Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Por detrás das palavras

Por detrás das palavras

16
Jul21

Opinião | "Fantasmas do passado" de Minette Walters

Untitled design (2).jpg

Fantasmas do passado era um livro totalmente desconhecido para mim. Cruzei-me com ele nos destaques da biblioteca e achei que poderia ser um leitura interessante. O facto de ter um desafio direcionado para este género de livros também ajudou a ponderar esta escolha. 

O livro tem uma história complexa. Um professor universitário que gosta de refletir sobre as injustiças do tribunal. E é esta a base de todo o livro. Tentar perceber onde mora a injustiça de um crime que aconteceu há mais de 30 anos e levou à condenação de um inocente. Tirando o primeiro capítulo que é narrado nos anos 70, todo o resto do livro é narrado no momento presente da ação e acho que isso retirou muito dinamismo à história. Aliás, permaneceu em mim, em muitos dos momentos, uma leve sensação de aborrecimento que transformava o meu ritmo de leitura. Lia devagar e a sensação era de que não sai do mesmo sítio. 

Um elemento interessante é o acesso aos relatórios dos depoimentos, às notícias publicadas e partes do capítulo do professor universitário Hughes. São elementos que oferecem algum dinamismo ao livro e que permitem a aceder a diferente tipo de informação; aspetos que interferiram positivamente na minha relação com o livro.

A narrativa vai-se arrastando enquanto as personagens vão tentando compreender o que aconteceu no passado. Vão desenterrando alguns acontecimentos, desconstruindo o comportamento atual de algumas personagens... Mas tudo se vai desenrolando de forma demasiado lenta. Falta suspense que crie dependência. Esta ausência de suspense torna a leitura demasiado aborrecida e deixa a sensação de que nada de relevante irá acontecer. O livro beneficiaria com uma alternância entre presente e passado. Acho que a existência de capítulos que nos mostrassem os acontecimentos do passado seriam essenciais para oferecer ao livro outra atmosfera.

O livro aborda temas como a violação, o preconceito, os bairros sociais, a deficiência mental... Tem passagens muito interessantes onde estes temas estão inseridos em situações que me fizeram refletir sobre os comportamentos individuais e os comportamentos da comunidade. Como é que se alimenta o preconceito? Como é que se condena o futuro de uma jovem? Como é as amizades nos podem oferecer o pior da condição humana? Que adultos escolhemos ser com base no nosso passado? Mais do que os acontecimentos e as experiências adversas pelas quais podemos passar, nós somos aquilo que escolhermos fazer com tudo o que vivemos. Mas será o contexto nos permite sempre fazer essa escolha? São perguntas que me foram surgindo ao longo da leitura.

Para os leitores que apreciam um estilo de thriller mais lento, sem suspense e sem tensão psicológica este poderá ser um livro capaz de proporcionar uma boa leitura. Mas como gosto sempre de reforçar, só poderás construir a tua opinião se deres uma oportunidade ao livro. 

Classificação

10
Jul21

Opinião | "A sinfonia dos animais" de Dan Brown

1.jpg

Já há muito tempo que não lia um livro infantil. São livros que eu aprecio e que sempre gostei de usar nas consultas com crianças.
A sinfonia dos animais foi escrito por Dan Brown (sim, o mesmo autor do livro O Código Da Vinci) e conjuga uma história com música. O livro aborda diferentes animais e cada animal tem direito à sua música. 

2.jpg

Assim, temos animais diferentes, cada um com a sua história e a sua música e que transmitem uma pequena mensagem que potencia um olhar positivo sobre a vida. 

Eu gostei muito dos animais que foram escolhidos e das histórias criadas para cada um. Instalei a aplicação e ouvi algumas das músicas que foram compostas especialmente para este livro. A questão musical pode funcionar muito bem com crianças mais pequenas (3 anos); porém, a compreensão das histórias e das mensagens que as acompanham será mais alcançada em crianças mais velhas (a partir dos 5 anos). 

Foi muito bom regressar às histórias infantis. É sempre um bonito presente para oferecermos às crianças e, além disso, poderá ser uma boa atividade familiar para as férias. 

Classificação

02
Jul21

Opinião | "Duquesa do meu coração" (The Vault Collection #1) de Maya Banks

P_20210525_091710.jpg

Tenho andado mentalmente casada, fruto de um trabalho mais intelectual. Sinto que este cansaço não é muito benéfico para a leitura. Níveis de atenção mais baixos, menos capacidade para assimilar conteúdo... Um cocktail um pouco prejudicial para quem gosta de se perder num livro. 
Perante este estado emocional, há pessoas que gostam de deambular pelas redes. No meu caso, só me apetece ver televisão e pegar em livros mais leves, descomplicados e a atirar para um lado mais romanceado. Conclusão, o livro "Duquesa do meu coração" foi a leitura certa para estes dias de stress. Consegui focar a minha atenção, consegui avançar na leitura a um ritmo simpático e fiquei inundada da sensação positiva que só uma bonita história de amor é capaz de deixar. 

