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Por detrás das palavras

Opinião | "Uma aposta perversa" de Emma Wildes

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"Uma aposta perversa" marca a minha estreia com as obras de Emma Wildes. Não ia com expetativas elevadas. Encontrei aquilo que eu esperava encontrar: um livro com uma narrativa ligeira, descontraída e com muito romance romântico à mistura.

Este livro parte de uma aposta entre dois amigos: o Conde de Mandervile e o Duque de Rothay. Para dar continuidade a esta aposta, eles precisavam de uma mulher. Alguém que pudesse dizer qual dos dois seria o melhor amante. 

Partindo desta premissa, encontrei uma história que me cativou. Foi interessante assistir ao nascimento do romance, à quebra das barreiras que condicionavam o comportamento de Lady Caroline. Contudo, desagradou-me a perfeição física que a escritora atribuiu a todas as suas personagens. Há algum exagero da escritora na descrição da componente física e da valorização da beleza física. Acho que começo a ficar com pouca paciência para este tipo de livros.

Em suma, tudo se desenvolve de forma bastante previsível. Não há nada que se destaque, nem nenhum acontecimento que torne a narrativa surpreendente. É um livro que se lê bem, com descrições pormenorizadas que conferem um tom realista à narrativa, mas não surpreende. Quero ler mais obras da autora e perceber se mantém algum padrão na escrita das suas histórias. 

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Opinião | "A terapeuta" de Gaspar Hernández

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O título deste livro foi a primeira coisa que despertou o meu interesse. Através da sinopse percebi que poderia ser um livro interessante para ser lido. A história deste livro acompanha a vida de Hèctor Amat, um ator famoso que sofre de ataques de ansiedade. Este ator acaba por se ver envolvido num terrível crime, mas por mais que se esforce não se consegue lembrar do que aconteceu, não conseguindo explicar porque é que apareceu num parque de estacionamento, junto de uma mulher assassinada. Deparado com este problema, Héctor opta por recorrer à psicóloga Eugènia Llort. 

Partindo daqui, o leitor acompanha a jornada de Hèctor nas consultas e acaba envolvido numa teia um pouco confusa. Até um pouco mais de metade do livro, o que sobressai da história é a relação de dependência que Héctor constrói com Eugènia. Esta dependência, o fascínio do cliente pela terapeuta e a obsessão que o cliente vai construindo em volta da sua terapeuta foram os elementos que mais me cativaram no livro. Pareceram-me bem caracterizados, bem descritos e credíveis. É certo que, enquanto profissional, me fui sentindo irritada com os comportamentos quer da terapeuta quer do cliente. Irritou-me, principalmente, a falta de brio profissional da terapeuta. 

Considero que as consultas poderiam ter sido um pouco mais exploradas e detalhadas. Acredito que este elemento traria mais informação e dinamismo ao livro. Achei que o escritor queria acelerar um pouco estas partes o que contribuiu para alguma confusão relativamente ao objetivo da história. Eu sei onde comecei a história, sabia para onde queria que me levassem, mas não senti que isso tenha acontecido.

A narrativa vai avançando e a poucas páginas do fim, há uma mudança de direção que me baralhou ainda mais. Percebi porque é que ela aconteceu, mas não foi benéfica para a compreensão dos acontecimentos que motivaram o início deste livro.

Tudo fica confuso e prevaleceu a sensação de que o fio condutor que norteava o livro se perdeu algures. Pessoalmente, eu não consegui perceber o que de facto aconteceu com Hèctor e isso deixou-me bastante frustrada. 

Para mim, esta leitura valeu pela exploração dos limites pessoais e profissionais inerentes a processo terapêutico. Foram elementos que me fizeram refletir na prática profissional e naquilo que deve ser feito.

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Opinião | "Aquorea - Inspira" de M. G. Ferrey

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Fantasia é um género literário que mais dificilmente me conquista. Sempre que preciso de dar alguma indicação de livros deste género acabo sempre por indicar livros da Liliana Lavado e da Juliet Marillier. Para mim, são duas escritoras de referência neste género. 

