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Por detrás das palavras

Por detrás das palavras

Opinião | "Para lá do inverno" de Isabel Allende

06.08.21

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Para lá do inverno é o segundo livro que leio de Isabel Allende. Há uns anos li o "Paula", um livro onde a escritora partilhava aspetos da sua vida pessoal, dando destaque à doença da filha. Lembro-me de ter gostado do livro, mas não ter adorado. 

Desde essa altura, nunca mais tinha pegado noutra obra da escritora. Na minha última ida à biblioteca, achei que era uma boa forma de voltar a ler um livro de Isabel Allende e acabei por trazer este para casa. 

É engraçado que comecei a embirrar com a parte criminal que a história tem, mas depois percebi que não era essa a essência do livro. O crime serviu apenas de gatilho para descobrir três histórias de vida marcadas pela luta, o sofrimento a incerteza... Invernos que o ser humano atravessa e que são responsáveis por emoções mais negras. 

Os invernos da vida e o que resiste para além deles são a essência desta história. Há uma tonalidade reflexiva que acompanhou toda a leitura, mas no início eu não me estava a aperceber dela. Acho que andava demasiado à procura da linha condutora que me explicasse a morte que aparece nas primeiras páginas. Era o meu lado racional a tomar a dianteira na leitura. Depois, a autora fez-me mergulhar no passado de Lúcia, Richard e Evelyn e aí percebi a intencionalidade do livro. 

Se tivesse de destacar uma história seria difícil escolher entre Richard e Evelyn. Foram duas narrativas muito duras, com um sofrimento distinto mas muito palpável. Tão palpável que no presente ainda se fazia sentir na forma como se relacionavam com os outros, na forma como olhavam para o amor, na forma como encaravam a sua própria vida. 

O crime juntou-os e fomentou laços entre eles. Lúcia também tem os seus invernos, mas a forma como os encaixou na sua personalidade fizeram dela alguém com uma resiliência mais capaz para os relacionamentos com os outros. Ela unia as pontas que consistiam na individualidade de cada um. Deu sentido as vivências de cada um e àquilo que os acabou por juntar.

O desfecho foi algo inesperado. Porém, conseguiu dar sentido e coerência àquilo que no início me parecia inverosímil. E além do desfecho onde se encerram os assuntos que caracterizam a narrativa, prevalece a mensagem de que por muitos que sejam os invernos que tenhamos que atravessar na nossa vida, haverá forma de os ultrapassar e encaixá-los dentro de nós de forma positiva e resiliente.

Fiquei agradavelmente surpreendida com o livro e espero, em breve, voltar à escrita de Allende.

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Opinião | "Segredos do passado" Deborah Smith

29.01.21

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Tal como em 2020, quis começar 2021 com uma leitura positiva, ou seja, quis que o meu primeiro livro do ano contivesse uma história de amor, com uma mensagem positiva e com um final feliz. Andei a ver a minha estante e resgatei o livro "Segredos do passado" de Deborah Smith. As minhas leituras anteriores de livros desta escritora reuniram os requisitos que eu queria encontrar na minha primeira leitura do ano. 

Deborah Smith é uma escritora de fórmulas. Agarra em famílias, junta-lhe uns conflitos, um romance que será posto à prova e um reencontro após anos de ausência e a história acontece. Talvez este tipo de livro te aborreça. Eu, na generalidade, gosto! Não os posso ler muito seguidos, mas dando o espaço temporal correto entre eles tornam-se boas leituras e ótimas para aligeirar a mente e semear em mim emoções positivas. 

"Segredos do passado" é um livro que em que a escritora seguiu a sua receita à risca. Claire tem uma família grande e financeiramente próspera. Roan vive no extremo social oposto. Algo acaba por uni-los. Aos meus olhos foi uma união um pouco forçada e artificial. Talvez tenha sido a diferença de idades que me tenha causado estranheza. Cinco anos não é uma diferença etária muito vincada quando falamos de jovens adultos. Porém, em momentos mais precoces da vida humana, separa a infância da adolescência; e aqui as diferenças demarcam-se e afastam crianças e adolescentes. Claire era cinco anos mais nova que Roan e por isso aquela ligação do passado não me convenceu muito. 