O livro tem um lado leve e cativante, mas trata de um tema muito sério. Jillian conheceu um lado negro do casamento e, assim que lhe foi possível, revestiu-se de coragem e enfrentou a sociedade conservadora da época. Foi importante ler sobre estas dinâmicas e perceber de que forma a afirmação pessoal da Jillian colidia com os ideias esperados para uma senhora naquela época. Além disto, a Jillian também deixa outra lição nem sempre o ataque ou uma postura marcada pela hostilidade é a opção ideal para se vingar dos sentimentos menos positivos. 

Outro aspeto que também gostei particularmente neste livro foi a amizade de Jillian com Case. Só por si, esta amizade constituía um desafio às normas sociais da época. A relação foi bem desenvolvida e ofereceu um tom ainda mais doce à história e à felicidade final. 

É claro, este livro tem de ter um romance a deslizar nas páginas. Inicialmente, estava um pouco reticente à forma como tudo se estava a desenvolver. Acho que foram as páginas finais e a atitude de Justin que conquistaram o meu coração. 

Nem tudo neste livro e no desenrolar da narrativa é surpresa. Há uma linha narrativa que é particularmente previsível, mas isso não afetou a minha diversão na leitura nem interferiu com a minha capacidade de apreciar os factos e ficar feliz com desfecho de tudo. 

Será uma série para seguir. Penso que o Case também terá direito a um livro dedicado ao seu universo. E eu gostei tanto do Case que também o quero ver a provar a doçura que só um amor correspondido pode oferecer. 

Classificação

20
Jan21

Opinião | "À procura de Sana" de Richard Zimler

P_20201230_152614.jpg

"À procura de Sana" encerrou o meu ano literário de 2020. Já há muito tempo que queria experimentar ler um livro de Richard Zimler. Por diversas vezes já me tinha cruzado com opiniões muito positivas ao trabalho deste escritor. 
Surgiu a possibilidade de trazer o livro da biblioteca e, assim, criou-se a oportunidade de conhecer o trabalho deste escritor.

O que é que sobressaiu aos meus olhos desta leitura? Sem dúvida que a escrita. É tão agradável e bonita que quase me senti embalada na leitura. É claro o cuidado dispensado à escolha de palavras e à forma como elas se articulam. Este foi um elemento essencial para criar uma narrativa apelativa para uma história que se revelou demasiado complexa e cheia de recantos desconhecidos. 

A complexidade da narrativa é da responsabilidade de Sana. A vida desta mulher cruzou-se com a de Zimler e ele sentiu necessidade e responsabilidade em contar a história desta mulher. E, assim, viu-se arrastado para um conjunto de vidas marcadas por um conjunto infinito de pontas soltas. Isto causou alguma entropia na minha compreensão mais profunda da história. Senti-me perdida com alguns avanços e recuos. Senti-me com alguma dificuldade em criar uma ligação com as personagens e com os acontecimentos. 

No fim ficou-me a sensação de não ter conseguido absorver tudo aquilo que a história tinha para oferecer. Acho que não consegui reter com eficácia a sequência dos acontecimentos, cujo seu encadear se traduz naquele final. Após a leitura sobreviveu a vontade de voltar a ler mais livros do escritor. 

Classificação

28
Dez20

Opinião | "Demência" de Célia Correia Loureiro

P_20200313_112458_HDR.jpgNão li a primeira edição de "Demência". Vi muitas opiniões positivas em relação a este livro. Vi quem o achasse melhor que "O funeral da nossa mãe". Pessoalmente, acho que são livros diferentes, cada um com o seu valor. Têm um ponto em comum: a sua capacidade de mexer com as emoções.

"Demência" dá voz à violência doméstica e à demência. As palavras embalam-nos em direções mais ou menos previsíveis, mas que em nada diminuiu o entusiasmo e o interesse pelo livro. É uma viagem literária em constante desassossego. Desassossego por Letícia que procura manter-se inteira depois de ter sido despedaçada. Desassossego por duas crianças que sabem quanto custam os momentos de terror. Desassossego por uma mulher que lida com a doença e com a perda da melhor forma que consegue. E no meio destes sobressaltos e desassossegos há espaço para a importância que uma amizade pura pode ter nas nossas vidas. Há espaço para o poder curativo que só o amor consegue. Há espaço para olhar para o passado e encaixá-lo numa explicação do presente. 

