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Por detrás das palavras

Nas páginas do meu caderno # 12

O que é que a escrita significa para ti?

art-1868727_1920.jpg(imagem retirada do pixbay)

Escrever foi uma paixão tardia. O amor pela leitura surgiu muito antes da escrita, mas reconheço que foi este amor que me oferece esta paixão.

Não me considero uma escritora. Nunca fui além de uns micro contos escritos aqui para o blog. Nunca escrevi um livro, nunca publiquei nada. Mas escrever é, para mim, a minha forma de expressão preferida. As palavras são um veículo fenomenal. Aproximam-me do mundo e do outro. Através delas consigo dar corpo à confusão do meu mundo interior e do meu mundo emocional.
Aventurar-me para além deste meu espaço assusta-me e significa sair um pouco da minha zona de conforto. Não sei se serei capaz de enfrentar um desafio tão grande como o de escrever um livro.

Escrever tornou-se numa necessidade. Num alimento que me enriquece enquanto ser pessoal e enquanto ser profissional. Permite-me chegar a ti e oferecer-te visões, pensamentos, reflexões, emoções... A escrita também constrói pontes comunicacionais. Aproxima-me do mundo.

A escrita também significa liberdade. A escrita, para mim, é liberdade!!

E para ti, o que significa a escrita? Por que é que escreves?

Nas páginas do meu caderno # 11

Atreves-te a Escrever?

Atreves-te a Escrever_.jpg

A Elisabete e a Vera lançaram um desafio de escrita no instagram. Vou participar consciente das minhas limitações temporais. Os temas sairão ao domingo e teremos de os partilhar até sexta-feira.
Esta semana, o desafio é construir uma história partindo de umas frases iniciais (vou colocá-las a uma cor diferente). Vejam o que me saiu.

A casa abandonada ergue-se perante mim, altiva, severa.

Engulo em seco.

Não sei o que é que me deu na cabeça para meter aqui os pés.

− Preparada? – O entusiasmo na voz do meu chefe gela-me a alma.

− Só podes estar a gozar! – Olho para ele sentindo-me completamente perdida. – Se bem me lembro, na ficha da descrição da missão tinha “O anjo que aceitar esta função terá de ser criativo, resiliente e gostar tanto de rotinas como de coisas inesperadas. É esperado que o(a) funcionário(a) celestial seja capaz de trazer brilho a uma vida de sombras”. Bem, isto é uma casa abandonada, não sei muito bem a que vidas te referias.

− Sempre foste muito impaciente, Muriel. – Gabriel coloca a mão no meu ombro como se quisesse refrear o meu estado ansioso. – Agora a casa está abandona, mas em breve receberá novos habitantes. Tu chegas antes para que te possas apropriar do espaço.

− Ai é? E então quem vem para cá?

− Esta casa irá receber uma mãe, um pai e um filho. A tua missão será iluminar a vida do Rodrigo.

− Já começa a ficar interessante!

Caminhamos até à escadaria da casa, onde nos sentamos. Desta perspetiva conseguimos observar o jardim devoluto e sem vida. Tal como olhar do Rodrigo que sobressai da fotografia do dossier que Gabriel acaba de abrir à minha frente.

−  Como podes ler, Rodrigo é um menino de dez anos que vai ter alta do hospital depois de uma tentativa de suicídio que, felizmente, correu mal. Os pais estão muito preocupados. Sabem que ele sofre na escola, mas não conseguiram identificar as causas desse sofrimento. Para tentar reverter a situação, acharam que uma mudança poderia ajudar à recuperação do filho. Acreditam que começar de novo e num lugar diferente trará vida ao olhar mortiço e apagado do filho.

− Mas tu sabes o que levou o Rodrigo a atentar contra a própria vida e omitiste propositadamente da história desta família, não foi? – instantaneamente sai-me um bufo de impaciência. – Gostas muito de me dificultas as missões.

Gabriel solta uma gargalhada bem sonora.

− Eu sei que gostas de desafios. Se te desse a informação toda, irias perder esse entusiasmo que incendeia agora no teu olhar. E, tal como eu, acreditas que a magia do nosso trabalho está em descobrir as fragilidades e transformá-las em forças. Dar-te a informação toda seria minimizar a tua capacidade de investigação e impedir que cries uma relação positiva com esta família.

