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Por detrás das palavras

Por detrás das palavras

Opinião | "Não contes a ninguém" de Karen Rose (Romantic Suspense #1)

10.09.21

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Os livros de Karen Rose não circulam muito pelas redes. Vejo poucos(as) leitores(as) a apostas nesta escritora, o que é uma pena. 
O foco narrativo que a escritora segue centra-se na apresentação de um ou vários crimes, a investigação que o(s) acompanha e uma história de amor com algum erotismo à mistura. 

"Não contes a ninguém" é um livro que segue um registo ligeiramente diferente daquele a que eu já estava habituada. É uma história que vive mais do suspense e da tensão psicológica. É isso que vai movendo grande parte da ação. A outra parte é composta pelo desenvolvimento de uma relação amorosa. 

O tema central do livro, e de onde partem todos os outros acontecimentos, é uma situação de violência doméstica. Por isso, desde o início que conhecemos o criminoso e as vítimas. Aquilo que vai sendo descoberto aos poucos é a dimensão da violência e o impacto que ela foi causando na mãe, Mary Grace (Caroline - novo nome) e no seu filho. 

Apesar de o livro não te ter encantado tanto como os anteriores que li, gostei muito desta história e do seu desenvolvimento. Foi uma leitura sôfrega e marcada pela expetativa. Esta expetativa decorria em duas frentes: 1) ver como o caso de violência doméstica se iria resolver e 2) perceber como é que Max e o seu romance iria crescer tendo em conta as feridas que marcavam cada uma das personagens.

Acho que um aspeto que não me deixou tão satisfeita com este livro esta relacionado com o amor instantâneo que nasceu entre Max e Caroline. Foi uma atração demasiado imediata e isso fez-me alguma confusão. 
No decorrer deste meu incómodo com o romance destes dois sucederam um conjunto de situações que me fizeram torcer o nariz. Acho que a Caroline foi exageradamente dramática com o Max e teve uma atitude estúpida relativamente ao passado dele. Pareceu-me um pouco hipócrita, uma vez que ela também tem ali arestas afiadas na sua personalidade e na sua forma de ser que precisavam de ser ajustadas. 
Apesar destes elementos que considerei menos positivos, lá me acabei por apaixonar por estes dois e torcer por um final completamente feliz para ambos. 

Todo o desenvolvimento criminal prendeu a minha atenção. O final foi muito bem construído. Nota-se o cuidado em não terminar tudo à pressa. Houve tempo para que o clímax crescesse e a minha angústia por ver como tudo aquilo iria terminar sofreu com este cuidado da escritora em dar tudo ao(à) leitor(a) o mais pormenorizado possível

Infelizmente, nem todos os casos de violência doméstica têm o desenvolvimento e o desfecho deste. Mary Grace/Caroline foi inteligente e corajosa. Quis lutar por um futuro diferente para o seu filho. A luta dela foi inspiradora. Perceber aquilo que ela necessitou de ultrapassar para conquistar um lugar seguro foi bastante emotivo. Considero que ela se tornou numa inspiração para mim, mais especificamente a sua coragem e a sua capacidade de seguir em frente apesar de toda a porcaria de vida que tinha à sua volta. Gostava que ela servisse de inspiração para outras pessoas, principalmente para aquelas que se veem a braços com situações semelhantes.

Se os ingredientes que fazem este livro forem do vosso agrado, acho que devem tentar ler algo desta escritora. Ela merece mais atenção por parte dos leitores.

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Opinião | "Eva" de Arturo Pérez-Revert (Falcó #2)

20.08.21

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Acho que as histórias de espiões não são para mim, ou eu nunca me cruzo com este tipo de livros na altura certa para os ler. 
Não sei se o facto de não ter lido o primeiro volume desta série, e que antecede este livro que partilho hoje contigo, me dificultou esta leitura. Consegui perceber, em traços gerais, o que norteava a história de "Eva", contudo, foi doloroso avançar na leitura. 

