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Por detrás das palavras

Por detrás das palavras

Opinião | "O falcão" Sveva Casati Modignani

28.12.21

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Os livros da Sveva Casati Modignani marcara a minha transição entre as leituras infato-juvenis e as leituras mais adultas. Na altura, devorei todos os livros que a biblioteca municipal tinha e conheci histórias que me marcaram e fizeram refletir. "Lição de tango" é, até hoje, o meu livro preferido da escritora. Não sei se o encanto se manteria caso decidisse reler o livro. O meu "eu" leitora cresceu, está diferente e tenho necessidades literárias diferentes. Por isso, evoco só a memória sem perspetiva de uma releitura (não vá a magia quebrar-se).

Apesar de tudo, os livros desta escritora funcionam como leituras de conforto. Sabe-me bem perder-me nas suas histórias, nos seus dramas familiares e nas narrativas alimentadas de emotividade e clichés diversos. 

"O falcão" representa um desvio na rota de escrita desta autora. Geralmente, é uma mulher que assume o protagonismo das suas histórias. Aqui, é o Rocco Di Falco que protagoniza grande parte da ação. Há também um mulher com um papel importante, Giulietta Brenna. Contudo, os acontecimentos importantes têm como ponto de partida Rocco.

Rocco e Giulietta partilharam um amor muito intenso na juventude. Um acontecimento doloroso marca um afastamento e a vida, e a vontade de Rocco, proporcionam um reencontro. Neste reencontro são evocadas memórias e Rocco apresenta a sua vida como se estivesse a limpar os nós e a confusão de fios de um novelo de lã. 

Há dores para curar. Há segredos para desvendar. Verdades para assumir. Dores emocionais que abrem feridas que afinal não estavam muito cicatrizadas. As revelações ativam muitas emoções e sentimentos e agiram a existem deste dois adultos em busca de respostas para o que lhe ficou por explicar.

Ao mesmo tempo que se dedicam a uma amor mais maduro, Rocco e Giulietta alinham as peças conjuntas da sua vida que foram desalinhadas pelos acontecimentos com os quais se confrontaram. 

Não foi uma leitura intensa nem memorável. Mas foi um livro que me permitiu descontrair, conhecer o lado tumultuoso e sereno do amor e desfrutar de uma leitura menos exigente.

Classificação

Nota: O livro foi-me disponibilizado pela editora em troca de uma opinião honesta.

Opinião | "6 de Abril '96" de Sveva Casati Modignani

27.02.14

 

6 de Abril de '96


Autora: Sveva Casati Modignani
Ano: 2004
Editora: Asa
Número de páginas: 384 páginas
Classificação: 4 Estrelas

 
Sinopse
Numa manhã de Verão, na igreja milanesa de San Marco, uma jovem e belíssima mulher é brutalmente atacada. Quando desperta da delicada cirurgia a que foi entretanto submetida tem perante si a difícil tarefa de recuperar a sua própria identidade, já que a violência de que foi vítima lhe provocou a perda da memória. As recordações avivam-se pouco a pouco e é penosamente que ela recompõe a sua história e a da sua família. Mas é um processo doloroso, pois Irene Cordero – é este o seu nome – carrega consigo uma pesada herança. Já a mãe e a avó haviam pago caro as tentativas de seguir os ditames do seu coração, violando a moral, as convenções e a cultura de um mundo rural que as obrigava à submissão e à obediência; um doloroso estigma que tão- pouco poupa Irene que, com apenas dezoito anos, abandona o campo e parte em busca do seu próprio caminho. Porém, não obstante o sucesso profissional e o bem-estar económico, Irene não consegue encontrar o equilíbrio emocional. Será necessária uma crise profunda para que ela encontre forças para se renovar, para fazer as pazes com o passado e para aguardar o amanhã com serenidade e confiança.
 
Um romance intenso e empolgante dedicado às mulheres: as de ontem, que lutaram por assumir as rédeas do seu próprio destino, e as de hoje, que têm a sorte de poder usufruir da autonomia conquistada. Porque não há liberdade maior do que a que nos permite ser e viver segundo a nossa vontade.
 
Opinião
Descobri os livros da Sveva durante a minha adolescência e desde o primeiro livro que li, que foi A cor da paixão, fiquei fã das histórias da autora. Há livros que gosto mais, outros que não gosto assim tanto. Tudo depende do enredo com que me deparo, uma vez que a escrita é sempre envolvente e fluída.
 
Este livro é o somatório da vida de três mulheres com coragem para enfrentar as agruras da vida, mas com uma dificuldade em deixar entrar o amor nos seus corações. É no amor que encontram grandes insatisfações para a sua vida e é também o responsável por crises mais ou menos difíceis de ultrapassar. 
 