Sorrio! Ambos sabemos que ele tem razão. Conhece-me demasiado bem para saber como lido com as missões celestiais. Sou um anjo inquieto. Vou passando os olhos pelo processo do Rodrigo.

− Porra Gabriel, diz aqui que ele não acredita em anjos; nunca teve amigos imaginários e odeia coisas relacionadas com fantasia. Antevejo umas primeiras semanas dolorosas.

− Estás a altura do desafio, Muriel. – Gabriel pega-me na mão e aperta-a gentilmente. – Sei que daqui a uns tempos vamos ter um Rodrigo com uma alma nova. Esta casa abandonada irá ganhar luz, cor e vida; coisas que irás introduzir também na vida do Rodrigo. Confio em ti!

Abraço-o com força. Quero guardá-lo na memória e no coração para que as saudades sejam menores durante o nosso afastamento.

− Vou ter saudades tuas Gabriel… - sussurro-lhe ao ouvido.

− Não serão maiores que as minhas.

Continuamos abraçados durante mais algum tempo. O nosso abraço guarda amor, amizade, respeito. Guarda uma magia especial que se começa a espalhar um pouco pela casa sinistra atrás de nós e pequenas transformações começam a acontecer no espaço outrora mais sombrio. Vejo algumas flores a nascer no jardim à nossa frente e o sol ilumina o jardim. Terminamos o abraço para ver melhor as pequenas transformações. Gabriel sorri.

− Parece que já começaste a espalhar a tua luminosidade. Isto já não parece tão severo.

Pego-lhe novamente na mão.

− Sabes perfeitamente que a minha luminosidade é mais intensa e mais mágica quando estás comigo.

Sinto o amor a espalhar-se o rosto de Gabriel e o meu coração explode de alegria. Se alguma vez duvidar das minhas capacidades nesta minha nova missão, bastará lembrar-me dos olhos dele a olhar para mim neste momento.

Nas páginas do meu caderno # 10

A Elisabete suspendeu os desafios e eu decidi voltas às cartas.

Carta para alguém da tua infância 

Olá Celina,

És, provavelmente, a última pessoa a quem eu pensaria escreve uma carta. Porém, agora, adulta, consegui perceber que as palavras possuem uma enorme capacidade de cura e eu quero curar-me do horror que me causaste.

Não sei como és agora, mas naquela altura fizeste-me sentir que a escola é uma selva onde ou matas, ou morres. Eu não matei, mas morri nas tuas mãos. Felizmente, não foi uma morte definitiva. Foi mais uma espécie de morte psicológica. Tiraste-me a alegria, a companhia e a capacidade de confiar nos outros.

De cada vez que, sentada atrás de mim nas aulas, me chamavas cabra, vaca, puta e sei lá mais o quê, pois apesar de má aluna a português tinhas um léxico malvado profundamente elaborado; um pedaço de mim morria e queria enterrar a cabeça, esconder-me do mundo. De todas as vezes que me excluías das brincadeiras, roubaste-me a capacidade de saborear as amizades da infância. De todas as vezes que manipulaste toda a gente de maneira a deixares que eu fosse almoçar sozinha à cantina, permitiste-me aprender que, por vezes, estar sozinha era sinónimo de sossego e libertação.

Doeu quando nenhum adulto da escola reconheceu o meu problema. Doeu ouvir a diretora de turma dizer à minha mãe que “afinal de contas, eram apenas coisas de raparigas”. Sentia-me tão impotente! E nem aquela espera à porta dos balneários de educação física, onde tu e as tuas seguidoras me encurralam contra a parede e me ofenderam ao ponto de eu desmaiar e perder os sentidos, foi suficiente para abrir os olhos dos adultos que continuaram a achar que era tudo coisas de miúdos.

Podia ter seguido o caminho mais fácil. Podia ter mudado de escola para deixar de te encarar. Para deixar de ter que ver o teu sorrisinho estúpido e de quem conquistava o poder no recreio da escola. Deixava de assistir aos desfiles pela escola fora como se só tu fosses a rainha lá do sítio. Mas decidi ficar e enfrentar-te. Comecei a responder aos teus ataques. Na minha cabeça imaginava que te espancava de todas as maneiras possíveis e isso ajudou a ignorar-te em algumas alturas.