O tempo passa e a estranheza de Roan e Claire enquanto casal esbate-se. Este avanço cronológico também oferece revelações interessantes que dão um toque especial à história e às vidas das personagens. É, em alguns momentos, uma narrativa bastante emotiva. 

Tal como o esperado sobressai a amizade, o amor e as mensagens positivas que só as relações humanas bem desenvolvidas deixam sobressair. Há conflitos que se resolvem, personagens que se superam e há amor suficiente para me derreter o coração e dar esperança num futuro incerto e um pouco aterrador. 

Para mim, foi um livro que trabalhou as minhas emoções. Que me permitiu pensar nas oportunidades que a vida nos pode dar e de que formas as podemos agarrar. Que abriu espaço a reflexões sociais e à crueldade que por vez afeta algumas infâncias. No fim, deixou em mim aquela sensação de que o ser humano é complexo e que tem capacidade de dar e receber na mesma proporção, mas que, para tal, precisa de se sentir preparado e de coração aberto.

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Opinião | "À procura de Sana" de Richard Zimler

20.01.21

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"À procura de Sana" encerrou o meu ano literário de 2020. Já há muito tempo que queria experimentar ler um livro de Richard Zimler. Por diversas vezes já me tinha cruzado com opiniões muito positivas ao trabalho deste escritor. 
Surgiu a possibilidade de trazer o livro da biblioteca e, assim, criou-se a oportunidade de conhecer o trabalho deste escritor.

O que é que sobressaiu aos meus olhos desta leitura? Sem dúvida que a escrita. É tão agradável e bonita que quase me senti embalada na leitura. É claro o cuidado dispensado à escolha de palavras e à forma como elas se articulam. Este foi um elemento essencial para criar uma narrativa apelativa para uma história que se revelou demasiado complexa e cheia de recantos desconhecidos. 

A complexidade da narrativa é da responsabilidade de Sana. A vida desta mulher cruzou-se com a de Zimler e ele sentiu necessidade e responsabilidade em contar a história desta mulher. E, assim, viu-se arrastado para um conjunto de vidas marcadas por um conjunto infinito de pontas soltas. Isto causou alguma entropia na minha compreensão mais profunda da história. Senti-me perdida com alguns avanços e recuos. Senti-me com alguma dificuldade em criar uma ligação com as personagens e com os acontecimentos. 

No fim ficou-me a sensação de não ter conseguido absorver tudo aquilo que a história tinha para oferecer. Acho que não consegui reter com eficácia a sequência dos acontecimentos, cujo seu encadear se traduz naquele final. Após a leitura sobreviveu a vontade de voltar a ler mais livros do escritor. 

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Opinião | "Lá, onde o vento chora" de Delia Owens

06.01.21

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"Lá, onde o vento chora" foi uma das minhas últimas leituras de 2020 e acho que é a opinião que mais me vai custar escrever de todos os livros lidos no ano que acabou de terminar. Vai-me custar, porque não consegui encontrar o encanto que tanta gente conseguiu. 

A ação central do livro desenrola-se em torno de Kya, uma criança que vive sozinha num pantanal e é socialmente excluída. Esta criança, de quem acompanhamos o crescimento, protagoniza verdadeiros momentos de resiliência. Quando tudo se desmoronava à sua volta, ela conseguiu encontrar força para continuar com a sua vida e procurou explicar para si própria aquilo que vivia através daquilo que observava e conhecia da natureza, lugar onde ela se perdia em observações. 

A natureza tem uma força muito grande neste livro. É quase como que uma personagem secundária que alimenta relações, dá forma a emoções e deixa no ar sons e cheiros capazes de espicaçar a imaginação de quem lê. 
Tudo isto chega ao leitor através de uma escrita com um tom quase lírico, que embala a leitura numa cadência muito própria. Há descrições que parecem poesia e que despertam os sentidos. Se no início gostei desta abordagem, com o desenrolar do livro comecei a aborrecer-me com estas descrições. Por vezes, senti que eram demasiadas. Senti que a escritora deveria ter sido mais simples e objetiva porque algumas delas não acrescentavam nada à história. 