Aquorea-Inspira agitou a comunidade literária. Foi muito bonito assistir à forma como os leitores deliraram com esta história e foi inspirador ver a forma elegante, empática e simpática com que a escritora se ligou à comunidade. A conjugação destes dois elementos que me fizeram decidir ler este livro quando me cruzei com ele na biblioteca. 

Aquorea-Inspira cativou-me, mas não me conquistou. Para um primeiro livro, considero que tem um enredo organizado, com sentido, sem incoerências e com uma escrita que deixa o leitor vinculado à história. De facto, assim que comecei a ler a entrar na história, a minha vontade em continuar a ler foi aumentando com o desenvolvimento da ação. Acho que isto é mérito da escritora, pois é devido à sua capacidade de escrita que acontece esta vontade de continuar a ler. 

O universo criado nesta história é muito interessante e foi enriquecido com pormenores que possibilitam a visualização do espaço e a criação de imagens mentais dos espaços físicos onde decorre a narrativa. Este aspeto mais gráfico é importante para o leitor, ajuda a que ele se sinta parte do mundo que foi criado. 

Apesar de todos estes aspetos positivos, o livro, na minha opinião, apresenta algumas carências. 
Começo pela ação da história. Há muitos jantares, almoços, festas, visitas e situações que pouco acrescentam ao enredo. Este tipo de descrição faz com que no livro prevaleça o contar e não o mostrar. São diversas as descrições de alimentos, refeições, roupa para vestir; porém, apesar de estarem bem escritas não acrescenta muito ao desenvolvimento da ação. Um leitor mais experiente procura outro tipo de conteúdo e não um relato pormenorizado de acontecimentos muito circunscritos àquilo que são as rotinas diárias das personagens. Atendendo a estes aspetos, considero que faltou ação e faltaram situações com maior relevância para demonstrar conflitos com a capacidade de enriquecer a dinâmica da narrativa. 

Analisando as personagens e as dinâmicas que foram construídas à volta delas, mais uma vez há alguma carência no mostrar. Há muita descrição, mas pouca profundidade. 
Ara é descrita, muitas vezes, como especial e alguém muito importante para Aquorea. Sei que é uma série e que, provavelmente, isso poderá surgir de forma mais concisa num próximo volume. Contudo, eu precisava que neste livro me mostrasse um pouco mais da relevância desta personagem e os aspetos que a tornavam tão importante. De facto, há coisas que não basta dizer, é importante mostrar ao leitor para que a ligação entre obra e leitor se estreite ainda mais.

Ara é uma jovem adulta, já no fim da adolescência. Atendendo à sua idade, senti que, por vezes, ela foi demasiado imatura. Esperava uma maior capacidade de reflexão e outro tipo de atitudes. As hormonas não justificam tudo. O próprio relacionamento entre Ara e Kai é demasiado clichê. O romance entre eles tem um início demasiado tóxico. Kai é um rapaz tão importante para a comunidade e tem comportamentos que não estão ao nível da sua idade e da maturidade que lhe é exigida.

O mundo à superfície também continua. Aqui senti que houve uma necessidade em contar ao leitor que as coisas descarrilam e que o mundo emocional daquelas pessoas ruiu. Tem sentido tendo em consideração os acontecimentos. Porém, não lhe foi dada a devida profundidade. Colt, por muito querido que seja da família, acaba por estar ali um pouco descontextualizado. A forma como ele se mantém na narrativa foi a única coisa ao longo da leitura que não faz grande sentido para mim. Consigo perceber que ele tem uma posição muito importante na família de Ara, mas é um pouco irrealista a participação na viagem e todo o seu papel depois do desaparecimento de Ara. 

Reconheço que este poderá ser um bom livro para leitores menos experientes, para adolescentes e jovens adultos. Acredito que a forma como a narrativa está construída seja mais apelativa a leitores que detenham este tipo de interesses.

Reforço que a leitura foi agradável e que representa uma boa estreia para a escritora. 

