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Por detrás das palavras

Por detrás das palavras

16
Abr21

Opinião | “Encontro em Itália” de Liliana Lavado

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Esta leitura não foi completamente às cegas. Há dez anos fiz leitura-beta do livro que deu origem a este “Encontro em Itália”, por isso já conhecia os traços gerais da história (a memória já não guardava os pormenores deste livro, final incluído).

A capa e o título podem enganar um pouco o leitor e afastar quem tem um gosto por fantasia. Ao primeiro olhar parece um romance um pouco ao estilo dos young-adult, mas é bem mais do que uma história romântica. Sim, há espaço para o romance! Porém, este romance está contextualizado num universo marcado pela fantasia e pelos anjos caídos.

Fantasia não é aquele género capaz de me fazer vibrar. Há algumas exceções! Este é um deles. Apesar de todos os elementos que lhe conferem fantasia, tal como da primeira vez, eu consegui gostar da história e das suas personagens.

O livro narra a história de dois amigos, Sara e Henrique, que partilharam a infância e grande parte da sua adolescência. Aos 18 anos acabam por seguir caminhos distintos e perderam um contacto um do outro. Ao sabor de uma antiga promessa, o reencontro acontece e uma série de aventuras cruzam-se no caminho dos dois amigos, para desespero do sensato e ponderado Henrique.

E, assim, as palavras tecem uma história com uma dinâmica muito interessantes. Não há espaço para o leitor se sentir aborrecido! Os capítulos curtos e a sucessão de mudanças permitem uma leitura entusiasmante onde permanece a vontade de saber onde é que a Sara e o Henrique nos irão levar. Por vezes, o ritmo é demasiado rápido. Eu gostava que a viagem a Itália não fosse tão intensamente rápida. Porém, reconheço que este ritmo acompanha a personalidade intensa, instável e frenética da Sara.

Haari é uma das personagens mais especiais com quem me cruzei. Tal como achei quando li a primeira versão, ela merecia um livro só para ela. Nesta personagem, concentra-se a magia, o mistério e situações caricatas que facilmente arrancam um sorriso. Associada a Haari e um conjunto peculiar de personagens, existe um livro. Este objeto tem uma importância significativa na história e acho que o Henrique não foi capaz de experimentar toda a sua potencialidade.

Concluindo, “Encontro em Itália” é um livro que conjuga romance contemporâneo com fantasia urbana. Esta conjugação poderá ser útil para leitores que, tal como eu, não sejam grandes apreciadores de livros de fantasia mais “puros”.

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09
Abr21

Opinião | “A rainha desejada” (As encantadas #1) de Telma Monteiro Fernandes

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Para mim é sempre complicado quando tenho que partilhar uma opinião menos favorável relativamente a um livro. É ainda mais difícil quando: 1) o livro é de um escritor português e 2) o livro foi-me disponibilizado pelo(a) escritor(a).

A escrita está associada a sonhos pessoais. Uma opinião menos positiva significa quebrar e estilhaçar o ego de quem ousou lutar pelos seus sonhos. Apesar disto, sinto que tenho de ser sincera. Partilhar uma falsa opinião não irá contribuir para a evolução de quem ousou seguir o seu sonho. Por esta introdução já conseguem antever a minha experiência com este livro.

Há umas semanas fui contactada pela Telma, a autora deste livro, com um convite para ler a sua obra. Tenho sido mais seletiva com estes pedidos, mas decidi arriscar (só correndo riscos tenho oportunidade de descobrir). Ela enviou-me o e-book e eu comecei a ler. Depois de ler meia dúzia de páginas, já estava completamente desmotivada para a leitura.

“A rainha desejada” tem Ana como protagonista. Ana vive no século XX, mas um incidente leva-a numa viagem pelo tempo. Estas viagens no tempo podem ser perigosas para o escritor. Exigem pesquisa, conhecimento e coerência no conteúdo que introduzem. Neste livro sente-se muito a falta deste conhecimento e do brio em colocar as coisas em consonância. É tudo “despejado” para o texto de uma forma pouco cuidada e demasiado amadora. Eu gosto de ler romances históricos e de época, mas gosto de ver as coisas com sentido e bem alinhadas. A forma como tudo foi conduzido parecia que ia culminar num desrespeito pelo que de facto aconteceu com a História de Portugal. E, em parte, acabou por se verificar.

