Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Por detrás das palavras

Opinião | "Eu sei o que vocês fizeram" de Dorothy Koomson

Untitled design (19).jpg

O primeiro livro de Dorothy Koomson chegou até mim através de um empréstimo de uma amiga. O livro que essa amiga me emprestou foi "A filha da minha melhor amiga", livro que devorei num espaço de dias. E desta primeira experiência ficou a vontade de ler toda a obra da escritora. 

Dorothy Koomson evoluiu enquanto escritora. Este aspeto é visível ao longo das obras que foi publicando. É com base nesta evolução que anseio sempre pela publicação de um livro seu. 

"Eu sei o que vocês fizeram" é um thriller psicológico cuja ação se passa em 2020 e explora as relações de vizinhança. Foram muitas personagens e muitas histórias paralelas que fizeram com que a leitura se tornasse confusa. Eu fui-me sentindo muito perdida no meio das coscuvilhices e segredos da vizinhança. Além de perdida foi algo que me incomodou um pouco. Talvez este incomodo se deva ao desconforto crescente da Rae que se foi sentindo ameaçada pelo meio onde vivia. 

Um ponto positivo que consigo identificar no livro foi a forma como a autora conseguiu ilustrar os problemas de Rae e o impacto que a pandemia teve sobre eles. Penso que, neste ponto, muitas pessoas se poderão identificar com a personagem e o seu sofrimento psicológico. Por outro lado, poderá, também, constituir um gatilho emocional para pessoas que viveram os confinamentos em sofrimento.

Pessoalmente, tive dificuldade em criar uma ligação emocional com o livro. Não me senti cativada, nem envolvida. Acredito que estas dificuldades se devam à variedade de histórias que a autora tentou encaixar. Na minha perspetiva, esta opção na construção da história não permitiu que a autora mostrasse o seu já reconhecido talento na construção de narrativas emocionalmente imersivas e onde os relacionamentos entre as personagens têm um destaque relevante.

Apesar desta experiência menos intensa, continuarei a ler mais obras da escritora.

Classificação

Opinião | "Palavras amargas" de Vi Keeland e Penelope Ward

Untitled design (6).jpg

Já eram muitas as saudades de partilhar os meus devaneios literários contigo. Prometi que iria voltar aos poucos, e é isso que estou a tentar fazer

Ler livros do género onde se encaixa o Palavras amargas é, para mim, o equivalente a ver uma boa comédia romântica. São livros com uma narrativa divertida, pautada por momentos de humor e com muito amor à mistura. Apesar da leveza das histórias e da tonalidade descontraída associada a estes livros, há também espaço para abordar assuntos mais sérios, como por exemplo, no caso deste livro, a doença e o luto associado ao fim das relações. São dimensões com impacto na dimensão psicológica das personagens e que acabam por dar alguma profundidade à história.

Este livro começa com um bilhete com uma mensagem romântica preso a um vestido de noiva, que está à venda numa loja em segunda mão. Charlotte cruza-se com ele e começa a divagar sobre as intenções e os sentimentos por detrás daquele bilhete. Para ela, aquele bilhete significa a existência de um tipo de amor que ela ambiciona para si própria. É claro que, nestes livros, o destino é generoso e acabou por levá-la ao autor de tal gesto, o Reed. 

A partir daqui vamos conhecer uma Charlotte bastante insistente e persuasiva e um Reed cauteloso. Estes comportamentos são bem explicados pela personalidade de cada um e também pelas vivências que cada um coleciona na sua história de vida. Charlotte é mais descontraída em relação ao seu passado; já Reed experimentou um conjunto de acontecimentos que o deixaram mais cauteloso e influenciaram a forma como ele escolheu viver. 

É na tentativa destes dois se equilibrarem que o leitor descobre a mensagem que Charlotte e Reed acabam por oferecer: é importante aproveitar cada um dos momentos da nossa vida, independentemente deles serem ou não para sempre. Alimentar o encanto pelas coisas que a vida oferece, independentemente do tempo de duração das mesmas é algo que acrescenta valor ao ser humano, o deixa mais capaz para enfrentar situações menos positivas e o torna mais resiliente. 