Ainda não sei que quero continuar a explorar este universo, mas gostava de ler outras obras da escritora.

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Opinião | "Traz-me de volta" de B. A. Paris

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"Traz-me de volta" chegou-me cá a casa pelas mãos de uma fã da autora, a Daniela. Fiquei contente quando vi o livro que me tinha calhado em sorte. Ela já me tinha emprestado o livro "Ao fechar a porta", que foi uma leitura que, apesar de não ter sido memorável, deixou a vontade de continuar a acompanhar o trabalho da escritora. 

Neste livro, há uma dança entre o passado e o presente que nos é narrada pela voz de Finn e, numa fase mais avançada da narrativa, da Layla. Layla, namorada de Finn, desaparece numa estação de serviço deixando Finn completamente angustiado com o sucedido. Passaram doze anos, Finn reconstruiu a sua vida com Ellen, a irmã de Layla. Quando menos espera, Finn é confrontado com uma conjunto de situações que sugerem que Layla está de volta.

O livro deu-me cabo dos nervos. Exasperei com Finn e os seus comportamentos estranhos, pouco congruentes e, por vezes um pouco ignorantes. Consegui justificar estas atitudes com o grande stress que passou a viver assim que os acontecimentos à sua volta sugeriram o regresso de Layla. Contudo, a leitura deixou-me com uma sensação de mal-estar que não consigo materializar em palavras nem  justificar. 

É um livro que convida à leitura porque vai alimentando a curiosidade do leitor. Aliás, foi mesmo esta curiosidade que me motivou para avançar na leitura e tentar desatar os nós mentais que o Finn e a Layla me iam deixando no cérebro. 

Chegando ao final, todas as situações em torno do desfecho deste enredo não fizeram sentido na minha cabeça. Parece que foi um pouco forçada a forma como a escritora decide encerrar a narrativa.
 
A conclusão a que cheguei foi que todas as personagens tinham problemas de saúde mental. Talvez tenha sido isso o motivo da minha indisposição. Senti falta de um certo equilíbrio em termos de tipo de personagens. Também é importante oferecer alguma "normalidade" aos enredos que se constrói. Acho que isso os torna mais realistas.
 

Espero que numa próxima obra da escritora possa sentir outras coisas e ter uma experiência mais humana e agradável. 

 Conta-me, que livros já te deixaram desconfortável ou indisposto(a)?

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Opinião | "A grande solidão" de Kristin Hannah

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Até ao momento, este foi o melhor livro que li em 2022. Já muito tinha lido sobre o encanto que as obras de Kristin Hannah têm nos leitores, mas eu continuava um pouco resistente a pegar nos livros da escritora.

Cruzei-me com este na biblioteca e decidi trazê-lo para ver como corria a leitura. Ainda bem que o fiz!! A grande solidão ficou-me entranhada na alma. Não sei se foi o sofrimento palpável pelo qual as personagens passaram; ou se o silêncio do Alasca e as suas particularidades de ambiente mais introvertido, reservado, único e muito próximo das características da minha personalidade que me aproximaram desta narrativa. Terminei a leitura em abril e ainda hoje não consigo definir com clareza o quão este livro mexeu com as minhas emoções e sentimentos. Só sei que ainda hoje me recordo da Leni e das suas lutas; o Matthew e a sua doçura; da coragem de Cora e da resiliência e união de uma comunidade capaz de fazer pela vida daqueles que acolhe.

Para mim, comunidade é uma palavra essencial nesta história. Poderia falar do stress pós traumático, da violência doméstica, de adolescentes com dificuldades em inserir-se num determinado ambiente... Todos eles temas importantes e retratados no livro de forma magistral. Contudo, foi o conceito de comunidade e a importância que ele ganhou na narrativa o que se destacou aos meus olhos. Uma comunidade que acolheu a família de Leni e a protegeu sempre que conseguiu. Infelizmente, as marcas profundas do sofrimento criam brechas de dúvida, incerteza e interferem nos níveis de confiança que possamos desenvolver. Leni e Cora sentiram esse fio de dúvida e tomaram opções pensaram ser a melhor forma de se protegerem.