Não apreciei a forma como a narrativa foi conduzia. Eu não conseguia visualizar a beleza de D. Manuel I (basta uma pesquisa rápida na internet para perceber que beleza era um conceito que não se aplicava ao físico deste rei). Acho que a imagem que a escritora passou ultrapassa a realidade; mexer num aspeto tão específico da história de Portugal, dando-lhe uma conotação diferente, fez-me confusão. Fez-me imensa confusão uma jovem do século XX, achar as roupas do século XV confortáveis (dada a quantidade de peças e acessórios que compunham o vestuário feminino). Fez-me muita confusão os banhos na praia em pleno século XV. O comportamento de Ana e restantes personagens estava completamente descontextualizado da época que pretendia retratar. Há poucos elementos que situam o escritor na época, e os que existem estão mal descritos e são deturpados em função dos interesses da escritora.

O desenvolvimento da narrativa não foi o único problema. A escrita é fraca e com bastantes erros ortográficos. É tudo demasiado contado e pouco descrito. A pontuação é outro aspeto que carece de uma revisão profunda. Várias vírgulas entre sujeito e predicado; ausência das mesmas quando a autora usava o vocativo; diálogos e frases totalmente mal pontuadas. Isto revela falta de cuidado na revisão e um grande amadorismo na escrita. No fundo, temos um livro com graves problemas na estrutura narrativa e mal escrito.

É uma escrita muito desleixada. Sinto que é necessário muito trabalho. É preciso ler mais e escrever mais para que isso se reflita numa escrita cuidada e cativante.

Acho que com alguns exemplos, poderão perceber o que é que funcionou mal nesta obra.

“O primeiro a despertar foi Ana, que abriu os olhos lentamente e vislumbrou o rosto de Manuel, que dormia um sono profundo e reparador. Ana acariciou-o carinhosamente no belo rosto, e assimilou amar muito aquele homem, com todo o seu coração e que desejava verdadeiramente ficar a seu lado para sempre, mesmo que isso significa-se nunca regressar ao seu século.” – Para além da má construção frásica, podemos ver o encontrar um tipo de erro que se repete até à exaustão ao longo da obra.

“Naquele dia de verão, ao pôr do sol e observando Lisboa do lado oposto, Ana sentia-se ansiosa, como se no ar crepita-se algo, como se a brisa suave que sentia nos seus longos e ondulados cabelos estivesse a sussurrar-lhe aos ouvidos, mas desvalorizou o sentimento, sacudiu os seus pensamentos e continuou o seu passeio, observando o rio e as suas cores fortes de origem vermelha que o pôr do sol espelhava nas águas calmas.” – Aqui temos um mau exemplo de pontuação (um entre muitos outros ao longo do livro).

Para além dos problemas que já identifiquei, estes parágrafos são uma ilustração de uma escrita pouco rudimentar e que precisa de bastante trabalho para que seja aperfeiçoada.

O final foi desastroso. Eu percebo o motivo que conduziu àquele desfecho, mas fez-me confusão. Sim, foi demasiado fantasioso para as minhas preferências. Houve situações em que me ri, dado a quantidade de disparates que ali foram enumerados. Foi horrível perceber a tentativa forçada de incluir a pandemia; a estupidez de dar um final feliz à Ana, aspeto que implica mexer com dados concretos da História de Portugal e o amadorismo que se espelha na forma como os acontecimentos são revelados. Os próprios comportamentos destas últimas páginas reforçam a falta de sensibilidade para colocar no papel a experiência pessoal de quem passa por um evento que lhe altera completamente a vida.

Numa frase, “A rainha desejada” é uma adaptação barata e péssima da série Outlander.

Nota: Não posso deixar de referir um aspeto que me deixou um pouco indignada e justifica o detalhe esta opinião. Penso que nunca escrevi uma opinião tão dura. No início da semana, enviei um e-mail à Telma. Expliquei-lhe o que achei do livro, dei-lhe algumas sugestões de melhoria, enviei-lhes uns links para se informar e o pdf com alguns comentários que fui fazendo ao longo da leitura. A autora revelou uma enorme falta de humildade. Ela afirmou que ia não ler a opinião, porque não queria desanimar agora que a convidaram a escrever um novo livro. Está no seu direito. Porém, senti que desprezou a informação que lhe passei e todas as minhas observações. Não sou uma perita em livros (tenho muito para aprender), mas considero que tenho experiência suficiente para identificar o que é ou não um bom livro. De boa vontade, partilho o que achei e tento dar sempre soluções para uma melhoria dos manuscritos. É óbvio que não espero que aceitem tudo, mas achar que o trabalho está bom e que não precisa de melhorias releva uma falta de humildade atroz. Talvez deva deixar de aceitar estes pedidos e de dar sugestões. Há pessoas que não merecem o nosso tempo nem a nossa bondade.