Aqui está um bom livro para ler de forma rápida, onde os momentos de diversão estão garantidos e que permite que a nossa cabeça desligue da realidade mais stressante e cognitivamente mais exigente. 

Partilha comigo as tuas impressões acerca deste livro! Também costumas ler livros com uma tonalidade mais divertida? Deixa-me sugestões.

Classificação

Opinião | "Fica comigo" de Noelia Amarillo

Untitled design (7).jpg

Pouco conhecia acerca deste livro. Mesmo assim, decidi arriscar em comprá-lo e ver se o mesmo se tornaria numa boa leitura. Este pouco mais de um ano na parte da estante onde habitam os livros não lidos. No princípio de fevereiro, achei que era a altura de pegar no livro e experimentar a leitura.

Fica comigo é uma história intensa que se desenvolve de forma rápida e cativante. Um livro para quebrar alguns preconceitos e mostrar o verdadeiro poder da solidariedade. 
Dolores confiou no Jared. Conseguiu ler além do seu aspeto físico e perceber que Jared era apenas um jovem a quem a vida mostrou as garras da dificuldade. Irritou a sua neta, Nuria, a forma como acolheu Jared. E foi exatamente esta forma de acolher que permitiu que este jovem ganhasse um propósito, mostrasse as suas qualidades humanas e quebrasse cada um dos preconceitos que a Nuria tinha acerca dos sem abrigo.

O livro é de uma doçura mágica e que mostra o poder de uma comunidade. Mostra o lado bonito de se unirem para ajudar uma pessoa e essa pessoa agarrar com as suas mãos cada uma das oportunidades que iam aparecendo à sua frente.

Senti, em alguns momentos, que a escritora deveria ter tido menos pressa na apresentação e desenvolvimento dos acontecimentos. Apesar da história funcionar muito bem assim, há passagens que mereciam uma maior profundidade.

A história é muito empática que aborda as consequências da crise económica. Se para quem tem uma vida profissional estável ou um emprego mais ou menos garantido, é complicado viver; para quem vive na instabilidade laboral e perde o pouco que tem, a dureza das situações afigura-se ainda mais crítica. Jared viveu isso na pele, mas nunca perdeu a dignidade e a sua força de vontade em transformar a sua vida e sair do buraco para onde as circunstâncias o tinham atirado.

Apesar da sua força de vontade, ele precisava de ajuda. Conseguiu conquistar uma comunidade e essa comunidade fez com que, aos poucos, as coisas fossem mudando para ele. Há muitas pessoas que dizem que um sem abrigo, se quiser muito consegue sair da situação em que se encontra. Infelizmente, as coisas não acontecem só porque queremos muito, ou é um objetivo que perseguimos com toda a nossa força. É importante termos consciência que a nossa vontade e o nosso comportamento nem sempre são suficientes. Querer muito uma coisa, ter um objetivo definido, incita ao comportamento e à procura por aquilo que queremos. O Jared mostrou isso! Apesar da dureza das suas circunstâncias ele procurava manter a sua higiene, procurava ganhar dinheiro de todas as formas dignas possíveis e não desistia. Porém, por vezes, precisamos que haja alguma mudança do outro lado e nos permita concretizar aquilo que tanto procuramos. Se a Dolores não tivesse acreditado nele, lhe ter dado uma oportunidade e alimentando uma rede de suporte, talvez ele não se tivesse libertado da sua situação.

Por tudo isto, devemos ter muito cuidado quando acusamos outra pessoas de que se não conseguiu algo foi porque não quis muito. Dificilmente, saberemos o esforço que cada pessoa coloca para a realização dos seus sonhos. Por isso, não devemos menosprezar o insucesso de alguém e reduzi-lo ao facto de que ele se deve exclusivamente àquilo que a pessoa é.

Ler este livro relembrou-me esta minha visão sobre o ser humano e a sua condição. Caso escolhas ler este livro, espero que possibilite o desenvolvimento desta empatia e solidariedade.