Senti falta de ação, de dinamismo, de personagens carismáticas capazes de me tirar o fôlego. Tudo se arrasta, como se o calor de Tânger se infiltrasse nas personagens e as limitasse na gestão os seus comportamentos. Foi como se o calor as adormecesse e fizesse levitar em torno dos locais e das situações.

A Eva apareceu demasiado tarde no livro. Ela tinha uma dinâmica interessante com Falcó, mas surge na última parte do livro e deu pouco de si àquelas páginas. 
Falcó parece um burguês que se perde nos bares e entre os lençóis de mulheres atraentes. As suas competências enquanto espião ficam um pouco apagadas por entre a "mastigação" de situações que vão desfilando ao longo do livro. Tem ali algumas questões se saúde que se traduzem em comportamentos caricatos, mas em nada acrescentam à história e à forma como tudo se desenvolve. 

Há umas lutas e umas conspirações que, na minha opinião, não têm o protagonismo necessário. A riqueza do contexto histórico também não é aproveitado pelo escritor. Acho que poderiam ter sido introduzidos mais elementos sobre a Guerra Civil Espanhola e sobre o clima que pairava antes da Segunda Guerra Mundial ter explodido na Europa.

Não fiquei com vontade de ler mais livros desta série. Acho que até foi uma experiência de leitura um pouco traumatizante. Lia sempre na esperança de que algo interessante me apanhasse e me envolvesse na história. Infelizmente, esse momento nunca chegou e só o terminei porque quando a vontade de desistir começou a soar na minha cabeça já ia com a leitura bem avançada. Este meu arrastar pelas páginas, a dificuldade em avançar na leitura e a desconexão que eu sentia com tudo aquilo que lia, estavam a deixar-me desconfortável. 

Gostava de conhecer as impressões de quem leu o livro e gostou de forma a tentar perceber se conseguiram detetar coisas que me poderiam ter escapado.
Quem leu o primeiro volume, ficou com vontade de ler os seguintes? O que é que te apaixonou no livro?

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Opinião | "A breve história da menina eterna" de Rute Simões Ribeiro

13.08.21

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No início do mês, a escritora Rute Simões Ribeiro ofereceu aos leitores o download gratuito dos seus livros. 
Eu desconhecia esta escritora e o seu trabalho. Só cheguei até ela através da Tita e da Daniela. Como confio nas recomendações delas decidi arriscar.

No início estranhei a escrita e o modo muito próprio para contar a história. A Rita tem uma escrita muito bonita, com uma tonalidade algo lírica que me encantou. A narrativa e a forma como é contada é um pouco diferente daquilo que eu costumo ler e foi isso que me dificultou um pouco a leitura.

"A breve história da menina eterna" conta-nos a história de M. e da sua relação com a finitude da vida. É um livro que tem um forte potencial interpretativo e, por essa razão, é um excelente candidato a leituras conjuntas com possibilidade de discussão em grupo. Há muito para ler e assimilar nas entrelinhas desta história aparentemente simples. São poucas páginas, mas estão carregadas de uma forte simbologia. 

A forma como vivemos a morte e como encaramos o fim de vida são fortemente influenciados pelos padrões culturais. A morte acaba por ser um não assuntos, na minha realidade as pessoas têm dificuldade em falar da morte e da preparação para mesma. Vive-se a ilusão da eternidade, ofuscando o fim inevitável da nossa vida. Também é positivo que assim seja, caso contrário poderíamos ser dominados por um medo intenso que nos impedia de vivermos as coisas. M. foi vítima dessa necessidade cultural de pouparmos as crianças a assuntos complexos. Foi-lhe oferecida da visão da eternidade, mas essa oferenda permitiu-lhe a liberdade de viver de forma descomprometida.
Contudo, não se prepara para a morte. Fala-se muito em oferecer condições para uma boa vida, ou para um bom fim de vida. São geralmente essas as expressões culturalmente aceites. Nunca ouvi  expressões como: oferecer condições para uma boa morte; ou preparar a pessoa e a família para a morte. 