Aos poucos foste-me deixando em paz. Talvez porque a tua atitude para comigo não provocou alterações nas minhas notas. Talvez porque, com o tempo, deixei de me mostrar frágil aos teus olhos. Chorei muito em casa! Chorei muito na casa de banho da escola! Chorei pela solidão para onde me atiravas todos os dias.

Hoje, para mim, é fácil reconhecer os sinais de abuso psicológico nas crianças. É fácil, para mim, descobrir as vítimas na selva que pode ser o meio escolar e, só por isso, sou-te grata. Tem facilitado imenso o meu trabalho enquanto profissional. É tão bom fortalecer estes miúdos e miúdas. É gratificante ver que é possível transformar o espaço da escola num lugar mais pacífico.

Quanto a mim, as feridas estão curadas. Hoje, com esta carta, encerro o meu processo de cura e libertação. Posso ser uma pessoa solitária, com tendência para os silêncios, mas aceito que é parte de mim. E, as poucas pessoas que vou deixando entrar na minha vida, aceitam-me, respeitam-me e gostam de mim assim. E essas pessoas foram-me ensinando a confiar e mostram-me que é a amizade pode ser um lugar muito bonito.

Estou livre! Se um dia passar por ti na rua, acho que até sou capaz de te oferecer um sorriso sincero.

Sê feliz, Celina!
Sara

O desafio para vocês, leitores deste humilde espaço, é tentar perceber se isto é ficção ou realidade. Gostava de saber a vossa opinião.

Nas páginas do meu caderno #9

Desafio da Elisabete: Descrever um lugar usando todos os sentidos

Lugar 1: Lisboa vista do Castelo de São Jorge

1.jpg

Sentei-me a observar a cidade que se estendia à minha frente. Há uma luz especial a iluminar as casas, o rio que corre, preguiçoso, em direção ao mar, a ponte que liga lugares que água separa. Uma leve brisa surge no final de uma tarde quente de setembro e ameniza o calor intenso que se fez sentir ao longo do dia. Fechar os olhos e deixar que a brisa nos afague a face o corpo é muito agradável e oferece uma sensação de leveza e quietude. A brisa que me acalma é a mesma que agita as folhas das árvores e nos traz os sons que cobrem o ambiente da cidade. Enquanto as folhas bailam ao ritmo do vento, oferecendo um dos sons mais bonitos da natureza, mais em baixo o som dos carros e as buzinas, numa tentativa de competir pela ocupação do espaço sonoro.
As pessoas espalham-se pelo espaços. As solas deixam marcar nos caminhos de terra que circundam o castelo. Os copos, ao pousar nas mesas, batem e assinalam o fim de uma pausa nas conversas descontraídas que preenchem um final de arde de domingo. Cheira café, a sumo de laranja, a perfumes diversos que aromatizam as peles humanas. As crianças correm e divertem-se a explorar o espaço amplo que têm à frente. 
Eu viro-me para o rio. Achei cara a entrada, mas será que há dinheiro que pague esta vista?

Lugar 2: Coimbra

14051718960_28670e439c.jpg(Imagem retirada da internet)

Diferentes lojas ocupam os lados de uma rua agitada, cheia de movimento e que nos leva até ao Mondego. Pessoas caminham calmamente ao longo da rua, outras ocupam as esplanadas onde saboreiam doces ou bebem café, sumo ou qualquer outra bebida que se ajuste ao gosto de quem a bebe. Desta rua saem diferentes caminhos. Paro em frente daquele que me levará ao topo da cidade. Cruzar aquele arco traz a inevitabilidade de um arrepio na espinha que só os acordes de uma guitarra portuguesa são capazes de provocar. A rua é íngreme e, reza a lenda, que quem lá cair casará na cidade. A calçada gasta está cheia de gargalhadas, música e histórias... e de perigos, caso a chuva decida lavar os espaços. Bolinhos de bacalhau, rissóis e outros petiscos a quem desconheço o nome povoam o ar e fazem estômagos roncar. 
É sempre a subir, uma dura subida que nos rouba o ar dos pulmões. Ruas estreitas, saltos altos que enchem o ar quando tocam na calçada. De uma janela sai música, um metal que soa demasiado alto. De outra, tachos e panelas tocam a sinfonia que antecede uma refeição em grupo, onde não falta o riso e as conversas descontraídas. 
No topo, um dos símbolos do conhecimento oferece memórias pessoais ou de um Carlos da Maia apressado para uma aula de medicina. A Cabra marca o tempo num lugar em que o tempo não passa, porque a memória assim o impede. Ao fundo, uma "varanda" virada para um Mondego que guarda lágrimas de um amor eterno. 
Quem por aqui passa leva a saudade de um tempo que não volta, mas guarda a certeza que a Porta Férrea jamais se fechará para si. 