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02
Abr21

Opinião | "Ninguém me conhece como tu" de Anna McPartlin

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Comecei a leitura de "Ninguém me conhece como tu" sem grandes expetativas. Não tinha lido opiniões sobre o livro, mas, irracionalmente, achei que me iria aborrecer com a história. 
Talvez as baixas expetativas tenham permitido uma relação positiva com a história. O que é certo é que o livro mexeu comigo e deixou-me a pensar na vida, nas escolhas feitas, nas relações construídas e terminadas, no valor que se dá a determinada conquista ou acontecimento. 

É um livro fácil e ao mesmo tempo difícil de ler. Fácil porque a narrativa avança de forma bastante dinâmica e possuiu a capacidade de prender o leitor. Difícil porque aborda temas densos: violência doméstica, abuso sexual, morte e luto. E é nesta dimensão mais negra que reside a beleza do livro e a sua capacidade de deixar o leitor imerso em reflexões e em questionamentos pessoais.

Eve e Lily são duas adultas que partilharam uma infância e adolescência felizes. A vida e as suas pedras meteram-se pelo meio e originou uma rutura. Mas as grandes amizades não se esquecem. As pessoas que de alguma forma marcam a nossa vida e o nosso coração de forma positiva tornam-se eternas na nossa memória. Eva e Lily eram eternas na memória uma da outra. As cartas que iniciam cada capítulo permite-nos conhecer o passado e compreender o presente que se vai desenrolando. 

A história é marcada pelo quotidiano. Pelas vidas de Eve, Lily e todas as pessoas que gravitam em volta delas. São páginas que guardam palavras de amor, amizade e sofrimento. São pedaços de vidas que desfazem e refazem com o decorrer dos dias. Abrem-se feridas antigas e recentes para que a resiliência e as emoções positivas exerçam o seu poder curativo. 

E assim fui navegando por esta história. Embalada pelas tragédias e conquistas de Eve e Lily ao mesmo tempo que pensava e analisava as minhas próprias tragédias, conquistas, escolhas. 
O final deixa um sabor agridoce. É um reflexo da continuidade da vida e da imprevisibilidade dos dias, mas deixa um certo aperto no coração pela abertura que a escritora dá a história de Eve.
No final, para além de me deixar a pensar na vida, ficou a sensação de ter feito uma boa descoberta.

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20
Mar21

Opinião | "Mistérios do Sul" de Danielle Steel

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Uns anos atrás lia muito Danielle Steel. Foi das primeiras escritoras deste género de livros que mais fui lendo. A biblioteca municipal tinha muitas obras da escritora e eu fui lendo tudo o que podia. Das muitas leituras que fiz, guardo com carinho "A mansão Thurston" e um dos meus preferidos da vida "Mensagem do Vietname". 

Hoje em dia, ainda leio com carinho as obras desta escritora mas sem o encanto dos olhos de uma leitora com pouca experiência e com pouco conhecimento das obras literárias. Gosto de ler, são livros que divertem e entretêm, mas falta-lhes a profundidade e uma escrita com maior capacidade de demonstração que passei a encontrar noutras obras.

"Mistérios do sul" representa uma tentativa da escritora introduzir uma componente de thriller nas suas obras. Na minha perspetiva não funcionou muito bem. Acabou por se perder um pouco no drama central que vai alimentando a narrativa. Esta é uma história de uma mulher que supera de um divórcio difícil. É o processo de cura emocional de Alexa que marca o ritmo e a abordagem do livro. O pequeno apontamento de thriller contextualiza um pouco a dinâmica da ação, mas não foi bem desenvolvido o que acabou por se diluir demasiado na ação do livro e deixou-me a pensar um pouco sobre a congruência daquilo.

Bem, foi uma escolha da escritora para que se pudesse desencadear a mudança na narrativa. Isto possibilitou que Alexa manda-se a filha para o Sul. A partir daqui tudo se desenrola em função de Alexa, do seu ex-marido e da história do passado que todas estas personagens partilham.

Há personagens um pouco estereotipadas, o que, aos meus olhos, retira um pouco da aproximação da história à realidade. No fundo, tudo parece demasiado fabricado para existirem os bons e os maus e esta divisão já pouco acrescenta ao universo literário.

"Mistérios do Sul" é daquelas leituras calmas que permitem umas boas horas de entretenimento. É um drama que se lê com a certeza de que receberás aquele final feliz que tanto aconchega e o coração e deixa no pensamento rastos de uma boa positividade. 

Nem sempre precisamos de ler obras complexas que convidem a reflexão. Por vezes, precisamos apenas um livro ligeiro que retire o peso de realidades mais densas e que nos sugam as energias boas.

Conheces Danielle Steel? Tens algum livro preferido da escritora?