A morte e o luto são assuntos dolorosos, complexos e que têm um impacto diferente nas pessoas. Não há formas melhores ou piores de reagir. Há, simplesmente, diferentes maneiras de lidar com a perda e com o sofrimento que a mesma provoca. A nossa personagem foi "poupada" no que à questão da morte diz respeito e foi vivendo confiante na sua dimensão eterna. Já sabemos a falácia que reside nesta ideia e o livro permite-nos descobrir os sentimentos, as reações e as emoções que surgem quando a inocência se quebra. 

Este livro ganhou o meu coração pela escrita e pela reflexão que me ofereceu. Não adorei, mas ficou a vontade de conhecer mais livros da escritora.
Esta opinião é um reflexo da minha interpretação do texto e da história que li. Se optares por ler esta obra, poderás ter uma visão diferente e está tudo bem.

 Se já leste, o que é que achaste? Que reflexões retiraste desta leitura?

 Se ainda não leste, ficaste com curiosidade? Porquê?

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Opinião | "Fantasmas do passado" de Minette Walters

16.07.21

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Fantasmas do passado era um livro totalmente desconhecido para mim. Cruzei-me com ele nos destaques da biblioteca e achei que poderia ser um leitura interessante. O facto de ter um desafio direcionado para este género de livros também ajudou a ponderar esta escolha. 

O livro tem uma história complexa. Um professor universitário que gosta de refletir sobre as injustiças do tribunal. E é esta a base de todo o livro. Tentar perceber onde mora a injustiça de um crime que aconteceu há mais de 30 anos e levou à condenação de um inocente. Tirando o primeiro capítulo que é narrado nos anos 70, todo o resto do livro é narrado no momento presente da ação e acho que isso retirou muito dinamismo à história. Aliás, permaneceu em mim, em muitos dos momentos, uma leve sensação de aborrecimento que transformava o meu ritmo de leitura. Lia devagar e a sensação era de que não sai do mesmo sítio. 

Um elemento interessante é o acesso aos relatórios dos depoimentos, às notícias publicadas e partes do capítulo do professor universitário Hughes. São elementos que oferecem algum dinamismo ao livro e que permitem a aceder a diferente tipo de informação; aspetos que interferiram positivamente na minha relação com o livro.

A narrativa vai-se arrastando enquanto as personagens vão tentando compreender o que aconteceu no passado. Vão desenterrando alguns acontecimentos, desconstruindo o comportamento atual de algumas personagens... Mas tudo se vai desenrolando de forma demasiado lenta. Falta suspense que crie dependência. Esta ausência de suspense torna a leitura demasiado aborrecida e deixa a sensação de que nada de relevante irá acontecer. O livro beneficiaria com uma alternância entre presente e passado. Acho que a existência de capítulos que nos mostrassem os acontecimentos do passado seriam essenciais para oferecer ao livro outra atmosfera.

O livro aborda temas como a violação, o preconceito, os bairros sociais, a deficiência mental... Tem passagens muito interessantes onde estes temas estão inseridos em situações que me fizeram refletir sobre os comportamentos individuais e os comportamentos da comunidade. Como é que se alimenta o preconceito? Como é que se condena o futuro de uma jovem? Como é as amizades nos podem oferecer o pior da condição humana? Que adultos escolhemos ser com base no nosso passado? Mais do que os acontecimentos e as experiências adversas pelas quais podemos passar, nós somos aquilo que escolhermos fazer com tudo o que vivemos. Mas será o contexto nos permite sempre fazer essa escolha? São perguntas que me foram surgindo ao longo da leitura.

Para os leitores que apreciam um estilo de thriller mais lento, sem suspense e sem tensão psicológica este poderá ser um livro capaz de proporcionar uma boa leitura. Mas como gosto sempre de reforçar, só poderás construir a tua opinião se deres uma oportunidade ao livro. 

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TAG | 10 factos literários sobre mim

03.06.21

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Por vezes, acho interessante este tipo de post para que aqueles que nos leem possam ficar a conhecer um pouco de quem está deste lado. Assim, deixo aqui dez factos literários sobre mim.

