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Por detrás das palavras

Visões #4 | Ser introvertida num mundo de extrovertidos(as)

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Não é nada fácil ser uma introvertida e viver no meio de pessoas extrovertidas. Geralmente sou incompreendida, apelidada de bicho do mato/buraco e vocabulário semelhante. Ninguém percebe a minha ansiedade perante encontros com imensa gente, com pessoas que, por vezes, nos são distantes.

Não percebem quando digo que gosto de passear sozinha e de visitar as coisas sozinha. Geralmente ouço "Sozinha! E com quem é que comentas se gostaste, ou não gostaste?". Eu respondo que não preciso de comentar com ninguém o que vi. Não preciso de validar a minha impressão com as impressões dos outros. Eu gosto de contemplar, de absorver e interiorizar. Mas quem é que entende isso?

É desta incompreensão que nascem as críticas, os comentários, palavras que magoam o nosso lado mais privado. Para além de gostar de passear sozinha, ou com pouca gente à volta, adoro ficar a ler no silêncio, ver um filme, ficar deitada na cama/sofá de olhos fechados a ouvir música clássica, pop, rock (aquilo que o meu estado de espírito precisar)... Mas isto, para a cabeça de um extrovertido que adora festanças, jantaradas, festas que se prolongam pela noite fora, é algo estranho. E do nada, torno-me numa espécie esquisita que não gosta de estar com pessoas. E ainda o pior na cabeça dessa gente é como é que uma psicóloga pode ser assim. 

Para grande azar meu, vivo rodeada de gente extrovertida. Pessoas que adoram almoços e jantares com muitas pessoas, que não concebem um passeio sem levar uma dúzia de pessoas atrás, que adoram sair e ir a festas cheias de confusão. Portanto, não é fácil a convivência! Quantos os acontecimentos de contornos "mundiais" acontecem fora de casa, ainda vou conseguindo escapar. Quando é cá em casa é mais complicado evitar. Estes acontecimentos esgotam-me as energias, sugam-me a alma, deixam-me super ansiosa acabando por interferir como os meus relógios biológicos e abata-se sobre mim uma imensa tristeza devido ao sentir-me deslocada da situação, ter dificuldades em integrar-me e não conseguir satisfazer a minha necessidade de sossego. 

É claro que este aspeto da minha personalidade também se reflete nas amizades. São poucas e diminuíram ao longo dos últimos anos. Quando o meu ideal de socialização e de vida social passa por partilhá-la com poucas pessoas ao redor, uma ida ao cinema, um pequeno passeio, um almoço ou jantar num local sossegado... Tudo à minha volta se complica e o afastamento dá-se. Já sofri com isso, hoje procuro ser mais serena e valorizar as pessoas que se mantêm na minha vida e que compreendem como eu sou e como lido com as pessoas e a vida.
Eu não fumo, não bebo álcool e não tenho simpatia por discotecas e bares onde não há espaço e silêncio para uma boa conversa. No fundo, mais um conjunto de características que acabam por ser um entrave àquilo que os outros chamam de bom convívio. 

Lidar com tudo isto nem sempre me deixa em paz de espírito. Por vezes, interiormente eu sinto que devia ser diferente, porque não me consigo encaixar nesses mundo mais eufóricos. E esta consciencialização da diferença e de não conseguir alcançar um nível mínimo de compatibilidade com os gostos alheio acaba por me trazer algum sofrimento. Não é que eu não goste de sair de casa e de ver coisa bonitas. Eu gosto, não gosto é o de fazer com qualquer pessoa nem com muita gente. Gosto de ir a um concerto, mas só aqueles que eu acho que vale a pena ir, que sei que vou gostar. 
Outros pensamentos que se atravessam na minha mente, e muitas vezes devido aos maravilhosos comentários, é que estou a trilhar um caminho que me levará à solidão, que vou acabar sozinha e sem ninguém. Bem.. eu gosto de estar comigo própria, como gosto de estar com pessoas que dizem algo, com pessoas com quem gosto de partilhar as minhas palavras. Se um dia vou acabar sem essas pessoas, não sei, mas quem é que garante que um extrovertido não ficará sem as mil e uma pessoas com quem convive? Será que um extrovertido cria o mesmo tipo de laços emocionais que eu crio com as pessoas de quem realmente gosto? É que eu, quando gosto de uma pessoa, gosto de lhe tocar a alma e coração com pequenos gestos, com palavras simples e sinceras. Às pessoas com lugar especial no meu coração gosto de as ajudar, gosto de lhes fazer um postal com uma pequena lembrança no Natal e no aniversário. Quando gosto, dou muito de mim e, por vezes, perco-me nos meandros da indiferença que acaba por ditar um afastamento. E na sequência de várias experiências menos positivas tenho-me tornado uma pessoa menos calorosa, mais fria e mais cautelosa. 

Gostaria de saber se há introvertidos desse lado e se partilham das mesmas angustias. Gostaria de saber como lidam com as situações sociais, como se sentem no meio de desconhecidos e como gerem isso interiormente. Reconhecem vantagens em ser introvertidos(as)? (Eu reconheço algumas e pretendo explorá-las noutro post). Como é, para vocês, ser introvertido(a) no meu meio de extrovertidos(as)?

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