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12
Mar21

Opinião | "Inocência impetuosa" de Stephanie Laurens (Regencies #3)

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Às vezes preciso de um livro bem ligeiro. Uma história previsível, que se leia rápido e que não exija muito esforço mental. "Inocência impetuosa" chegou no momento certo através de uma troca de pontos do site Winkingbooks.
Como deves adivinhar, não é um livro complexo nem muito exigente. Contudo cumpre a sua função de entreter e permitiu-me limpar a cabeça de leituras mais densas. 

Georgina Hartley regressa a Inglaterra e precisa de proteção. Teve de fugir ao seu primo para poder sobreviver com dignidade na sociedade londrina. Uma jovem que encanta os salões de baile, e conquista o coração de muitos nobres. Os outros contornos são fáceis de antever. O final, tal como eu esperava, é previsível e aquece o coração. Há romance, há intriga, há dúvidas amorosas, crises existenciais. A escrita é fácil de acompanhar e causa um pouco de adição, o que torna difícil largar o livro. 

Sei que daqui a uns tempos pouco ou nada me lembrarei deste livro e do seu conteúdo. Por isso, são livros para ler que depois seguem imediatamente para troca. Uso-os apenas como leitura de conforto, para entreter e desanuviar de leituras que exigem mais de mim. 

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26
Fev21

Opinião | "O teu rosto será o último" de João Ricardo Pedro

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"O teu rosto será o último" de João Ricardo Pedro foi o vencedor do Prémio Leya em 2011. Muitas vezes, quando leio livros que venceram um qualquer prémio literário questiono-me acerca dos critérios usados pelo júri para selecionar a obra vencedora. Tenho consciência que a leitura e a interpretação que cada um faz das obras que lê tem uma forte componente subjetiva, mas acho que deveriam existir critérios mais específicos de forma a tornar transparente todo o processo.

Quando uma obra sai vencedora de algo é inevitável que eu, enquanto leitora, crie expetativas um pouco elevadas relativamente à obra. Estava ligeiramente expectante em relação a este livro. Pensei que me ia trazer uma história envolvente de um Portugal diferente daquele que eu conheci. Mas este histórico e político e mal explorado. Vão surgindo algumas referências à ditadura, à revolução e ao pós 25 de abril, mas não ocupam grande destaque na contextualização da obra.

Quanto ao resto, senti-me a oscilar entre a compreensão e a confusão. Há passagens interessantes, com um conteúdo que me permitiu acompanhar o crescimento das personagens, mas existiram outras partes pouco claras, confusas e que não pareciam encaixar de forma coerente e sequencial na história que estava a ser contada. Há momentos muito aborrecidos, onde a narração se resume à partilha de factos do quotidiano. Apesar de eu ter conseguido perceber qual a intenção do escritor, só me senti a navegar por palavras e factos desprovidos de emoção e de profundidade. 

É difícil para mim identificar uma tipologia de leitores a quem este livro possa interessar. É complexo e está muito dependente da nossa subjetividade e experiência enquanto leitores. Por isso, na dúvida experimenta e arrisca a ler este livro.

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12
Fev21

Opinião | "Vozes de Chernobyl" de Svetlana Alexievich

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Demorei a ler este livro. O confinamento e o teletrabalho deixou-me menos tempo para ler, mas a densidade emocional subjacente aos relatos que são eternizados nestas páginas exige tempo. Não se pode ler depressa, há a exigência de uma leitura mais lenta como se só assim pudéssemos respeitar as memórias dolorosos de todos aqueles que viveram Chernobyl. 

Svetlana criou o seu próprio estilo literário: dar voz às histórias de pessoas reais e eternizá-las nas páginas de um livro. E o resultado é muito positivo, porque eu me senti envolvida em cada uma dos relatos de todas aquelas pessoas. A organização das entrevistas, conferindo-lhe um fio condutor, revela um trabalho exímio e uma sensibilidade sem limite por parte da escritora. 
Raiva, tristeza, resignação, incompreensão, revolta, amor e angústia são apenas alguns dos sentimentos espelhados nestas narrativas. São vozes duras! Vozes que guardam memórias que só eles conseguem perceber. Por muito que se conte, por muito que eles partilhei as suas histórias com o mundo, é percetível que as dores são muito próprias. Este lado pessoal da dor talvez seja o resultado de só eles conhecerem muito bem as consequências que o acidente nuclear teve nas suas vidas. 

É doloroso perceber que o sofrimento de muitas pessoas é consequência de um conjunto de más decisões. É revoltante perceber que a política se sobrepôs à ciência e, com isso, o impacto do desastre nuclear foi ainda maior. O desconhecimento por parte das pessoas, a resistência de algumas delas em abandonar o seu lugar e a forma desequilibrada como tudo foi gerido são temas comuns a muitos dos monólogos. 