Como é esperado, toda esta realidade é adoçada com uma bonita a intensa história de amor. É um amor doce, intenso e com um toque de sedução que acelera o coração de quem lê.

Classificação

 

Opinião | "A Maldição do Marquês" de Tiago Rebelo

Untitled design (1).jpg

A História de Portugal é rica em acontecimentos capazes de alimentar boas narrativas. As mãos de um(a) bom(a) escritor(a) conseguem pegar nos eventos e trazerem histórias memoráveis aos leitores.

A Maldição do Marquês é um livro que retrata o Portugal desde o terramoto de 1 de novembro de 1755 até ao final do reinado de D. José I. É um livro extenso que se debruça sobre as consequências do terramoto, o papel do Marquês de Pombal neste período histórico e a execução dos Távoras. 
Estes pontos despertam o meu interesse, contudo achei que foram demasiado acontecimentos para um livro só. Cada um deles tem informação suficiente para protagonizarem um único livro. Senti que o escritor, ao querer abordar tudo, não foi suficientemente profundo na sua análise. Mais, a diversidade de acontecimentos conduziu a uma diversidade de personagens. Foram muitas pessoas, muitos acontecimentos cruzados e isto dificultou-me a leitura. 

Apesar desta minha incompatibilidade com o livro, algumas das abordagens foram muito importantes e permitiram-me algumas reflexões.
Começo pelo Marquês de Pombal e pela versão romanceada que me venderam nas aulas de História. Nas aulas, ele foi sempre apresentado como o responsável pela reconstrução da capital e por mudanças legislativas que ajudaram ao progresso nacional. Contudo, a este homem também se deve um massacre que mancha a História nacional. O Marquês foi um homem que protegeu a sua posição junto do Rei, que soube arquitetar os maiores planos para controlar o comportamento do Rei e fazer valer as suas ideias. Nas minhas aulas de história nunca se falou nos Távoras. Só tomei conhecimento deste acontecimento através dos romances históricos, porém ainda não consegui perceber todos os contornos associados a esta situação; algo que irei colmatar com o livro que me ofereci no Natal.

Outra reflexão que o livro me suscitou está relacionada com o cognome de D. José I. Este rei recebeu o cognome de o Reformador. Por esta leitura, percebi que muitas das reformas foram da responsabilidade do Marquês, onde o Rei se limitou a aceitar as mudanças que o seu ministro decidiu aplicar ao reino.

Reconstruir uma cidade depois de uma tragédia enorme foi uma enorme desafio que o Marquês soube assumir e dirigir. Contudo, ele não o fez sozinho e senti que houve pouca referência a este aspeto. Continua-se a centrar na figura do ministro os louros pela reconstrução. Sim, ele foi importante; aliás, foi essencial para estruturar a população e orientá-la no sentido da reconstrução. A que custo é que isto foi alcançado? O povo deve ter trabalhado imenso. Sim, eles seguiram ordens e orientações; mas é a eles que deve o trabalho duro da reconstrução, limpeza e no restabelecimento da ordem e da saúde pública.

É inevitável a comparação com outros(as) escritores(as) nacionais que escrevem ficção histórica. E nessa comparação este livro fica a perder. Perde pela incapacidade abandonar a dispersão, perde pela escrita menos apelativa e pelo enorme conjunto de personagens que não me ajudaram a acompanhar a história.
Por outro lado, este é um excelente livro para conhecer um conjunto de acontecimentos importantes na História nacional, e isso foi importante para mim  enquanto leitora.

Classificação

 

 

Opinião | "Sei lá" de Margarida Rebelo Pinto

Untitled design (30).jpg

Margarida Rebelo Pinto é uma autora com bastante espaço na literatura em Portugal. É mulher que escreve sobre mulheres. 

Não é uma autora desconhecida para mim, mas o crescimento e o amadurecimento enquanto leitora fizeram-me perder o encanto nas suas obras.

Tinha visto o filme que foi adaptado deste livro e fiquei com curiosidade em ler. 