Nas páginas do meu caderno #8

Desafio da Elisabete: Descreve a capa do livro que mais gostas! (ou a capa mais bonita que conheces). Descreve os aspetos que a tornam especial.

Para este desafio vou escrever sobre duas capas: 1) A do livro que eu mais gosto e 2) Uma das capas mais bonitas que tenho na estante.

P_20200820_143919.jpg

Num fundo azul brilhante, como um céu de inverno límpido, frio e iluminado pelas estrelas, um rosto de uma jovem olha em direção a um horizonte desconhecido. O título longo não é o reflexo mais correto da história que vive em mais de 600 páginas. Neste livro vivem personagens fortes que aprendem a lidar com as suas fraquezas, vivem gritos de guerra; vive a fome, a dor, o sofrimento. Mas vive, também uma história de amor que jamais esquecerei. O título pode afastar leitores com medo das histórias lamechas, mas este livro é tudo menos lamechas! Há um lado histórico que dá um toque muito especial à narrativa. Uma rapariga sob um fundo azul é  muito pouco para mostrar a intensidade desta história.

P_20200820_144023.jpg

A fotografia não consegue transmitir a beleza da capa. Ternura é a palavra que descreve a história deste livro e capa acompanha essa ternura. A capa parece uma fotografia numa moldura amarela que captou as sombras de um dia feliz, porque a felicidade e o amor não precisam de rosto, nem de cores vibrantes. Nessa fotografia, um pai e uma filha subiram ao topo de uma colina para contemplar um céu cheio de estrelas. O balão vermelho reflete a inocência da infância e a importância do brincar. 

Nas páginas do meu caderno #7

Desafio da Elisabete: Descrever um objeto que seja especial, que tenha um significado especial.

Design sem nome (1).jpg

É engraçado pensarmos que há pessoas que convivem connosco muitos anos e não conseguem captar a nossa essência. Em contrário, há pessoas que ao fim de poucos dias de contacto conseguem conhecer-nos de uma forma que é difícil de explicar. Este pequeno objeto é reflexo disto.

Esta é uma estátua da coleção Willow Tree. É uma imagem de uma rapariga com um vestido branco a segurar um livro. É lindíssima e carrega um significado especial para mim. 

Foi-me oferecida por uma aluna da minha primeira turma oficial em contexto universitário. Segundo as palavras dela, assim que colocou os olhos nesta figura lembrou-se imediatamente de mim e teve de a comprar para me oferecer. Confesso que fiquei envergonhada com o gesto, mas quando o abri fiquei verdadeiramente emocionada com o que vi e com todo o significado associado a esta imagem.

É verdade, esta imagem tem um pouco de mim: a simplicidade do ser e amor pelos livros. Além disso, significará sempre a minha ligação a uma turma que gostei imenso de acompanhar. Será o símbolo de uma primeira conquista profissional que me deu esperança para o futuro. Sempre que olhar para ela, vou lembrar-me que há sempre pessoas capazes de captar o melhor de mim, independentemente do tempo que possam passar comigo. 

Esta coleção é tão bonita que já tenho outras estátuas debaixo de olho.

Nas páginas do meu caderno #6

Hoje quero propor-vos uma experiência de leitura diferente. Ler ao som da música que escolhi para escrever um texto. 

Podem clicar aqui para ouvir a música e ler o que se segue.

Fechei-me em casa. Já não aguentava a pressão. O meu cérebro está doente, eu sei! Só não sei como me libertar desta doença.

Passei a apreciar o escuro, para que as lágrimas corressem livremente, sem a luz para as confrontar. Nem sempre saem lágrimas, outras vezes é a apatia, a falta de inércia. A simples vontade de não fazer nada. Desligar! Sim, é isso. Desligar de tudo e de todos, deixar-me estar naquele buraco negro onde não cabe mais ninguém senão eu e as minhas dores.