Infelizmente, a voz de Letícia ainda faz muito eco na sociedade atual. As feridas que esta mulher transporta são comuns às de outras tantas mulheres. A violência doméstica é, mais do que a Letícia, a personagem principal desta história. Um problema que atravessa gerações e deixa marcas emocionais demasiado profundas e com uma cicatrização imune ao tempo. É interessante ver como a Célia, apesar de ser muito jovem quando escreveu este livro, conseguiu imprimir uma maturidade enorme naquilo que quis contar ao público. 
Além deste aspeto, a história tem uma tonalidade tão realista que é fácil chegar àquela aldeia e visualizar o comportamento de todos aqueles que povoam estas páginas.

O tempo da ação é que me deixou um pouco baralhada. O início foi complicado. Em termos de tempo parece que passam mais dias do que aqueles que na realidade passaram. Há também uma transição, mais ou menos a meio do livro, que é pouco clara. Foram estes os dois aspetos que me não foram tão bem concretizados. 

A história andou muitos dias na minha cabeça. A resiliência de Letícia fez-me acreditar na força feminina para enfrentar um problema. Por outro, a fragilidade e a personalidade dura de Olímpia tornaram-na demasiado humana. Foi a doença e a perda que a deixou mais fragilizada, mas foi o passado que a endureceu e que lhe deu uma visão diferente da condição humana. Duas mulheres que ficam na história do meu percurso literário e de quem, muito dificilmente, me irei esquecer. 

Precisamos de vozes como a da Célia. Precisamos de pessoas que coloquem de forma realista amor, dor e tristeza  nas histórias que escolhem contar. Precisamos de abrir espaço às boas publicações nacionais. 

"Demência" irá levar-te a uma aldeia beirã, cheia daquelas preconceitos e "diz-que-disse" tão típicos de zonas mais solitárias e acanhadas. Vais encontrar o inferno e o paraíso de uma relação amorosa. Vais cruzar-te com o envelhecimento, com a doença que apesar de roubar parte das memórias de Olímpia será incapaz de lhe tirar do coração a amizade que a ajudou a sobreviver.

Classificação

23
Dez20

Opinião | "A Rainha Perfeitíssima" de Paula Veiga

P_20201121_115437.jpg

Descobri a minha paixão por romances históricos já tarde no meu percurso de leitora. Talvez tenha acontecido porque o meu interesse pela História também chegou já no final da adolescência. 
Hoje em dia é sempre com algum entusiasmo que me "atiro" numa leitura com uma forte componente histórica.

"A Rainha Perfeitíssima" é um livro dedicado à Rainha D. Leonor, que é, também a narradora de todos os acontecimentos.

A sequência narrativa é muito confusa. Ainda ponderei se esta confusão advinha dos meus escassos conhecimentos relativamente a este período da História de Portugal. Porém, já li outros livros históricos, que retratavam épocas e acontecimentos completamente desconhecidos para mim e com os quais não senti nenhuma dificuldade. Aliás o meu conhecimento no fim da leitura aumentou. Por esta razão, considero que o problema está mesmo no livro, mais especificamente na forma como a história foi contada.
A leitura tornou-se um pouco aborrecida. Os factos eram narrados de uma forma demasiado factual. Faltou um toque mais emocional. Faltou a inclusão de elementos capazes de enriquecer aquilo que D. Leonor ia contando.

Na capa prometia: "Esta é a história de Leonor de Lencastre, a mais culta e rica das rainhas portugueses. E também a mais trágica". No meu entender, ficou-se pela promessa porque os acontecimentos narrados eram desprovidos de emoção e intensidade ilustrativas de uma vida trágica. Também é um livro carente na capacidade de mostras as características das personagens que integram a narrativa. Há demasiada narração e pouca demonstração.

Paula Veiga tem outro livro publicado, também ele um romance histórico. Ainda não sei se quero ler. Preciso de tempo para esquecer esta leitura. Talvez, mais tarde, depois de esquecer esta leitura, dê uma nova oportunidade à escritora e, assim, ter a oportunidade de construir uma opinião mais sólida.

Classificação

16
Nov20

Opinião | "As joias do sol" de Nora Roberts (Trilogia Irlandesa #1)

P_20200202_150641.jpg

Longe vai o tempo em que Nora Roberts era uma aposta segura. Os últimos livros que li da escritora não conseguiram encantar-me. Não foram capazes de me fazer vincular às personagens e às suas vivências.
Foi estranho para mim ler este livro. Senti-me desconectada com tudo o que ia acontecendo. Acabou por ser uma leitura pouco intensa e que não me desperto muitas emoções. Nem as descrições das paisagens idílicas da Irlanda foram suficientes para me deixar a sonhar com viagens.