"Vozes de Chernobyl" é um livro para reler e respeitar a histórias que marcaram a História. O livro expõe muitas das consequências das explosão nuclear, contudo acho que há muitas que continuam no silêncio. O impacto psicológico que este desastre deixou deve ser inimaginável e penso que pouco foi feito a respeito disso. 

É impossível ler ser fazer alguns paralelismos com a os tempos atuais. Tal como a radioatividade, a Covid-19 é um inimigo invisível e duro de combater. É ler este livro e refletir sobre as consequências que estes acontecimentos têm no quotidiano das pessoas e do mundo.

Quanto à escritora, tenho a certeza que é para continuar a ler.

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05
Fev21

Opinião | "O assassino do crucifixo" de Chris Carter (Robert Hunter #1)

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Os livros de Chris Carter são escritos de forma uma forma que eu apelido de inteligente. São narrativas extremamente bem construídas, com uma sequência de acontecimentos bem encadeados e que revelam um enredo complexo e extremamente viciante.
Sim, eu vicio nestes livros logo nos primeiros capítulos! Há ali uma escrita que é especial. Traz imagens muito vívidas e concretas dos acontecimentos e isto permite-me uma experiência de leitura muito gráfica.

Estes são denominadores comuns a todas as obras que li deste escritor. Eu não li esta série pela ordem de publicação. Comecei no quarto. São livros que podem ser lidos de forma independente, mas a leitura pela ordem de publicação permite-te um conhecimento mais gradual das personagens residentes. Pessoalmente, o facto de conhecer o Robert Hunter de obras posteriores fez-me olhar para o seu desempenho neste livro de uma forma mais reticente. 

"O assassino do crucifixo" traz-nos um assassino perfeito. Comete os seus crimes sem deixar uma única pista útil aos investigadores. Como te disse atrás, o escritor tem um talento especial para complexificar as situações. Neste livro, a complexidade revela-se nos pormenores inerentes à investigação, na construção dos crimes e na pessoa responsável por semear aquele terror. Foi engraçado que, ao contrário do que senti noutros livros da série, neste eu estava particularmente ansiosa por saber quem era a pessoa que andava por ali a espalhar o terror e qual as suas motivações. Nos outros livros da série, estava mais curiosa em saber qual o próximo passo do(a) criminoso(a) do que propriamente saber quem foi responsável pelos crimes. 

Quando a pessoa responsável pelos crimes foi revelada eu senti-me ligeiramente defraudada. O Robert Hunter que eu conheço de outros livros não teria sido tão ingénuo. O problema é que não te consigo explicar melhor porque não quero dar-te nenhum spoiler e estragar-te a leitura. 
Provavelmente, quem já leu deve conseguir perceber o que é que eu quero dizer. Acho que ele foi um atentado à inteligência deste homem. 

Apesar deste pequeno incidente, o livro merece ser lido. Tenho a certeza de que os fãs do género deliram com este livro e os menos fãs encontram aqui uma história que os possa tornar fãs. Porém, acho que o livro só poderá ser um pouquinho problemático para pessoas mais sensíveis. As descrições deste livro, por vezes, obrigam a pausar a leitura para recuperar a orientação.

Gostas de policiais? O que é que achas dos livros desta série e deste em particular?

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29
Jan21

Opinião | "Segredos do passado" Deborah Smith

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Tal como em 2020, quis começar 2021 com uma leitura positiva, ou seja, quis que o meu primeiro livro do ano contivesse uma história de amor, com uma mensagem positiva e com um final feliz. Andei a ver a minha estante e resgatei o livro "Segredos do passado" de Deborah Smith. As minhas leituras anteriores de livros desta escritora reuniram os requisitos que eu queria encontrar na minha primeira leitura do ano. 

Deborah Smith é uma escritora de fórmulas. Agarra em famílias, junta-lhe uns conflitos, um romance que será posto à prova e um reencontro após anos de ausência e a história acontece. Talvez este tipo de livro te aborreça. Eu, na generalidade, gosto! Não os posso ler muito seguidos, mas dando o espaço temporal correto entre eles tornam-se boas leituras e ótimas para aligeirar a mente e semear em mim emoções positivas. 