O Alasca tornou-se magia perante os meus olhos. Kristin materializou em palavras as paisagens, as auroras boreais, o frio cortante e preenchido de neve, os longos dias de verão a preparar o próximo inverno enchendo a despensa de mantimentos. As descrições destes locais nas diferentes estações do ano são soberbas e oferecem um toque muito especial a este livro. É a solidão do Alasca que serve de metáfora à solidão interna das personagens. Foi soberba a forma como tudo se articulava, conferindo um toque muito especial a todos os acontecimentos que foram surgindo ao longo do livro. 

Quero ler mais livros desta escritora e sentir tudo o que me for possível sentir. Quero mais histórias que me arrebatem a alma e me deixem com vontade de saltar para aqueles cenários e abraçar o sofrimento de corações bons. 

Já leste outros livros da escritora? Indica-me outro onde posso viver todas estas sensações. 

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Opinião | "O homem das castanhas" de Søren Sveistrup

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"O homem das castanhas" andava na minha lista de interesses há muito tempo, muito por causa das boas impressões que iam sendo partilhadas.

O momento que marca o início desta história é bastante intrigante. Uma mulher foi brutalmente assassinada e uma das mãos foi decepada e levada pelo assassino. Junto ao corpo, foi deixado um boneco feito de castanhas e paus. Esta pista acrescenta um lado ainda mais misterioso ao cenário do crime. Sem qualquer explicação são encontradas impressões digitais de uma pré-adolescente que desapareceu há um ano e que foi dada como morta. Esta jovem era filha de uma importante figura política do panorama político do país.

Esta ligação agita outros aspetos da narrativa, nomeadamente, a posição política da ministra e os dramas familiares que se tecem em torno destas pessoas. 
As ligações entre dramas familiares, crimes e personagens que vão aparecendo na narrativa são cativantes e instigam a curiosidade. Contudo, o meu ritmo inconsistente de leitura dificultou-me a construção mental da história e do papel de cada personagem nos acontecimentos que se iam sucedendo. Esta leitura beneficia de um ritmo de leitura constante e consistente ao longo dos dias, por isso as paragens e a leitura de poucas páginas por dia dificultam a  minha imersão na narrativa. No fundo, são muitas personagens e muitos acontecimentos que têm pontos de contacto entre si e que precisam de uma leitura consistente para não perdermos os pontos de interação que nos levam a uma explicação global. O tamanho reduzido da letra da letra também dificultou o meu processo de leitura. Achei-a demasiado pequena! 

Gostei muito da escrita gráfica e pormenorizada das cenas de crime e relacionadas com o desenvolvimento do enredo que culminaria com a explicação de todas as pontas soltas que foram sendo semeadas ao longo do livro. Foi muito inteligente a forma como o escritor foi conduzindo o leitor por diferentes teorias e raciocínios, mas todos eles interessantes e bem construídos.

A dupla detetives, Naia Thulin e Mark Hess também protagonizam momentos interessantes e intrigantes. Mark tem o seu lado mais misterioso que acaba por oferecer outro ponto de interesse à história. Gostei da dinâmica entre os dois e da forma como constroem a sua relação profissional e pessoal.

Este livro reforça o prestigio que os(as) escritores nórdicos estão ganhar relativamente à escrita de thrillers e policiais. Fiquei com vontade de conhecer mais obras deste autor.

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Opinião | "Cerimónia mortal" de J. D. Robb (Série Mortal #5)

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Desde 2015 que não pegava num livro da Série Mortal escrita por J. D. Robb. Quando descobri esta série, delirei com as histórias. A sua essência futurista, a sua veia policial e uma relação amorosa transcendente foram elementos certeiros e com uma enorme capacidade de captar o meu interesse enquanto leitora. 