Madalena é a personagens central. Através dela, o leitor fica a conhecer as suas amigas, as personalidades, sonhos, ambições e comportamentos de cada uma delas. 
São personagens que abarcam alguns estereótipos que fazem com que a leitura perca um pouco do seu entusiasmo. Não me identifiquei com aquelas mulheres apesar de estar na mesma faixa etária e isso afastou-me da leitura. 

Acabei por terminar facilmente o livro. Apesar do conteúdo narrativo não me ter entusiasmado, o livro é relativamente pequeno e a escrita é muito fluída. Não exige muito poder de concentração ou de ligação ao livro.

É um livro que retrata a sociedade dos anos 90, o que pode ser interessante para quem quiser conhecer um pouco da sociedade da altura do ponto de vista de mulheres adultas, com formas distintas de olhar para a vida.

Classificação


Opinião | "A reclusa" de Debra Jo Immergut

Untitled design (24).jpg

Trouxe este livro da biblioteca partilhando das expetativas da bibliotecária Este livro tem uma premissa muito interessante. Desperta a curiosidade de um leitor. Quando peguei no livro e ouvi isto da parte dela, concordei com a expetativa que ela tinha criado em relação ao mesmo. Ela ainda partilhou que, assim que eu o devolvesse, seria a próxima leitora a requisitá-lo. 

Afinal, o que é que serve de mote ao desenvolvimento desta história? Temos uma jovem adulta, Miranda, que inesperadamente se envolve numa situação que a leva à cadeia. Lá passa a receber acompanhamento psicológico. Frank, o psicólogo do estabelecimento prisional já conhecia Miranda, a jovem por quem esteve apaixonado durante o liceu. E, ao que parece, essa paixão não ficou na adolescência.

Um aspeto muito curioso, e que funcionou como bom gatilho para o meu interesse na leitura, foram os títulos de alguns capítulos. Como forma de nomear os capítulos, a autora escolheu artigos do código deontológico dos psicólogos. Foi interessante confrontar os acontecimentos com as diretrizes que norteiam as boas práticas profissionais. Quantas vezes pode um profissional quebrar o código de ética e deontológico que rege a sua atividade profissional? O Frank consegue ensinar muito este aspeto através do seu comportamento. 

Infelizmente, a linha narrativa foi perdendo o foco, dispersou e trouxe confusão à mensagem que pretendia transmitir. Foi muito interessante ler sobre os percursos de Frank e Miranda. Contudo, muitas vezes senti que era uma abordagem demasiado superficial. Faltou profundidade, faltou mais contextualização e faltou mais passagens que mostrassem mais a ligação que se começou a desenhar entre Frank e Miranda.

Depois de algum desânimo com a leitura, o final ofereceu-me algum alento. Foi inesperável e algo surpreendente. A narrativa sofreu uma boa reviravolta. Apesar de ter ficado agradavelmente satisfeita com o final, o mesmo não foi suficiente para apagar o desagrado que se instalou ao longo da leitura.

Nunca me cruzei com opiniões acerca deste livro, mas gostava de conhecer outras perspetivas sobre o mesmo.

Classificação
  

Opinião | "Conta-me o teu segredo" de Dorothy Koomson

Untitled design (20).jpg

Cá continuo na saga de partilhar as opiniões de livros que li em 2021. Poderia deixar de as publicar, mas não me faz sentido deixar de partilhar só porque foram lidos o ano passado. Peço-te mais um pouco de paciência com a enchente de publicações, mas quero deixar tudo alinhado para me dedicar ao conteúdo deste ano.

Os livros mais recentes de Dorothy Koomson representam um afastamento do seu estilo inicial. Os mais recentes têm alguns contornos que os aproximam mais do género thriller/suspense. Independentemente do género pelo qual a escritora opte, eu gosto quase sempre dos seus livros. Gosto da escrita, dos bons diálogos e da forma como ela consegue colocar em palavras as várias tonalidades da essência humana. 

O assassino da venda é o elo de ligação entre a voz narrativa de Pieta e a voz narrativa da Jody. Uma é jornalista, a outra é inspetora da polícia. As vivências pessoais de cada uma delas cruzam-se no presente, mas é no passado que se começa a delinear aquilo que as une na atualidade. O assassino da venda deixou marcas na vida destas duas mulheres e é essa pessoa que as vai levar por novos caminhos.