1. Li Harry Potter em adulta e não gostei. Só li o primeiro livro e foi porque a Daniela mo emprestou.
2. Ofereceram-me o "Lua de Joana" quando fiz 13 anos e li-o em 24 horas. Foi a minha primeira leitura compulsiva. 
3. Só conheço pessoalmente duas escritoras: a Soraia Pereira ("Ligação") e a Andreia Ferreira. 
4. No final da adolescência era viciada nos livros de Paulo Coelho.
5. Apaixonei-me por romances históricos em adulta.
6. Gosto de emprestar livros à Daniela e de os discutir com ela.
7. Nunca li livros de ficção científica nem livros de terror. 
8. Não tenho nenhum tipo de preconceito literário. Leio todo o género de livros, desde clássicos até livros considerados mais ligeiros.
9. Nos inícios do blog 99% das opiniões literárias que partilhava eram de livros requisitados na biblioteca.
10. Adorava poder ir à Feira do Livro de Lisboa. 

Partilha comigo algumas curiosidades sobre o teu eu leitor.

Opinião | "O que o sol faz com as flores" de Rupi Kaur

21.05.21

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Há qualquer coisa na poesia que sempre me apaixonou. Não sei se pelas reflexões que lhe estão subjacentes, se pelos mundo interiores que cabem dentro daqueles versos. Só sei que gosto de ler poesia e leio muito menos do que aquela que gostaria. 

Já me tinha cruzado com muitos poemas da Rupi Kaur na internet. Tudo o que lia deixava em mim a vontade de conhecer mais da obra. 
O que o sol está com as flores foi a minha estreia com a escritora. Adorei o livro! Adorei a forma como a Rupi vai desenhando palavras que refletem uma enorme complexidade emocional. 
É uma poesia moderna que liga a condição humana, as relações, as mudanças, as culturas e o universo feminino. 

Cada poesia tem uma mensagem única, mas todas elas contribuem para um coletivo maior. Oferecem uma dimensionalidade superior das temáticas que convidam a uma reflexão global do que se vai lendo.

O que pode ser mais forte
do que o coração humano
que se parte em tantas partes
e ainda bate

Li o livro na versão de português do Brasil, mas fiquei com muita vontade de ler a versão original em inglês e a versão em português de Portugal. Será uma autora que manterei debaixo de olho e de quem pretendo ler os livros todos dela. Fiquei mesmo apaixonada pela forma como ela encaixa as palavras e nos conta grandes histórias com poucas palavras.

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Opinião | “A célula adormecida” (Afonso Catalão # 1) de Nuno Nepomuceno

30.04.21

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É-me um bocado difícil escrever a opinião a este livro. Gostei menos do que aquilo que estava à espera. O ter arrastado a minha leitura ao longo de muitos dias também não abonou a minha relação com a história e com o livro.

O livro é muito conhecido na comunidade. Focado no Estado Islâmico, no terrorismo, na crise dos refugiados e com foco na cultura muçulmana; “A célula adormecida” apresenta um conjunto de factos relacionados com estes temas que despertaram o meu interesse e me possibilitam aprender conteúdo.

É um livro muito factual. A história vive dos factos e daquilo que eles vão desencadeando. É claro que existem personagens, e entre eles estão desenhadas relações mais ou menos complexas que dominam o desenvolvimento da narrativa. Achei estas relações pouco dinâmicas e pouco realistas. Senti que algumas foram pautadas pela artificialidade dos diálogos, outras por comportamentos das personagens que me pareceram distantes da real personalidade que autor queria passar. Há certas passagens do Afonso e certas formas de estar que não são congruentes com a personalidade que está desenhada para ele. Senti uma certa infantilidade e imaturidade quer em algumas das suas atitudes quer em algumas das conversas que vai desenvolvendo. Isto foi condicionando a minha ligação ao Afonso e à Diana, assim como às suas problemáticas.

Sarita, Ahmad e Sami, a família síria a viver em Portugal, foram as personagens que mais me cativaram e que mais me impulsionavam a ler. Gostei imenso das dinâmicas deles e dos dramas que marcaram a passagem deles por este livro. Foram a parte que mais gostei neste livro.

