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Por detrás das palavras

Por detrás das palavras

Opinião | “A célula adormecida” (Afonso Catalão # 1) de Nuno Nepomuceno

30.04.21

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É-me um bocado difícil escrever a opinião a este livro. Gostei menos do que aquilo que estava à espera. O ter arrastado a minha leitura ao longo de muitos dias também não abonou a minha relação com a história e com o livro.

O livro é muito conhecido na comunidade. Focado no Estado Islâmico, no terrorismo, na crise dos refugiados e com foco na cultura muçulmana; “A célula adormecida” apresenta um conjunto de factos relacionados com estes temas que despertaram o meu interesse e me possibilitam aprender conteúdo.

É um livro muito factual. A história vive dos factos e daquilo que eles vão desencadeando. É claro que existem personagens, e entre eles estão desenhadas relações mais ou menos complexas que dominam o desenvolvimento da narrativa. Achei estas relações pouco dinâmicas e pouco realistas. Senti que algumas foram pautadas pela artificialidade dos diálogos, outras por comportamentos das personagens que me pareceram distantes da real personalidade que autor queria passar. Há certas passagens do Afonso e certas formas de estar que não são congruentes com a personalidade que está desenhada para ele. Senti uma certa infantilidade e imaturidade quer em algumas das suas atitudes quer em algumas das conversas que vai desenvolvendo. Isto foi condicionando a minha ligação ao Afonso e à Diana, assim como às suas problemáticas.

Sarita, Ahmad e Sami, a família síria a viver em Portugal, foram as personagens que mais me cativaram e que mais me impulsionavam a ler. Gostei imenso das dinâmicas deles e dos dramas que marcaram a passagem deles por este livro. Foram a parte que mais gostei neste livro.

Analisando a sequência dos acontecimentos, em alguns momentos senti que alguma informação estava em falta. Já no final do livro há uma situação a envolver a Diana, o Afonso e o Gustavo que não ficou muito clara para mim. Há uma certa atrapalhação temporal (o conteúdo dá a indicação de que passou mais tempo do que aquele que o comportamento das personagens num dos capítulos anteriores e no início desse deixa transparecer). Isto envolve um encontro que não nos foi mostrado que, na minha opinião seria relevante para uma melhor compreensão da relação entre a Diana, o Afonso e o Gustavo.

Quanto à escrita senti uma evolução positiva comparativamente ao anterior livro que li do escritor (“O espião português”). Só houve três aspetos mais chatos: 1) a quantidade de vezes a que o autor recorre a “corpo seco” para descrever o físico dos homens; 2) a constante utilização do nome completo das personagens (com o avançar da leitura torna-se aborrecido, porque o leitor sabe perfeitamente quem é quem); e, 3) há descrições físicas de personagens a mais, em algumas situações o escritor descreve fisicamente a personagem com um grau de detalhe que acho desnecessário.

Gostei do final e da carga dramática que o autor ofereceu àqueles momentos finais. A única coisa que senti mais forçada foi na relação de Diana e Afonso. A narrativa não evolui o suficiente para aquele desfecho. Senti que foi uma aproximação demasiado forçada. O final alternativo deixou-me com vontade de descobrir a próxima aventura do Afonso.

Classificação

Opinião | "O Espião Português" de Nuno Nepomuceno (Freelancer #1)

07.05.16
O Espião Português
Classificação: 3 Estrelas

O livro O espião português estava na minha estante há muito tempo. Em 2013, ganhei-o num passatempo e desde aí tem estado na estante à espera de vez.
Comecei a leitura sem grandes expetativas. Apesar de ter lido diferentes opiniões acerca do livro, não sabia muito bem o que esperar. Fui com a cabeça livre e aberta para aceitar a história que aquelas páginas tinham para me oferecer.

No geral gostei da história e das personagens. Porém, há alguns aspetos que não foram bem abordados, existem algumas incongruências e personalidades que na minha opinião não estão muito bem conseguidas.

André é a personagem central deste livro. Ele é o nosso espião português ao serviço de uma agência internacional. Gostei de algumas coisas no André, mas outras não fazem muito sentido tendo em conta os desafios que a sua profissão o obriga a enfrentar. Sendo um agente especial, quase de certeza que deve ter de passar por uma bateria de avaliações psicológicas, para além de todas as outras que iam aparecendo no livro. Neste sentido, André teria que nos ter sido apresentado como alguém forte, psicologicamente saudável e resiliente e que, apesar de ser uma pessoa sensível, sabe lidar melhor com as emoções negativas que a vida nos apresenta. Porém, André mostrou-se fraco na forma como lidou com a sua relação com Mariana. Questiono-me como é que deixam uma pessoa assumir missões especiais e que envolvem risco quando se encontra em notória vulnerabilidade emocional. Não há congruência entre a vida de André e a forma como ele se comporta e lida com as suas situações pessoais. Cheguei a achá-lo infantil e imaturo, principalmente no fim do livro.

O segredo que acompanha grande parte do livro e que envolve o André é fácil de deduzir a  partir de certa altura do livro. Contudo, o facto de ter deduzido não atrapalhou o meu interesse pela leitura. Continuei curiosa em relação à forma de como as coisas iriam acontecer.
Os acontecimentos chave foram surgindo e em algumas situações, o autor não deixou crescer o conflito. Esgotava-o sem explorar as suas enormes potencialidades.

Relativamente às outras personagens só aponto o dedo a Diogo. Aquela revelação final não era necessária, não faz muito sentido e não acrescenta grande relevância à história. Esta situação deu-me a sensação que o autor queria introduzir mais assuntos no livro. Mas não acho que isso seja algo que valorize um livro ou uma histórias. É importante ter menos assuntos, mas eles serem bem explorados.

Ao longo da narrativa também surgem incongruências, nomeadamente com a linha temporal do relacionamento com Mariana e com os contornos de um novo emprego que anda a seduzir André.
A escrita do livro é simples, mas tem frases demasiado curtas. Em certas passagens senti como se estivesse a ler recados. Uso o constante de frases com uma, duas palavras torna a leitura pouco fluída.

Este é um primeiro livro de um série. Fiquei com curiosidade de saber o que vai acontecer. Apesar de algumas falhas, conseguimos perceber que há potencial e criatividade.