Jody tem uma necessidade pessoal de encerrar o caso e dar descanso aos fantasmas que as atormentam. A Pieta só quer que os seus fantasmas permaneçam no lugar onde ela os decidiu encerrar há muito tempo. São duas posições antagónicas que geraram conflitos e adensaram a narrativa. Foram também estas posições que possibilitaram o crescimento das personagens e um melhor reflexo daquilo que eram as vulnerabilidades de cada uma delas. Além disso, a partir daqui que novas informações sugiram com o avançar da narrativa. 
Alguns aspetos eram previsíveis, mas a escritora conseguir criar bons pontos de tensão e interrogação no leitor. Assim, apesar de eu já desconfiar de algumas coisas relacionadas com Pieta, o meu interesse na narrativa manteve-se. Isto aconteceu porque a minha maior motivação era aceder ao universo emocional desta personagem. 

Para mim, o ponto forte do livro está relacionado com a tentativa da autora em desmistificar o papel de vítima.
Há fatores de risco que aumentam a vulnerabilidade de uma pessoa e, consequentemente, fazem disparar a probabilidade de se ver envolvida em determinadas situações de risco e/ou perigo. Por exemplo, ser-se mulher aumenta a probabilidade de ocorrência de situações de abuso sexual; um bebé com um temperamento mais difícil aumenta o risco para a ocorrência de situações de maltrato ou negligência. É com base nos fatores de risco que, muitas vezes, se constrói o perfil da vítima. 
Porém, é essencial que haja sentido crítico e abertura para entender e assimilar situações que se possam afastar destes perfis.

Dorothy Koomson expõem esta situação de uma forma muito compreensiva. Além disso, foi capaz de construir cenas que sensibilizam para a importância de não nos agarrarmos àquilo que são os "típicos" perfis de vítima. 
Foi a primeira vez que me cruzei com esta abordagem nos livros. Considero que o assunto foi bem abordado, quer pelo lado das vítimas, expresso no receio de pedir ajuda policial pois sentiam que as suas queixas seriam ignoradas; quer pelo lado das autoridades/pessoas próximas da personagem que desvalorizavam os pedidos de ajuda por não acreditarem nas histórias nem no estatuto de vítima associado àquela pessoa. 
É muito importante termos consciência dos fatores de risco que aumentam a vulnerabilidade humana, pois são eles que ajudam a delinear intervenções dirigidas aos grupos que pretendemos capacitar e, também, facilitam a ativação de estratégias de apoio. No entanto, estes fatores de risco não devem ser olhados de uma forma inflexível, uma vez que ela nos pode cegar perante situações diferentes.  

O final é imprevisível e bastante surpreendente. Dificilmente me irei esquecer das reviravoltas que as realidades da Pieta e da Jody sofreram, bem como da revelação do assassino da venda.

Classificação

 

Opinião | "Um mulher em fuga" de Lesley Pearse

Untitled design (18).jpg

Lesley Pearse é uma escritora que segue uma fórmula na construção das suas histórias: uma personagem feminina que sofre, vive uma quantidade considerável de dramas, ultrapassa obstáculos e encontra o seu lugar no mundo. Porém, esta linha narrativa é, geralmente, acompanhada por boas contextualizações históricas e questões morais que levam o leitor a questionar-se e a refletir sobre as situações.
Os saquinhos brilhantes que acompanham os livros oferecem-lhe uma falsa identidade e não acompanha o conteúdo que preenche as suas páginas.

Neste livro, é contada a história de Rosie, uma criança que vive num meio masculino onde a violência. É uma criança que cresce com algum amor parental e com a tirania dos irmão mais velhos. A coragem dela oferecer-lhe-á um novo caminho, mas não isento de desafios. É um caminho novo, que acabará por lhe permitir um futuro diferente.