Analisando a sequência dos acontecimentos, em alguns momentos senti que alguma informação estava em falta. Já no final do livro há uma situação a envolver a Diana, o Afonso e o Gustavo que não ficou muito clara para mim. Há uma certa atrapalhação temporal (o conteúdo dá a indicação de que passou mais tempo do que aquele que o comportamento das personagens num dos capítulos anteriores e no início desse deixa transparecer). Isto envolve um encontro que não nos foi mostrado que, na minha opinião seria relevante para uma melhor compreensão da relação entre a Diana, o Afonso e o Gustavo.

Quanto à escrita senti uma evolução positiva comparativamente ao anterior livro que li do escritor (“O espião português”). Só houve três aspetos mais chatos: 1) a quantidade de vezes a que o autor recorre a “corpo seco” para descrever o físico dos homens; 2) a constante utilização do nome completo das personagens (com o avançar da leitura torna-se aborrecido, porque o leitor sabe perfeitamente quem é quem); e, 3) há descrições físicas de personagens a mais, em algumas situações o escritor descreve fisicamente a personagem com um grau de detalhe que acho desnecessário.

Gostei do final e da carga dramática que o autor ofereceu àqueles momentos finais. A única coisa que senti mais forçada foi na relação de Diana e Afonso. A narrativa não evolui o suficiente para aquele desfecho. Senti que foi uma aproximação demasiado forçada. O final alternativo deixou-me com vontade de descobrir a próxima aventura do Afonso.

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Dia mundial do livro e dos direitos de autor

23.04.21

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Os livros oferecem-nos histórias e marcam a nossa própria história. Marcam épocas de uma vida e associam-se a lembranças que fazem de mim a pessoas que sou hoje.

A Anita talvez tenha sido a minha primeira amiga (coleção dos Livros da Anita). Cansei-lhe as páginas de tantos que as folhei. As capas estão gastas, mas guardam boas memórias de infância. A escola possibilitou outros olhares. Todos os meses recebia a “carrinha mágica”, carregada de história para descobrir. Continuei fiel à Anita, mas permiti-me conhecer outros universos infantis. Tive uma amizade breve com o Babar e uma amizade longa com o Chico, o Pedro, a Teresa, a Luísa e o João (coleção “Uma aventura”).

Sai da aldeia e a carrinha acabou. Os meus pais não me davam grande acesso aos livros. O que valeu nessas alturas foram mesmo as leituras obrigatórias. Ainda hoje queria ser como a Oriana e a Rainha das Fadas e ter asas para voar por cima dos problemas (“A Fada Oriana”), ser amiga da Menina do Mar (“A Menina do Mar”) e viver as aventuras de um Ulisses que volta sempre para a sua Penélope (“Ulisses”). Ri-me com a Sementinha (“A vida mágica da sementinha”) e emocionei-me com Hans e, já adulta, tive a mesma vontade dele: sair em busca do desconhecido (“Histórias da terra e do mar”), mas nunca tive a mesma coragem. Seguiu-se um Principezinho com a sua rosa e a sua raposa, mas acho que não o conheci como devia (“O Principezinho”). Devo-lhe uma nova oportunidade. Eram tão poucos os livros na minha vida, que me agarrei sempre a estes. Por isso, respeito muito as leituras obrigatórias. Sem elas, perderia os meus laços com as palavras.

O salto para o secundário significou menos obras obrigatórias, mas abriu as portas da biblioteca municipal. Ter fugido às letras e me entregado aos números deu-me menos livros, porém tive a oportunidade de me apaixonar por Pedro da Maia e sofrer pelo seu amor proibido (“Os Mais”) e afundar-me em reflexões existencialistas sobre a vida e a morte (“Aparição”).

A fase da biblioteca trouxe-me as paixões sofridas (livros de Nicholas Sparks), as famílias italianas e o som o tango (Sveva Modignani), choquei-me com a Maria (“Onze Minutos”) e nunca mais larguei as palavras de Paulo Coelho. Deixei que o meu coração palpitasse na cadência das palavras de Tiago Rebelo. Sofri com a poesia de Florbela Espanca e deixei que a melancolia dela fosse a minha em tantos momentos da minha vida.