"As joias do sol" é um livro que nos conta a história de Jude, levando-nos pelos caminhos da sua auto-descoberta. É uma mulher descontente com o seu presente e que vai para a Irlanda em busca de algo que lhe faça sentido e que acalme a sua impaciência. 

E depois? Depois juntam-se os ingredientes comuns aos vários livros de Nora Roberts: romance, magia e cenas mais eróticas.

Talvez tenham sido as componentes mágicas que me incomodaram a leitura. Ou então a fórmula de construir relações literárias que já não conquista nem faz com que o meu coração palpite de entusiasmo. Na realidade, e olhando para tudo com mais clareza, acho que foi a conjugação destes dois aspetos, aliados a minha baixa disponibilidade mental para ler que interferiram nesta minha experiência literária. 

Guardo desta leitura a experiência minimamente agradável, mas que facilmente irei esquecer. Cumpriu o seu propósito de entreter, mas não ganhou espaço nas minhas preferências.

Classificação

12
Nov20

Opinião | "Razões para viver" de Matt Haig

P_20200925_192510.jpg

Na altura em que este livro saiu foram publicadas opiniões muito positivas. 
A minha área de formação está intimamente ligada à Saúde Mental. Por isso, tinha imensa curiosidade em conhecer o conteúdo deste livro. 

"Razões para viver" é um relato na primeira pessoa de alguém que lutou contra a depressão e a ansiedade; duas doenças mentais muito graves, incapacitantes e que, muitas vezes, são desvalorizadas pela população em geral.

O autor fez uma descrição muito lúcida daquilo que viveu nos períodos mais complicados da doença. Numa linguagem simples e acessível, Matt consegue colocar em palavras os sentimentos e as emoções dolorosas que o assolaram, ao mesmo tempo que vai apresentando de que forma foi combatendo as sombras negras que se abatiam sobre a sua mente.
Para mim é impossível ler este livro desconectando-me do meu lado profissional. Por isso, à medida que ia lendo, ia fazendo algumas reflexões mais complexas tendo em consideração os meus conhecimentos e a forma como Matt ia conseguindo vencer o sofrimento psicológico que o acorrentava. 

Matt teve lucidez suficiente para perceber que não estava bem. Teve ao seu lado pessoas que foram capazes de lhe dar esperança, de o agarrar à realidade e ajudá-lo a ultrapassar os seus problemas. Além disso, ele foi capaz de descobrir um conjunto de atividades que despertavam nele emoções positivas e lhe ofereciam sensações de bem-estar e alguma "normalidade". 
Ao longo de todas essas descrições, Matt deixa algo que eu considero muito importante: cada pessoa tem a sua forma de lidar e superar os seus sentimentos negativos. O que funciona para umas pessoas, pode não funcionar para outras. 
Eu sou muito sensível a esta questão. Na minha prática clínica, eu procuro sempre descobrir com a pessoa que tenho à minha frente a melhor forma de intervenção que a levará a ultrapassar aquilo que a levou a pedir ajuda. 
Sei as teorias, sei as técnicas (que vou sempre aperfeiçoando com pesquisa e leitura), mas o conhecimento que detenho sobre elas deve ser ajustado às características da pessoas  e às necessidades que ela evidencia. Nem sempre é fácil desenvolver esta sensibilidade, mas é um exercício que procuro sempre fazer. 

Outro ponto interessante que retiro desta leitura é a desmistificação em relação ao suicídio. É comum as pessoas apelidarem-no de "ato corajoso" ou "ato de cobardia", depende do ponto de vista. Matt acaba por mostrar que o suicídio não é nenhuma destas duas coisas. 
O suicídio é, quase sempre, uma forma de acabar com o sofrimento psicológico. Sofrimento este que é tão intenso que o suicídio é a única forma capaz de silenciar essa for.
Por isso, dizer-se que uma pessoa com depressão foi corajosa ou cobarde optando pelo suicídio é errado e, ao mesmo tempo, é uma forma de desvalorizar um sofrimento demasiado intenso e silencioso.

"Razões para viver" é um livro que está construído para que qualquer pessoa possa ler e inspirar-se na forma como Matt lutou para ultrapassar algumas das suas dificuldades.