Eu consigo identificar duas fases distintas na narração desta história: pré e pós julgamento. Foi engraçado que me pareceu que estava a lidar com duas escritoras diferentes. Uma deles mais lírica, que exprimia as emoções com recurso a comparações e metáforas e outra mais objetiva, dinâmica e com uma boa capacidade de ilustrar cenas de audiência judicial. Pois, pareceu-me que o livro foi escrito por duas pessoas distintas. A certa altura até me senti aborrecida por esta minha implicância. O que é certo é que gostei mais da "segunda" escritora.

Eu quando implico, implico à séria (até parece que oiço o pensamento da minha vizinha Daniela a dizer que penso demais no que leio). E fui pensando e pensando, fui conhecendo melhor a Kya e analisando os seus comportamentos e, cada vez mais, fui sentindo as incongruência a saltarem umas atrás das outras. Há uma incompatibilidade muito óbvia entre a pessoa que esta miúda se torna e o mundo em que ela viveu. As coisas que acontecem são demasiado irrealistas. Sei que a ação decorre numa outra época, mas há coisas que não encaixam. Foi-me vendida uma imagem da Kya que não acompanha a forma como ela foi vivendo. 
A construção da personalidade desta jovem não reflete aquilo que ela foi obrigada a viver. A forma como ela escolhe relacionar-se com os outros é incongruente com a imagem pessoal que a escritora parece querer passar.

Desculpem-me os leitores que amaram esta história e que desenvolveram uma enorme empatia pela Kya, mas eu não sinto realismo nesta personagem, na forma como ela viveu e na pessoa em que ela se tornou. Na minha perspetiva foi demasiado idealizada, demasiado construída de forma a criar uma personagem com aquelas características. Reforço, o comportamento da rapariga não acompanha o tipo de personalidade que a escritora quis passar.

Há a parte policial que vai surgindo ali pelo meio. Uma abordagem pobre, com diálogos pouco elucidativos, demasiado fabricados e sem profundidade. É um elemento que tem a sua importância no contexto geral da história, mas foi mal aproveitado.

E, nestes altos e baixos que marcaram a minha leitura, cheguei ao final. Um final narrado de forma abrupta, onde senti que houve falta de informação. Foi confuso assimilar aquilo que foi desvendado. Foi inesperado, surpreendeu, mas não me convenceu. 

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Opinião | "Sem saída" de Cara Hunter (DI Adam Fawley #3)

18.11.20

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Cara Hunter tem uma forma muito pessoal de construir as suas histórias. Ela vai aos pormenores e oferece ao(à) leitor(a) uma experiência de leitura que o(a) aproxima dos acontecimentos de uma forma inexplicável. Nós estamos ali! 

Podemos ver relatórios, entrevistas, notícias, opinião pública... Isto para mim faz a diferença porque dá um toque de originalidade ao livro. 
"Sem saída" apresenta-nos uma narrativa complexa. Está tão bem encadeada que me levou a meia dúzia de becos sem saída; ou seja, eu lá ia formulando as minhas teorias e a escritora trocava-me sempre as voltas.

Michael é o rosto de uma família destroçada. Um homem que liga as personagens e os acontecimentos. Foi ele o responsável pelas voltas e becos sem saída que iam passando pela minha mente. A minha ideia em relação a ele flutuou imenso ao longo da leitura. É engraçado que acho que isto só aconteceu porque a escritora fez um belíssimo trabalho de caracterização. Uma personalidade algo flutuante, conjugada com acontecimentos e conflitos certos permite um conjunto de sentimentos ambivalentes a ele.
Paralelamente, a narrativa vai permitindo que alguns aspetos relativos as personagens residentes sejam desenvolvidos. Considero este cuidado muito importante, pois ganho uma ligação diferente com as personagens.
É claro, o livro termina deixando em suspenso pontos importantes para o volume seguinte.

A escrita é fluída, envolvente e articula-se de uma forma eficaz para narrar uma história complexa e cheia de reviravoltas. 

