais gostei foram a primeira e a última. Senti que as duas partes intermédias sexualizaram muito uma relação que ia além da expressão física do amor que uniu Elio  a Oliver. Aqui senti falta de outras descobertas, de ver a construção de laços que explicam a ligação bonita que emergiu nas últimas páginas do livro. 
Ao longo do livro desesperei muito com o Oliver. Talvez por ser mais velho, talvez por não ser tão impulsivo, assumiu uma postura mais contida e, por vezes, um pouco fria e altiva em relação a Elio. Isto deixava-me com raiva, zangada! Tínhamos ali um Elio sedento de afeto, ainda adolescente, a dar os sinais que conseguia e do outro lado vinha a indiferença. Sim, poderia ser um mecanismo de defesa de Oliver. Poderia ser uma forma mais contida de Oliver agir. E claro, o livro é narrado na perspetiva do Elio. Nunca saberei verdadeiramente o que pairava na mente e no coração de Oliver. Por pensar nisto, acho que seria bem interessante um livro escrito na perspetiva de Oliver. 

As últimas páginas são fenomenais. Toda a escrita de Aciman é delicada e cheia de possibilidades interpretativas, mas são as últimas páginas que mais me refletiram esse talento. São momentos mais introspetivos, mais reveladores daquilo que a essência de Elio e Oliver. A beleza vem acompanhada de algumas sensações dolorosas e isso remete-me para a citação que escolhi para iniciar esta minha opinião. Tudo que lemos no final deste livro é um convite aberto à reflexão, ao que escolhemos fazer da nossa vida, a onde podemos ir retirar felicidade, ao conforto das memórias doces de outra época. 

Foi um livro que me trouxe sentimentos complexos. Quer pelos conteúdos quer pela forma como me relacionei com a história. Não adorei o livro. Sinto que daqui a uns tempos pouco da história restará da minha memória. Porém, considero que foi uma leitura importante. Que me ofereceu uma realidade aparentemente diferente da minha, porque como eu já escrevi em cima, apenas se resumiu a uma outra forma de demonstrar e de sentir o amor. Vou guardar com carinho as vivências do Elio e os sentimentos que ele foi demonstrando ao longo de toda a narração. Sinto que é algo que vai permanecer em mim. 

Por fim, acho que o outro livro do autor Encontra-me poderá dar-me algumas respostas aos meus sentimentos mistos. Quer saber mais sobre o acontecimento que encerra este Chama-me pelo teu nome

Agora, segue-se a visualização do filme.

Caro leitor que já teve oportunidade de ler este livro, o que é que podem partilhar comigo? Que sentimentos ele provocou em vocês?

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Opinião | "Acredita: a vida sabe o que faz" de Júlia Domingues

14.05.21

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Este não é um tipo de livro que eu opte por comprar. A verdade é que não vai muito ao encontro dos meus interesses. Porém, a A., a minha "estágiamiga" decidiu oferecer-mo de presente. Ela foi conquistada pelo livro e pela sinopse; eu comecei a leitura com alguma reserva. 

O livro reúne um conjunto de texto soltos que abordam o desenvolvimento pessoal e a importância de acreditarmos nas nossas capacidades. No fundo, são textos motivacionais. 

São textos agradáveis de ler, mas não me tocaram de forma particularmente especial. Acho que não têm a profundidade suficiente para me levar a reflexões. Eu procuro sempre coisas mais complexas. Um livro de ficção, com uma boa história (drama, romance, thriller), por vezes, tem uma maior capacidade de me colocar a pensar nos assuntos a refletir na minha vida. No fundo, passei pelas páginas desde livro de forma um pouco leviana. 

Talvez seja um bom livro para quem se está a iniciar na leitura, para quem procura textos soltos que abordem a resiliência humana e a capacidade que pode viver em cada um de nós.  

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