Classificação

 

06
Nov20

Opinião | "Desejos do coração" de Jude Deveraux (Edilean #5)

P_20200325_170732.jpg

"Desejos do coração" é o quinto livro da série Edilean e o sexto livro que leio de Jude Deveraux. Na generalidade tenho gostado dos seus livros. Prefiro os livros de época do que os livros com histórias mais contemporâneas. Acho as narrativas das histórias de época mais apelativas e interessantes. De todos os que já li até ao momento, este foi o que menos gostei.

A narrativa começou bem e com uma premissa interessante: desvendar os mistérios de uma história familiar.
Gemma foi a escolhida para descobrir a história da família Frazier e, sem querer, acabou por conquistar outras coisas, nomeadamente um romance com Colin, o filho mais velho da família.

O romance entre Gemma e Colin não me convenceu. Não me interpretrem mal, eles são amorosos, há romantismo, mas a faísca incendiou demasiado depressa. Se comecei o livro identificando-me com Gemma, a sua personalidade e a sua forma de estar na vida, a forma como tudo evoluiu à sua volta foi demasiado rápida. Tão rápida que considero ser incapaz de corresponder aos padrões que definem a Gemma enquanto pessoa. Comecei a torcer o nariz e o entusiasmo foi esmorecendo

É uma história de amor bonita, romântica, previsível e com um conjunto de características que alimentam pensamentos positivos. Apesar de tudo isto, o livro não me conseguiu tocar com a profundidade que outras histórias do género já conseguiram comigo. 
É uma leitura agradável? Sim. Contudo, está longe de ser memorável ou mesmo inesquecível.
Há até uma situação que acaba esquecida pela autora. É um elemento importante na construção da relação entre Gemma e Colin, mas a escritora acaba por deixar passar. Este foi um dos aspetos mais reveladores da falta de profundidade da escritora na forma como optou abordar a história.

O livro cumpriu a sua função de entreter e oferecer uma história agradável e termina com uma mensagem positiva.

Classificação
 

26
Out20

Opinião | "O mapa do coração" de Susan Wiggs

Pink and Peach Freeform Art Instagram Post.jpg

"O mapa do coração" foi uma leitura que se revelou uma excelente surpresa. Tinha lido a sinopse, mas não consegui perceber que a história deste livro incluía uma bela viagem ao passado.

Terminada a leitura, posso dizer que o título não é muito apelativo e acho que não ilustra muito bem aquilo que encontramos nestas páginas. 
O livro mistura um romance contemporâneo com apontamentos de acontecimentos que marcaram a ocupação de França pelos Nazis durante a Segunda Guerra Mundial. No presente e no passado há amores que foram eternizados em palavras e em fotografias.

O passado acabará por explicar o presente. Nestes dois espaços temporais cabem sonhos, segredos e elementos que precisam do seu tempo para serem resolvidos. E todo o encaixe entre passado e presente foi ganhando forma e encantou-me pelos pequenos detalhes que marcam o desenrolar dos acontecimentos. 

Passado e presente, o que é que eu gostei mais? Passado, sem dúvida alguma. A história de Lisette é intrigante. A autora jogou muito bem com essa intriga dando informação de forma espaçada para que a expetativa nascesse no interior do leitor. E, nos pedaços de história que vão sendo oferecidos, conhecemos uma mulher cheia de garra e inteligência. Soube-me a pouco. Precisava de mais páginas a narrar a vida desta mulher. Não tem muitos elementos históricos. Surgem apenas os suficientes para contextualizar a época e as atitudes e comportamentos das personagens. Foi uma contextualização importante, da qual gostei muito e que me permitiu conhecer outro lado de um episódio negro da história mundial.

O presente é protagonizado por Camille, uma mulher transformada pela morte do marido. É uma personagens interessante. Porém, acho que só a compreendi verdadeiramente depois de perceber os acontecimentos que culminaram na morte do marido. 
O romance construído em torno desta mulher é previsível, mas em nada afetou o prazer da minha leitura, ou seja, a previsibilidade não lhe retirou o encanto. 

Julie, filha de Camille tem um papel bastante importante no livro. Através desta jovem conhecemos lugares menos bonitos da adolescência. Conhecemos o impacto do bullying (acho que o tema careceu de uma melhor abordagem para que pudesse tornar-se mais expressivo; a resolução deste problema adotou alguns aspetos que me deixaram apreensiva) e a libertação do sofrimento que advém de uma realidade tão séria e capaz de arruinar a auto-estima de qualquer pessoa.

Houve ainda espaço para outro tema importante: a homossexualidade. Foi uma abordagem subtil, mas com um enorme significado na resolução de alguns conflitos da narrativa. Gostaria de o ver mais desenvolvido, manifestado numa caracterização psicológica e social mais complexa. 