Atendendo à minha experiência anterior, parti para a leitura com a expetativa de rever personagens queridas e uma história alucinante. A realidade é que a leitura não foi capaz de responder de forma eficaz às boas expetativas que tinha. É certo, eu cresci enquanto leitora! A minha disponibilidade mental não tem andado nos melhores dias. E, claro, acho que os meus interesses literários já não vão ao encontro dos elementos que caracterizam esta série e estes livros. 

Nesta leitura, a realidade futurista oprimiu-me. A poluição atmosférica, que aparece muitas vezes retratada nas cenas exteriores, deixou-me nauseada e incomodada. Uma sensação estranha que incomodou a minha leitura. Eve e Roarke não me encantaram da mesma forma que em leituras anteriores. O crime envolto em cultos e crenças não me entusiasmou, nem me espicaçou o interesse. Talvez por ser uma aspeto pelo qual não sinto interesse ou vontade de saber mais. 

Não estou a colocar em causa a qualidade do livro. Não detetei incongruências na narrativa; não houve cenas incompletas ou mal explicadas; no fundo, não encontrei nada que pudesse colocar em causa a qualidade da narrativa e da sua construção.
Foi a minha experiência pessoal com o livro, e a esta minha opinião resulta de uma incompatibilidade com aquilo que o livro me ofereceu.

Agora fica a dúvida se devo ler mais livros da série ou encerrar por aqui a minha experiência com estes livros. É certo que eles marcaram uma fase da minha vida e que me ofereceram boas leituras e bons momentos. Será que os devo deixar nessa fase? Será que voltarei a desiludir-me? Muitas questões para as quais ainda não tenho resposta!

Que livros vos entusiasmaram numa determinada fase da vida e que hoje já não vos oferecem bons momentos de leitura?

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Opinião | "Fica comigo" de Noelia Amarillo

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Pouco conhecia acerca deste livro. Mesmo assim, decidi arriscar em comprá-lo e ver se o mesmo se tornaria numa boa leitura. Este pouco mais de um ano na parte da estante onde habitam os livros não lidos. No princípio de fevereiro, achei que era a altura de pegar no livro e experimentar a leitura.

Fica comigo é uma história intensa que se desenvolve de forma rápida e cativante. Um livro para quebrar alguns preconceitos e mostrar o verdadeiro poder da solidariedade. 
Dolores confiou no Jared. Conseguiu ler além do seu aspeto físico e perceber que Jared era apenas um jovem a quem a vida mostrou as garras da dificuldade. Irritou a sua neta, Nuria, a forma como acolheu Jared. E foi exatamente esta forma de acolher que permitiu que este jovem ganhasse um propósito, mostrasse as suas qualidades humanas e quebrasse cada um dos preconceitos que a Nuria tinha acerca dos sem abrigo.

O livro é de uma doçura mágica e que mostra o poder de uma comunidade. Mostra o lado bonito de se unirem para ajudar uma pessoa e essa pessoa agarrar com as suas mãos cada uma das oportunidades que iam aparecendo à sua frente.

Senti, em alguns momentos, que a escritora deveria ter tido menos pressa na apresentação e desenvolvimento dos acontecimentos. Apesar da história funcionar muito bem assim, há passagens que mereciam uma maior profundidade.

A história é muito empática que aborda as consequências da crise económica. Se para quem tem uma vida profissional estável ou um emprego mais ou menos garantido, é complicado viver; para quem vive na instabilidade laboral e perde o pouco que tem, a dureza das situações afigura-se ainda mais crítica. Jared viveu isso na pele, mas nunca perdeu a dignidade e a sua força de vontade em transformar a sua vida e sair do buraco para onde as circunstâncias o tinham atirado.

Apesar da sua força de vontade, ele precisava de ajuda. Conseguiu conquistar uma comunidade e essa comunidade fez com que, aos poucos, as coisas fossem mudando para ele. Há muitas pessoas que dizem que um sem abrigo, se quiser muito consegue sair da situação em que se encontra. Infelizmente, as coisas não acontecem só porque queremos muito, ou é um objetivo que perseguimos com toda a nossa força. É importante termos consciência que a nossa vontade e o nosso comportamento nem sempre são suficientes. Querer muito uma coisa, ter um objetivo definido, incita ao comportamento e à procura por aquilo que queremos. O Jared mostrou isso! Apesar da dureza das suas circunstâncias ele procurava manter a sua higiene, procurava ganhar dinheiro de todas as formas dignas possíveis e não desistia. Porém, por vezes, precisamos que haja alguma mudança do outro lado e nos permita concretizar aquilo que tanto procuramos. Se a Dolores não tivesse acreditado nele, lhe ter dado uma oportunidade e alimentando uma rede de suporte, talvez ele não se tivesse libertado da sua situação.

Por tudo isto, devemos ter muito cuidado quando acusamos outra pessoas de que se não conseguiu algo foi porque não quis muito. Dificilmente, saberemos o esforço que cada pessoa coloca para a realização dos seus sonhos. Por isso, não devemos menosprezar o insucesso de alguém e reduzi-lo ao facto de que ele se deve exclusivamente àquilo que a pessoa é.

Ler este livro relembrou-me esta minha visão sobre o ser humano e a sua condição. Caso escolhas ler este livro, espero que possibilite o desenvolvimento desta empatia e solidariedade.

Como é esperado, toda esta realidade é adoçada com uma bonita a intensa história de amor. É um amor doce, intenso e com um toque de sedução que acelera o coração de quem lê.

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Opinião | "A Maldição do Marquês" de Tiago Rebelo

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A História de Portugal é rica em acontecimentos capazes de alimentar boas narrativas. As mãos de um(a) bom(a) escritor(a) conseguem pegar nos eventos e trazerem histórias memoráveis aos leitores.

A Maldição do Marquês é um livro que retrata o Portugal desde o terramoto de 1 de novembro de 1755 até ao final do reinado de D. José I. É um livro extenso que se debruça sobre as consequências do terramoto, o papel do Marquês de Pombal neste período histórico e a execução dos Távoras. 
Estes pontos despertam o meu interesse, contudo achei que foram demasiado acontecimentos para um livro só. Cada um deles tem informação suficiente para protagonizarem um único livro. Senti que o escritor, ao querer abordar tudo, não foi suficientemente profundo na sua análise. Mais, a diversidade de acontecimentos conduziu a uma diversidade de personagens. Foram muitas pessoas, muitos acontecimentos cruzados e isto dificultou-me a leitura. 

Apesar desta minha incompatibilidade com o livro, algumas das abordagens foram muito importantes e permitiram-me algumas reflexões.
Começo pelo Marquês de Pombal e pela versão romanceada que me venderam nas aulas de História. Nas aulas, ele foi sempre apresentado como o responsável pela reconstrução da capital e por mudanças legislativas que ajudaram ao progresso nacional. Contudo, a este homem também se deve um massacre que mancha a História nacional. O Marquês foi um homem que protegeu a sua posição junto do Rei, que soube arquitetar os maiores planos para controlar o comportamento do Rei e fazer valer as suas ideias. Nas minhas aulas de história nunca se falou nos Távoras. Só tomei conhecimento deste acontecimento através dos romances históricos, porém ainda não consegui perceber todos os contornos associados a esta situação; algo que irei colmatar com o livro que me ofereci no Natal.

Outra reflexão que o livro me suscitou está relacionada com o cognome de D. José I. Este rei recebeu o cognome de o Reformador. Por esta leitura, percebi que muitas das reformas foram da responsabilidade do Marquês, onde o Rei se limitou a aceitar as mudanças que o seu ministro decidiu aplicar ao reino.

Reconstruir uma cidade depois de uma tragédia enorme foi uma enorme desafio que o Marquês soube assumir e dirigir. Contudo, ele não o fez sozinho e senti que houve pouca referência a este aspeto. Continua-se a centrar na figura do ministro os louros pela reconstrução. Sim, ele foi importante; aliás, foi essencial para estruturar a população e orientá-la no sentido da reconstrução. A que custo é que isto foi alcançado? O povo deve ter trabalhado imenso. Sim, eles seguiram ordens e orientações; mas é a eles que deve o trabalho duro da reconstrução, limpeza e no restabelecimento da ordem e da saúde pública.