É estranho como esta doença se manifesta na alma. Há dias em que saio de casa e faço mil e uma coisas, não paro para pensar. Como qualquer coisa com a pressa de chegar onde me esperam. Posso estar ocupada, mas dentro de mim há um vazio que se espalha e eu não consigo explicar. Sorrio para os outros, para o mundo, mas é um sorriso despido de luz; porque essa apagou-se, não sei bem quando, mas apagou-se.

Malditos fantasmas que se atravessam na minha mente. Dizem-me coisas duras: Não vales nada, não és suficientemente boa, não és capaz, ninguém será capaz de gostar de ti. Conscientemente, sei que são coisas que os meus fantasmas fabricam para mim. Porém, o meu lado inconsciente suga-os, alimenta-se destes produtos, deixa que eles se espalhem no meu sistema circulatório e minem todas as coisas positivas que vivem adormecidas dentro de mim.

Vou sobrevivendo ao mundo. Vou mantendo a rotina. Mas chega aquele dia em que não dá mais. Aquele dia em que nenhuma pessoa ao nosso redor é capaz de nos fazer sair da escuridão. Aquele dia em que nenhum amor que nos rodeia consegue calar os fantasmas. Não há culpados nestas coisas. Os outros não estão cegos às minhas dores, eu é que me tornei mestre em disfarça-las e ninguém é capaz de as alcançar.

Hoje vou calar estes monstros, estes fantasmas sugadores. Vou adormecer para a eternidade e levar as dores comigo, sem espaço para culpas… Apenas a minha libertação.

Desafio para vocês: Escolha uma música, escrevam um texto e partilhem comigo.

Nas páginas do meu caderno #5

My Post.jpg

Sei que tinha definido dias fixos para estes posts, mas a escritora Elisabete lançou o desafio no Instagram e eu não resisti. Por isso, esqueçam os dias 11 e 22. Nas páginas do meu caderno irá aparecer mais vezes durante os próximos tempos.

Desafio 1: O que vejo da minha janela?

Da minha janela, o verde enche os olhos de quem se perde a observar o que nos rodeia. O sol abrasador ilumina os campos, mas o verde dá-lhe uma espécie de ilusão de frescura. A brisa, quando existe, baila por entre as folhas e oferece sons que só a natureza é capaz de produzir.
No céu azul, que se cruza nas montanhas ao fundo, voam melros, rolas e andorinhas. Ai as andorinhas! Respiram uma liberdade invejável. Voam, cantam, brincam umas com as outras e banham-se nas águas mornas da superfície dos tanques. Vivem os dias de forma intensa até ao momento de partirem em busca de outra primavera, resta a esperança de voltarem a voar neste céu e de o encherem dos sons da alegria.

Nos campos as espigas de milho crescem! Sofrem com o calor e falta de água destes dias demasiado quentes, demasiado secos, demasiado duros para a natureza que circunda o meu espaço. Pedem chuva! Chuva que lhes apague a sede insaciável de um verão que torna escassas as gotas insuficientes.

Antes de chegarmos às montanhas, onde os carros de rali levantam o pó dos caminhos, ainda há espaço para o aglomerado de casas e serviços que só a cidade oferece. De lá, chegam-me os barulhos citadinos, os sons dos concertos de verão que se prolongam pela noite. E na noite, as luzes da cidade iluminam o espaço, mas são incapazes de ofuscar as estrelas brilhantes que ocupam o céu sem nuvens. 

Viver no campo é ouvir sons diferentes, é encher os olhos de verde e os sonhos do manto azul coberto de estrelas brilhantes. Viver no campo é viver do silêncio e dos sons que se atrevem a atravessá-lo. Viver no campo é viver livre de isolamento, porque mesmo quando nos obrigavam a ficar em casa, este meu espaço significou liberdade.

Nas páginas do meu caderno #4

Olá Alice,

Bem... Nem imaginas, fiquei incrédulo quando abri a caixa de e-mail e vi lá o teu e-mail. Depois do choque inicial, um ataque de riso tomou conta de mim. Gabo-te a coragem do contacto e a admissão daquele comportamento infantil que me deixou um pouco magoado.

Quando nos cruzamos, pensei que me ias dizer qualquer coisa. Pior! Que me ias sorrir para eu matar as saudades de ver um sorriso teu. Sempre fui demasiado crédulo na bondade do ser humano. Continuo sem perceber muito bem porque me evitaste. Sentiste insegura porquê? Gostava que me contasses, que me explicasses. Acho que eu nunca te alimentei as inseguranças. 