Em suma, "Perto de casa" conquistou-me o coração. "No escuro" inundou-me de adrenalina e deixou bem claro o talento de quem o escreveu. "Sem saída" conquistou-me o intelecto e solidificou todas as sensações e emoções positivas que só uma boa leitura sabe semear. Sinto-me conquistada a cada livro lido!

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Opinião | "Razões para viver" de Matt Haig

12.11.20

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Na altura em que este livro saiu foram publicadas opiniões muito positivas. 
A minha área de formação está intimamente ligada à Saúde Mental. Por isso, tinha imensa curiosidade em conhecer o conteúdo deste livro. 

"Razões para viver" é um relato na primeira pessoa de alguém que lutou contra a depressão e a ansiedade; duas doenças mentais muito graves, incapacitantes e que, muitas vezes, são desvalorizadas pela população em geral.

O autor fez uma descrição muito lúcida daquilo que viveu nos períodos mais complicados da doença. Numa linguagem simples e acessível, Matt consegue colocar em palavras os sentimentos e as emoções dolorosas que o assolaram, ao mesmo tempo que vai apresentando de que forma foi combatendo as sombras negras que se abatiam sobre a sua mente.
Para mim é impossível ler este livro desconectando-me do meu lado profissional. Por isso, à medida que ia lendo, ia fazendo algumas reflexões mais complexas tendo em consideração os meus conhecimentos e a forma como Matt ia conseguindo vencer o sofrimento psicológico que o acorrentava. 

Matt teve lucidez suficiente para perceber que não estava bem. Teve ao seu lado pessoas que foram capazes de lhe dar esperança, de o agarrar à realidade e ajudá-lo a ultrapassar os seus problemas. Além disso, ele foi capaz de descobrir um conjunto de atividades que despertavam nele emoções positivas e lhe ofereciam sensações de bem-estar e alguma "normalidade". 
Ao longo de todas essas descrições, Matt deixa algo que eu considero muito importante: cada pessoa tem a sua forma de lidar e superar os seus sentimentos negativos. O que funciona para umas pessoas, pode não funcionar para outras. 
Eu sou muito sensível a esta questão. Na minha prática clínica, eu procuro sempre descobrir com a pessoa que tenho à minha frente a melhor forma de intervenção que a levará a ultrapassar aquilo que a levou a pedir ajuda. 
Sei as teorias, sei as técnicas (que vou sempre aperfeiçoando com pesquisa e leitura), mas o conhecimento que detenho sobre elas deve ser ajustado às características da pessoas  e às necessidades que ela evidencia. Nem sempre é fácil desenvolver esta sensibilidade, mas é um exercício que procuro sempre fazer. 

Outro ponto interessante que retiro desta leitura é a desmistificação em relação ao suicídio. É comum as pessoas apelidarem-no de "ato corajoso" ou "ato de cobardia", depende do ponto de vista. Matt acaba por mostrar que o suicídio não é nenhuma destas duas coisas. 
O suicídio é, quase sempre, uma forma de acabar com o sofrimento psicológico. Sofrimento este que é tão intenso que o suicídio é a única forma capaz de silenciar essa for.
Por isso, dizer-se que uma pessoa com depressão foi corajosa ou cobarde optando pelo suicídio é errado e, ao mesmo tempo, é uma forma de desvalorizar um sofrimento demasiado intenso e silencioso.

"Razões para viver" é um livro que está construído para que qualquer pessoa possa ler e inspirar-se na forma como Matt lutou para ultrapassar algumas das suas dificuldades.

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Opinião | "A filha do comunista" de Aroa Moreno Durán

08.09.20

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Comecei esta leitura com baixas expetativas. Não vos consigo explicar os motivos. Era como se cá dentro achasse que não iria conseguir amar esta história e as suas personagens. Mas sabem o que é que aconteceu? Estas 132 páginas quebraram todos os preconceitos que alimentei antes de começar a ler.

A ação central do livro decorre durante a Guerra Fria. As personagens de Aroa movimentam-se numa cidade divida pelo muro, Berlim. O muro separa dois lados com condições sociais diferentes, com oportunidades diferentes, com visões políticas diferentes e com esperanças no futuro distintas... Mas, acima de tudo, separa vidas e pessoas. Katia e a família vivem no lado ocupado pelas forças da URSS. O seu pai, um homem embrenhado na política, tem um enorme amor pelas filhas e pela esposa. Contudo, o destino, ou um nova forma de amor, trocou as voltas de Katia. Ela transpõem o muro físico, mas os muros psicológicos que cresceram à sua volta acabam por atraiçoá-la e transformam-se numa angústia que ela vai internalizando. 

O muro físico limitava a movimentação das pessoas, mas os muros psicológicos de Katia dificultaram mais a sua vida, trouxeram-lhe uma expressão de sofrimento que ela desconhecia. 
Estes muros psicológicos fizeram-me refletir muito. Refleti sobre as escolhas da Katia, sobre a provações com que ela se viu confrontada. Sofri um pouco com ela e e com a sua ingenuidade, a mesma que a levou a escolhas impulsivas. Pensei, também, sobre os meus próprios "muros" e nas limitações que eles me trazem. 

A escrita de Aroa é singular. Uma bela narração, por vezes quase poética, onde os diálogos se misturam no texto. É uma particularidade que comecei por estranhar, mas que depois aceitei bem e a leitura fluiu em mim. É engraçado que esta escolha da escritora ofereceu um tom mais intimista à história. É como se os acontecimentos se desenrolassem à minha frente e eu estava inserida na cena como mera espetadora. 

É um livro com uma história extremamente reflexiva. É aquilo que eu chamo de livro interior, porque a narrativa me empurrou mais para o interior das personagens do que para a ação da história. Neste livro, o mundo interior da Katia, dos seus pais, da sua irmã, do homem que roubou o coração da Katia sobressaiu aos meus olhos. Os acontecimentos eram os elementos essenciais para o desencadear das minhas reflexões e das minhas preocupações em perceber o que desassossegava e inquietava cada uma das personagens. 

O final chega depressa e com ele chega um desenlace duro para Katia. Ao fim de muitos o muro físico desaparece e desencadeia uma demolição dolorosa dos muros psicológicos. Estas últimas páginas foram duras para mim. Esperava algumas coisas, outras foram uma verdadeira surpresa e foram o reflexo da intensidade emocional que acompanhou toda a narrativa. 

Dá para perceber que eu gostei muito do livro. Só não consigo dar uma classificação superior porque senti falta de uma maior contextualização socioeconómica e política e de um final um pouco mais pormenorizado. 
Fiquei um pouco obcecada com a contextualização social e política que marcaram a República Federal Alemã e tudo o que envolveu a Guerra Fria. Na minha memória existia apenas o acontecimento da queda do muro de Berlim. Tudo o que antecedeu a construção deste muro e aquilo que levou à sua queda eram lugares desconhecidos para mim. Peguei nos meus antigos livros de História do ensino básico e fui à procura de mais informação. Muito pouco aparece nos livros! Lá me resignei a procurar online. 
É tão bom encontrar livros que nos provocam sede de conhecimento.  

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Nota: Este livro foi-me disponibilizado pela Porto Editora em troca de uma opinião honesta.

Opinião | "A filha do Papa" de Luís Miguel Rocha (Vaticano #4)

10.08.20

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"A filha do Papa" é o quarto livro da série Vaticano e o primeiro livro que leio do escritor Luís Miguel Rocha. Não tenho por hábito ler livros onde a questão religiosa tenha um papel preponderante na narrativa. Gosto de outro tipo de mistérios e de ler sobre crimes que não se foquem em questões religiosas. Porém, considero importante sair da minha zona de conforto literário e explorar outro tipo de histórias e novos estilos de escrita.

Pelo título do livro é possível antever um pouco o conteúdo da história. É claro que o livro é mais do que o mistério em torno da filha do Papa. Considerando os diferentes elementos que compõem a história, alguns despertaram bastante o meu interesse e outros fizeram com que passasse por fases de algum aborrecimento. Nem sempre foi fácil ler este livro. Mergulhar na história e nos meandros de vida da quantidade infindável de personagens foi verdadeiramente desafiante. Padres, bispos, cardeais, freiras, agentes secretos, políticas, historiadores, jornalistas... Por vezes, tive dificuldade em perceber quem era quem e qual o seu papel para a narrativa. A confusão fez-me arrastar a leitura e, consequentemente, fui-me desligando um pouco das personagens e dos acontecimentos. 

O facto do livro integrar uma série e eu não ter lido os anteriores poderá ter condicionado a minha relação com esta leitura, assim como na compreensão do comportamento de algumas personagens. Eu consegui perceber a história, contudo nem sempre as dinâmicas entre as personagens e os seus comportamentos foram percetíveis para mim. Sentia que havia sempre qualquer coisa que fugia à minha compreensão. 
Assim, na generalidade consegui perceber a linha narrativa, porém alguns pormenores escaparam ao meu entendimento.

De tudo o que está presente no livro, Pasqualina  e o Papa Pio XII foram as minhas grandes motivações para avançar com a leitura. Fiquei sedenta por uma maior profundidade relativamente à história de cada um deles e dos desafios que a vida lhe ofereceu.

A forma como o livro termina é algo intrigante. Admito que fiquei curiosa para ler o livro seguinte de forma a matar a minha curiosidade relativamente às dúvidas que este final me ofereceu. Bem, poderá ser uma forma de dar uma nova oportunidade ao escritor e tornar a minha opinião mais sólida. 

Dada a minha experiência, recomendo que quem quiser ler este livro é melhor que o faça depois de ler os livros anteriores. Deduzo que a experiência de leitura será mais proveitosa se a série for lida por ordem de publicação.

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Opinião | "O teu nome é uma promessa" de Deborah Smith

21.07.20

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O bule da fotografia é da minha mãe. Não o coloquei por acaso na fotografia com este livro. Nesta história há um bule com um significado especial. Sou apaixonada por este bule e por todo o serviço de chá que o acompanha. Não tenho um motivo especial para tal amor, porém recordei-o muitas vezes ao longo desta leitura, pelo significado que este objeto teve na história. O bule Coolbroke foi especial! Uma clara alusão à lealdade e à existência de sentimentos que resistem ao tempo e às adversidades. Para mim, o bule da minha mãe também representa afetos e ligações emocionais.

Deborah Smith é uma escritora que recorre a uma fórmula de escrita. Famílias, lealdades, passado vs presente e amores interrompidos por problemas mais ou menos complexos são ingredientes muito presentes nas suas narrativas. É certo que há quem se aborreça com esta opção dos autores de dar corpo às suas histórias. No meu caso, apesar de saber mais ou menos o que vou encontrar nestes livros, gosto sempre de me atirar numa leitura destas. São livros com mensagens positivas e com histórias que me "limpam" a mente e melhoram o meu humor.

"O teu nome é uma promessa" é um livro onde facilmente identificamos os ingredientes preferidos da Deborah Smith. Colebrooks e Mackenzies, duas famílias que partilham um passado e que vivem interligados. 
Conhecemos Artemas, uma criança sedenta de afeto e de uma família que transborde tanto amor e respeito como a de Lily. Ele cresce e torna-se num homem leal e capaz de tudo para segurar a teia que liga e segura os elementos da família. 
Lily tem tanto de doçura como de garra. Uma jovem que vai conhecer o melhor e o pior do amor e isso acaba por defini-la enquanto pessoa e na forma como ela decide estar na vida. 

Estes são os dois personagens principais do livro. Em torno deles conhecemos outras personagens que dão um contributo importante à história. Destaco os irmãos de Artemas que ilustram bem as consequências de uma infância difícil e marcada pela negligência. Acho que cada um deles merecia um livro a contar a sua própria história e as suas perceções relativas à sua vivência.

As personagens de Deborah Smith são fiéis a si mesmas e reúnem características de personalidade que as tornam humanas aos olhos dos leitores. Não são emocionalmente pretas ou brancas. São uma mistura de cores, de coisas boas e menos boas; mas, no fim, todas elas encerram uma mensagem positiva e eu retiro sempre uma mensagem/lição das suas vivências e atitudes. 

O facto de acompanhar o crescimento das personagens deixa-me mais ligada a elas. Chega a uma certa altura da leitura em que parece que já as conheço. Tornam-se pessoas que eu quero acompanhar e para quem desejo o merecido final feliz. 
Eu gostei muito do livro. Houve alguns aspetos mais difíceis de assimilar, nomeadamente: 1) a história em volta dos antepassados de Artemas, há coisas pouco claras que tornaram a minha compreensão dessas relações um pouco complicadas; e, 2) a ligação inicial entre Artemas e Lily que me pareceu algo forçada, mas melhorou com o crescimento das personagens e com as cartas que foram trocando.

É preciso não esquecer que este livro foi escrito em 1993 e retrata um período onde não existiam telemóveis, nem redes sociais. Por isso, há magia nos pequenos encontros, nos telefonemas e nas cartas trocadas. 
Apesar de toda a previsibilidade que envolve as histórias que Deborah Smith cria, eu tenho um gosto pessoal em me perder nelas.
Só para terem uma noção, depois das minhas dificuldades iniciais, assim que me vinculei à história a  leitura foi rápida. Só numa tarde de domingo li mais de 200 páginas.

Com a leitura terminada, posso dizer que encontrei na história de Artemas e de Lily aquilo que procurava: um amor que resiste ao tempo e às adversidades, a esperança por dias melhores após a e vivência de situações difíceis e a energia positiva que uma bonita história de amor é capaz de oferecer. 

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Leitura com o apoio:

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Nota: O livro foi-me disponibilizado pela editora em troca de uma opinião sincera. 

Opinião | "Desaparecido" de Susan Lewis

10.02.20

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Classificação: 3/5 Estrelas

"Desaparecido" foi uma escolha cega na biblioteca. Encaixa-se na categoria de livros que não conheço e quando os vejo na biblioteca gritam "leva-me"! Eu gosto de respeitar os pedidos dos livros, este gritou e eu trouxe-o. 

Foi uma leitura extremamente difícil. Só melhorou no último terço do livro. Foi difícil porque tem demasiada informação e apresenta aspetos que não são atrativos. Desesperei por avançar, desesperei por encontrar no livro algo que me agarrasse e conquistasse a atenção, sofri pela forma como a minha leitura avançava de forma dolorosamente lenta. A pergunta que devem estar a fazer neste momento é Porque é que continuaste a leitura?. Porque tinha esperança de que algo melhorasse e havia uns resquícios de interesse por ver como é que aquela embrulhada toda iria terminar. 

No último terço do livro, a ação desenvolveu-se mais rapidamente e  o meu interesse foi finalmente conquistado. Foi por tudo aquilo que aconteceu nestas últimas páginas que consegui dar 3 estrelas ao livro. 
Apesar deste meu relacionamento conturbado, achei extremamente interessante a temática que o livro aborda. Temos uma família que há 16 anos ficou mais pequena. O filho de poucos anos de idade foi raptado, isto enquanto a mãe vive uma outra gravidez. O impacto que este acontecimento tem no sistema familiar é enorme e o livro aborda bem essas questões. Contudo, há acontecimentos secundários que se diluem ao longo das páginas e não deixam que esta família e as crises que é obrigada a enfrentar tenham o destaque merecido. 

Engraçado é que ainda chorei no fim. Há uma cena que envolve a filha desta família que foi extremamente comovente. O sofrimento da adolescente foi muito bem retratado através dos comportamentos que eram apresentados. 

Fiquei mesmo triste pelo facto da ação do livro não se focar mais nestas dinâmicas familiares marcadas pela tragédia. Fiquei frustrada por ter de ler imensas páginas sobre assuntos que pouco contribuíram para o cerne da história. Senti-me aborrecida pelo facto da leitura se ter tornando mais penosa do que aquilo que merecia. 

Já vi que a biblioteca tem mais livros desta escritora. Ainda lhe darei uma nova oportunidade no sentido de perceber se foi apenas esta história que não funcionou comigo ou se eu é que não me encaixo no estilo de escrita da escritora.