A universidade meteu-se pelo meio e os livros técnicos ganharam mais espaço. Mas quando a paixão se transforma num amor sólido, temos sempre a vontade de voltar a onde fomos felizes. No meu caso, sou feliz nas páginas de um livro e a eles voltei. Têm sido tantos e tão bons que é difícil fazer com que todos caibam neste texto. Voltei aos livros pelas mãos de José Rodrigues dos Santos; passei pelas terras altas da Escócia (Outlander); sobrevei romances simples e complexos, que davam espaço ao amor entrar (Danielle Steel, Paullina Simons, Deborah Smith, Marc Levy, etc.), encontrei nos clássicos boas leituras (“Orgulho e preconceito”, "O monte dos vendavais"), atrevi-me pelo universo do crime e enjoei nos autocarros com as cenas demasiado gráficas (“Messias”, “O assassino do crucifixo”). Aprendi com a Torey a fazer das minhas consultas espaços mais ricos para as crianças (livros da Torey Hayden). Entrei na História (“O ano da dançarina”, “A filha do capitão”, “A imperatriz Romanov”, “Inês) e lembrei-me o quanto eu gostava dela. Descobri que até a fantasia pode ser para mim (Série Sevenwaters) e chorei às mãos de um homem que capta com mestria a essência feminina num lugar onde ela é anulada (“Mil sóis resplandecentes”). Apaixonei-me pelas vozes portuguesas (“As últimas linhas destas mãos”, “O funeral da nossa mãe”, “Alma rebelde”, “O escultor”, “Maresia e fortuna”) e orgulhei-me das mãos portuguesas que dão corpo a histórias magníficas.

Os livros amenizaram tristezas (“Deixa-me odiar-te”, “Rosas”, Série Bridgerton). Trouxeram-me risos e pessoas que foram luz no meio de tempestades. Fizeram-me sonhar. Eles são a minha história e cabem em mais do que um dia por ano.

Que livros fazem a vossa história?

Inquietações # 5.1 | O papel do(a) leitor(a) na divulgação de livros de má qualidade: As respostas!

21.04.21

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Na semana passada, publiquei este post no Instragram e lancei algumas questões nos stories. Hoje é dia de divulgar as respostas e a minha análise das mesmas.

Quando leio presto atenção à escrita, à congruência da narrativa e à pontuação?

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Estas respostas mostram que grande parte dos participantes, enquanto leitores, olham para os livros com uma perspetiva global. Não gostam de ler só por ler. Gostam de olhar para a escrita, para a congruência nos acontecimentos e prestam atenção à pontuação.

Atualmente, tenho dificuldade em desligar-me destes aspetos. Porém, há alguns anos olharia apenas para a história e para o prazer que aquela leitura me ofereceu.

Acho que ambos os tipos de pessoas podem coexistir. Se por um lado temos aqueles que leem com uma atenção mais pormenorizada, por outro temos pessoas que se focam na sua experiência de leitura. No fundo, o importante é: quando o(a) leitor opta por partilhar uma opinião deve dizer deixar transparecer os elementos que ele considerou para a escrever ou apresentar a sua opinião.

O que é que eu considero importante num livro?

Apesar da diversidade de respostas há elementos comuns nas partilhas feitas. As referências às personagens e à narrativa são as mais expressivas. São, de facto, elementos aos quais os leitores participantes dedicam a sua análise. Quanto às personagens, procuram que elas sejam o mais realistas possível e que sejam bem construídas e desenvolvidas ao longo da leitura. Quanto à narrativa, o interesse dos(as) participantes centra-se na coerência, na estrutura e na sua capacidade para cativar o leitor e o manter imerso na história.  A escrita é, também, um elemento bastante referido. A qualidade, o estilo, a ausência de erros ortográficos e gramaticais e as a qualidade nos diálogos são os aspetos apontados. Por fim, alguns(mas) participantes referiram que consideram relevantes as reflexões provocadas pela leitura, assim como as emoções que possam surgir.