Há muitas coisas que fazem a ligação entre passado e presente, mas a mais interessante é a fotografia. Quantas memórias uma fotografia pode guardar? O que é uma fotografia pode eternizar? Que magia nasce nos olhos de quem vê uma fotografia de um passado distante sem lhe conhecer o contexto? Estas questões são explicadas na narrativa deste livro. Estes elementos trouxeram-me um pouco de magia e positividade. Eu não gosto de ser fotografada, mas gosto de fotografias pala sua capacidade de desencadear histórias e memórias. 

É um bom livro para fugir da realidade. A possibilidade de podermos viajar para o sul de França, num verão quente e a possibilidade de olhar para as águas do Mediterrâneo e de sentir o perfume da lavanda foram sensações dolorosamente boas. Escrevo dolorosamente porque estava a sentir à distância. O real desejo era estar lá. 

Foi a minha primeira experiência com a escritora Susan Wiggs. Dada a boa experiência de leitura fiquei com vontade de conhecer mais obras da escritora.

Classificação

Nota: O ebook foi-me disponibilizado pela editora em troca de uma opinião sincera.

Leitura com o apoio de:

logo-web.png

14
Out20

Opinião | "Cassiopeia" de Joana Ferraz

P_20200826_153921.jpg

"Cassiopeia" surpreendeu positivamente a Daniela. O entusiasmo dela foi grande e eu acabei por ir um pouco atrás do entusiasmos dela. 
Eu confio nas opiniões da Daniela e, por isso, esperei ser surpreendida. Infelizmente, a minha experiência com este livro foi menos entusiasmante comparativamente à dela.

Cassiopeia é o nome da protagonista. Uma jovem que, aos 30 anos, sofre um enfarte e fica em coma. Enquanto ela se encontra neste estado, viajamos até diferentes períodos da sua vida, conhecemos as pessoas mais significativas e de que forma vão decorrendo as visitas que vai recebendo.

A escrita da Joana Ferraz é muito boa. As palavras encaixam-se de forma clara e envolvente. Vi nestas páginas uma fantástica capacidade em narrar os acontecimentos ao mesmo tempo que consegue captar o leitor.

Afinal, o que é que não funcionou comigo? O conteúdo. Não consegui estabelecer nenhuma conexão com a história nem com a Cassiopeia. Alguns elementos da narrativa não me fizeram muito sentido, nomeadamente: a depressão da mãe após o divórcio, muito por causa de um conjunto de revelações feitas no final do livro; e a viagem a Badajoz para fazer algo que já era possível ser feito em Portugal. 
Cassiopeia é extremamente imatura, senti isso em cada passagem do livro, e isto foi mais um elemento que dificultou a minha aproximação às personagens e a tudo o que ia acontecendo.

Senti que foi uma leitura desligada. Lia sem me sentir envolvida. Lia sem sentir que fazia parte daquelas vidas. Lia com uma distância emocional tão grande que me impediu a aproximação a tudo o que se ia passando naquelas páginas.

O final baralhou-me ainda mais as ideias. É um final aberto em que cada leitor poderá retirar as suas próprias conclusões. Fiquei um pouco aborrecida com este final, principalmente por causa de todas as revelações finais que oferecem uma nova perspetiva relativamente à vida de Cassiopeia.

Foi uma leitura satisfatória. Não me proporcionou um grande entusiasmos, mas gostei de ler e de conhecer um trabalho de uma nova escritora portuguesa. Considero que este livro é daqueles que apesar de não ter funcionado muito bem comigo poderá funcionar com outros leitores. Estamos na presença de um livro bem escrito, por isso é a subjetividade relacionada com a relação que o leitor constrói com a história que irá determinar o seu gosto por esta história. 

Em suma, este livro não funcionou tão bem comigo, mas poderá funcionar melhor contigo. Por isso, não te inibas de apostar neste livro. 

Classificação

21
Set20

Opinião | "Marquesa de Alorna" de Maria João Lopo de Carvalho

P_20200616_155550.jpg

Foi a ler romances históricos que eu percebi o quanto gosto de História. Tive História até ao 9º Ano do ensino básico. Gostava bastante da disciplina e dos conteúdos; mas, afinal, gostava mais do que aquilo que eu pensava. Muitas vezes, após ler um romance deste género, dou por mim a pesquisar mais sobre as pessoas, os acontecimentos e os locais. 

"Marquesa de Alorna" não me levou a pesquisas adicionais porque teve detalhe suficiente para me satisfazer a minha curiosidade. É um livro bastante detalhado, com muitos pormenores históricos e deixa que se conheça em profundidade a vida daquela que se tornou a Marquesa de Alorna.