Temas como a violência doméstica, a violação, a perda, o perdão e a saúde mental figuram ao longo destas páginas. Cada um deles vai assumindo protagonismo, mas há momentos em que eles se cruzam de uma forma dolorosa. Todos eles carregam reflexões importantes e que me permitiram diferentes reflexões, nomeadamente:

A importância da evolução nos cuidados na saúde mental
A saúde mental é a minha área profissional. Tenho consciência que ainda há muito trabalho que carece ser feito. Há, ainda, muitos tabus e preconceitos que precisam de ser quebrados e ultrapassados. No entanto, comparando a atualidade com a realidade retratada neste livro fez-me sentir grata à ciência e à evolução que ela permitiu. O tempo que Rosie passa no hospício trouxe-me das cenas mais duras de ler. O desrespeito pela doença mental, a falta de profissionalismo, os tratamentos horrendos que faziam parte do quotidiano desta instituição fez-me pensar no poder da ciência para a evolução nos cuidados de saúde e o impacto que tudo isto tem na saúde da comunidade. 

É importante separar os filhos daquilo que são os erros dos pais
Rosie sofreu devido às suas origens. A sua família de origem ofereceu-lhe uma história de vida que a revestia de preconceito. Nem sempre é explicito este julgamento, mas ele existe e acabou por condicionar o comportamento Rosie  em alguns momentos. 

Cabe-nos a nós quebrar ciclos de violência e de más relações
Talvez fosse mais fácil para a Rosie sucumbir aos caminhos marginais que lhe eram familiares e ceder à podridão humana. Contudo, ela escolheu ser diferente e quebrar o padrão familiar que conhecia.
Nem sempre é fácil e linear quebrar com estes ciclos. Infelizmente não basta a vontade de fazer diferente. É essencial que as circunstâncias à nossa volta se ajustem à nossa vontade para que a mudança acontece. 
Neste sentido, Rosie teve essa possibilidade e soube usá-la para quebrar com uma realidade dura. 

Uma relação amorosa deve ter reciprocidade
Rosie, quando vive o seu primeiro amor, dá tudo de si. Entrega à pessoa que a conquistou todo o seu amor e dedicação. Fica sensibilizada pelas declarações de amor, pela atenção e pelo afeto que sempre foram tão escassos na sua vida. Isto faz com que ela vá ignorando alguns sinais de alerta. Um comportamento de posse que faz com que ela se vá anulando. Ela olhava para a falta de reciprocidade como uma manifestação do amor. Chega a lucidez e ela consegue perceber que tipo de comportamentos devem acompanhar as palavras de amor. 

Estamos na presença de um livro muito rico em termos emocionais e históricos. Houve alguns momentos em que senti que a narrativa carece de alguma objetividade e de um maior desenvolvimento. Arrasta-se e parece atrasar a leitura. Contudo, é um livro bem escrito e que respeita a identidade literária de Lesley Pearse.

Classificação

Opinião | "O falcão" Sveva Casati Modignani

Untitled design (17).jpg

Os livros da Sveva Casati Modignani marcara a minha transição entre as leituras infato-juvenis e as leituras mais adultas. Na altura, devorei todos os livros que a biblioteca municipal tinha e conheci histórias que me marcaram e fizeram refletir. "Lição de tango" é, até hoje, o meu livro preferido da escritora. Não sei se o encanto se manteria caso decidisse reler o livro. O meu "eu" leitora cresceu, está diferente e tenho necessidades literárias diferentes. Por isso, evoco só a memória sem perspetiva de uma releitura (não vá a magia quebrar-se).

Apesar de tudo, os livros desta escritora funcionam como leituras de conforto. Sabe-me bem perder-me nas suas histórias, nos seus dramas familiares e nas narrativas alimentadas de emotividade e clichés diversos. 

"O falcão" representa um desvio na rota de escrita desta autora. Geralmente, é uma mulher que assume o protagonismo das suas histórias. Aqui, é o Rocco Di Falco que protagoniza grande parte da ação. Há também um mulher com um papel importante, Giulietta Brenna. Contudo, os acontecimentos importantes têm como ponto de partida Rocco.