É inevitável a comparação com outros(as) escritores(as) nacionais que escrevem ficção histórica. E nessa comparação este livro fica a perder. Perde pela incapacidade abandonar a dispersão, perde pela escrita menos apelativa e pelo enorme conjunto de personagens que não me ajudaram a acompanhar a história.
Por outro lado, este é um excelente livro para conhecer um conjunto de acontecimentos importantes na História nacional, e isso foi importante para mim  enquanto leitora.

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Opinião | "Filosofia felina" de John Gray

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Considero-me uma pessoa mais ligada aos cães do que aos gatos. Sempre me identifiquei com a lealdade dos cães e a forma especial com que criam laços com os humanos. Os gatos pareciam-me figuras distantes, egoístas e que olhavam para os humanos como alguém que lhes pode satisfazer as suas necessidades. 

Tive um cão durante quase 15 anos e, no último ano dele, uma gata acabou por entrara em casa sem querer. Acho que ela nos escolheu. Ou escolheu o meu cão, já que foi com ele com quem ela começou a sua jornada de se infiltrar aqui em casa. Foi uma amizade improvável, mas sentida. No dia em que o meu cão morreu, ela mostrou-se perdida e miava muito; como se estivesse a chamar pelo seu amigo. E aqui comecei a olhar para os gatos de outra forma.

Ela foi essencial nesta transição numa casa com cão e sem ele. A Riscas é um animal discreto, que adora fazer longas sestas ao sol ou em lugares quentes. Não abdica dos seus passeios pelos campos, onde passeia de forma descomprometida, sem pressa de chegar onde a esperam. É livre!! E essa liberdade, serenidade e calma inspiram-me. 

Esta nova visão sobre os gatos fez-me apreciar muito este livro de John Gray. Ele partilha histórias inspiradoras onde os gatos são protagonistas ao mesmo tempo que se alonga em reflexões sobre a essência humana e o quão ela poderá beneficiar se se aproximar mais da forma de viver dos felinos. 

O autor recorre a uma linguagem muito simples e fácil criar uma ligação com o livro. É uma ligação mais filosófica, de aprendizagem e reflexão, da qual eu gostei muito. Dei por mim a parar em determinadas partes para analisar mais profundamente a mensagem que elas estavam a transmitir.

O livro termina de uma forma muito curiosa. O autor apresenta-nos dez conselhos felinos para uma boa vida que me deixaram uma boa sensação final. De todos destaco o "Durma pela alegria de dormir" e "Cuidado com quem o quer fazer feliz". É verdade que nunca vi animais tão plenos a dormir como os gatos. Eles são felizes só pelo simples facto de se puderem estender ao sol e fazer uma sesta revigorante. É bom dormir e deixa-os felizes. Acho que é importante esta visão do sono. Relativamente à necessidade de termos cuidado com quem diz que nos quer fazer feliz é algo que merece uma análise mais profunda. Primeiro, nós temos de ser felizes por nós próprios. Por outro, quais os reais motivos de quem nos diz que nos quer fazer feliz? Será que está infeliz ou em sofrimento e alimenta-se das nossas energias para se sentir melhor? Será que também espera que seja o outro a proporcionar-lhe a felicidade que ele não sente? É complexo e pode ter mil e uma leituras. Mas a verdade é que um gato é feliz por si próprio e pela sua vida. Não almeja fazer o humano feliz, nem espera que seja o humano a dar-lhe a felicidade. Também não a procura. É um ser que se limita a ser feliz na sua condição e por tudo aquilo que a vida de lhe oferece. 

Como é que o teu gato/cão entrou na tua vida? Tens alguma história engraçada para partilhar? Fico à espera dela nos comentários.

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