Sim, é um bocado arrogante da tua parte queres saber como eu estou. Demorei a responder-te porque não sabia se te queria responder. Mas depois a curiosidade de saber de ti falou mais alto. E, sim, também me deixaste saudosista. É que nas redes sociais não apanho nada de ti. Nem uma fotografia para amostra! Só vejo livros e paisagens. Estou em desvantagem. Acabas por saber mais de mim do que eu de ti.

Então, queres saber como eu estou! Desde aquela altura muita coisa aconteceu. Como sabes, deixei a escola e fui trabalhar. Tantas vezes me disseste que era parvo desperdiçar as minhas capacidades. Tantas vezes elogiaste o meu raciocínio matemático. Parecia que te ouvia sempre na minha cabeça, a zumbir como uma abelha. Então, aos 18 anos, voltei à escola. Fiz o secundário à noite enquanto de dia trabalhava numa carpintaria. Consegui fazer tudo direitinho. No final do 12º ano, fiz os exames e entrei na universidade. Entrei em contabilidade. Deixei a carpintaria e passei a trabalhar num supermercado para conseguir estudar. Foram anos duros, mas andava muito realizado. 

Durante a universidade conheci uma rapariga fantástica. A Sofia foi fenomenal comigo! Ajudou-me com tudo. Sim, tornamo-nos namorados. Um namoro longo que só terminou há quatro anos, quando me mudei para Luanda. Recebi uma proposta muito boa de trabalho. Ela não me quis acompanhar e a distância não facilitou as coisas.

Estou a adorar a experiência, mas começo a sentir falta de algumas coisas de Portugal. 

Naquele dia, quando nos cruzamos na passadeira, não queria só ver o ter sorriso. Queria agarrar-te no braço, arrastar-te para uma mesa de uma pastelaria contar-te a volta que dei à minha vida e, mais do que isso, queria ouvir-te a falar das voltas da tua vida. Sempre foste aquela amiga que eu queria para a vida. Sim, eu ouvia-te! Sim, aturava todas as tuas neuras e coisas parvas! Mas tu também me ouvias, tu também me abraçavas. Só tu era capaz de trocar aquele sorriso de reconhecimento do que me ia na cabeça. O problema é que sempre procurei isso nas raparigas que fui conhecendo. Encontrei na Sofia, mas não com a mesma intensidade que partilhei contigo. 

Tenho medo, sabes! Medo de que este reatar de contacto estrague a magia daqueles anos. 

Como vês, o meu bom coração continua intacto. Respondi ao e-mail sem amargura. Ela nunca existiu. Mas quero saber de ti. Talvez saber de ti, me ajude a acreditar que há magia que permanece para sempre.

Bejinhos,
Duarte

(Resposta à carta da Alice)

Nas páginas do meu caderno #3

P_20200710_100143.jpg

Há uns dias vi no blog da Andreia, As gavetas da minha casa encantada, um post muito engraçado. Ela transformou título de livros em poesia. Inspirada pelo trabalho dela, criei o meu poema com títulos de livros. Espero que gostem!
A ideia original é da responsabilidade da Magda Cruz

Uma voz perdida na guerra

Em parte incerta
Às cegas
No escuro
Nem um som [teu]
[Apenas] Doces silêncios

Antes de nos encontrarmos
[Nessa] Soberba escuridão
[Só] Os pássaros [cantavam]
Perdidos 

Aconteceu em Roma
[A tua] Aparição!
Alma rebelde
[Que brilhava como] Mil sóis resplandecentes

[Sou] A chama ao vento
À conquista do teu coração
Volto para te levar
Tão veloz como o desejo

Sob o olhar do amor
[Desenho] Uma vida ao teu lado
De olhos fixos no sol

Título: Cesca Major 
Poema: Gilliam Flynn, Josh Malerman, Cara Hunter, Heather Gudenkauf, Deborah Smith, Maggie O'Farrell, Andreia Ferreira, Célia Correia Loureiro, Rute Canhoto, Nicky Pellegrino, Vergílio Ferreira, Carla M. Soares, Khaled Hosseini, Anna  Bell, Guillaume Musso, Laura Esquível, Janine Boissard, Nicholas Sparks, Irvin Yalom

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