"Segredos do passado" é um livro que em que a escritora seguiu a sua receita à risca. Claire tem uma família grande e financeiramente próspera. Roan vive no extremo social oposto. Algo acaba por uni-los. Aos meus olhos foi uma união um pouco forçada e artificial. Talvez tenha sido a diferença de idades que me tenha causado estranheza. Cinco anos não é uma diferença etária muito vincada quando falamos de jovens adultos. Porém, em momentos mais precoces da vida humana, separa a infância da adolescência; e aqui as diferenças demarcam-se e afastam crianças e adolescentes. Claire era cinco anos mais nova que Roan e por isso aquela ligação do passado não me convenceu muito. 

O tempo passa e a estranheza de Roan e Claire enquanto casal esbate-se. Este avanço cronológico também oferece revelações interessantes que dão um toque especial à história e às vidas das personagens. É, em alguns momentos, uma narrativa bastante emotiva. 

Tal como o esperado sobressai a amizade, o amor e as mensagens positivas que só as relações humanas bem desenvolvidas deixam sobressair. Há conflitos que se resolvem, personagens que se superam e há amor suficiente para me derreter o coração e dar esperança num futuro incerto e um pouco aterrador. 

Para mim, foi um livro que trabalhou as minhas emoções. Que me permitiu pensar nas oportunidades que a vida nos pode dar e de que formas as podemos agarrar. Que abriu espaço a reflexões sociais e à crueldade que por vez afeta algumas infâncias. No fim, deixou em mim aquela sensação de que o ser humano é complexo e que tem capacidade de dar e receber na mesma proporção, mas que, para tal, precisa de se sentir preparado e de coração aberto.

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22
Jan21

Vale a pena ler # 1 | "Piano surdo" de Olinda Gil

Hoje inicio uma nova rubrica aqui no blogue. Devido às exigências profissionais não consigo manter ativo o Bando Lusitano, mas não é por isso que irei deixar de divulgar autores(as) e livros nacionais.

Aliada a esta minha vontade, comecei a pensar que há pessoas que preferem ser convencidos sobre determinado livro com um pequeno conjunto de frases. 

Conjugando estes dois aspetos, lanço o Vale a pena ler. Irei dar prioridade aos autores nacionais, mas irei ter outros livros também. 

Para inaugurar este meu primeiro post, escolhi o conto "Piano surdo" de Olinda Gil. O conto está disponível gratuitamente aqui

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Ficaste com vontade de ler este conto?

Para esta rubrica também gostava de ter a tua colaboração. 
Pensa num livro que tenhas lido. Agora, pensa em alguns motivos pelos quais outra pessoa o deve ler. Envia-me a informação para o e-mail pordetrasdaspalvras@gmail.com e a tua sugestão aparecerá nestes espaço. 

 

20
Jan21

Opinião | "À procura de Sana" de Richard Zimler

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"À procura de Sana" encerrou o meu ano literário de 2020. Já há muito tempo que queria experimentar ler um livro de Richard Zimler. Por diversas vezes já me tinha cruzado com opiniões muito positivas ao trabalho deste escritor. 
Surgiu a possibilidade de trazer o livro da biblioteca e, assim, criou-se a oportunidade de conhecer o trabalho deste escritor.

O que é que sobressaiu aos meus olhos desta leitura? Sem dúvida que a escrita. É tão agradável e bonita que quase me senti embalada na leitura. É claro o cuidado dispensado à escolha de palavras e à forma como elas se articulam. Este foi um elemento essencial para criar uma narrativa apelativa para uma história que se revelou demasiado complexa e cheia de recantos desconhecidos. 

A complexidade da narrativa é da responsabilidade de Sana. A vida desta mulher cruzou-se com a de Zimler e ele sentiu necessidade e responsabilidade em contar a história desta mulher. E, assim, viu-se arrastado para um conjunto de vidas marcadas por um conjunto infinito de pontas soltas. Isto causou alguma entropia na minha compreensão mais profunda da história. Senti-me perdida com alguns avanços e recuos. Senti-me com alguma dificuldade em criar uma ligação com as personagens e com os acontecimentos. 

No fim ficou-me a sensação de não ter conseguido absorver tudo aquilo que a história tinha para oferecer. Acho que não consegui reter com eficácia a sequência dos acontecimentos, cujo seu encadear se traduz naquele final. Após a leitura sobreviveu a vontade de voltar a ler mais livros do escritor. 

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19
Jan21

Top ten tuesday # 68 | Livros que queria ter lido em 2020

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São sempre mais os livros que tenho para ler do que o tempo disponível para os ler. Como é óbvio havia alguns livros que eu queria ter lido em 2020, mas que acabei por não ler. Deixo aqui uma lista de dez livros que gostraria de ter lido em 2020.