A narrativa inicia-se em 1755, onde o terramoto do dia 1 de Novembro é usado como referência histórica para a narração dos acontecimentos. Seguem-se muitos outros marcos Históricos, acontecimentos que abalaram Portugal, a Europa e o Brasil e todos eles serviram de apoio à história de vida de Leonor. 

É um livro extremamente bem escrito. Apesar de algumas partes serem mais densas, nunca me senti aborrecida com a leitura. A narração mantém um bom ritmo, sempre com coisas relevantes a acontecer. Os capítulos curtos também ajudaram imenso, deixando a sensação de que a leitura avança de forma bastante fluída.

Leonor, a personagem central, era uma mulher com uma personalidade e espírito único. Ela respirava criatividade, talento, conhecimento... Foi uma mulher à frente do seu tempo. Uma mulher curiosa em relação ao mundo e àquilo que ele tinha para lhe oferecer. Lutou pelo espaço feminino e pelas suas ideias. Sempre defendeu a voz das mulheres e teve a ousadia de se afirmar nas diferentes cortes por onde passou. Uma personagem da nossa História com ideias e lutas que ainda hoje são atuais. Só me aborreci com os seus "achaques", doenças e a forte ligação à religião. Porém, atendendo à contextualização social da época a questão da religião faz sentido. 
Cheguei à conclusão que Leonor tinha um lado um pouco maluco que permitia que ela levasse tudo à frente. Foi apaixonante conhecê-la! A vida dela, as suas paixões, os seus amores e desamores e as suas lutas fascinaram-me e deixaram-me a pensar sobre a coragem que ela precisou para derrubar os preconceitos que imperavam naquela época e nos meios onde ela circulava.

"Marquesa de Alorna" é um livro muito rico, quer no conteúdo quer na forma brilhante com que a narrativa foi conduzida. 
Nunca tinha lido nada de Maria João Lopo de Carvalho. A experiência muito positiva desta leitura deixou em mim a vontade de ler mais obras desta escritora portuguesa.

Classificação

14
Set20

Opinião | "Elementos secretos" de Margot Lee Shetterley

P_20200820_143727.jpg

Sabia pouco sobre este livro antes de iniciar a leitura. O engraçado é que, pelo pouco que sabia, estava à espera de encontrar outro tipo de livro. Sendo mais precisa, eu esperava cruzar-me com a mesma história que encontrei. Porém, achava que ela seria apresentada ao leitor de uma forma diferente daquela que foi usada.

"Elementos secretos" é um livro de não ficção que aborda o papel das mulheres negras na área da investigação científica em matemática e engenharia aeroespacial. É um livro que expõe aquilo que aconteceu o lançamento de satélites, a chegada do homem à lua e o desenvolvimento de uma instituição que antecedeu a criação da NASA.

O conteúdo do livro não me desagradou. Aquilo que dificultou a minha leitura foi a forma como estes acontecimentos foram contados. É um livro muito descritivo onde apenas são apresentados factos. Há muitos avanços e recuos temporais e isso, por vezes, deixou-me confusa. 
Ao longo das páginas assistimos à descrição dos acontecimentos de vida de um conjunto de mulheres que marcaram a História. E é a parte Histórica que sobressai nestas páginas.

Foi uma leitura mais lenta, mas bastante interessante. A segregação racial nos EUA é algo muito relatado ao longo dos diversos capítulos e ilustra a dureza da vida para as famílias negras. Apesar da sua inteligência, das suas capacidades as pessoas negras tinham de se esforçar muito mais para conseguir reconhecimento, crescerem social e economicamente e conseguirem ocupar as mesmas posições que as pessoas brancas. Foi triste ler sobre as escolas que segregavam crianças e jovens e, o que mais me revoltou foi ler sobre as diferenças nas práticas de ensino adotadas por cada uma das escolas. 

Apesar de todo este contexto social, um grupo de mulheres conseguiu destacar-se e fazer valer os seus enormes conhecimentos de matemática e engenharia. Estas mulheres conseguiram uma conquista dupla: mulheres capazes de sobressair em áreas reservadas aos homens, e quebra de preconceitos raciais. 

Adorei conhecer a Dorothy, a Mary e a Katherine. Fiquei orgulhosa por saber que conseguiram colocar a sua inteligência ao serviço da investigação. Revoltei-me quando percebi que nem sempre tiveram o merecido reconhecimento. É um livro que evita que se esqueçam os esforços feitos por estas mulheres para fazer valer as suas competências. 