É a partir de Irene que a autora nos convida a fazer uma viagem às raízes desta mulher dando-nos a conhecer a história da sua avó Agostina e da sua mãe Rosanna.
Gostei das três histórias. Agostina e-nos apresentada como uma mulher de coragem e de personalidade decidida. Incapaz de ser submissa aos homens, trava duras batalhas em busca de si mesma. A sua filha Rosanna herda a mesma personalidade vincada da mãe, mas não é suficientemente forte deixando-se dobrar pela tristeza. Irene, filha de Rosanna, herda o que de melhor tem cada uma das suas principais referências familiares femininas, mas herda também a insatisfação em relação ao amor e à forma como olha para o casamento.
 
Gostei bastante da história familiar que une estas três mulheres. É envolvente e com algumas surpresas. No meu caso, fui mais surpreendida na história de Agostina. A história de Rosanna tem aspectos um pouco previsíveis enquanto que a história de Irene me deixou cheia de reticências. Acho que, em relação a esta última personagem, ficaram coisas por dizer e por resolver. Algumas partes não foram bem interligadas e eu esperava mais mistério e contornos obscuros no que respeita ao assalto que Irene sofre na igreja milanesa de San Marino. Senti-me um pouco desiludida porque todas as minhas teorias mirabolantes caíram por terra perante um episódio demasiado simplista. 
As relações e as vivências amorosas de Irene, também me deixaram insatisfeita. Senti falta de elos de ligações entre as partes da vida de Irene que nos eram cortadas (a história de Irene foi contada de forma intercalada com as histórias da mãe e da avó). 
Outro aspecto que estranhei foi o facto de que, no início do livro, a autora mostra-nos o primeiro contacto entre Angelo e Irene que deixa os leitores a pensar de uma forma que depois não se coaduna com o que de facto se passou. 
 
No geral posso dizer que gostei do livro e reforça a minha ligação com esta autora. Não fica a ocupar o lugar dos meus livros preferidos da autora, mas foi uma boa leitura e vai de encontro àquilo que já estava habituada.
 
Boas leituras e deixem-se invadir pelas palavras.  

A Siciliana - Opinião

02.01.13
 Autor: Sveva Casati Modignani
Ano: 2004
Editora: Asa
Número de Páginas: 373
Classificação: 4/5
Desafio: De A a Z... (1/26)

Sinopse
Na Sicília, uma enigmática freira dá a um jornalista uma entrevista reveladora. O seu  nome Nancy Pertinace e, antes de desaparecer nos confins daquela ilha, era uma das mulheres mais famosas de Nova Iorque, cidade onde contava poder vir a ser mayor. Mas o seu passado pesa a longa sombra da Máfia e no seu presente nem tudo parece claro...
Filha, amante, assassina e mãe, Nancy acaba por descobrir que é impossível fugir aos fantasmas do passado e que terá de enfrentar toda uma história de paixão, intriga e vingança... caso queira tomar de novo as rédeas do seu destino.

Opinião
Mais uma vez Sveva conseguiu levar-me numa leitura compulsiva... A partir do momento em que comecei a entrar no fantástico enredo que ela criou não conseguiu largar o livro.

A Siciliana leva-nos ao mundo obscuro da máfia... As ligações perigosas, a morte, os mistérios, a lealdade entre os membros... No fundo, uma organização que não olha a meios para atingir os seus fins. Uma sociedade paralela onde se mata e se morre por dinheiro e poder. Confesso que a parte onde toda esta sociedade nos é apresentada e onde nos é dada a conhecer a rivalidade entre duas família mafiosas é um pouco complexa e exige bastante atenção da parte do leitor. Por esta razão, foi a parte que me ocupou mais dias de leitura, precisei de reler algumas passagens para entender os meandros de traições, acordos, assassinatos... Ufa!! É mesmo complexo.

Já se devem perguntar, sendo Sveva uma escritora de livros onde a personagem feminina assume um grande destaque, mas onde está a nossa personagem principal? Onde é que ela se encaixa no meio desta viagem pela máfia? Nancy entra neste mundo um pouco arrastada pelas peripécias da vida. Peripécias essas que nos deixam em euforia até à ultima palavra. Esta personagem feminina é um pouco diferente das personagens femininas de outros livros. Nancy é mais determinada, corajosa, lutadora e obstinada. Os sentimentos que ela me foi despoletando ao longo da leitura foram vários... Cheguei a não gostar muito dela, mas tentava perceber o porquê dos comportamentos que ela ia tendo. Sim, Nancy tem um personalidade complexa e profunda que deixa o leitor na expectativa em relação à forma como ela reagirá a determinadas situações.

Taylor, o último marido de Nancy, foi aquele que teve o dom de me deixar de "boca aberta"!!!! Não vou dizer o motivo porque vos iria estragar a curiosidade, mas há uma determinada altura do livro que deixa ao leitor pistas que não o deixam tão desprevenido no momento alto deste senhor.

O final deixou-me numa sensação estranha... Na minha opinião, a escritora deveria ter dado mais tempo ao final, desenvolvendo mais as personagens e os acontecimentos. Este cuidado final tornaria os acontecimentos mais claros.

Posso dizer que comecei muito bem as minhas leituras  de 2013. É um livro viciante, de uma escritora que eu gosto muito. Nunca me canso dos livros dela, porque consegue sempre "apimentar" os acontecimentos mais banais.

Espero que se deixem invadir pelas palavras :) Boas leituras!

Um dia naquele inverno - Opinião

22.11.12
Um Dia Naquele InvernoAutor: Sveva Casati Modignani
Ano: 2012
Editora: Porto Editora
Número de Páginas: 283
Classificação: 5/6
 
Sinopse
Numa grande mansão, às portas de Milão, vivem os Cantoni, proprietários há três gerações da homónima e prestigiada fábrica de torneiras.
Aparentemente, todos os membros da família levam uma vida transparente, mas, na realidade, todos eles escondem segredos que os marcam; existem situações que, ainda que conhecidas por todas, permanecem um tema tabu. Omite-se até a loucura de que sofre Bianca, a matriarca desta dinastia.
Um dia, entra em cena Léonie Tardivaux, uma jovem francesa sem dinheiro e sem parentes, que casa com Guido Cantoni, o único neto de Bianca. Léoni adapta-se bastante bem à rotina familiar, compreendendo a regra de silêncio dos Cantoni. Isso não a impede de ser uma esposa exemplar, uma mãe atenta e uma gerente talentosa, que com bastante êxito, conduz a firma pelo mar hostil da recessão económica. No entanto, também ela cultiva o seu segredo, aquele que todos os anos, durante apenas um dia, a leva a largar tudo e a refugiar-se no Lago de Como.
 
Opinião
Já à algum tempo que não lia nada da autora Sveva. Desde o primeiro livro que fiquei "agarrada" às personagens, aos enredos e à forma sublime da Sveva (des)contruir laços relacionais envolvendo casais, famílias, amigos... Este livro não me desiludiu, indo de encontro às minhas expectativas. Só não lhe atribui a pontuação máxima, porque comparando com outros livros da autora e a forma como os desenvolveu, este evolui de forma muito morna, ou seja, faltou intensidade em algumas descrições, faltou garra a algumas personagens, faltou algo que tornasse a história inesquecível (como por exemplo aconteceu com os livros Lição de Tango e A cor da paixão).

O livro dá-nos a conhecer as diferentes gerações da família Cantoni, a origem desta família, o percurso incerto e tortoroso de alguns dos elementos que foram compondo um núcleo famíliar cheio de segredos. Cada um dos elementos centrais das várias gerações famíliares guardava segredos. Estes segredos nem sempre pertenciam apenas aos seus portadores, outros elementos da família também sabiam da sua existência, mas o carácter e discrição que estava sempre presente levava cada um a remeter-se ao silêncio, a guardar para si as angústias, as dores, as tristezas que cada segredo escondia.

Bianca foi a personagem feminina que mais gostei. Misteriosa, irreverente, louca, insatisfeita... Um espírito livre e controverso que casa com um dos operários da fábrica do pai. Ela e Amilcar vivem um amor jovem que vai crescendo com o avançar da idade. Só Amilcar parecia conhecer as angústias e a verdadeira essência de Bianca. Tive muita pena desta relação não ser mais explorada pela autora. De não aprofundar os sentimentos que esta relação implicou, os tramentos de Bianca em clínicas psiquiátricas e a forma estóica como Amilcar geriu a vida profissional e a vida pessoal sem deixar nada para trás.

Guido foi a persnogem que menos gostei. Demasiado morno e pouco assertivo. Faltou-lhe garra desde o ínício da sua vida. O único momento de afirmação foi quando decidiu levar o seu romance com Amaranta até ao máximo. Mesmo assim acho que se entregou à derrota muito facilmente. Só mais tarde na sua vida foi capaz de assumir perante a família a sua grande paixão profissional, paixão esta que não passava pela fábrica de torneiras da família. No casamento, esta mesma inércia mantinha-se. Foi incapaz de confrontar a mulher mais cedo, foi incapaz ao longo de vários anos de casamento de verbalizar que a amava. Não foi capaz de dar solidez ao seu casamento, embora a culpa não tenha sido inteiramente dele.

É um bom livro, oferece uma excelente companhia e quando se começa há dificuldade em largar. A narrativa apaixona o leitor e fá-lo sentir envolvido nos mais diversos acontecimentos. No início parece confuso pois somos "bombardeados" com muitos nomes e gerações familiares que sentimos dificuldade em aceder mentalmente à estrutura familiar. Contudo, considero este aspecto aliciante pois obriga-nos a não nos entregarmos a uma leitura passiva, obrigando-nos a pensar e a estrutrar toda a história.

Boas leituras :)
Silvana