  1. "A filha do barão", Célia Loureiro
  2. "A mulher casa", Tânia Ganho
  3. "Os doentes do Dr. García", Almudena Grandes
  4. "Não contes a niguém", Karen Rose
  5. "O cavalheiro inglês", Carla M. Soares
  6. "Um estranho caso de culpa", Harlen Coben
  7. "Nome de código", Karen Cleveland
  8. "O teu rosto será o último", João Ricardo Pedro
  9. "Sensibilidade e bom senso", Jane Austen
  10. "O filho de Thor", Juliet Marillier 

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06
Jan21

Opinião | "Lá, onde o vento chora" de Delia Owens

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"Lá, onde o vento chora" foi uma das minhas últimas leituras de 2020 e acho que é a opinião que mais me vai custar escrever de todos os livros lidos no ano que acabou de terminar. Vai-me custar, porque não consegui encontrar o encanto que tanta gente conseguiu. 

A ação central do livro desenrola-se em torno de Kya, uma criança que vive sozinha num pantanal e é socialmente excluída. Esta criança, de quem acompanhamos o crescimento, protagoniza verdadeiros momentos de resiliência. Quando tudo se desmoronava à sua volta, ela conseguiu encontrar força para continuar com a sua vida e procurou explicar para si própria aquilo que vivia através daquilo que observava e conhecia da natureza, lugar onde ela se perdia em observações. 

A natureza tem uma força muito grande neste livro. É quase como que uma personagem secundária que alimenta relações, dá forma a emoções e deixa no ar sons e cheiros capazes de espicaçar a imaginação de quem lê. 
Tudo isto chega ao leitor através de uma escrita com um tom quase lírico, que embala a leitura numa cadência muito própria. Há descrições que parecem poesia e que despertam os sentidos. Se no início gostei desta abordagem, com o desenrolar do livro comecei a aborrecer-me com estas descrições. Por vezes, senti que eram demasiadas. Senti que a escritora deveria ter sido mais simples e objetiva porque algumas delas não acrescentavam nada à história. 

Eu consigo identificar duas fases distintas na narração desta história: pré e pós julgamento. Foi engraçado que me pareceu que estava a lidar com duas escritoras diferentes. Uma deles mais lírica, que exprimia as emoções com recurso a comparações e metáforas e outra mais objetiva, dinâmica e com uma boa capacidade de ilustrar cenas de audiência judicial. Pois, pareceu-me que o livro foi escrito por duas pessoas distintas. A certa altura até me senti aborrecida por esta minha implicância. O que é certo é que gostei mais da "segunda" escritora.

Eu quando implico, implico à séria (até parece que oiço o pensamento da minha vizinha Daniela a dizer que penso demais no que leio). E fui pensando e pensando, fui conhecendo melhor a Kya e analisando os seus comportamentos e, cada vez mais, fui sentindo as incongruência a saltarem umas atrás das outras. Há uma incompatibilidade muito óbvia entre a pessoa que esta miúda se torna e o mundo em que ela viveu. As coisas que acontecem são demasiado irrealistas. Sei que a ação decorre numa outra época, mas há coisas que não encaixam. Foi-me vendida uma imagem da Kya que não acompanha a forma como ela foi vivendo. 
A construção da personalidade desta jovem não reflete aquilo que ela foi obrigada a viver. A forma como ela escolhe relacionar-se com os outros é incongruente com a imagem pessoal que a escritora parece querer passar.

Desculpem-me os leitores que amaram esta história e que desenvolveram uma enorme empatia pela Kya, mas eu não sinto realismo nesta personagem, na forma como ela viveu e na pessoa em que ela se tornou. Na minha perspetiva foi demasiado idealizada, demasiado construída de forma a criar uma personagem com aquelas características. Reforço, o comportamento da rapariga não acompanha o tipo de personalidade que a escritora quis passar.

Há a parte policial que vai surgindo ali pelo meio. Uma abordagem pobre, com diálogos pouco elucidativos, demasiado fabricados e sem profundidade. É um elemento que tem a sua importância no contexto geral da história, mas foi mal aproveitado.

E, nestes altos e baixos que marcaram a minha leitura, cheguei ao final. Um final narrado de forma abrupta, onde senti que houve falta de informação. Foi confuso assimilar aquilo que foi desvendado. Foi inesperado, surpreendeu, mas não me convenceu. 

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29
Dez20

Opinião | "28 dias" de David Safier

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Este livro encheu-me o olho na prateleira da biblioteca. A sinopse convenceu-me a trazê-lo. Estava com muita curiosidade para ler este livro e viver uma aventura no contexto da Segunda Guerra Mundial, sem campos de concentração envolvidos.

Mira, a nossa personagem principal, tem 16 anos, vive no gueto de Varsóvia e permite a sua sobrevivência e a da sua família dedicando-se ao contrabando de produtos. A sinopse promete uma aventura mais arriscada, com a participação de Mira num grupo da resistência.