Numa época em que os atos racistas ocupam os noticiários, este livro é um excelente ponto de partida para a realização de discussões saudáveis. É urgente sensibilizarmos a sociedade para a igualdade entre seres humanos. Nunca é demais lembrar que devemos ser iguais nos direitos e nos deveres e que todos merecem ter as mesmas oportunidades independentemente da sua cor de pele, género, nacionalidade...

Classificação

24
Ago20

Opinião | "Tambores na noite" de Marion Zimmer Bradley

P_20200810_102526.jpg

A minha relação com livros de fantasia é "espinhosa". É muito difícil encontrar um livro deste género que me encante e que me prenda na leitura. Vou continuando a ler livros deste género para me obrigar a sair da zona de conforto e para diversificar a minha experiência enquanto leitora. Por vezes, tenho boas surpresas, como é o caso dos livros de Juliet Marillier de quem fiquei fã.

Geralmente, livros com bruxaria, misticismo, feitiços, magia negra e branca e lendas são capazes de me agradar e oferecer bons momentos de leitura.
Em "Tambores na noite" o lado da fantasia toca nestes elementos, o que permitiu que a minha leitura fosse agradável e satisfatória. Gostei de ler o livro e de conhecer um pouco da cultura mística do Haiti.
Não foi uma leitura brilhante nem memorável, mas conseguiu captar a minha atenção e permitiu-me construir uma ligação com a história e com as personagens. 
Fui positivamente surpreendida com a escrita de Marion Bradley. É expressiva e mantém o equilíbrio certo entre descrição, narração e diálogo. Esse equilíbrio oferece um bom dinamismo à narrativa e impede que o aborrecimento surja.

As personagens são interessantes e são a alma de toda a história. Nem sempre compreendi as suas atitudes e comportamentos, nem sempre elas são caracterizadas de forma completa; contudo, no fim, tudo fez sentido.
As páginas finais com o perfil astrológico são muito interessantes e ofereceram-me um novo olhar pelas personagens e sobre o seu papel na história.

Agora tenho na estante um dos volumes da série "As brumas de Avalon". Sei que é uma série bastante conhecida e até fiquei com alguma vontade de a explorar. 
Conhecem a série? Recomendam-na a uma leitora mais resistente à fantasia como eu? 

Classificação

 

20
Ago20

Opinião | "Voar no quarto escuro" de Márcia Balsas

P_20200805_100709.jpg

A Ana Patrícia, a Cristina e a Silvéria têm um projeto muito interessante que consiste em colocar um livro a circular por entre os leitores que manifestem interesse na leitura. O primeiro livro a percorrer os caminhos de Portugal foi o "Demência" da Célia Loureiro. Na altura não me inscrevi porque queria comprar o livro. Quando vi que iam colocar a circula o "Voar no quarto escuro" de Márcia Balsas decidi inscrever-me e, assim, experimentar um livro de uma nova escritora portuguesa. 

"Voar no quarto escuro" é um livro onde cabem muitas vozes. Vozes de mulheres comuns, com as suas rotinas, com as suas relações, com as suas exigências e, acima de tudo, com os seus fantasmas que lhes obscurecem o coração e a mente.

Foram estes fantasmas e a escrita quase poética da Márcia que me ligaram ao livro. Começando pela escrita, a Márcia fez um excelente trabalho na escolha das palavras. Uniu-as; deu-lhes corpo, sentido e beleza. É fácil ler o livro porque a escrita quase que nos embala e nos deixa infiltrados nas vidas destas mulheres.

Todos temos fantasmas. Todos escondemos esqueletos no armário. A forma como lidamos com eles e como os arrumamos dentro de nós é que faz a diferença. O livro ilustra um pouco essa forma diversa de arrumar os fantasmas interiores. Não mostra uma arrumação sempre funcional! Aliás, grande parte das personagens espelham uma arrumação disfuncional e autora conseguiu passar muito bem para o papel o impacto dessa desarrumação mental na vida quotidiana das pessoas e nas relações que estabelecem.

Infelizmente há coisas que se vão perdendo ao longo da narrativa. São muitas personagens, muitas vozes que se acabam por cruzar e isso, por vezes, gerou alguma confusão dentro de mim. Senti que algumas situações não foram totalmente finalizadas. A sensação que ficou é que em algumas personagens faltou qualquer coisa que desse um maior sentido à história delas. 

Relativamente à forma como o livro terminou, o final de Eduarda e Antero não me convenceu. Fiquei sem perceber muito bem o que se passou naquela noite. 

Em suma, espero que a Márcia continue a escrever para que eu possa conhecer novas histórias e ter a oportunidade de construir uma opinião mais coesa relativamente ao seu trabalho.

Classificação