Sintetizei esses dados numa tabela para facilitar a leitura.

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Já escrevi opiniões de livros onde não fui totalmente sincera(a)?

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Quais os motivos que me levaram a não fazer uma opinião sincera?

As respostas dadas a esta perguntam centram-se muito na relação leitor(a)-escritor(a). A grande maioria dos(as) participantes referiram que tiveram dificuldade em fazer uma opinião sincera por causa do(a) escritor(a), pois sentiram medo de magoar. Há também quem refira os aspetos da tradução, ou seja, omitem a verdadeira opinião porque sentiram que o problema está na tradução e não no conteúdo do livro em si. Outra resposta interessante relacionou-se com a maturidade do(a) leitor(a). Há quem considere que não foi tão sincera, porque a sua imaturidade enquanto leitor(a) não lhe permitiu prestar atenção a aspetos relevantes.

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Indica um livro em que não tenhas sido sincero(a) na opinião partilhada?

Nesta questão, os livros referidos foram:

  • “A menina dos doces” de Pedro Cipriano;
  • “Raparigas como nós” de Helena Magalhães; e
  • “The sea of tranquility” de Katja Millay

Tenho mais dificuldade em escrever uma opinião negativa sobre um livro escrito por um(a) escritor(a) nacional?

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Aqui houve um certo equilíbrio, porém a opção mais assinalada vai no sentido de existir uma maior dificuldade em partilhar opiniões negativas de livros escritos por autores portugueses. Consigo perceber os motivos que condicionam o comportamento dos leitores. Porém, não deixo de me questionar no impacto que possa ter no escritor e na sua obra.

O que achas que leva um(a) leitor(a) a não revelar uma opinião sincera?

Os motivos apontados na resposta a esta pergunta dividem-se entre autores, parcerias e popularidade.

Receber livros de parceria é o impacto que a opinião possa ter no(a) escritor(a) são os fatores mais apontados pelos(as) participantes. Dos vários testemunhos, aquele que me deixou mais a pensar foi um comentário que apontava que uma opinião negativa poderá estragar a carreira do escritor. Na minha perspetiva, esta questão depende mais da forma como a opinião for escrita e daquilo que o(a) escritor(a) decidir fazer com ela. O que ditará o futuro na carreira do(a) escritor(a), mais do que a opinião negativa, é o comportamento dele(a) perante essa mesma opinião.

O medo de perder parcerias é também apontado como um dos aspetos que poderá condicionar a forma como os leitores se expressam.

O que me surpreender foram as partilhas relacionadas com a pressão social. Situações de bullying entre leitores, o medo de perder a popularidade e o receio de não ser aceite na comunidade são questões levantadas que me deixaram muito surpreendida. Isto só reforça a forma tóxica como muitas pessoas se movimentam neste meio. As redes sociais são apenas uma parte da nossa vida, não nos definem, não podem controlar o que pensamos, o que sentimos e a nossa forma de ser. São um elemento, uma parte de um universo maior. Por outro lado, às pessoas que gostam de exercer este tipo de pressão nos outros façam o exercício de se colocarem no lugar do outro. Eu gosto de ler opiniões contrárias à minha, mas para me obrigar a pensar e a colocar-me no lugar dessa pessoa. Se sentir que posso acrescentar alguma coisa a essa pessoa, comento e tento fomentar uma discussão saudável. Temos o dever de ser delicados e respeitadores. Os números são apenas números. As pessoas que estão por detrás dos perfis continuam a ser exatamente as mesmas.

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Uma opinião negativa pode ajudar ou prejudicar o(a) escritor(a)?

Apesar da maioria dos(as) participantes afirmarem que a opinião poderá ajudar o escritor(es), há quem considere que pode prejudicar. Eu continuo a acreditar que tudo depende da forma como a opinião é apresentada e da forma como o escritor decide pegar nela.   

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Na questão aberta a comentários, as pessoas foram reforçando a resposta dada a esta questão. O que é comum às diferentes opiniões é a necessidade de se fazerem opiniões construtivas, fundamentas e respeitadoras. Há ainda quem considere que se a opinião negativa for tornada pública não ajuda o escritor. Em contexto de beta-reading, as participações reforçam a necessidade da existência de sinceridade. Sobressai, também, a necessidade de construir opiniões que não derrubem o escritor ou de o magoar.

Outras pessoas usaram esta caixa final para reforçarem a importância de se promover a honestidade no mundo literário, de se respeitarem as opiniões uns dos outros e de se refletir sobre opiniões contrárias às nossas.

Quero agradecer a todas as pessoas que participaram nesta partilha. Recebi muitas mensagens, tive discussões privadas muito interessantes e retiro desta experiência o que sempre defendi desde o ano de 2011, quando iniciei o blog: A sinceridade com delicadeza e respeito é importante!

Ficam algumas considerações sobre bullying digital:

- Cada um tem direito à sua opinião! Cada um deve respeito aos outros e merece ser respeitado;

- Os gostos são diversificados e ainda bem que o são. Ao gostarmos de coisas diferentes estamos a promover a discussão e o aumento de conhecimento;

- Não há nada de mal em partilhar uma opinião menos favorável. Quando o fizeres, usa palavras respeitosas. Se puderes falar com o(a) autor(a) antes da publicares tua a opinião, fá-lo. Porém, comunica com empatia e expõe o teu ponto de vista sem arrogância;

Gostava de conhecer as perceções dos(as) escritores(as) acerca destes resultados.

Opinião | “Encontro em Itália” de Liliana Lavado

16.04.21

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Esta leitura não foi completamente às cegas. Há dez anos fiz leitura-beta do livro que deu origem a este “Encontro em Itália”, por isso já conhecia os traços gerais da história (a memória já não guardava os pormenores deste livro, final incluído).

A capa e o título podem enganar um pouco o leitor e afastar quem tem um gosto por fantasia. Ao primeiro olhar parece um romance um pouco ao estilo dos young-adult, mas é bem mais do que uma história romântica. Sim, há espaço para o romance! Porém, este romance está contextualizado num universo marcado pela fantasia e pelos anjos caídos.

Fantasia não é aquele género capaz de me fazer vibrar. Há algumas exceções! Este é um deles. Apesar de todos os elementos que lhe conferem fantasia, tal como da primeira vez, eu consegui gostar da história e das suas personagens.

O livro narra a história de dois amigos, Sara e Henrique, que partilharam a infância e grande parte da sua adolescência. Aos 18 anos acabam por seguir caminhos distintos e perderam um contacto um do outro. Ao sabor de uma antiga promessa, o reencontro acontece e uma série de aventuras cruzam-se no caminho dos dois amigos, para desespero do sensato e ponderado Henrique.

E, assim, as palavras tecem uma história com uma dinâmica muito interessantes. Não há espaço para o leitor se sentir aborrecido! Os capítulos curtos e a sucessão de mudanças permitem uma leitura entusiasmante onde permanece a vontade de saber onde é que a Sara e o Henrique nos irão levar. Por vezes, o ritmo é demasiado rápido. Eu gostava que a viagem a Itália não fosse tão intensamente rápida. Porém, reconheço que este ritmo acompanha a personalidade intensa, instável e frenética da Sara.

Haari é uma das personagens mais especiais com quem me cruzei. Tal como achei quando li a primeira versão, ela merecia um livro só para ela. Nesta personagem, concentra-se a magia, o mistério e situações caricatas que facilmente arrancam um sorriso. Associada a Haari e um conjunto peculiar de personagens, existe um livro. Este objeto tem uma importância significativa na história e acho que o Henrique não foi capaz de experimentar toda a sua potencialidade.

Concluindo, “Encontro em Itália” é um livro que conjuga romance contemporâneo com fantasia urbana. Esta conjugação poderá ser útil para leitores que, tal como eu, não sejam grandes apreciadores de livros de fantasia mais “puros”.

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