A atividade do contrabando é muito arriscada, e o autor deixou isso bem claro na forma como ia apresentando os factos. Contudo, ao longo da leitura fui-me questionando que parecia ser sorte a mais. Tudo corria demasiado bem. Havia ali um fator sorte demasiado intenso para que tudo fosse real. E isto foi alimentando páginas e páginas deste livro. É claro que existiam outros acontecimentos, mas eu começava a ficar ansiosa. Afinal, quando é que as coisas iam de facto animar-se? Quando é que a resistência iria ganhar destaque? Demorou muito para que isto acontecesse. Senti-me arrastada e embrulham em acontecimentos que pouco contribuíam para o entusiasmo da narrativa. Houve momentos muito aborrecidos. 

A resistência chega e ganha protagonismo. Infelizmente, eu já estava demasiado contaminada por emoções negativas e insatisfação com o livro que esta parte foi sendo lida com alguma indiferença. Não me consegui emocionar, nem entusiasmar. 

É um facto, o livro desiludiu-me e a leitura acabou por se arrastar durante demasiado tempo. O livro está bem escrito e não encontrei nenhum problema na construção da narrativa. Porém, não consegui criar uma ligação significativa com a história e senti que há partes que poderiam ser encurtadas.
Foi uma experiência de leitura mediana, onde não há espaço para grandes destaques. 

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28
Dez20

Opinião | "Demência" de Célia Correia Loureiro

P_20200313_112458_HDR.jpgNão li a primeira edição de "Demência". Vi muitas opiniões positivas em relação a este livro. Vi quem o achasse melhor que "O funeral da nossa mãe". Pessoalmente, acho que são livros diferentes, cada um com o seu valor. Têm um ponto em comum: a sua capacidade de mexer com as emoções.

"Demência" dá voz à violência doméstica e à demência. As palavras embalam-nos em direções mais ou menos previsíveis, mas que em nada diminuiu o entusiasmo e o interesse pelo livro. É uma viagem literária em constante desassossego. Desassossego por Letícia que procura manter-se inteira depois de ter sido despedaçada. Desassossego por duas crianças que sabem quanto custam os momentos de terror. Desassossego por uma mulher que lida com a doença e com a perda da melhor forma que consegue. E no meio destes sobressaltos e desassossegos há espaço para a importância que uma amizade pura pode ter nas nossas vidas. Há espaço para o poder curativo que só o amor consegue. Há espaço para olhar para o passado e encaixá-lo numa explicação do presente. 

Infelizmente, a voz de Letícia ainda faz muito eco na sociedade atual. As feridas que esta mulher transporta são comuns às de outras tantas mulheres. A violência doméstica é, mais do que a Letícia, a personagem principal desta história. Um problema que atravessa gerações e deixa marcas emocionais demasiado profundas e com uma cicatrização imune ao tempo. É interessante ver como a Célia, apesar de ser muito jovem quando escreveu este livro, conseguiu imprimir uma maturidade enorme naquilo que quis contar ao público. 
Além deste aspeto, a história tem uma tonalidade tão realista que é fácil chegar àquela aldeia e visualizar o comportamento de todos aqueles que povoam estas páginas.

O tempo da ação é que me deixou um pouco baralhada. O início foi complicado. Em termos de tempo parece que passam mais dias do que aqueles que na realidade passaram. Há também uma transição, mais ou menos a meio do livro, que é pouco clara. Foram estes os dois aspetos que me não foram tão bem concretizados. 

A história andou muitos dias na minha cabeça. A resiliência de Letícia fez-me acreditar na força feminina para enfrentar um problema. Por outro, a fragilidade e a personalidade dura de Olímpia tornaram-na demasiado humana. Foi a doença e a perda que a deixou mais fragilizada, mas foi o passado que a endureceu e que lhe deu uma visão diferente da condição humana. Duas mulheres que ficam na história do meu percurso literário e de quem, muito dificilmente, me irei esquecer. 

Precisamos de vozes como a da Célia. Precisamos de pessoas que coloquem de forma realista amor, dor e tristeza  nas histórias que escolhem contar. Precisamos de abrir espaço às boas publicações nacionais. 

"Demência" irá levar-te a uma aldeia beirã, cheia daquelas preconceitos e "diz-que-disse" tão típicos de zonas mais solitárias e acanhadas. Vais encontrar o inferno e o paraíso de uma relação amorosa. Vais cruzar-te com o envelhecimento, com a doença que apesar de roubar parte das memórias de Olímpia será incapaz de lhe tirar do coração a amizade que a ajudou a sobreviver.

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