Rocco e Giulietta partilharam um amor muito intenso na juventude. Um acontecimento doloroso marca um afastamento e a vida, e a vontade de Rocco, proporcionam um reencontro. Neste reencontro são evocadas memórias e Rocco apresenta a sua vida como se estivesse a limpar os nós e a confusão de fios de um novelo de lã. 

Há dores para curar. Há segredos para desvendar. Verdades para assumir. Dores emocionais que abrem feridas que afinal não estavam muito cicatrizadas. As revelações ativam muitas emoções e sentimentos e agiram a existem deste dois adultos em busca de respostas para o que lhe ficou por explicar.

Ao mesmo tempo que se dedicam a uma amor mais maduro, Rocco e Giulietta alinham as peças conjuntas da sua vida que foram desalinhadas pelos acontecimentos com os quais se confrontaram. 

Não foi uma leitura intensa nem memorável. Mas foi um livro que me permitiu descontrair, conhecer o lado tumultuoso e sereno do amor e desfrutar de uma leitura menos exigente.

Classificação

Nota: O livro foi-me disponibilizado pela editora em troca de uma opinião honesta.

Opinião | "O boss" de Vi Keeland

Untitled design (10).jpg

A Daniela adivinhou o quanto eu precisava de um livro assim: leve, divertido e muito descontraído. Li-o em menos de 24 horas e ri como já não ria há muito tempo com um livro.

Nas primeiras páginas, Chase e Reese protagonizam uma sequência de momentos extremamente hilariantes e cheios de peripécias que originam gargalhadas muito fáceis. Ao mesmo tempo que estes dois colecionam momentos embaraçosos, crescem entre eles sentimentos que os aproximam, assim como uma tensão sexual que abrilhanta todos os momentos de sedução. 

Esta leveza narrativa vai-se diluindo com o desenvolvimento da história. A componente dramática começa a ganhar destaque permitindo ao leitor conhecer outro lado das personagens. Na minha opinião, considero que este acrescento à história oferece um lado mais intimista. Apreciei imenso o lado cómico do livro, mas também fiquei muito satisfeita com o tom mais dramático e sombrio. 

Foi uma excelente leitura para assinalar o início das minhas férias.
Reese é uma rapariga bastante inspiradora e dinâmica. Um verdadeiro espírito livre. Acho que gostei muito dela por ser tão diferente de mim. Não se inibe, luta por aquilo que quer e tem um talento natural para protagonizar situações embaraçosas.
Chase, aos olhos de Reese, é um homem de retirar o fôlego. O que mais gostei nele foi o seu carácter e a forma como geria a sua empresa. É um gestor que age com respeito, transparência e que valorizava cada um dos seus colaborares, reconhecendo-lhes competência e talento.

Muito se tem partilhado sobre o preconceito literário. Aos olhos de alguns leitores, este livro poderá ser considerado "inferior". É óbvio que o livro não é nenhuma obra prima da literatura, mas tem uma narrativa coerente, personagens bem construídas, tem humor e deixa mensagens importante ao leitor:

  • O nosso passado não nos define;
  • Quando amamos uma pessoa respeitamos as suas manias e idiossincrasias; 
  • Quando se ama e confia não há medo em partilhar as manias mais estranhas;
  • Há muitos estilos de liderança, mas quando se opta por um estilo democrático e de respeito o ambiente é muito melhor e os colaboradores são mais produtivos;
  • Por muitos que sejam os obstáculos, há amores que sobrevivem e fortalecem a ligação entre as pessoas. 

"O boss" é um livro que ensina sobre o poder da empatia e nos obriga a olhar para as relações humanas de diferentes ângulos e perspetivas, sem julgamento, ao mesmo tempo que oferece diversão e muitas gargalhadas. 

Classificação

Mais sobre mim

foto do autor

Translate

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Reading Challenge

2022 Reading Challenge

2022 Reading Challenge
Silvana (Por detrás das Palavras) has read 1 book toward her goal of 30 books.
hide

Palavra do momento

Por detrás das Palavras

O Clube Mefisto

goodreads.com

Mais visitados

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub